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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Israel: A Devoção de Rute à Naomi

, em Natal - RN, Brasil


O lesbianismo é ignorado, basicamente, nos textos judaicos e na Bíblia, apesar da referência que normalmente se faz a Rute e Naomi entre as fileiras homossexuais que lutam por uma forma de reconhecimento no texto da Sagrada Escritura desta forma de amor para, de alguma forma, desconstruir o discurso religioso que prega que as formas de relacionamento homoerótico são pecado. Rute e Naomi tornaram-se então as heroínas lésbicas do texto bíblico. Se faz referência a este trecho do livro de Rute (1:8-18): " 'Ide, e voltai para a casa de vossa mãe', disse ela às suas noras, 'O Senhor use convosco misericórida, como vós usastes os que morreram e comigo! Que eles vos conceda paz em vossos lares, cada uma na casa de seu marido'. E beijou-as. Elas puseram-se a chorar: 'Nós iremos contigo para o teu povo', disseram as noras. 'Ide, minhas filhas', replicou Naomi, 'por que haveis de vir comigo? Por ventura tenho eu ainda em meu seio filhos que possam tornar-se vossos maridos?' (...) Então elas desataram a chorar. Orfa beijou a sua sogra, porém Rute não quis separar-se dela. 'Eis que tua cunhada voltou para o seu povo e para os seus deuses', disse-lhe Naomi, 'vai com ela'. 'Não insistas comigo', respondeu Rute, 'para que eu te deixe e me vá longe de ti. Aonde fores, eu irei; aonde habitares, eu habitarei. O teu povo é meu povo, o teu Deus meu Deus. Na terra em que morreres, quero também eu morrer e aí ser sepultada. O Senhor trate-me com todo o rigor, se outra coisa, a não ser a morte me separar de ti!'. Ante tal resolução, Noemi não insistiu mais". Este trecho é tomado como uma grande declaração de amor lésbico entre a nora Rute e a sogra Naomi, apesar de em nenhum momento o texto bíblico expressar nada mais do que uma nora que se considera parte da família da sogra após o casamento, não pertencendo mais a sua antiga casa, seus antigos deuses e sua antiga família. Sou da opinião que este texto não faz referência a nenhum relacionamento homoerótico e eu estranharia se encontrasse uma referência qualquer que fosse num texto escrito somente para homens sobre algo que lidava diretamente com a intimidade feminina.
O Talmud faz apenas duas referências ao lesbianismo, e nestas fica claro a pouca importância dada a matéria pelos sábios, como as próprias mulheres. A palavra mesolelot que é associada ao lesbianismo pode ser traduzida como "o roçar entre duas genitálias" (levamot) e refere-se basicamente ao contato sexual sem penetração, aparece num trecho que refere-se a uma mãe masturbando o filho, contudo também aparece em uma discussão entre os rabis para definir se as mulheres que praticam sexo com outras mulheres (mesolelot) são desqualificadas para o casamento com os sacerdotes. Eliezer Ben Horquenus afirma que a relação sexual com um homem solteiro, feita com o propósito de apenas ter prazer, sem envolvimento marital, transforma a mulher numa zonah (prostituta), porém, quando a relação ocorre entre duas mulheres a ofensa não requer nenhuma punição. Não existe nenhuma punição, nem açoitamento, apedrejamento ou qualquer outro, isto porque nenhum mandamento bíblico era contra a relação sexual entre duas mulheres, o que inclusive as tornava aptas a casar com qualquer homem judeu, porém aconselha Eliezer Ben Horquenus que os homens vigiem rigorosamente suas mulheres, impedindo-as de visitar ou receber visitas de mulheres com estes hábitos.
A falta de legislação sobre uma relação homoerótica entre duas mulheres pode soar para alguns como uma permissão, mas isso seria não reconhecer o status de objeto que pertence ao homem do próprio corpo feminino. A legislação então preocupa-se sobretudo, ao falar da mulher, de reforçar seu lugar de objeto que pertence ao homem (casamento) e garantir essa posse quando outro homem a ameaça (interdições sexuais como incesto ou punições para o adultério), para o legislador que escreve a Bíblia e o Talmud não existe risco algum quando duas mulheres estão juntas porque sua posse não estava ameaçada já que ao contrário do que acontecia em regiões como o Egito, não havia a possibilidade de mulheres hebraicas terem uma vida independente de homens em sua sociedade.






terça-feira, 23 de outubro de 2012

Israel: A Simpatia de Ashpenaz por Daniel

, em Natal - RN, Brasil

 1 No terceiro ano do reinado de Joaquim, rei de Judá, Nabucodonosor, rei da Babilônia, veio a Jerusalém e a sitiou.
 2 E o Senhor entre­gou Joaquim, rei de Judá, nas mãos de Nabucodonosor, e também alguns dos utensílios do templo de Deus. Ele levou os utensílios para o templo do seu deus na terra de Sinear e os colocou na casa do tesouro do seu deus. 
 3 Depois o rei ordenou a Ashpenaz, o chefe dos eunucos da sua corte, que trouxesse alguns dos israelitas da família real e da nobreza:
 4 jovens sem defeito físico, de boa aparência, cultos, inteligentes, que dominassem os vários campos do conhecimento e fossem capacitados para servir no palácio do rei. Ele deveria ensinar-lhes a língua e a literatura dos Caldeus. 
 5 De sua própria mesa, o rei designou-lhes uma porção diária de comida e de vinho. Eles receberiam um treinamento durante três anos, e depois disso passariam a servir o rei.
 6 Entre esses estavam alguns que vieram de Judá: Daniel, Hananias, Misael e Azarias.
 7 O príncipe dos eunucos deu-lhes novos nomes: a Daniel deu o nome de Beltessazar; a Hananias, Sadraque; a Misael, Mesaque; e a Azarias, Abede-Nego.
 8 Daniel, contudo, decidiu não se tornar impuro com a comida e com o vinho do rei, e pediu ao chefe dos oficiais permissão para se abster deles.
 9 E Deus fez com que o homem fosse misericordioso com Daniel e tivesse simpatia por ele (chesed v'rachamim Daniyye'l).

Este versículo nono do Livro de Daniel é objeto de controvérsia até hoje. Sua tradução tem sido questionada e discutida pelos especialistas em hebraico e aramaico sem que se chegue a absolutamente nenhum consenso. Uma corrente defende uma tradução que diria que existe uma relação homoerótica entre Daniel e o eunuco babilônico, outra afirma que como Ezequiel em seu livro (14:14,20) diz que Noé, Jó e Daniel são os únicos homens justos o bastante para não serem atacados se entrassem na cova de leões, pois seguiam diretamente os preceitos da lei do Levítico, portanto, ele, necessariamente, não poderia ter relações homoeróticas e continuar um homem justo. 
Bem, como o segundo argumento é uma falácia homofóbica que pressupõe, antemão, que as leis do Levítico realmente tratam as relações homoeróticas como crime - o que vimos anteriormente que não. Esse argumento também leva em consideração a Bíblia como um texto escrito sem fazer referência ao contexto em que sua escrita se dava. Enquanto o Levítico faz referência a uma tribo nômade que vagava pelo deserto e que provavelmente foi colocado no papel a época do reino de Davi, em que os hebreus estavam em guerra contra os filisteus e cananeus e seus hábitos eram demonizados; o Livro de Daniel, que provavelmente foi escrito somente no século II ou III depois de Cristo, faz referência a uma corte culta, por volta de 640 a.C., que  estava em guerra com os babilônicos e via seus filhos serem levados como cativos e transformados em eunucos na corte do rei Nabucodonosor. 
Outro elemento que também é simplesmente ignorado pelo argumento de que Daniel é justo: Daniel é um eunuco (2Rs 20.17,18; 2Rs 24.1,12-14; Dn 1.3,7) que serviu a três reis (Nabucodonosor, Belsazar e Dario), sendo que logo conquistou o status de governador de província e também primeiro-ministro. Mas ele é um eunuco que fora escolhido pela sua beleza e inteligência aos 17 anos. Ser eunuco, per si, já o tornaria pelas leis do Levítico impuro diante do deus de Israel, pelo menos até o retorno do exílio na Babilônia quando a lei do Levítico foi sumariamente revogada.
O problema da tradução continua. B.A. Robinson afirma que alguns religiosos liberais detectaram a possibilidade de uma relação homoerótica entre Daniel e Ashpenaz por causa das palavras hebraicas chesed v'rachamim utilizadas no versículo 9. A tradução mais comum de chesed é "misericórida", já v'rachamin está em uma forma plural que é utilizado para enfatizar a sua importância e, infelizmente, a palavra tem vários significados, de misericórdia a amor físico. Robinson afirmar que não é razoável crer que Deus fez com que Ashpenaz "fosse misericordioso e tivesse misericórdia" por Daniel. A repetição não faz sentido, segundo o autor americano, consultor do site Religious Tolerance, uma tradução mais razoável seria, portanto, que "Ashpenaz mostrou misericórdia e caiu por amores por Daniel".
Essa tradução porém é inaceitável para a maioria dos estudiosos da Bíblia (católicos e evangélicos) de hoje, contudo a versão inglesa chamada King James, cuja última versão é de 1769 traduz: "Now God had brought Daniel into favor and tender love with the prince of the eunuchs" (KJV), "Agora Deus levou Daniel aos favores e ao terno amor do príncipe dos eunucos". Para Robinson essa parece a tradução mais próxima da verdade e ela foi realizada no século XVIII ainda. Ele ainda questiona se eles poderiam consumar sexualmente a sua relação, sendo ambos eunucos, contudo ser eunuco não significa necessariamente sem pênis, somente sem testículos, questão de fato pouco importante. 
O argumento que tenta proteger Daniel de uma mancha moral que nenhum personagem bíblico pode ter parece não ter sido um problema ainda no século XVIII na tradução do rei James, sobretudo porque a imagem dos eunucos ainda estava muito presente tanto no mundo árabe como na Índia, regiões que os ingleses mantinham importantes entrepostos comerciais e, com isso, provavelmente entendiam melhor o relacionamento que existia entre eunucos nas cortes orientais; mas outro motivo também pode advir da inexistência de uma marca moral sobre o homoerotismo que só seria imposta pela medicalização do século XIX que criou o homossexualismo.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Israel: Os Eunucos do Deuteronômio

, em Natal - RN, Brasil


O Deuteronômio é quinto e último livro do Pentateuco e da Torá, que precede o primeiro dos livros históricos da Bíblia medieval cristã, e seu nome significa "segunda lei", e foi batizado assim pela Septuagina, a primeira versão da Bíblia, demonstrando que o livro é um código de leis que complementa os Dez Mandamentos instituído por Moisés, cuja principal característica é ser um tratado religioso que define as regras para viver o Pacto entre Javé e o povo de Israel. Foi composto por um conjunto de manuscritos de datas diferentes que volta de 640 a 600 a.C, durante o reinado de Josias de Judá, reino ao norte de Israel, ganhou extrema importância dentro da comunidade israelita. Ele, que conta da entrega das Tábuas a Moisés até a chegada as planícies de Moab, é escrito na forma de discursos que utilizam a história de Israel para testar a realidade e a verdade do próprio código, este método é a forma mais comum de escrita do Velho Testamento. 
Uma dessas regras corresponde à uma proibição: "O varão que tenha os testículos esmagados (daka') ou o seu membro viril cortado, não poderá ser admitido na assembléia (qahal) do Senhor" (Deuteronômio 23:1-2). Neste mesmo capítulo, o Deuteronômio também exclui da comunidade israelita, além dos eunucos, os filhos bastardos e os estrangeiros. Para, no entanto, entender o porquê disso é necessário focar no contexto patriarcal no qual ele é escrito. Este trecho do livro fala das qualificações necessárias para se ingressar na assembléia política, religiosa, militar e judicial e, por extensão, a definição do que seria necessário para se tornar um cidadão ativo politicamente nos reinos de Judá e Israel, apesar de se referirem ao período anterior das Doze Tribos. No caso dos eunucos, um homem castrado não poderia se considerar um homem completo e, portanto, seria relocado socialmente para uma posição inferior entre os gêneros, junto com as mulheres. Alguns pesquisadores propõe, contudo, que esta exclusão pretende apartar da assembléia da cidade os sacerdotes de outros deuses que não Javé. 
Esta proibição se torna um problema, todavia, quando Jerusalém caiu nas mãos do rei babilônio, Nabucodonosor II, em 598 a.C., e os homens de Israel se tornam escravos e, muitos destes, são transformados em eunucos nas cortes e haréns da Babilônia. Quando Ciro II, rei da Pérsia, em 537 a.C., invadiu a Babilônia, ele libertou o povo judeu que pode retornar a Jerusalém, e muitos retornaram a cidade eunucos. Pela lei do Deuteronômio então seriam destituídos de sua cidadania e, com isso, da participação política e religiosa na cidade, porém, no livro de Isaías - um dos livros proféticos da Bíblia, escrito entre 700  e 400 a.C. - é instituído um mecanismo de fuga desta regra. Diz o livro: "O estrangeiro que por sua própria vontade se uniu ao Senhor, não deve dizer: Javé me excluirá de seu povo. Tampouco deve dizer o eunuco (saris): Não sou mais que uma árvore seca. Porque assim disse o Senhor: Os eunucos que observem meus sábados, que escolhem o que me agrada e são fiéis ao meu pacto, concederei a eles ver gravado seu nome dentro do meu templo e de minha cidade; isso é melhor que ter filhos e filhas!" (Isaías 56:3-6). A partir de Isaías então se cria um mecanismo que reescreve as leis do Deuteronômio para se adaptar a uma nova realidade existente na vida social judia, demonstrando que o livro sagrado era constantemente adaptado para atender as solicitações sociais de cada período da história dos reinos de Judá e Israel.
Também no Deuterônomio existe um trecho que diz: "A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher: aquele que o fizer será abominável diante do Senhor, seu Deus" (22:5). Este trecho é por muitos considerado uma proibição do crossdressing, o que particularmente considero uma interpretação extremamente superficial do trecho. Este trecho é apresentado juntamente na parte que aconselha o bom judeu a ajudar um jumento ou boi caído na estrada, que se encontrar uma ave com um ninho numa árvore ou no chão pegaria os ovos, mas libertaria a mãe; também aconselha a não semear várias espécies no mesmo campo, também não usar vestes de tecidos diferentes e a construir um parapeito no teto de sua casa. Os comentadores ligados a queer theory costumam relacionar este trecho a manutenção do papel masculino na sociedade patriarcal israelita, mas também fazem referência aos ritos de fertilidade praticados pelos povos que estavam ao redor de Israel à época do reino de Judá. Novamente para manter a sua própria identidade em comparação com os outros povos, Israel proibia dentro do seu território a realização dos ritos de outras religiões, entre eles, a hierogamia. A hierogamia se trata do casamento ritual do sacerdote com a deusa, para tanto, por exemplo, no rito de Astarté, comum entre os fenícios e filisteus, um sacerdote se travestia com as roupas da deusa e fazia sexo com outro sacerdote em nome dela realizando assim o casamento ritual e, com isso, garantia-se a fecundidade da terra pela boa vontade da deusa. A preocupação israelita ainda é construir uma imagem de si mesmo que se distancie ao máximo dos comportamentos comuns às populações que viviam ao seu redor.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Israel: O Amor entre Davi e Jônatas

, em Natal - RN, Brasil


As referências entre Davi e Jônatas são as mais reclamadas pela militância gay entre as fileiras cristãs e muito se escreveu sobre este assunto. Davi é o segundo rei de Israel, o primeiro é Saul, de acordo com o texto hebraico da Bíblia, e segundo os evangelistas Lucas e Mateus seria ancestral de Jesus Cristo. Ele teria reinado entre 1003 e 970 a.C., porém a única prova da existência de Davi são os livros de Samuel, Reis e Crônicas da própria Bíblia, além dos Salmos que são atribuídos ao talento musical do rei dos judeus. 
Segundo o texto bíblico, Davi toma o trono de Israel de Saul porque Deus retirou-lhe seus favores. "O Senhor disse a Samuel: Arrependo-me de ter feito rei a Saul: ele se desviou de mim e não executou as minhas ordens" (1Samuel 15:10-11). O profeta Samuel então procurou um novo rei entre os filhos de Jessé em Belém. Sete dos filhos de Jessé são levados diante do profeta, mas nenhum deles o agradou, porém ainda faltava o menor, que havia levado as ovelhas para o pasto. Davi então foi trazido para a presença do profeta. "Ele era louro, de belos olhos e mui formosa aparência. O Senhor disse: Vamos, unge-o. É ele!" (1Samuel 16:12). Belo e habilidoso com a harpa, Davi foi introduzido na corte de Saul pelo profeta como músico real, "Davi chegou a casa do rei e apresentou-se a ele. Saul afeiçoou-se ( אהבה - ahab) a Davi e o fez seu escudeiro" (1Samuel 16:21). Esta, falam os pesquisadores queer que seria a primeira referência homoerótica envolvendo Davi. O relacionamento entre o rei e o músico, em que o último passa a frequentar o quarto do primeiro, torna-se extremamente íntimo e aproxima Davi do príncipe, filho de Saul, Jônatas. 
É após Davi demonstrar sua bravura após derrotar o gigante Golias, ao trazer a cabeça ao filisteu ao rei, que ocorre o primeiro encontro entre o músico e o príncipe: "Tendo Davi acabado de falar com Saul, a alma de Jônatas apegou-se à alma de Davi e Jônatas começou a amá-lo (אהבה - ahab) como a si mesmo. Naquele mesmo dia, Saul o reteve em sua casa e não o deixou voltar para a casa do seu pai. E Jônatas fez um pacto com Davi, pois o amava (אהבה - ahab) como a si mesmo. Tirou seu manto, deu-o a Davi, bem como a sua armadura, sua espada, seu arco e seu cinto" (1Samuel 18:1-4). 
Tanto na primeira referência envolvendo Saul, quanto com Jônatas, a presença da palavra hebraica אהבה (ahab) vai de encontro a interpretação comum de que se refere a apenas uma amizade. Não obstante, uma interpretação platônica para o relacionamento entre Davi e Jônatas tem sido a visão predominante encontrada na exegese bíblica, tanto por autores judeus e cristãos. Estes argumentam que a relação entre os dois, embora forte e estreita, é em última análise, uma amizade platônica. A aliança que se faz é política, e não erótica, enquanto qualquer intimidade é um caso de união masculina e homossocialidade, isto é, uma camaradagem íntima entre dois jovens soldados sem envolvimento sexual. 
Os livros de Samuel não documentam nenhuma intimidade física entre os dois personagens, além do beijo. "Logo que Davi deixou seu esconderijo e curvou-se até a terra, prostrando-se três vezes; beijaram-se mutuamente, chorando, e Davi ainda mais comovido que seu amigo" (1Samuel 20:41). Os tradicionalistas afirmam que o texto bíblico não se escusa em narrar claramente as abundantes relações sexuais entre Davi e suas esposas e concubinas, e também as de Jônatas que casou e teve um filho, porque então ele não se dá ao trabalho de ser claro no relacionamento homoerótico do músico e do príncipe? Martti Nissinen afirma que "o amor recíproco, com certeza, foi considerado pelos editores [da Bíblia] como fiel e apaixonado, mas sem alusões indecorosas para práticas proibidas pelo Levítico. Sua proximidade emocional e até física não parecem preocupar os editores da história". A Homossociabilidade não é vista como sendo parte do tabu sexual no mundo bíblico.
Nada no texto bíblico, porém, possibilita ou impossibilita uma leitura homoerótica desses versículos. Porém se a opção for por uma leitura homoerótica possibilitaria um melhor sentido para trechos como a reação de Saul ao saber da relação do filho com o músico faz pensar que existe mais do que uma amizade entre guerreiros. "Então Saul encolerizou-se contra Jônatas: Filho de prostituta - disse-lhe -, não sei eu porventura que és amigo do filho de Jessé, o que é uma vergonha para ti e para tua mãe? Enquanto viver esse homem na terra, não estarás seguro, nem tu nem teu trono. Vamos! Vai buscá-lo e traze-mo; ele merece a morte! Jônatas respondeu ao seu pai: Por que deverá ele morrer? Que ele fez? Saul brandiu sua lança para feri-lo e Jônatas viu que a morte de Davi era coisa decidida pelo seu pai. Furioso, deixou a mesa sem comer naquele segundo dia de lua. As injúrias que seu pai tinha proferido contra Davi tinham-no afligido profundamente" (1Samuel 20:30-34). Apesar da acusação de regicida feita por Saul, as palavras proferidas ao filho e a aflição de Jônatas demonstra não corroboram a tese de simples amizade. Segundo David Jobling, inclusive, o apartamento feito por Saul do próprio filho no qual a vergonha cairia somente entre ele e a própria mãe é uma chave que transforma Jônatas em uma efeminado, isto é, o filho apenas de uma mulher, sem semente viril. "Então Jônatas, filho de Saul, foi ter com ele em Horesa. E confortou-o, dizendo: Não temas, porque não te atingirá a mão de meu pai. Tu reinarás sobre Israel e eu serei o teu favorito; meu pai bem o sabe. Fizeram ambos uma aliança diante do Senhor. Davi ficou em Horesa e Jônatas voltou a casa do seu pai" (1Samuel 23:17-18). Gordon Hugenberger tem procurado desde 1944 relações entre o casamento heterossexual e a aliança entre Davi e Jônatas, relação esta citada três vezes no livro de Samuel. No entanto, apesar das pesquisas de John Boswell reafirmarem que os ritos de casamento homoafetivos serem muito anteriores aos ritual de casamento eclesiástico cristão, obviamente, a relação política entre o príncipe e o músico aspirante a rei é quem subordina a relação de amor entre eles.
A referência mais famosa, contudo, é a primeira poesia de Davi apresentada por Samuel em seu segundo livro. "Jônatas, meu irmão, por tua causa meu coração me comprime! Tu me eras tão querido! Tua amizade me era mais preciosa que o amor das mulheres" (2Samuel 1:26). David Jobling escreve: "A história de Davi e Jônatas, e estas palavras em particular, vem a ter grande importância para ativistas que defendem os direitos dos gays, porque eles são a única apresentação positiva da homossexualidade masculina na Bíblia judaica. Neste trecho, um homem revela seu amor por outro homem, em comparação com o amor heterossexual e conclui que é superior. Uma leitura de Samuel que pretenda abordar as questões de ética e libertação humana não pode continuar a ignorar a importância desta perspectiva para uma questão tão importante de nosso tempo".

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Israel: A Imagem dos Filisteus

, em Natal - RN, Brasil


Os filisteus são uma tribo que ocupava a Filisteia, região a oeste do reino de Judá e a sul de Israel, na atual região de Gaza. Referências egípcias dizem que eles faziam parte dos "Povos do Mar" que tentaram invadir o Egito vindo das ilhas creto-micênicas do Mediterrâneo, expulsos das terras do faraó, os filisteus se fixaram  por volta do ano 1200 a.C., no início da Idade do Ferro, em cidades-estado na costa da região do Levante como Gaza, Ashkelon, Ashdod, Gath e Ekron, a borda das terras do faraó. Se reconhece que a cultura filisteia tem relações com as ilhas que estavam sobre controle da ilha de Creta por causa da sua língua e da cultura material. Os filisteus adotaram a língua comum aos reinos que viviam naquela região, porém inúmeras palavras de origem creto-micênica foram introduzidas no aramaico e restaram como fósseis de uma cultura desaparecida. Já sua cultura material (roupas, armas e navios) tem seus correspondente entre as populações que viviam nas ilhas do mar Egeu, incluindo Creta, além da a costa ocidental da Anatólia (atual Turquia) e Micenas, na Grécia. Por fim, a última prova é apresentada por Bruce L. Gerig. Ele lembra que no livro de Jeremias se diz: "É que surgiu o dia da destruição dos filisteus, e de Tiro e Sidônia será tirado o que lhes resta de aliados, porque o senhor vai arruinar os filisteus, e os restos da ilha de Caftor" (47:4), e que Caftor é a palavra aramaica para Creta de onde eles seriam originários. 
Sansão e Davi viveram boa parte de suas vidas entre os filisteus (Juízes 14:1-2, 16:4-5; 1Samuel 27:1-6) e, segundo Tom Horner, conviveram com uma cultura que aceitava tranquilamente as relações homoeróticas exatamente como em Creta. Na ilha minóica, eram comuns uma série de ritos de iniciação que passava por relações homoeróticas, isto é, para se tornar um homem adulto era comum que o jovem passasse por um período de relações homoeróticas intensas, rituais estes que não aconteciam no mundo israelita; porém é provável que eles aconteciam nas cidades-estado filisteias. Na Bíblia, no entanto, não existem referências sobre estas práticas, mas, afirma Bruce L. Gerig, frequentemente, homens israelitas devem ter visto (ou ouvido falar de) expressões de afeição homoerótica entre dois homens filisteus na rua, lojas e mercados ou no campo. 
Contudo, os filisteus eram o grande inimigo. Tanto do reino de Israel como de Judá. Com melhores armas (como lanças, armaduras e espadas e cimitarras, além de carros puxados por cavalos), tornaram-se um empecilho para os desejos israelitas e judeus de ampliação dos seus reinos. Inclusive, nem Judá nem Israel possuíam grandes minas de ferro e, portanto, era de vital importância para a ampliação dos dois reinos a dominação do território da Filisteia para a produção de armas. A imagem então que a Bíblia constrói dos filisteus é sempre de um inimigo belicoso e bárbaro, como diz Elizabeth Yehudá, encarnados em Dalila, que corta os cabelos de Sansão; em Golias, que luta contra Davi; e em um de seus deuses, Baal-Zebu ou Belzebu, que torna-se a personificação do próprio paganismo, apesar de Dagan ser seu deus principal. 
Fazer então, nesta situação política de guerra, comentários a favor das relações homoeróticas em qualquer dos livros históricos como Josué, Juízes, Rute, Samuel, Reis e Crônicas, e nos livros proféticos como Isaías, Jeremias (os livros compostos neste período de guerra entre filisteus e israelitas/judeus) é se manifestar a favor de seus maiores inimigos, pelo menos até a destruição da pentápole filisteia pelos assírios em 605 a.C., na batalha de Karkemish que subjugou todo levante sob o jugo de Sargão II.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Israel: Os Cães Cananeus



No Levítico, cuja intenção é a construção de uma identidade hebreia entre uma população que estava exposta o tempo todo a outras etnias como os fenícios, filisteus e cananeus, existe um trecho que diz: "Não darás nenhum de teus filhos para ser sacrificado a Moloc; e não profanarás o nome de teu Deus, Jeová. Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isto é uma abominação. Não te deitarás com nenhum cão (keleb), para não te contaminares com ele. Uma mulher não se prostituirá como um cão: isso é uma abominação. Não vos contamineis com nenhuma dessas coisas, porque é assim que se contaminaram as nações que vou expulsar diante de vós" (Levítico 18:21-24). 
Este trecho que retiramos como exemplo será aqui dividido em dois: o 18:21-22 e o 18:23-24 por questões didáticas somente. O primeiro que diz: "Não darás nenhum de teus filhos para ser sacrificado a Moloc; e não profanarás o nome de teu Deus, Jeová. Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isto é uma abominação" (18:21-22) tem uma relação imediata com o sacrifício feito a Moloc. Este é o deus do sol entre os cananeus, de origem fenícia, cujo qual o primeiro filho de todas as famílias era sacrificado. Durante muito tempo, os estudos bíblicos consideravam este sacrifício como um sacrifício de sangue, porém, graças as pesquisas que cruzaram as referências bíblicas com os textos gregos e romanos sobre o culto a Moloc, percebeu-se que sacrificar o filho é torná-lo um sacerdote do deus, cujo culto, envolvia a prostituição sagrada também. Os versículos vistos em conjunto diriam então que uma pessoa não deve sacrificar o próprio filho para ser prostituto sagrado de um deus pagão e que isto é uma abominação.
O segundo trecho, segundo o o pastor presbiteriano John Barclay Burns, reforça a mesma ideia. A segunda parte que separamos diz: "Não te deitarás com nenhum cão (keleb), para não te contaminares com ele. Uma mulher não se prostituirá como um cão: isso é uma abominação. Não vos contamineis com nenhuma dessas coisas, porque é assim que se contaminaram as nações que vou expulsar diante de vós" (18:23-24) chama atenção para a palavra keleb, cão em aramaico, traduzido na maior parte da Bíblias simplesmente como animal, o que faz parecer que é uma proibição a zoofilia, porém se refere exatamente a prostituição masculina comum em toda Canaã, entre povos não-hebreus.  É bom registrar também que o em Deuteronômio se diz: "Não haverá mulher cortesã nem prostituta entre as filhas de Israel; também nenhum filho de Israel se prostituirá. Seja qual for o voto que tiveres feito, não levarás à casa do Senhor, teu Deus, o ganho de uma prostituta nem o salário de um cão (keleb); porque uma e outra coisa são abominadas pelo Senhor, teu Deus" (Deuteronômio 23:17-18), o que comprovaria a teoria do pastor John Burns. O cão seria então um prostituto que teriam, basicamente, o papel passivo na relação sexual, isto é, é penetrado analmente durante o intercurso sexual. 
Bruce L. Gerig afirma que a prostituição masculina, na verdade, é um problema real e persistente em Israel. O problema é citado durante o reinado de Reboão, em Judá, século X a.C. Em Reis, diz-se: "O povo de Judá fez o mal diante do Senhor e com os seus pecados excitaram-lhe o zelo mais do que tinham feito os seus pais. Edificaram para si lugares altos, estelas e ídolos assearás sobre todas as colinas e debaixo de tudo que fosse árvore verde. Até prostitutos sagrados houve na terra. Imitaram todas as abominações dos povos que o Senhor tinha expulsado de diante dos israelistas" (1Reis 14:22-24). Nove reis depois, no século VIII a.C., no reinado de Ezequiel, o livro de Reis reclama do mesmo problema, em que o rei reforma o culto que havia absorvido as características dos cultos dos deuses ao redor, inclusive a prostituição sagrada. "Destruiu os apartamentos das prostitutas e prostitutos que se encontravam no Templo do Senhor, onde as mulheres teciam vestes para Asserá (Astarte, deusa fenícia)" (2Reis 23:7). Em resumo, a conexão é sempre feita entre a prostituição masculina (e as uniões homoeróticas) e as práticas idólatras. É uma questão de identidade, novamente, em que esta população hebraica precisa, desesperadamente, se diferenciar dos grupos étnicos ao seu redor e, para isso, constrói uma religião que se diferenciava em tudo daquelas ao seu redor, começando pelo monoteísmo, seguindo pelas proibições alimentares, sexuais e, sobretudo, de culto.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Israel: O Incesto de Noé e Cam

, em Natal - RN, Brasil


Em Gênese, o primeiro livro da Bíblia, cuja autoria é atribuída ainda a Moisés, após o episódio do Dilúvio em que Noé salva os animais e sua família da inundação enviada por Deus para extinguir os pecadores de sua criação, existe uma passagem que aparece assim:
"Os filhos de Noé que saíram da arca eram Sem, Cam e Jafé. Cam era o pai de Canaã. Estes eram os três filhos de Noé. É por eles que foi povoada toda terra.
Noé, que era agricultor, planou uma vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda. Cam, pai de Canaã, vendo a nudez de seu pai, saiu e foi contá-lo aos seus irmãos. Mas, Sem e Jafé, tomando uma capa, puseram-na sobre os seus ombros e foram cobrir a nudez de seu pai, andando de costas; e não viram a nudez de seu pai, pois tinham os seus rostos voltados. Quando Noé despertou de sua embriaguez, soube que lhe tinha feito o seu filho mais novo. 'Maldito seja, Canaã' - disse ele - 'que ele seja o escravo dos escravos de seus irmãos!'. E acrescentou: 'Bendito seja o Senhor Deus de Sem, e Canaã seja seu escravo! Que Deus prospere a Jafé; e este habite nas tendas de Sem, e Canaã seja seu escravo!'." (Genesis 9:18-27).
Duas questões são evocadas por este trecho. Primeiramente o uso da expressão "vendo a nudez do seu pai", a mesma expressão aparece no Levítico se referindo a um ato sexual: "Nenhum de vós se achegará àquela que lhe é próxima de sangue, para descobrir a sua nudez. Eu sou o Senhor" (Levítico 18:6), "Não tomarás a irmã de tua mulher, de modo que lhe seja um rival, descobrindo sua nudez com a de tua mulher durante a vida" (Lev 18:18), "Não te achegarás a uma mulher durante a sua menstruação para descobrir sua nudez" (Lev 18:19), "Se um homem tomar a sua irmã, filha de seu pai ou de sua mãe, e vir a nudez dela, e ela vir a sua, isso é uma coisa infame. Serão exterminados sob os olhos de seus compatriotas: descobriu a nudez de sua irmã; levará a sua iniquidade" (Lev 20:17), portanto, como os dois livros têm, acredita-se, uma composição aproximada, é lógico propor que o sentido da expressão seja o mesmo. Portanto, no mito fixado na Bíblia, após ficar bêbado com o vinho, Noé teria tido uma relação sexual com o seu filho mais novo. Angel Rodriguez afirma que muitos dos interpretes, inclusive, concordam com esta teoria, porém ele faz duas perguntas: a primeira que nenhuma das referências do Levítico levam em consideração relações homoeróticas ao utilizar a expressão descobrir/ver a nudez e que estas referências poderiam se referir muito mais a Cam ter tido relações sexuais com sua própria mãe, dado um outro versículo: "Não descobrirás a nudez do irmão de teu pai, aproximando-te de sua mulher: é tua tia" (Lev 18:14). Segundo Rogriguez, este trecho diz que a nudez é uma metáfora para a esposa/mulher do homem, porém se voltarmo-nos para o versículo 20:17 (citado acima) que diz em um momento "vir a nudez dela, e ela vir a sua", significa que as mulheres também teriam a sua própria nudez. Se Rodriguez estiver correto, então mulheres poderiam ter esposas no início da história judaica; se ele estiver errado, também se comprova que a expressão também poderia ser usada entre relações entre pessoas do mesmo sexo. 
Se acreditarmos que Rodriguez está enganado, o crime de Cam contra seu pai torna-se o incesto, e aí vemos que por causa disso o pai amaldiçoa o filho e toda sua descendência. Eles tornariam-se escravos de seus outros filhos e seus descendentes. O livro do Gêneses diz que descendiam de Jafé os povos dispersos nas ilhas, de Sem descendiam todas as tribos de Israel e Judá, enquanto de Cam descendiam os assírios, babilônicos, fenícios, filisteus, amorreus, samareus e os cananeus, isto é, basicamente todas as tribos que eram inimigas dos israelitas. Ou seja, o texto do Gênese fornece o motivo pelo qual era lícito aos israelitas fazerem guerra a seus povos vizinhos, dominá-los, tomar-lhes a terra e ainda fazê-los de escravos. Volta-se, novamente, a questão da construção da identidade e de uma nação para os israelitas. Eles estão construindo uma nação para eles, vindos do Egito, e precisam expulsar aqueles povos que já estavam ali para abrir espaço para si mesmos, e a primeira forma de fazer isso, de fazer um espaço para si e evitar que o grupo étnico seu misture com os que estão lá dentro é amaldiçoar/demonizar o outro grupo. E o incesto, prática comum no Egito de onde os hebreus fugiam, não o homoerotismo, é o crime mais grave para o mundo hebraico.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Israel: O Código de Santidade do Levítico



O Levítico é o terceiro livro da Bíblia, parte do Pentateuco, para os cristãos, e da Torá, para os judeus, que são constituídos pelos cinco primeiros livros, a saber o Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. É considerado um dos livros históricos e sua autoria é atribuída a Moisés que o teria escrito enquanto vagava pelo deserto árabe, após a fuga do Egito; no entanto, sua escrita é provavelmente da época em que os judeus estavam sendo dominados pelos babilônicos, em 500 a.C. O Livro foi composto para servir como manual religioso para os levitas, os sacerdotes encarregados do culto que eram escolhidos entre os membros da tribo de Levi. E portanto é um manual de regras para definir como devem ser feitos os sacrifícios ao Senhor (1-7); como os sacerdotes são consagrados (8-10) e legisla sobre a pureza (11-17) e santidade do povo judeu (17-26). 
Esta legislação sobre a pureza e santidade do povo judeu é um dos elementos mais importantes deste livro. Escrito no exílio, era importante para aquela população se diferenciar dos babilônicos, seus captores, e das outras etnias que existiam em torno deles como os cananeus, fenícios, hurritas, assírios e outros. O Levítico é basicamente um livro para expressar identidade. Ele dita as leis, regras e tabus que definem as Doze Tribos isreaelitas como uma população única que dividem a mesma identidade étnica. Dallmer de Assis afirma que através deste livro as Tribos de Israel pretendem criar para si uma unidade cultual, ética e sexual.
Exilados no estrangeiro, seu grande desafio era conservar a própria identidade, para isso eles se mantinham articulados graças a práticas simbólicas (usos e costumes) que os distinguisse e separasse, ou seja, os tornasse santos (separados). Define-se, por exemplo, que quando a mulher fica menstruada, torna-se impura por sete dias, e tudo que ela tocar ou tocar nela, inclusive aqueles que fizerem sexo com ela (15:19-31); ou que se uma casa for tomada pela lepra, o chefe da casa deve imediatamente avisar ao sacerdote (14:35); que os meninos serão circuncidados após o oitavo dia de nascimento (12:3); e que animais podem ser comidos ou não (11:1-46), sendo considerado uma abominação aquele que desobedece qualquer uma dessas regras. No capítulo 18, tem-se orientações para que Israel não se comporte como as outras nações, principalmente em relação aos seus comportamentos sexuais, cita-se precisamente os egípcios e os cananeus (18:3), cujos casamentos endogâmicos nas famílias reais era comum, e em Israel o incesto torna-se tabu. "Nenhum de vós se achegará àquela que lhe é próxima por sangue, para descobrir sua nudez" (18:6), "não descobrirás a nudez de teu pai, nem a de tua mãe" (18:7), "não descobrirás a nudez da mulher de teu pai" (18:8). É neste contexto que se diz: "Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação" (18:22). 
No capítulo 20, estes tabus ganham pena porque ofendem diretamente ao Deus. O capítulo começa com o Senhor de Israel lembrando o contrato em que seu povo tem com ele: "Todo israelita ou estrangeiro que habita em Israel e que sacrificar um de seus filhos a Moloc será punido de morte. O povo da terra o apedrejará" (20:2). E também: "Se alguém se dirigir aos necromantes ou aos adivinhos para fornicar com eles voltarei meu rosto contra esse homem e o cortarei do meio do povo" (20:6). Este capítulo trata da participação dos membros de Israel dentro de cultos de outras religiões, e neste caso exatamente se fala dos rituais comuns em terras babilônicas em que o fiel tinha relações sexuais com o sacerdote do templo para saber a vontade do deus, mas também das leis que regem o casamento e os tabus sexuais de incesto e das relações homoeróticas:  "Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão coisa abominável. Serão punidos de morte e levarão a culpa" (20:13).
Em resumo, o que o Levítico proíbe é que o povo de Israel se comporte como seus vizinhos ou seus captores. Uma "abominação" sempre corresponde a uma prática pagã e idólatra, as penas de morte só são impostas para aqueles israelitas que não se comportam como membros de sua própria comunidade adotando comportamentos que vão de encontro ao que define a sua identidade. No entanto, David Stewart propõe uma outra interpretação. Ele reforça que o contexto em que ambas as proibições aparecem é um contexto de proibição de incesto. É o momento em que se regra que mãe e filho, pai e filha, irmão e irmã não podem ter relações sexuais, Stewart questiona se esta regra não pretende falar dos relacionamentos sexuais entre pai e filho e entre irmão e irmão. A tese de Stewart é nova, oriunda de sua tese de doutoramento em 2000, e resolve dois problemas tradicionais: 1) Por que códigos israelitas anteriores ao Levítico não possuem proibições às relações homoeróticas?; e 2) Por que não existem proibições incestuosas entre pai e filho já que leis hititas anteriores são tão claras a respeito disso?




terça-feira, 17 de julho de 2012

Israel: A Guerra Contra Gibeá

, em Natal - RN, Brasil
Vista aérea da cidade de Gibeá.


Juízes é um dos livros históricos do Velho Testamento, isto é, da parte hebraica da Bíblia cristã. E ele trata da vida dos habitantes de Israel desde a conquista do território de Canaã até a constituição do Primeiro Reinado com Saul. Existem duas teorias sobre quem deve ser colocado como seu autor: Samuel, o historiógrafo do reinado de Saul e Davi, por volta de 1050 a.C.; ou autores anônimos durante o Exílio da Babilônia em 586 a.C., porém de qualquer forma reconhece-se que o autor é necessariamente um monarquista que acredita que o seu povo estava perdido antes da unificação sob o reinado de Saul. 
Chama-se Juízes porque era assim como eram chamados os líderes políticos, militares e religiosos do povo israelita. O primeiro foi Josué e o último Samuel; podemos ainda citar Gideão, o grande caçador, e Sansão, o de grande força, além de Débora, a única mulher com um cargo público na Bíblia. Neste livro, no entanto, no capítulo 19, narra-se o crime de Gibeá começando assim: "Naquele tempo, como não havia rei em Israel, aconteceu que um levita, vindo fixar-se no fundo das montanhas de Efraim, tomou ali por concubina uma jovem de Belém de Judá" (19:1). É importante já notar isto: o autor monarquista faz referência a uma história que só poderia acontecer em Israel porque não há rei para controlar o povo. Ele começa falando sobre como esta concubina não é fiel ao seu marido, trata disso dos versículos 2 a 10, quando ele chega a Gibeá. "O levita, porém, não consentiu. Partiu e chegou a Jebus, que é Jerusalem, com a sua concubina e seus dois jumentos selados. Quando chegaram, o dia ia declinando. Então, o criado disse a seu amo: Vem, tomemos o caminho da cidade dos jebuseus para ali passarmos a noite. Não - respondeu-lhe o amo - não entraremos numa cidade estrangeira, onde não há israelitas. Iremos até Gibeá" (19:10-12). 
Em determinado momento a descrição da história se torna uma cópia da história de Sodoma: "Tendo entrado na cidade, parou o levita na praça e ninguém lhe ofereceu hospitalidade. Ao anoitecer, aparece um homem idoso que voltava do seu trabalho no campo. Era também da montanha de Efraim e habitava como forasteiro em Gibeá, cujos habitantes eram da tribo de Benjamim. O velho, levantando os olhos, viu o levita na praça da cidade: Aonde vais? - disse-lhe ele - e de onde vens? O levita respondeu: Nós partimos de Belém de Judá e vamos até o fundo da montanha de Efraim, onde nasci. Acabo de deixar Belém de Judá para voltar à minha casa mas ninguém quer me acolher, embora tenhamos palha e feno para nossos jumentos, pão e vinho para mim, minha concubina e o jovem, meu servo; nada nos falta. O velho respondeu: A paz seja contigo. E te darei tudo o que for necessário. De modo algum deverás passar a noite na praça. Fê-lo entrar em sua casa e deu de comer aos jumentos. Os viajantes lavaram os pés, e foi-lhes servida a refeição" (19:15-21). 
A repetição da história de Sodoma continua: "Enquanto restauravam as forças, vieram os habitantes da cidade, gente péssima, e, cercando a casa do velho, bateram violentamente à porta: Faze sair - gritaram eles ao vellho, dono da casa -, faze sair o homem que entrou em tua casa para que nós o conhecemos! O velho saiu e foi ter com eles, dizendo: Não queirais, irmãos, cometer semelhante maldade, pois este homem é hóspede de minha casa. Não pratiqueis tal infâmia. Eis aqui a minha filha virgem e a concubina desse homem. Eu vo-las trarei. Vós podereis violá-las e fazer delas o que quiserdes; somente vos peço que não cometais contra esse homem uma ação tão infame." (19:22-24). Conhecer é uma expressão bíblica para falar sobre sexo, e isto é reconhecido por todos os estudiosos da Bíblia, não existe dúvida que a turba benjaminita pretende estuprar o viajante da tribo de Levi. Porém o homem o protege, ele é seu hóspede e, por isso, deve ser protegido dentro de sua casa. Pode-se questionar, porém, mas e a concubina do levita que é oferecida aos homens de Gibeá, ela também não era hóspede na casa do velho? 
É preciso afirmar duas coisas: a concubina de Belém é apresentada como infiel nos primeiros trechos do capítulo: "tomou ali por concubina uma jovem de Belém de Judá. Esta foi-lhe infiel, deixou-o e foi para junto de seu pai em Belém de Judá, onde ficou quatro meses" (19:1-2). Ao mesmo tempo, a mulher hebraica é colocada quando o viajante conhece o velho no mesmo lugar dos jumentos e do criado, como uma coisa. Nos trechos seguintes contam que ela foi sim dada a turba, que a conheceram e abusaram dela e, como resultado, ela é encontrada morta diante da soleira da porta do velho pelo próprio marido, mas eles também poderiam ter negociado um dos jumentos ou do criado, provavelmente porque ela era infiel, era para o viajante o que menos valia. 
O levita deixou a cidade em paz, porém avisou a toda Israel o que acontecera. Todos os israelitas ficaram chocados com a atitude dos homens de Gibeá e ergueram suas armas para atacarem a cidade. Acontece então uma guerra, entre a tribo de Benjamim, que reuniram 26.700 homens, e uma coligação das outras tribos de Israel, com exceção da tribo de Jabes, com 400.000. Apesar do número superior, os israelitas começaram a batalha com grandes perdas de "todos homens que manejavam a espada" (19:25), e só começaram a vencer a cidade quando um incêndio tomou Gibeá que fez os benjaminitas abandonarem a proteção das muralhas e serem perseguidos pelos guerreiros das outras tribos até perderem-se no deserto. Os benjaminitas são então amaldiçoados, "Ninguém dentre nós dará sua filha em casamento a um benjaminita" (21:1). Obviamente, este texto é uma forma de dar um motivo plausível a uma guerra das tribos que se consideravam irmãs contra uma das suas e para garantir que a opinião pública se colocasse a favor a eles é creditado o pior crime possível: o pecado contra a hospitalidade.


terça-feira, 3 de julho de 2012

Israel: A Destruição de Sodoma e Gomorra

, em Natal - RN, Brasil



Sodoma e Gomorra seriam cidades irmãs que ficavam na região sul do Mar Morto, as margens do rio Zerede, que se tornaram famosas na história do Cristianismo após terem sido destruídas por Deus por causa da impiedade de seus habitantes. A expressão, porém, acaba por englobar na verdade a região de mais três cidades-estado, Admá, Zebolim e Bela, que ocupavam o Vale de Sidim, uma região extremamente fértil por ser facilmente irrigada, mas que hoje se encontra submersa pelas águas do Mar Morto. 
O conto que envolve as duas cidades aparece no Livro do Gênese:

"O Senhor ajuntou: 'É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande. E vou descer para ver se as suas obras correspondem realmente ao clamor que chega até mim; se assim não for, eu o saberei'. [Os anjos] partiram, pois, na direção de Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor". (18:20-23).
"Pela tarde chegara os dois anjos a Sodoma. Ló, que estava sentado à porta da cidade, ao vê-los, levantou-se e foi-lhes ao encontro e prostou-se com o rosto por terra. 'Meus senhores - disse-lhes ele - vinde, peço-vos, para a casa de vosso servo, e passai nela a noite; lavarei os pés, e amanhã cedo continuareis o vosso caminho'. 'Não - responderam eles - passaremos a noite na praça'. Mas Ló insistiu tanto com eles que concordaram e entraram em sua casa. Ló preparou-lhes um banquete, mandou cozer pães sem fermento e eles comeram. Mas, antes que tivessem deitado, eis que os homens da cidade, os homens de Sodoma, se agruparam em torno da casa, desde jovens até os velhos, toda a população.
E chamaram Ló: 'Onde estão - disseram-lhe - os homens que entraram esta noite em tua casa? Conduze-os a nós para que os conheçamos'. Saiu Ló a ter com eles no limiar da casa, fechou a porta atrás de si e disse-lhes: 'Suplico-vos, meus irmãos, não cometais este crime. Ouvi: tenho duas filhas que são ainda virgens, eu vo-las trarei, e fazei delas o que quiserdes. Mas não façais nada a estes homens, porque se acolheram à sombra de meu teto'. Eles responderam: 'Retira-te daí!' - e acrescentaram: 'Eis um indivíduo que não passa de um estrangeiro no meio de nós e se arvora em juiz! Pois bem, verás como te havemos de tratar pior do que eles'. E, empurrando Ló com violência, avançaram para quebrar a porta. Mas os dois (viajantes) estenderam a mão, e tomando Ló para dentro de casa, fecharam de novo a porta. E feriram de cegueira os homens que estavam lá fora, jovens e velhos, que se esforçavam em vão para reencontrar a porta". (19:1-11).

No entanto o trecho anterior, no capítulo 18, é importante para entender o que significa o conto.

"O Senhor apareceu a Abraão nos carvalhos de Mambré, quando ele estava assentado à entrada de sua tenda no calor do meio do dia. Abraão levantou os olhos e viu três homens de pé diante dele. Levantou-se no mesmo instante da entrada de sua tenda, veio-lhes ao encontro e prostou-se por terra. 'Meus senhores - disse ele - se encontrei graça diante de vossos olhos, não passeis avante sem vos deterdes em casa de vosso servo. Vou buscar um pouco de água para vos lavar os pés. Descansai um pouco sob esta árvore. Eu vos trarei um pouco de pão, e assim restaurareis as vossas forças para prosseguirdes o vosso caminho; porque é para isso que passastes perto de vosso servo'. Eles responderam: 'Faze como disseste'.
Abraão foi depressa à tenda de Sara: 'Depressa - disse ele - amassa três medidas de farinha e coze pães'. Correu em seguida ao rebanho, escolheu um novilho tenro e bom, e deu-o a um criado que o preparou logo. Tomou manteiga e leite e serviu aos peregrinos juntamente com o novilho preparado, conservando-se de pé junto deles, sob a árvore, enquanto comiam" (18: 1-8).
"Pois que Abraão deve tornar-se uma nação grande e poderosa, e todos os povos da terra serão benditos nele. Eu o escolhi para que ele ordene aos seus filhos e à sua casa depois dele, que guardem os caminhos do Senhor, praticando a justiça e a retidão, para que o Senhor cumpra seu favor as promessas que lhe fez" (18:18-19).

Richard Hays, um dos autores a estudar a Bíblia em busca de referências contra a homossexualidade, é um dos primeiros a levantar-se contra o conto de Sodoma e Gomorra. Segundo ele, é notório, que o trecho que conta a história de Ló não é pertinente ao tema. O problema é que normalmente se ignora este trecho anterior ao capítulo 19, este que dispomos em seguida que trata da hospitalidade de Abraão, o que faz com que se interprete mal o capítulo posterior e não se perceba que ele compara a falta de hospitalidade dos cananitas de Sodoma com o exemplo de Abraão. A causa desta confusão, no entanto, também tem a ver com a presença da palavra "conhecer" na fala dos homens de Sodoma. Ele dizem: "Conduze-os a nós para que os conheçamos". A palavra "conhecer", sobretudo no Gênese (além de Números, Juízes, Samuel e Reis), tem como significado também "encontro sexual" e causou essa interpretação errônea sobre o trecho.
O principal problema é que esta interpretação é medieval. Um erro cometido de interpretação ocorrido a partir do ano mil. E que faz as outras referências feitas a Sodoma perderem do seu contexto original quando lidas por nós hoje em dia. As referências feitas, por exemplo, em Deuteronômio (29:23 e 32:32) se referem aos pecados que fizeram Deus destruir a cidade, no caso da idolatria; em Isaías, Jeremias e Ezequiel, além de Amós e Sofonías, há uma comparação feita entre Jerusalém e Sodoma: "Jerusalém e Judá destruídas, por causa de sua opressão como Sodoma" (Isaías 3:9), que critica o imperialismo de Israel, o mesmo que fazia Sodoma dominar todo o vale de Sidim; já no Novo Testamento, Mateus e Lucas falam de Sodoma relacionando-a com a falta de hospitalidade, enquanto João a vê também como opressora. Essa referências, no entanto, ao serem lidas a partir da chave de interpretação criada pelo monge Pedro Damião, no século X d.C., criam uma imagem diferente sobre o texto bíblico, distinto do seu significado original, que associavam Sodoma ao pecado da sodomia, isto é, as relações sexuais sem fins reprodutivos, das quais a principal é a relação anal entre dois homens.