Vista aérea da cidade de Gibeá.
Juízes é um dos livros históricos do Velho Testamento, isto é, da parte hebraica da Bíblia cristã. E ele trata da vida dos habitantes de Israel desde a conquista do território de Canaã até a constituição do Primeiro Reinado com Saul. Existem duas teorias sobre quem deve ser colocado como seu autor: Samuel, o historiógrafo do reinado de Saul e Davi, por volta de 1050 a.C.; ou autores anônimos durante o Exílio da Babilônia em 586 a.C., porém de qualquer forma reconhece-se que o autor é necessariamente um monarquista que acredita que o seu povo estava perdido antes da unificação sob o reinado de Saul.
Chama-se Juízes porque era assim como eram chamados os líderes políticos, militares e religiosos do povo israelita. O primeiro foi Josué e o último Samuel; podemos ainda citar Gideão, o grande caçador, e Sansão, o de grande força, além de Débora, a única mulher com um cargo público na Bíblia. Neste livro, no entanto, no capítulo 19, narra-se o crime de Gibeá começando assim: "Naquele tempo, como não havia rei em Israel, aconteceu que um levita, vindo fixar-se no fundo das montanhas de Efraim, tomou ali por concubina uma jovem de Belém de Judá" (19:1). É importante já notar isto: o autor monarquista faz referência a uma história que só poderia acontecer em Israel porque não há rei para controlar o povo. Ele começa falando sobre como esta concubina não é fiel ao seu marido, trata disso dos versículos 2 a 10, quando ele chega a Gibeá. "O levita, porém, não consentiu. Partiu e chegou a Jebus, que é Jerusalem, com a sua concubina e seus dois jumentos selados. Quando chegaram, o dia ia declinando. Então, o criado disse a seu amo: Vem, tomemos o caminho da cidade dos jebuseus para ali passarmos a noite. Não - respondeu-lhe o amo - não entraremos numa cidade estrangeira, onde não há israelitas. Iremos até Gibeá" (19:10-12).
Em determinado momento a descrição da história se torna uma cópia da história de Sodoma: "Tendo entrado na cidade, parou o levita na praça e ninguém lhe ofereceu hospitalidade. Ao anoitecer, aparece um homem idoso que voltava do seu trabalho no campo. Era também da montanha de Efraim e habitava como forasteiro em Gibeá, cujos habitantes eram da tribo de Benjamim. O velho, levantando os olhos, viu o levita na praça da cidade: Aonde vais? - disse-lhe ele - e de onde vens? O levita respondeu: Nós partimos de Belém de Judá e vamos até o fundo da montanha de Efraim, onde nasci. Acabo de deixar Belém de Judá para voltar à minha casa mas ninguém quer me acolher, embora tenhamos palha e feno para nossos jumentos, pão e vinho para mim, minha concubina e o jovem, meu servo; nada nos falta. O velho respondeu: A paz seja contigo. E te darei tudo o que for necessário. De modo algum deverás passar a noite na praça. Fê-lo entrar em sua casa e deu de comer aos jumentos. Os viajantes lavaram os pés, e foi-lhes servida a refeição" (19:15-21).
A repetição da história de Sodoma continua: "Enquanto restauravam as forças, vieram os habitantes da cidade, gente péssima, e, cercando a casa do velho, bateram violentamente à porta: Faze sair - gritaram eles ao vellho, dono da casa -, faze sair o homem que entrou em tua casa para que nós o conhecemos! O velho saiu e foi ter com eles, dizendo: Não queirais, irmãos, cometer semelhante maldade, pois este homem é hóspede de minha casa. Não pratiqueis tal infâmia. Eis aqui a minha filha virgem e a concubina desse homem. Eu vo-las trarei. Vós podereis violá-las e fazer delas o que quiserdes; somente vos peço que não cometais contra esse homem uma ação tão infame." (19:22-24). Conhecer é uma expressão bíblica para falar sobre sexo, e isto é reconhecido por todos os estudiosos da Bíblia, não existe dúvida que a turba benjaminita pretende estuprar o viajante da tribo de Levi. Porém o homem o protege, ele é seu hóspede e, por isso, deve ser protegido dentro de sua casa. Pode-se questionar, porém, mas e a concubina do levita que é oferecida aos homens de Gibeá, ela também não era hóspede na casa do velho?
É preciso afirmar duas coisas: a concubina de Belém é apresentada como infiel nos primeiros trechos do capítulo: "tomou ali por concubina uma jovem de Belém de Judá. Esta foi-lhe infiel, deixou-o e foi para junto de seu pai em Belém de Judá, onde ficou quatro meses" (19:1-2). Ao mesmo tempo, a mulher hebraica é colocada quando o viajante conhece o velho no mesmo lugar dos jumentos e do criado, como uma coisa. Nos trechos seguintes contam que ela foi sim dada a turba, que a conheceram e abusaram dela e, como resultado, ela é encontrada morta diante da soleira da porta do velho pelo próprio marido, mas eles também poderiam ter negociado um dos jumentos ou do criado, provavelmente porque ela era infiel, era para o viajante o que menos valia.
O levita deixou a cidade em paz, porém avisou a toda Israel o que acontecera. Todos os israelitas ficaram chocados com a atitude dos homens de Gibeá e ergueram suas armas para atacarem a cidade. Acontece então uma guerra, entre a tribo de Benjamim, que reuniram 26.700 homens, e uma coligação das outras tribos de Israel, com exceção da tribo de Jabes, com 400.000. Apesar do número superior, os israelitas começaram a batalha com grandes perdas de "todos homens que manejavam a espada" (19:25), e só começaram a vencer a cidade quando um incêndio tomou Gibeá que fez os benjaminitas abandonarem a proteção das muralhas e serem perseguidos pelos guerreiros das outras tribos até perderem-se no deserto. Os benjaminitas são então amaldiçoados, "Ninguém dentre nós dará sua filha em casamento a um benjaminita" (21:1). Obviamente, este texto é uma forma de dar um motivo plausível a uma guerra das tribos que se consideravam irmãs contra uma das suas e para garantir que a opinião pública se colocasse a favor a eles é creditado o pior crime possível: o pecado contra a hospitalidade.