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domingo, 3 de janeiro de 2016

Born This Way

, em Natal - RN, Brazil
- Pode ter orgulho gay e eu não posso ter orgulho de ser hétero?
- Não. Não pode.
- Mas...
- A gente não pode ter tudo nessa vida, amigo.

sábado, 15 de agosto de 2015

Dia dos pais

Ariano: Hei, feliz dia dos pais!
Foxx: Sem presente não tem dia dos pais nenhum
Ariano: Que presente cê quer? Não vai me dizer que é o aspirador de pó que você tava querendo?
Foxx: Sim. Isso mesmo!
Ariano: Mas aspirador não é presente de pai...
Foxx: Querido, eu quero, da licença? Olhe sua homofobia! E só por isso quero um rosa da Barbie.
Ariano: Daddy, seje menas gay!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Ovo ou a Galinha

, em Natal - RN, Brasil


Estou sentado na sala dos meus pais. Minha mãe acabou de fazer uma pequena cirurgia e precisa de ajuda com o ferimento e com as tarefas diárias que ela não pode fazer enquanto recupera-se. A televisão está ligada na Sony, meus pais tem a Claro TV que meu irmão assina para eles, mas eles só assistem dois canais, a Canção Nova, minha mãe, e o SportTV, meu pai. Somente quando eu chego por lá que outros canais são visitados e que eles assistem animados, minha mãe gosta da programação da GNT, por exemplo, com aqueles programas de culinária para jovens yuppies, e meu pai gosta do Discovery e The History, mas gosta especialmente de programas sobre decoração e arquitetura do Discovery Home and Health. Mas ambos me criticam quando eu assisto minhas séries, dizem eles ser uma perda de tempo, mas ver a terrível programação infantil do canal católico ou um jogo de futebol que já sabemos o resultado de um time desconhecido parece ser bem importante. Eu respondo: "Assisto TV para me divertir, não para aprender".
Voltemos a Sony. Neste verão, o tema da campanha para reforçar a marca do canal é sensualidade, e em uma de suas chamadas um conjunto de cenas de beijos aparece, entre eles um de o Diário de Bridget Jones e outra de American Pie, ao qual quero me deter. 









São duas coisas que quero me deter, na verdade. As cenas são claramente bem diferentes, e é interessante ver isso, sobretudo na sequência com o Seann William Scott e o Jason Biggs, em que duas meninas se beijam antes, e também na que atua Reneé Zellweger, que o beijo entre duas mulheres pode e deve ser encarado com naturalidade. O Diário de Bridget Jones é voltado para um público feminino que aprende com ele a se comportar na situação em que uma outra mulher tenta beijar você, Bridget reage com calma e tranquilidade. Ela demonstra se sentir lisonjeada, mas que infelizmente ela não sente a mesma atração. Ela pede desculpas, como pediria a um homem que também estivesse interessada nela e o sentimento não fosse recíproco. Na outra ponta, em um filme voltado para garotos adolescentes heterossexuais cujo tema principal é perder a sua virgindade, o beijo entre dois homens é motivo de nojo, e só acontece por causa da possibilidade de participar da fantasia repetida exaustivamente do sexo com lésbicas. O que é ensinado é tenha nojo. Nojo de fazer, nojo de ver, porque aqueles que assistem em cena estão constrangidos, e o motivo para as meninas pedirem o beijo é apenas para humilhá-los também. O que se aprende é que aqueles que beijam homens devem ser humilhados e assisti-los se beijar é constrangedor ou motivo de piada.
De onde vem isso?, é a primeira pergunta, em seguida questionamos: existe uma diferença de preconceito para com lésbicas e para com gays? Na verdade não, mas existe sim uma diferença de lugar social. Os especialistas no assunto costumam explicar que lésbicas, como mulheres que são, foram colocadas pela indústria pornográfica como objetos de desejo. Orgias, menage à trois, fantasias de haréns que colocam o homem, garanhão, exercendo seu poder sobre um sem-número de mulheres ao mesmo tempo e sendo viril o bastante para dar conta de todas elas são temas frequentes dos filmes adultos. É daí que surgiu o prazer visual que homens heterossexuais aprenderam a sentir ao ver duas mulheres fazendo sexo. Eles sentem que serão convidados a qualquer momento para participar daquela situação e trazer seu poder sobre aquelas duas mulheres dando-lhes o falo que faltava aquela relação. A fantasia é de óbvia subjugação das duas, de controlar seu corpo e seu prazer porque somente o homem pode ter prazer através do seu pênis. Já do lado masculino, não preciso explicar de onde vem o nojo, o constrangimento, a humilhação não é?
Ah, mas isso não causa resultado? Ai entra o outro tema da minha postagem. Minha mãe estava sentada em frente a televisão quando a Sony exibiu sua chamada. Eu já tinha visto várias vezes antes, despertando em mim somente o questionamento de porque a relação entre o beijo feminino e masculino são distintas (obrigado Sony, btw), mas ela não havia percebido, foi quando ela reparou dois homens se beijando. A reação foi imediata.
- Que pouca vergonha é essa dentro da minha casa?!?
Eu me assustei. Ela estava alterada.
- Desligue a TV! Mude de canal! Eu não quero nada disso dentro da minha casa!
Eu estava paralisado. De susto.
- Mude de canal imediatamente.
Eu não fiz nada, foi tudo muito rápido, e eu somente entendi o que estava acontecendo minutos depois. Ela bufava. Eu não discuti, mas também não mudei de canal, deixei lá onde estava, e ela, sei lá, esperava uma discussão comigo que não veio. Mas levantei, vi que era hora de dar-lhe o remédio, dei, e disse que precisava ir em casa tomar um banho.
Deixei-a sozinha em casa, mas vejam: ela não viu as mulheres se beijando. Não causou nenhuma reação nela, e minha mãe não assiste, acho eu, filmes pornôs, o que significa que este estrago causado pela indústria de filmes adultos já é tão profundo que alcançou a minha mãe tornando-a insensível ao beijo feminino, mas ainda capaz de demonstrar tanta revolta com um beijo entre homens (se vocês estão preocupados comigo, não fiquem, eu nunca namoro, lembram? Não tem chance dela me ver beijando alguém em hipótese alguma), porém também existe uma outra opção: que essa permissividade com as lésbicas seja anterior à pornografia, que ela já tenha passado para o erotismo heterossexual como um todo porque já existia antes, mas de onde? Historicamente, inclusive, a homossexualidade feminina tem sido bem mais perseguida que a masculina, forçada sobretudo a uma invisibilidade social com o silenciamento de suas protagonistas, o que não aconteceu com os homens que se dedicaram ao amor que não pode ser nomeado, como dizia Oscar Wilde, afinal ele não podia ser nomeado, mas não impediu que o próprio Wilde escrevesse a maior carta de amor da história. É uma questão de o ovo ou a galinha, quem veio primeiro: a permissividade com as lésbicas ou a pornografia?

domingo, 28 de dezembro de 2014

Presença de Anitta

, em Natal - RN, Brasil




No início de dezembro, a funkeira Anitta e  a roqueira Pitty foram ao programa Altas Horas discutir sobre a notícia que 48% dos jovens acreditam que seja errado uma mulher sair sem o namorado. A discussão ficou polarizada: Anitta defendendo que as mulheres conseguiram os mesmos direitos (civis) e que agora querem tomar o lugar dos homens, se comportando como eles e impedindo que os "instintos masculinos" de proteger a mulher possam ser exercidos; e Pitty falando que estamos longe de conseguir direitos porque se alguém ainda pensa que um mulher não tem o direito de sair sozinha, as mulheres não tem, portanto, nenhuma igualdade com os homens. Eu, obviamente, apoio Pitty na discussão, porém eu entendo o lugar de onde Anitta fala.
Paulo Freire, o pedagogo, diz que o mais difícil em modificar uma sociedade é fazer o oprimido entender que o discurso do opressor não é verdadeiro. No caso, fazer Anitta reconhecer que ela está repetindo o discurso machista como se fosse dela. Que ela está repetindo o machismo e não nota. Que ela está tão imersa num mundo machista que ela passou a considerar natural, passou a considerar que este é o mundo real, as imposições que sua vida de oprimida faz contra ela. O controle do seu corpo feito por outros, o controle de suas ações ditado por outros, o controle de sua sexualidade definido de fora são realidades tão esmagadoras para Anitta que ela não consegue ver além. Te entendo, Anitta, vem cá para eu te dar um abraço.
Mas o que isso é interessante para gente? Não é muito diferente com inúmeros homens gays. Nós absorvemos o discurso de opressão também, isto é, a homofobia e a repetimos em nossa vida diária. Vejamos exemplos: todos lembram de Clodovil, não é? Clodovil nunca, em sua vida, assumiu ser gay, ele considerava isto algo de foro íntimo e sentia-se extremamente envergonhado quando era colocado contra a parede. Clodovil também afirmou em uma entrevista ter certeza que iria para o inferno e torturava-se costumeiramente por isso. Ele absorveu o discurso dos outros sobre ele e ninguém precisava lembrá-lo sobre seu pecado infame, o próprio Clodovil martirizava-se. Caso extremo? Mas bastante comum. 
Mas existem outros exemplos mais simples também. Como quando definimos um modelo de homem. Que ser homem significa ter barba, ser másculo, ter voz grave, etc. Nós repetimos um modelo de homem que nem é o do homem heterossexual já que vários homens heterossexuais são imberbes, podem ser mais delicados, podem ter vozes agudas, ou seja, criamos um modelo de homem que não é atingido por ninguém, nem os homossexuais, nem os heterossexuais, e forçamos as pessoas a seguirem este modelo, como também forçamos nosso cérebro a entender que este modelo é um padrão de beleza e, daí, surge a aversão representada pelo "não sou e não curto afeminados" dos aplicativos sociais. 
Nós absorvemos o discurso que nos oprime, a homofobia, e a aplicamos em nossa vida como se ela fosse real. O discurso do opressor torna-se aquele que define para você sua realidade. Se você não sabe se você absorveu a homofobia, façamos o seguinte teste:

1) O que é homofobia?
a) atacar uma pessoa, motivado pelo preconceito em relação a ser gay.
b) o preconceito em relação a gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.
c) a mesma coisa que machismo, só que para homens.

2) O que você considera um ataque homofóbico?
a) agressão física.
b) repressão/agressão verbal.
c) repressão/agressão verbal e agressão física.

3) O que é um homem?
a) o contrário da mulher.
b) uma criatura geneticamente definida por genes XY.
c) uma construção cultural.

Se você não marcou a terceira resposta em todas as perguntas acima, camarada, temo lhe informar que você foi dominado. E está na hora, tal qual a Anitta, de você começar a observar o mundo fora da sua caixinha. Sugiro uma viagem ou fazer uns amigos bem diferentes dos quais você tem convivido ou, quem sabe, seguir algumas dicas do Ken Hanes no seu Guia Prático para a Vida Gay. O livro é ótimo, pequeninho, e ele dá umas dicas bem interessantes, são 463 ao todo, eu escolhi algumas que podem ajudar nesta situação, como:

5. Convide um ativista da campanha de prevenção da Aids para almoçar com você.
17. No momento em que nossa cultura estabelece como ato de desobediência civil o fato de alguém confessar-se publicamente gay, ser gay é uma atitude política. Aceite, pelo menos por enquanto, a ideia de que seu comportamento sexual é uma espécie de militância.
18. Não deboche de drag queens, dos travestis e dos gays exageradamente frescos. Pense onde estaríamos sem eles.
85. Se você for vítima de agressão física, ou mesmo de insultos, reúna testemunhas, chame seu advogado, e mova um processo contra o agressor.
91. Quando passar por algum lugar onde um gay está sendo humilhado ou agredido, não finja que não viu nada, não banque o indiferente. Se não puder ajudá-lo pessoalmente, vá buscar ajuda, chame a polícia, faça qualquer coisa.
138. Os direitos gays são seus direitos. Faça tudo que estiver ao seu alcance para ampliá-los e reforçá-los. Apoie a causa.
142. Saiba que, ao iludir as pessoas, tentando passar por heterossexual, estará sinalizando para o mundo que não é uma boa coisa ser gay.
170. Não confunda masculino com macho.
189. Se você acha os outros gays muito chatos, olhe-se no espelho. Procure descobrir as coisas de que você não gosta em si mesmo e está vendo neles.
268. Não esconda de crianças que você é gay.
334. Procure enturmar-se com pessoas de várias idades, com estilos de vida diferentes do seu. Pessoas diferentes de você podem enriquecer sua vida.
416. Nunca use as expressões "comportamento de homem" e "homem de verdade". É pura homofobia. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Ódio Praieiro

, em Natal - RN, Brasil
A praia da Pipa fica a, mais ou menos, duas horas ao sul de Natal, a precisamente 90,4 km de distância da capital, e é um pequeno distrito de Tibau do Sul que já foi vila de pescadores e agora reúne turistas europeus, hippies anacrônicos de toda a América Latina e uma atmosfera de resort mediterrâneo ou do filme Mamma Mia com a Meryl Streep (você escolhe a referência). As praias paradisíacas emolduradas por falésias coloridas, Mata Atlântica e saltos de golfinhos tem um único grande defeito: ela é, sem sombra de dúvida, a região mais antipática aos gays de todo o Rio Grande do Norte. É como uma ilha de heterossexualidade, o seu último reduto, no Estado dos índios bravios.
Avisei a Ronnie sobre isso, mas ele não acreditou. Ronnie é um amigo mineiro que agora vive na Bahia e me visitava por causa de um congresso, chegamos juntos a praia em uma noite de quarta-feira, era, de fato, um dia péssimo, mas ele queria aproveitar o que dava já que retornaria a terra de todos os santos ainda no fim da semana. Mas, apesar de ser quarta, havia muitos turistas, tanto brasileiros (ouvimos muito o sotaque paulista e carioca) e estrangeiros, muitas belezas também, dos tipos importados e nativos, mas nenhuma paquera ou olhares. Ronnie se decepcionou, mas como eu disse, parece que em Pipa é necessário deixar sua homossexualidade lá na entrada do vilarejo.
"Sério que eles não fazem?", ele perguntava. Eu contei-lhe que anos atrás tentaram abrir uma boate gay por ali e entre pichações com palavras de ódio e ordens para que deixassem a praia, um incêndio criminoso cujos autores nunca foram encontrados destruiu a boate na noite da inauguração. Eu conhecia as donas, na época, e elas fugiram apavoradas. E, sinceramente, seria um imenso acréscimo a noite de Pipa que, atualmente, não passa de uma rua estreita, com bares de música ao vivo, restaurantes de comida italiana  e creperias (nunca vi tantos concentrados em um espaço tão pequeno) e alguns poucos de comida regional. Conta-se de uma mítica boate, Calango's (sim, com apóstrofe, Natal sofreu uma praga que impregnou todos os nomes de casas noturnas e motéis com esta moda), que nunca saiu da década de 1980. E só. Não há muito o que fazer por lá.
Claro que durante o dia sempre podemos aproveitar a praia. Aproveitar as belas paisagens naturais, o mar intensamente verde e o sol que brilha sem trégua e, por trás dos nossos óculos escuros, observar os corpos dos surfistas tostando ao sol, dos nativos que nos servem cerveja barata nos bares com os pés na areia e camisetas coladas (obviamente nós escolhíamos os bares pela beleza dos garçons) e os turistas europeus que desfilam seus corpos em sungas minúsculas (Deus abençoe os italianos!). Também é possível aproveitar as aulas oferecidas por alguns dos nativos de surfe, standing up surfing e capoeira, curtir as pousadas e albergues ou aproveitar uma rede, inúmeras latas de cerveja e uma roda de amigos numa casa de praia. Você só não pode ser abertamente gay. Ai não pode.

domingo, 30 de novembro de 2014

O Ritual do Macho Man

, em Natal - RN, Brasil
Era tarde da noite já, eu voltava da igreja, havia pego o primeiro ônibus que me deixava mais ou menos perto de casa, isto é, uns 10 minutos de caminhada entre o ponto e a porta de minha residência por impaciência de esperar mais e, por isso, passei diante de um bar, como já havia feito milhares de outras vezes antes, mas desta vez, eu notei que um dos garçons reparou em mim. Ele era magro e alto, tinha uma bela bunda que se destacava dentro da bermuda jeans que eles usavam. Sim, ali naquele bar de esquina que ocupava parte da avenida com suas mesas, os garçons serviam os clientes de bermudas e chinelos. Ele tinha uns olhos verdes cor-de-mar, mas do mar de Natal, um verde pálido porque todas as cores aqui são meio pálidas, afinal o branco da luz do sol suprime tudo.
Eu, como não fujo de olhares, sustentei até ele baixar os olhos. Passei ao lado dele e ele estava de cabeça baixa, vencido no seu jogo de macho, mas percebo agora que não segui meus próprios conselhos para pegar hétero: fazer o papel da virgem constrangida que baixa os olhos e tem a face coberta pelo rubor da ingenuidade (eu, na verdade, nunca faço isso e depois reclamo que ninguém chega em mim, quando é que eu dou oportunidade para alguém? Se me interesso e a pessoa corresponde pelo menos com um sorriso, eu não fico esperando o outro agir, mas voltando...). Por curiosidade, dois paços a frente dele eu olhei para trás e ele me acompanhava e riu neste momento, comentando com o colega que estava próximo dele algo, mas somente quando viu que eu estava distante o bastante para não conseguir ouvir. Eles então riram juntos e o deboche seguiu-se de um assovio. E outro, e outro.
Caminhando, sem olhar para trás, eu fiquei pensando na lógica maluca dessas pessoas. Pelo menos comigo, homens não se sentem seguros a me insultar sozinhos, e muito menos para mim. Deve ser algo que faz parte do ritual de socialização do homem heterossexual (nunca participei dessas coisas, então, não sei se é): fazer uma piada para seus confrades sobre aqueles outros que estão, hierarquicamente, abaixo deles, no caso gays, mas também mulheres. Eu sempre penso que a piada não tem, de fato, o objetivo de ferir seu alvo, somente de reforçar os laços entre aqueles homens e o seu lugar como um igual dentro do grupo. Não que a piada deixe de ser homofóbica porque não tem o objetivo de atingir o homossexual, ela continua sendo porque seu núcleo é de que existe em homens mais homens e outros menos homens, cabendo ao primeiro o controle sobre o segundo tipo.
Por outro lado, a piada que eles resolvem fazer é flertar comigo. A visível timidez dele (ele baixou os olhos) é superada no instante em que ele consegue um amigo, coisinha típica de machos adolescentes, e aliado a um amigo ele pode assoviar para mim para todo o bar ver, para todo o bar ouvir. O comportamento é obviamente fundado em mais machismo. No conceito de que homem de verdade deve estar sempre sexualmente disposto e, aqui no Nordeste, isto inclui também "não negar fogo" caso uma bicha (moi!) se insinue. E não importa para eles se eu somente havia passado a caminho da minha casa, o mesmo imaginário que faz de todo homem heterossexual um garanhão disposto ao sexo faz de todo homem homossexual um promíscuo disponível para se tornar objeto (neste sistema todo homossexual é necessariamente passivo e quer ser dominado por um macho heterossexual). Como mulheres, nós existimos para sermos objeto de prazer do "homem de verdade", mas enquanto a elas cabe o dever de negar, em defesa de sua honra, até que o homem de verdade a seduza, aos homens gays, por definição homens sem honra, é inconcebível que recusem ao sexo independente de quem seja seu parceiro.
É uma lógica doente, sinceramente. Estes homens acreditam-se detentores de poder sobre o corpo tanto de mulheres quanto de homens gays, mas como reagir a isso? Nós, as vitimas? Ah, e antes que alguém diga que ele na verdade estava interessado, que era uma cantada: primeiro, você está sofrendo de Síndrome de Estocolmo, aquela em que os sequestrados/torturados desenvolvem sentimentos pelos criminosos que os agridem, por isso você não enxerga o machismo que te banha todos os dias; segundo, se ele tivesse somente interessado em mim, qual a necessidade do amigo participar do seu flerte? Ele apenas repetiu um ritual para reforçar os laços com os outros machos do bando que acontecerá novamente toda vez que algum viado ou qualquer mulher (que não seja ligada a ele por parentesco de primeiro grau, isto é, avós, mães e irmãs) passar na frente do bar; terceiro, bora largar esse romantismo?

domingo, 26 de outubro de 2014

Chistes Jocosos

, em Natal - RN, Brasil
Sabe o que é mais difícil de combater em relação a homofobia? As piadas! Os ataques físicos e morais, o preconceito segregacionista, o discurso de ódio disfarçado de liberdade de expressão, todos eles são fáceis de serem combatidos porque são quase palpáveis, mas o humor, ah, o humor, este por ser baseado em ironia e sarcasmo, figuras de linguagem que dizem aquilo que expressamente não quiseram dizer, este é difícil de combater porque seu autor sempre argumenta: "eu não disse isso!", e realmente não disse. Vejamos exemplos:
Danilo Gentili já tem sido um artista dos comentários preconceituosos, ele já agrediu negros, judeus, gordos, nordestinos, cubanos e homossexuais. O mesmo acontece há anos no Zorra Total, no humor do falecido Chico Anísio, e não era diferente dos Trapalhões ou da Praça É Nossa. Preconceito contra nordestinos não era o mote de inúmeros quadros destes programas? Negros e pobres não são ridicularizados constantemente? Ser gay não é desculpa para ser humilhado (lembrem-se de Vera Verão)? E lembrando o texto da lei: Lei Federal nº 7.716/1989, Artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".  
Estes programas tem sido criticados constantemente por causa de seus personagens caricatos e não é de agora, Mas nunca por homens de nossa elite (heterossexual, branca e morando no Sul-Sudeste), estes riem das piadas, mas negros, nordestinos, gays tem a percepção de o quanto aquilo é ofensivo porque aquilo ofende. Outras pessoas alcançam, no entanto, o sentido negativo das piadas sobre negros e nordestinos, elas conseguem se colocar no lugar do outro, mas o público gay não despertar a mesma empatia, e por quê?
Primeiro, a inexistência no texto da lei da expressão "orientação sexual ou de gênero"e não torna crime incitar homofobia (e, por acaso, também não é crime discriminar mulheres), e é exatamente por causa disso que ninguém percebe sua existência. Pessoas fazem piadas de cunho homofóbico e não a reconhecem como tal porque INCITAR e INDUZIR não são crimes, para as pessoas apenas a discriminação clara ou a agressão física direta podem ser considerados homofobia. Olha o que aconteceu esta semana:
Eu acompanho o site Omelete há alguns anos. É um site sobre quadrinhos, cinema e mundo geek (que por sinal é um dos ambientes mais homofóbicos que eu conheço, os geeks, não o Omelete), eles tem um canal e um programa no Youtube, OmeleteTV. E, num dos últimos programas, eles encerram o programa dizendo que "se você gosta de peitinho, ou se você tem peitinho, assine o canal", critiquei-os via Twitter, e eles tentaram argumentar que já fizeram programas sobre a presença gay nos quadrinhos, que eles são contra a homofobia, etc., mas a prática são piadas como esta (O mesmo apresentador também criticou Espartacus por causa da presença do nu masculino na série tanto quanto existe nu feminino, enquanto elogia Gotham por causa do affair lésbico no passado das personagens Montoya e Barbara, isto é, homem nu não pode, mas mulheres se pegando sim). 
Não duvido que o pessoal do site realmente não enxergue isto como homofobia, mas o que eles não entendem é que ele estava claramente convidando somente homens heterossexuais e mulheres para assinar o canal, como isso não é a exclusão de um público dado sua orientação sexual?  Eles não enxergam, e acredito que nenhum homem heterossexual veria nesta frase discriminação afinal ele foi incluído, somente quem ficou de fora percebe o que aconteceu, mas não devo acusar os membros do Omelete de homofobia, no máximo de falta de empatia, como homens brancos, heterossexuais que vivem em São Paulo é difícil se colocar no lugar do outro.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Preconceito Bipolar

, em Natal - RN, Brasil
Tem coisas neste nosso mundo gay que eu não entendo como ainda acontecem. A gente está ai, quase na segunda década do século XXI, e eu ainda tenho que escrever texto sobre o preconceito que homens gays tem dos bissexuais. Sabe?, para mim, é simplesmente absurdo, tanto quanto a homofobia internalizada e o preconceito contra efeminados, os motivos são tão óbvios que devíamos estar focando em combater o porque disto existir e não gastar tanta energia repetindo discursos comprados. Último dia 23 foi o Dia da Visibilidade Bissexual, o dia foi criado em 1999, por três ativistas dos direitos bissexuais nos Estados Unidos, eles alertavam que depois de Stonewall, a comunidade gay e lésbica havia crescido em força e visibilidade política, enquanto o mesmo não havia acontecido, na mesma proporção, com a comunidade bissexual. Em muitos modos eles ainda continuavam invisíveis sobretudo porque quando vê-se um casal andando de mãos dadas tacha-se logo que os membros são ou héteros ou gays, dependendo do gênero que percebe-se das pessoas, nunca imagina-se que algumas daquelas pessoas possa ser bissexual. O evento foi concebido como uma resposta ao preconceito e a marginalização que pessoas bissexuais sofrem tanto das comunidades hetero como gay.
Repete-se, sobretudo no mundo gay, que os bissexuais são pessoas indecisas. Que não decidiram e que precisam fazer isto. A origem deste preconceito é bem clara, na verdade. Muitos meninos gays adentram na vida homossexual assumindo uma imagem bissexual porque acreditam que assim, entrando aos poucos, digamos, eles são menos gays. Acreditam eles que por mais que se envolvam com homens, na verdade eles gostam mesmo é de mulher, e conseguem, nesta fase de transição, aceitar o rótulo de bissexuais, afinal estes são ainda homens de verdade porque esta terrível categoria (e isso é deliciosamente irônico) é sempre aquela definida por causa das mulheres que existem em sua vida. O preconceito gay se baseia neste personagem: o homem gay cheio de preconceito contra si mesmo que assume o rótulo de bissexual para ser menos gay. Este problema existe, é real!, e precisamos lidar com ele ao discutir o preconceito homossexual com este grupo com o qual dividimos nossa sigla política. Para boa parte da população gay, todo homem bissexual é na verdade um homossexual que está enganando sobretudo a si mesmo. 
Mas a realidade é muito mais complexa. Não existem somente estes dois blocos antagônicos de sexualidade, a heterossexualidade e a homossexualidade. Citando a escala Kinsey, entre os dois estava exatamente a bissexualidade. Existem pessoas sim que se interessam por ambos os gêneros e que não estão mentindo para si. Existem homens e mulheres que se sentem atraídos tanto pelo seu mesmo gênero quanto ao seu oposto. Eles existem e cabe a nós aceitá-los, mas também cabe a nós criar um ambiente livre de homofobia que não faça com que um homem gay se sinta mais confortável definindo-se como bissexual do que como gay, que ele se sinta mais seguro mantendo uma relação com mulheres somente para não sentir-se um não-homem. É necessário para combater o preconceito contra bissexuais combater a definição de homem, raiz da homofobia, que define este ente como aquele que tem relações sexuais com mulheres. Quanto mais distanciarmos a definição masculina desta relação sexual com o gênero oposto (o que também causaria uma bem-vinda redefinição do que é ser gay para além do ato sexual)  e também afastarmos a imagem negativa dos gays e lésbicas, os jovens não precisarão utilizar o rótulo bissexual para suportar a sua transição de saída do armário. 
Toda a questão se resume, principalmente quando pensamos na invisibilidade bissexual (questão que eu não imaginava que existia, mas faz muito sentido), a uma definição que é absolutamente necessária para que abracemos a diversidade sexual humana com toda a sua gama de possibilidades. Desde já temos que ter a consciência que o fato de um homem fazer sexo com outro homem, namorá-lo ou mesmo amá-lo não o faz necessariamente gay, como o fato de um homem fazer sexo com uma mulher, namorá-la ou amá-la não a faz heterossexual, porque ser gay, ser hetero ou ser bissexual precisam ser definidos para além da relação que a pessoa tem com outras pessoas, isto é, para além de um rótulo externo, para serem definidos, em contrapartida, para as identidades que construímos interiormente. Somos gays, heteros ou bissexuais porque nos identificamos assim, esta identidade sexual, como a identidade de gênero, não podem ser construídas através de símbolos externos. Tendo esta consciência é preciso adotar o exercício de somente definir pessoas depois de conhecê-las realmente, o problema do preconceito é que ele sempre pressupõe coisas antes de realmente perguntar e isto sempre causará problemas. Precisamos de parar de ter preguiça para conhecer as pessoas no lugar de jogá-las dentro de nossas gavetinhas de gays, heteros ou bissexuais, somos mais do que isso, felizmente!








terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Filho Viado

, em Natal - RN, Brasil
- O que significa "discurso homofóbico", Foxx?
Perguntou meu pai, enquanto eu estava sentado no sofá cinza da sala dos meus pais.
- Significa ser contra gays.
Eu respondi, sem me alongar muito na questão. Eu também já estava me levantando para sair, eu precisava voltar para casa porque já era tarde. Devia ser quase 23h da noite e eu faço minhas orações sempre as 23:30h. 
- E quem seria a favor dos gays? - perguntou minha mãe - Nenhum deles presta!
Ela falou olhando nos meus olhos, em tom de ataque.
- Eu presto. 
Sorri para ela. Intocado pela raiva que ela me lançava.
- Você não é gay.
- Sim, eu sou, mãe. E não adianta você dizer que não sou. Tentar negar isto.
Eu peguei minha bolsa no sofá e coloquei no ombro.
- Eu não coloquei no mundo nenhum viado, Foxx. Filho meu não é gay!
Disse ela de voz alterada.
- Então eu acho que nasci de chocadeira.
Eu encerrei a discussão, girando nos meus calcanhares, para ir embora. Ela gritou ainda:
- Eu não tenho filho viado!
- Sua opinião foi registrada.
E eu caminhei pela garagem escura sozinho.


P.S.: Esta é a septigentésima postagem. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Esse Pajubá É Odara!

Neca (pênis), ocó (homem), picumã (cabelo), equê (mentira), aqué (dinheiro), aquendar (pegar), por exemplo, são expressões comuns no mundo gay brasileiro e são palavras em iorubá, a língua trazida pelos negros da África Centro-Oriental, mas que hoje habitam, principalmente, a Nigéria, Benin, Togo e Serra Leoa. Hoje, no seu continente de origem, a maior parte da população é católica, mas algumas também são islâmicos, sendo 1/4 de sua população ainda voltada para sua religião primitiva que aqui no Brasil se cristalizou de duas formas: a Umbanda e o Candomblé. 
Reginaldo Prandi, sociólogo paulista, afirma que o culto dos orixás em suas várias formas (Candomblé baiano, Xangô pernambucano, Batuque gaúcho, Tambor-de-Mina maranhense, Jurema potiguar), com exceção da Umbanda, pela dimensão kardecista-católica que impõe seu plano de moralidade, tem sido pelo menos desde os anos 1930 redutos de homossexuais, sobretudo aqueles de classe mais baixa e negros. Apesar disto, a maior parte dos pesquisadores sobre o tema mantiveram em segredo esta participação ou, quando consideravam, diziam que este terreiro estava culturalmente decadente. Contudo, esta é com certeza uma opinião destes sociólogos que deixavam seus preconceitos interferirem em sua relação com os seus objetos. Prandi, no entanto, afirma que nenhuma instituição no Brasil, afora o culto dos orixás jamais aceitou o homossexual como uma categoria que não precisava esconder-se, anulando-o enquanto tal, até meados do século XX, aquando do surgimento das igrejas evangélicas inclusivas. Esta aceitação, nas palavras do sociólogo paulista, demonstra como esta religião vê este mundo, mesmo quando, no extremo, trata do mundo da rua, do cais do porto, dos meretrícios e portas de cadeia, o homossexual como um marginal que era no início do século XX estava integrado a esta comunidade. 
Participar deste grupo voltado ao exercício da fé tinha suas vantagens. Era um ambiente lúdico, reforçador da personalidade, capaz de aproveitar os talentos estéticos e individuais e, também, permitir mobilidade social e acumulação de prestígio, coisas pouco ou nada acessíveis aos homossexuais no início do século ainda mais quando se é pobre, negro ou mestiço, migrante e pouco alfabetizado. Mas, mesmo assim, qualquer adepto gay ou não poderia exercer um cargo sacerdotal, tornar-se mãe ou pai de santo, sem esconder sua inclinação sexual. Ao contrário, ela pode servir para legitimar sua preferência ao cargo, pois homossexuais, segundo o candomblé, são seres que tem seu ori (cabeça, destino) controlado por um orixá de gênero oposto ao dele (isto é, homens controlados por uma orixá feminina, mulheres controladas por um orixá masculino). Além disso, se não fosse pouca coisa, as religiões dos orixás liberam os indivíduos e também libera o mundo. Ele não tem uma mensagem dizendo que as experiências carnais neste mundo são cercadas por pecado, muito menos ela espera que as pessoas sejam salvas de algum inferno pelos seus atos.
São estes homossexuais que frequentadores dos guetos onde os veados (sim, ainda veados, não gays, em um próximo texto eu explico essa diferença) brasileiros viviam até o fim da década de 1980 introduziram a língua de sua religião dentro daquele outro grupo e fundaram uma língua nova, um sub-dialeto pertencente a um sub-grupo cultural. 
É ai que somos apresentados a palavras como edi (cu), odara (bonito), amapô (mulher), cafuçu (homem bruto), ebó (oferenda), alibã (policial), axó (roupa), azuelá (ser ativo), todo o pajubá (língua), que surgiu para que este grupo pudesse se proteger, não ser entendido mesmo, uma língua secreta que os protege, principalmente os travestis. Otí (bebida), xanã (cigarro), pemba (cocaína), erê (criança), uó (ruim), aló (lésbica), ocan (bunda) são símbolos de resistência. Relegados aos guetos, esta linguagem passava a ser um instrumento de unidade entre os falantes que mesmo não participando da mesma concepção de sagrado (nem todo gay ou lésbica é participante de alguma religião de orixás) pertenciam a um mesmo grupo que sofria perseguição. Astor Vieira Junior, linguista bahiano, ainda afirma que homossexuais e negros compartilham o fato de sofrerem com a intolerância. Excluídos socialmente, sobretudo os de menor poder aquisitivo e educacional, a língua iorubá garantiu um espaço existencial protegido para estes viverem suas diferenças.
Penso como Vieira Jr, além de proteger seus usuários, este código é responsável pela transmissão de uma cultura e a produção de uma identidade social de seus falantes. É por isso que afirmo que ser gay é uma identidade cultural, além de fazer sexo com alguém do mesmo sexo, ser um homem gay ou uma mulher lésbica é compartilhar de uma cultura, um conhecimento, uma linguagem que o torna membro do grupo, parte de uma comunidade.




sexta-feira, 16 de maio de 2014

Retractus

, em Natal - RN, Brasil
 
Retractus é o nome deminha primeira exposição que está em cartaz (se usa em cartaz para exposicão?)
na galeria do IFRN Cidade Alta (o Instituto Técnológico do Rio Grande Do Norte) até dia 30 de maio. O nome vem do latim, é o particípio passado de Retrahere, que quer dizer sair para fora. É isto o que esta exposição quer dizer. São desenhos que estavam guardados desde 2011 que agora saem para fora para encontrar o público. Para serem vistos.



O tema da exposição é a linha. Eu sempre fui apaixonado pela linha, desenhar sempre foi para mim uma mágica criada pela ponta do lápis e aquele traço que ela fazia. E, com isso, eu decidi desenhar homens. Homens para mim são o melhor exemplo para explorar a linha. Os traços de seus rostos, os músculos de seus corpos, os pêlos de suas peles são oportunidades perfeitas para fazer a linha, como protagonista, brilhar!



Além disso, praticamente como um efeito colateral, a discussão sobre homofobia também tornou-se um tema que transpassou a própria exposição. Dia 17 de maio é o Dia Internacional de Combate a Homofobia, em homenagem à retirada da Homossexualidade do rol de doenças em 1990. Esta coincidência bem vinda me fez também notar que ao colocar os desenhos de corpos masculinos na galeria eu obriguei as pessoas a verem o homem num papel reservado a mulheres: o de objeto digno de admiração.

 

Durante a história da arte recente, o corpo masculino foi distituído de toda possibilidade de beleza enquanto o belo foi associado à mulher. A exposição então discute homofobia quando reloca o homem ao lugar que atualmente é ocupado pela mulher, discute sobre o papel masculino, sobre o que é belo e obriga aquele que observa aos desenhos a enfrentar seu desconforto de encontrar beleza no homem. As pessoas que têm visitado a exposição demonstram em seu rosto o incômodo de terem que lidar com a beleza onde não acham possível existir.

 


 
PS: Todos os desenhos estão a venda e custamR$ 15.00.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Brasil, Qual o Teu Negócio?

, em Natal - RN, Brasil


No início do mês de Março o Institito Geledés, uma organização não-governamental, publicou uma pesquisa sobre a violência motivada pelo preconceito no Brasil. Eles levantaram os 10 piores estados para ser negro, mulher e homossexual no Brasil. A pesquisa se deu relacionando os dados de diversos institutos federais como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)  e outras ongs como o Grupo Gay da Bahia. O quadro formado é aterrador, porém nada surpreendente. O Norte e Nordeste do Brasil, apesar da imprensa sempre destacar os grandes centros como os locais mais perigosos para as minorias, são sem dúvida os campeões em violência, com exceção do Espírito Santo, que é o estado com mais crimes contra mulheres (a cada 100 mil mulheres, 11 são assassinadas) e o segundo em crimes motivados por racismo (a cada 100 mil negros, 65 morrem por racismo). Existem outros estados como Goias, que aparece nos mapas de racismo e de crimes contra a mulher, o Distrito Federal que amarga um sexto lugar em relação ao racismo, o Rio de Janeiro que está em décimo na mesma listagem, e o Mato Grosso que aparece na listagem como perigoso para mulheres e para homossexuais, mas todos os outros estados pertencem, no entanto, às regiões Norte e Nordeste. Como eu disse, nada surpreendente.
O Nordeste, região mãe do Brasil, é o berço da família tradicional brasileira. Foi aqui que gestamos nosso racismo à brasileira, nossa miscigenação entre senhores de engenho e escravas que evoluiu para o mito de uma democracia racial que, no fundo, sempre esperava que com o passar do tempo a população se tornasse cada vez mais branca; foi aqui que criamos senhorinhas casadoiras que enfeitavam salões com suas aulas de piano e nenhuma formação profissional, nosso machismo que relega as mulheres a um gineceu analfabetizado e a impossibilidade de ascensão profissional com exceção de profissões como enfermagem ou educação infantil, para as bem educadas (observação: todas as minhas tias são enfermeiras ou pedagogas), ou lavadeira, diarista ou puta para as mais pobres; e também é daqui o sistema de dominação machista que instituiu os amigos de pancada que rapidamente ascenderam para o troca-troca infantil, que todo homem nordestino faz porque "menino brinca com menino e menina brinca com menina", o qual se transforma rapidamente, na cabeça deste jovem educado neste tipo de sociedade, para o conceito de "Homem Que Faz Sexo Com Viadinhos", bem comum em todo o universo latino, mas característica importante da sexualidade masculina no Nordeste brasileiro.
Foi este mesmo Nordeste, com estes valores, que colonizou o Norte do país. São três grandes momentos de migração de nordestinos para a Amazônia, primeiro no século XIX, entre 1870 e 1900, por causa da descoberta dos seringais pelos ingleses; depois em 1940, estimulados por Getúlio Vargas e a corrida armamentista americana que também necessitava da borracha brasileira; e, por fim, em 1960, com a política da Ditadura Militar de "Integrar para não entregar" que rasgou a floresta com imensas rodovias, patrocinadas pela Ford americana, sobre sangue e suor nordestino. Estes homens foram para a floresta e deixaram lá os preconceitos que trouxeram consigo de suas terras de origem. A relação simbiótica entre a Amazônia e o Nordeste só é rompida com as recentes migrações, desde 1970, de fazendeiros da região Sul que têm ocupado o Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e alcançaram, acompanhando a ampliação da fronteira agrícola, a floresta tropical.
Contudo, quando falamos da população gay e os crimes cometidos motivados pela homofobia (seja contra gays ou não) se espalham por todo o país de forma democrática (para abusar da ironia). A pesquisa no entanto se detém somente aos assassinatos com motivação homofóbica, e não a qualquer crime de motivação homofóbica (como agressão verbal, discriminação, ameaça ou assédio moral, o que é um imenso problema de metodologia da pesquisa porque eles definiram errado o que é homofobia a priori) e todo o país se comporta igualmente. Segundo os dados da pesquisa, o ranking com os 10 estados mais perigosos para ser gay no Brasil são:

1) Pernambuco, com 34 homicídios em 2013.
2) São Paulo, com 29 homicídios.
3) Minas Gerais, com 25 homicídios.
4) Bahia, com 21 homicídios.
5) Rio de Janeiro, com 20 homicídios.
6) Paraíba, com 18 homicídios.
7) Mato Grosso, com 16 homicídios.
8) Paraná, com 15 homicídios.
9) Rio Grande do Norte, com 15 homicídios.
10) Alagoas, com 14 homicídios. 

Os números parecem pequenos e são se pensarmos que a população de homossexuais em todo o Brasil é, estima-se, de 10% da população, o que daria por volta de 20 milhões (o que corresponde ao estado de Minas Gerais). A perda de 207 em um conjunto de 20 milhões é de 0,001%, contudo não falamos de objetos em um conjunto, mas de pessoas. O problema, de fato, é bem maior entre negros e mulheres no Norte e Nordeste, porém se lembrarmos que mesmo com países como Uganda que estabelecem pena de morte para homossexuais e países como a Rússia que proibiram "propaganda em prol de homossexuais", nós, o Brasil, somos o país que mais mata homossexuais no mundo - entre os 210 países do mundo, 40% dos assassinatos de homossexuais foram realizados no Brasil - isto se torna preocupante. Nós temos sim um problema. A violência brasileira (o crime, o tráfico, os assaltos e até mesmo o trânsito) matam mais do que as guerras civis que acontecem em países como Angola e Sérvia; e os assassinatos de motivação homofóbica no Brasil matam mais do que os países que definem que a homossexualidade é punível com pena de morte. Eu pergunto: o que nós temos de errado?
E não é o que nós temos de errado atacando lésbicas (ah, essa estatística não inclui estupros corretivos), gays e travestis (por falar nisso, eu conheço três que foram assassinados), mas o que nós temos de errado atacando outro ser humano e tirando-lhe a vida? O Brasil tem uma das maiores populações carceirarias do mundo (em 2010 havia cerca de 500 mil detentos, segundo o IBGE) e, ironicamente, em nosso país, somente 8% dos casos de homicídio são solucionados pela Polícia, mesmo com a maior parte dos assassinatos acontecerem entre pessoas que se conhecem (80% dos casos, segundo o Instituto Sou da Paz). Existe uma cultura brasileira, ainda, que resolver seus problemas através da morte do seu adversário é, simplesmente, admissível. Brigas de trânsito, discussões entre vizinhos, disputas entre jovens por namoradas, qualquer coisa é um motivo para sacar uma arma (um vizinho, quando eu era criança, uma vez sacou uma arma para que parássemos de jogar bola na frente da casa dele, o filho caçula dele matou uma desavença com a mesma arma anos mais tarde). Que espécie de país é este? Sempre repito que o Brasil é um país de brincadeira, que em algum momento alguém vai levantar e gritar "É brinks!" e vamos descobrir que nada disso é real, que o dinheiro roubado pelos políticos corruptos está guardado em algum lugar, que os assassinos e as vítimas são atores interpretando papeis, que as obras abandonadas estão funcionando atrás de um tapume com uma pintura super realista. Porque se o Brasil é um país sério, de verdade, gente, vamos fazer as malas e migrar para a Argentina porque o problema aqui é insolúvel! E, estrangeiro, não venha para a Copa, sua vida não vale este risco!

sexta-feira, 14 de março de 2014

Homofobia Nossa De Cada Dia

, em Natal - RN, Brazil
Nos idos dos anos 2000, eu começava nos meus primeiros exercícios de pesquisa histórica, com um trabalhinho de umas trinta páginas, era um artigo sobre a moralidade na Grécia Antiga, através dos mitos gregos. Eu tinha meus nada saudosos dezoito anos e diálogava com importantes historiadores franceses no texto e o apresentei para o professor de História Antiga, chefe do laboratório de arqueologia da UFRN, à época.
Ele leu e marcou um conversa comigo, numa tarde, no laboratório, sentamos naquelas bancadas cercados de material lítico como pontas de flecha, raspadores e machadinhas, cerâmica indígena pré-histórica e histórica e louça portuguesa e inglesa do século XVII e XVIII. Alguns alunos limpavam pedras recém trazidas de uma escavação e as tombavam quando ele começou a conversa elogiando meu conhecimento dos mitos gregos e, para um calouro, afirmou: 
- Você sabe que já tem uma monografia pronta para a conclusão do seu curso, não sabe?
Eu não sabia. Ele havia riscado todo o texto que eu entreguei para ele. Setas, comentários, perguntas pintaram de azul todas as páginas, ele começou com um sorriso no rosto, citando um trecho do meu texto, que terminava afirmando que os gregos eram antropocêntricos. 
- São mesmo? Quem disse?
- Os livros...
- Não confie em afirmações como essas, Foxx, elas são simples demais e essa simplicidade sempre esconde motivos escusos.
Eu me assustei, ele continuou suas críticas até que, um dos pontos era as definições morais do relacionamento entre homens no mundo grego, e ele parou e me olhando nos olhos, perguntou:
- Por quê, quando você fala do relacionamento entre homens, em nenhum momento você usa a palavra amor? Não existe amor entre homens ou ele é diferente do que acontece entre homens e mulheres?
Aquela pergunta me pegou de surpresa e me fez ver um preconceito que na época eu não sabia o nome. No mundo homofóbico em que eu fora criado, em que bichinhas servem para aliviar o desejo dos grandes machos heterossexuais, mas nunca são objetos de amor; na minha inocência adolescente que não sabia que o mundo é muito maior do que minha experiência na periferia de Natal, eu não sabia que estava transportando para um período histórico a homofobia no qual havia sido educado. 
Eu não sabia o que responder para o professor. E ele começou um discurso sobre o amor e preconceito e  sobre o ofício do historiador e nosso pecado capital, o anacronismo. Eu nem tentei balbuciar uma pergunta. Eu estava chocado com minha impossibilidade de pensar que dois homens poderiam se amar. Estava assustado com meu preconceito. Mas quando nossa conversa terminou e ele pediu algumas alterações no trabalho. 
- Você tem condições de focar nos mitos de apenas uma cidade, por exemplo, Tebas?
Eu aceitei o desafio, mas sai do laboratório disposto a vencer outro trabalho hercúleo: decidi dali em diante, agora que estava ciente de sua existência, extirpar todo o meu preconceito que existia dentro de mim.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Homens de Barba

, em Natal - RN, Brazil



Para quem não sabe, eu uso barba faz muito tempo. Na verdade, eu poderia dizer que sempre usei já que sendo meus pêlos faciais daquele tipo que cresce muito rápido, eu nunca pude curtir um rosto lisinho desde minha adolescência. Tirar a barba para mim sempre significou ficar com o rosto verde pelo resto do dia e antes de adormecer, já precisar tirar a barba de novo. Foi essa exigência diária que me fez adotar a barba como parte do meu visual, que aconteceu juntamente quando eu assumi a calvície, eu pensava: "Já que não tenho cabelos na cabeça, talvez a barba compense de alguma maneira". Isso, definitivamente, não agradou de imediato. Eu sofri preconceito de gays e héteros (que ironicamente concordavam na crítica: eu não era homem o bastante para usar barba), mas, logo, veio a explodir a moda hipster, com suas camisas de flanela xadrez, óculos vintage inspirados na década de 1980 e um visual desleixado com cabelos compridos e barba por fazer. A haute couture também ajudou durante os fins da década de 2000, modelos com barbas por fazer frequentava desfiles e logo estes pêlos vistos como falta de cuidado com a aparência tornaram-se moda, in, e as mesmas pessoas que me olhavam torto, além de me concederem elogios, agora tentavam cultivar seus pêlos faciais, os mesmos que combatiam a sessões à laser ou torturantes depilações com cera ou pinça. 
Como a barba tornou-se popular, então, minhas fotos com ela também passaram a ser curtidas. É interessante observar isso também. Eu tive um Fotolog anos atrás, que também era uma rede social que se baseava em curtidas e comentários sobre as fotos, aquelas que eu tirava com barba era com certeza menos curtidas do que as que eu fazia logo após afeitar-me. Contudo, de uns tempos para cá, tanto no Facebook e depois no Instagram (que fiz minha conta não faz um ano), tornou-se comum minhas fotos serem cobertas de elogios em relação a barba. São meninos recém saídos da adolescência, borbulhando com o fetiche daddy; aproveitadores que acham que tenho cara de suggar daddy, ursos e chasers, entre outros, mas, recentemente, um grupo muito estranho tem, principalmente no Instagram, curtido meus auto-retratos, que agora são chamados de #selfies. Estes postam fotos de homens barbudos e de camisetas com frases do tipo "se seu pai não tem barba, você tem duas mães" ou "se torne homem, deixe a barba crescer". Eu me assustei por diversos motivos, mas dois são os mais graves: homofobia e racismo.
1) Homofobia. Homofobia significa, na verdade, não o preconceito contra gays, como se popularizou, o preconceito é apenas o resultado da homofobia, mas ela se caracteriza pelo ato de forçar um modelo de homem para ser seguido pelas outras pessoas. Seja este modelo de comportamento afirmar que homem não chora, que é homem é sempre mais forte, que homem gosta de futebol e que homem só se sente atraído sexualmente por mulheres. No caso que analisamos aqui, então, quando se levanta a bandeira de que homem de verdade é um homem com barba se constrói mais um modelo de homem para ser seguido e novos preconceitos homofóbicos são construídos e disseminados como se este mundo já não tivesse o bastante. Eventos como o #BarbaDay no Twitter, inúmeros Tumblrs dedicados a homens com barbas, postagens no Facebook afirmando que a existência ou não de pêlos no rosto de alguém torna este ser humano especial. Tudo isso uma bobagem sem tamanho e, o mais perigoso, uma bobagem homofóbica.
Qualquer um pode considerar que levar essas "piadinhas" sobre a barba a sério é que é a verdadeira bobagem, mas um garoto de 8 anos de idade, em São Paulo, foi espancado pelo pai até a morte porque não queria cortar o cabelo curto "como um homem de verdade" (veja a notícia aqui), o cabelo curto foi definido como o cabelo masculino exatamente como hoje se define que a barba é o suprassumo da masculinidade humana: a moda assim decidiu e nós admitimos como uma verdade universal, a história, todavia, está ai para provar que décadas atrás o bigode era o grande exemplo de masculinidade, depois a depilação total e a jovialidade e ambiguidade sexual decorrentes entraram na moda, agora é a vez da barba, mas estes processos cíclicos que sempre começam dentro do mundo gay não passam de modismos que mudam ao sabor dos ventos da próxima temporada. 
2) Racismo. Além deste problema homofóbico que a elevação da barba do status de fetiche para símbolo da masculinidade do macho humano, como a juba de um leão ou a cauda de um pavão, existe o detalhe racista que passa desapercebido. Existe uma gradação entre os amantes de barba que vai daquelas barbas mais fechadas, ditas completas e sem falhas (prestem atenção nos adjetivos que levam para o sentido de perfeição) para as mais ralas (barbas falhadas) e os imberbes. Entre estes pogonófilos, aqueles sem falhas são superiores e, não por acaso, são os homens brancos aqueles que, normalmente, apresentam estes tipo de pêlos no rosto. Negros, ameríndios, orientais, hindus, mongóis (talvez a única exceção sejam os árabes) não possuem a barba perfeita. Eu não acredito em coincidências (desconfiar é um excelente exercício intelectual, vocês deveriam tentar!), por isso eu desafio qualquer um a procurar nestes grupos e comparar a quantidade de fotos compartilhadas de homens brancos versos aqueles de outras etnias, inclusive os árabes. 
Observação: Eu sei que, agora, todos vão lembrar que conhecem alguém que é negro ou de ascendência japonesa, por exemplo, aqui no Brasil, que tem uma barba fechada. Lembrem que no Brasil nós temos uma miscigenação imensa, poucos brasileiros não são mestiços, e isso transfere para um indivíduo características genéticas dos diversos grupos étnicos ao mesmo tempo. Porém, os grupos que divulgam fotos do tipo "Faça amor, não faça a barba" não utilizam fotos de modelos brasileiros, não é? 
Conclusões. Para mim, no fim das contas, elevar o homem barbado ao lugar de destaque da masculinidade humana é, além de forçar violentamente mais uma imagem aleatória de homem como um modelo a seguir, cristalizar no imaginário coletivo a figura do homem branco como o ápice da sociedade humana (já que o homem seria melhor que a mulher e o homem branco melhor do que todos os outros homens) e, sinceramente, não precisamos de mais disso. Já tivemos um nazismo uma vez, e ao contrário da barba, ele está definitivamente fora de moda.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Mais Discreto, Mais Discurso de Ódio

, em Natal - RN, Brazil



Outro dia no Facebook um amigo mostrou uma postagem deste blog aqui: Mais Discreto. Eram postagens intituladas "Gay: Estou ficando muito afeminado (sic), o que fazer?" e "Dicas de como não ser um gay afeminado (sic)". As dicas propostas pelo blogueiro que assina Gay Discreto são coisas como não gesticule (pobres italianos); não ande rebolando (me ofendi com esta porque tenho uma má formação no quadril que me faz andar rebolando); não demonstre que é fã de uma banda ou cantora (será que pode torcer por time de futebol?); não sente de forma irregular (não tenho ideia do que seja isso); seja discreto ao ver um homem bonito (é para matar de rir!). Ele também tem uma página no Facebook com 269 curtidas, em que as postagens do blog são divulgadas, mas que também membros da página marcam encontros entre "machos discretos" que terminam com a frase: "Não curto afeminados (sic), nada contra". Li então a descrição do blog e o rapaz mostrava toda a sua boa vontade: "Att: Não tenho nada contra gaus afeminados (sic), esse blog funciona apenas como auto-ajuda para quem precisa ser discreto". Eu, sinceramente, fiquei revoltado!
É muito preconceito junto e que o Gay Discreto obviamente não entende o tamanho do mal que está provocando. Um mal digno de Marco Feliciano, arrisco-me dizer! No entanto, apesar dele acreditar que não há nenhum tipo de preconceito no blog (por acaso ele acha que as dicas dele são baseadas em pesquisas da Organização Mundial de Saúde?), os comentários chegam a doer no coração. Tem comentarista psicólogo: "Vou sofrer mais preconceito, discriminação, pra arrumar emprego é difícil, pra arrumar uma pessoa legal é difícil. Um gay afeminado (sic) ele não é que nem qualquer outro, ele quer chamar atenção devido a sua carência e vontade de aparecer mais que os outros". Tem pastor: "Uma gay afeminada é ridicula, tosca, palhaça, ele próprio fere sua dignidade ao ser afeminado (sic), e você vem falar que isso é preconceito? Ser afeminado (sic) é feio e deve ser repreendido SIM!!". Tem o direto: "Existe os gays e as gays. Que bom se todas as gays tivessem vergonha na cara e se comportassem como homem, pq os gay não renegue seu sexo! Ser afetado é feio e falho!". PS: Só para registro, segundo a política do Blogger os comentários são de responsabilidade do autor do blog também.

Tome Jeito de Homem

Começo minha crítica pelo mais óbvio: qual, pelo amor de Deus, o problema em ser efeminado? Qual o problema com o feminino? O que tem de tão ruim em ser comparado a mulher? Mas, além disso, ser efeminado é um conceito que somente existe porque nós temos um modelo do que significa ser homem. E homem significa ser homem heterossexual. Significa comportar-se como um homem que se sente atraído por mulheres. Mas o que é isso? O que é um Homem? Sendo preconceituoso ao nível deste blog eu diria que seria ter uma voz grave, uma postura viril e máscula, gostar de futebol e gostar de mulher. Falarei apenas de dois deles para o texto não ficar muito longo. Tratemos primeiro da voz, de um elemento genético. Homens, seres portadores dos cromossomos X e Y, tem até quatro tipos de voz: as graves (baixos), as médio-graves (barítonos), as agudas (tenores) e as muito-agudas (contra-tenores). Estes timbres vocais existe porque cada homem tem uma formação única de garganta, das pregas vocais e sua capacidade respiratória. Então não existe isto de voz de homem. Não existe uma voz masculina e sim vários tipos que vão do mais grave a uma voz quase feminina (o Kurt, de Glee, é um contra-tenor, por exemplo). 
Sobre a postura viril e máscula, sobre como é se comportar como homem, falamos agora de um elemento cultural. O que é caracterizado como uma postura masculina em uma cultura é distinta em outra, e se pensarmos isto dentro da História podemos enxergar os comportamentos mais dispares do que o que consideramos hoje como uma postura masculina. Exemplos pipocam: homens russos beijam-se na boca quando se encontram, homens árabes andam de mãos dadas pelas ruas, homens brasileiros apertam as mãos e dão um tapinha nas costas quando se encontram, americanos apenas apertam as mãos, japoneses não tem nenhum contato físico. Homens já foram proibidos de pisar na cozinha de casas, eles depois passaram a cuidar das crianças, hoje existem homens que ficam em casa enquanto suas esposas trabalham fora. Então, se a diversidade é a única regra, porque insistir em um modelo do que é um homem? Quem tem o direito de dizer que tal ato é ou não masculino se todos eles são decididos de modo completamente arbitrário?

De Boas Intenções, o Inferno Está Cheio

Minha segunda crítica tem a ver com os objetivos deste moço, o Gay Discreto. Ele afirma que quer ajudar quem é efeminado, mas qual a diferença da ajuda que este blogueiro presta daquela que a Marisa Lobo, a psicóloga cristã, oferece a todos os gays? Fico preocupado com as pessoas a quem ele atinge, as feridas psicológicas que ele pode criar em jovens adolescentes que procuram na internet respostas para suas angústias ou em homens gays que sofrem preconceito e não tem ideia dos direitos que possuem. O Gay Discreto é um porta-voz da homofobia que recebemos da nossa sociedade e que redirecionamos para o grupo que, afinal de contas, mais nos representa, pois se encaixa mais no estereótipo. Dentro do nosso grupo este preconceito funciona como um escudo que nos protege de ataques porque atacamos primeiro o membro do grupo que é mais visível e o abandonamos ali, ferido, para que os predadores se detenham nele e nos permitam seguir em frente. O blog Mais Discreto ensina somente isto: ataque a gazela mais fraca e deixe-a para os leões.
Se ele pretendesse, de fato, ajudar estas pessoas que são efeminadas e o procuram através do e-mail (é assim que o blog dele funciona), o caminho deveria ser, primeiro, reforçar a auto-estima destas pessoas. Mostrar que apesar do preconceito, que não obstante ter todo o mundo contra você todos os dias de sua vida, que elas também têm valor, o que passaria, sem dúvida, por combater os comentários que dizem que efeminados não têm educação, ou postura, que são ridículas e desagradáveis, entre outros adjetivos. Deveria ele desmistificar e desmentir as coisas que são ditas e fazer, principalmente, não que o homossexual efeminado mude, mas aqueles que têm preconceito, que não dão o emprego, que não namoram, que não aceitam, mudem suas posturas. 
Em segundo lugar, o blogueiro deveria mostrar os direitos que as pessoas têm em seus ambientes de trabalho, escolas, etc. Conscientizar. Se alguém sofre preconceito por ser efeminado, seja gay ou não (e, provavelmente, o Gay Discreto não sabe que também existem homens heterossexuais efeminados), deve buscar na justiça as medidas cabíveis para o caso. Diversas cidades e estados brasileiros já têm leis e delegacias especializadas para lidar com este tipo de crime, e ajudar alguém a superar o preconceito não é ensiná-la a se esconder para evitar tornar-se um alvo, é demonstrar como se proteger através dos artifícios legais que temos a nossa disposição tal como a denúncia, por isso termino este texto convidando todos vocês a denunciar o blog por discurso de ódio ao Blogger, basta clicar  aqui, e todos nós fazemos nossa parte.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Entre o Fetiche e o Mundo Real

, em Natal - RN, Brazil



Esta é Madonna causando escândalo de novo. Aos 55 anos,  a Sra. Cicconne está namorando um garoto (um dançarino) de 26 anos. Isto bastou, obviamente (e fico muito infeliz por usar este advérbio aí), para causar "confusão e gritaria" nas redes sociais. Muitos aplaudindo, outros (e esta a grande maioria) criticando a Rainha do Pop. As críticas se baseavam na premissa de que mulheres não podem/ não têm o direito de namorar homens mais jovens e, muito menos, usá-los como boy toys. Exatamente como homens têm feito desde (principalmente) quando os yuppies ascenderam socialmente em meados da década de 1980. Foram eles que inventaram o homem poderoso que demonstra o quanto venceu na vida através do seu carro, de suas roupas de marca e jovens mulheres que são trocadas quando ultrapassam os 25 anos, ou seja, inventaram Hugh Hefner, dono da Playboy, e suas coelhinhas. Criticavam Madonna sobretudo porque ela já deveria ser uma mulher casada, uma senhora respeitável, e que não devia mais se exibir com garotos por ai que ela joga fora após sugar-lhes a vida.
Discutir o quanto existe de machismo neste discurso é, obviamente, chover no molhado, não é? Além disso o querido @BrunoEtilico já fez isso no Os Entendidos. Agora o que eu me vi questionando é o quanto este discurso sai da boca de homens gays e como eles se veem presos em duas opções radicalmente distintas de comportamento: apoiar aqueles que tem boy toys e execrar os homens mais novos que tem relacionamentos com homens mais velhos.  O primeiro ponto se deve a educação machista que recebemos. Homens são educados a ver beleza na juventude, mulheres são educadas a verem segurança na maturidade. Os homens gays então são educadas e bombardeados o tempo todo com modelos de beleza que envolvem o corpo jovem. Veja as revistas masculinas voltadas ao público gay publicadas no Brasil, desde a Júnior até a GMagazine. É um desfile de corpos jovens e até mesmo na categoria fetiche em que o daddy seria permitido, já que os lolitos são comumente retratados, os homens que aparecem em fotografias como daddies nunca tem mais que 35-40 anos. É o limite gay: um homem só pode ser bonito até seus 35 anos e, somente, para aqueles que tem um certo fetiche. A beleza acaba aos 30. Sendo assim, é natural, que um homem na casa dos 30 anos se interesse por jovens entre 18 e 25 anos. Na verdade, ele é estimulado. 
Claro que não para ter um relacionamento! Porque o jovem, e essa é a ironia, entre 18 e 25 anos é um garoto que ainda tem muito o que aprender com os homens que passaram por entre as pernas dele, mas para divertir-se, ou seja, boy toys, eles são absolutamente perfeitos. Os lolitos são um fetiche comum e socialmente aprovado. Sim, porque existem fetiches que são aprovados e outros que não podem nem ser mencionados. Quantas vezes ouvimos que homens musculosos são perfeitos e pessoas que gostam de homens gordos são reprimidas ao falarem? Quantas vezes é socialmente permitido dizer que se tem fetiche por homens fardados enquanto o travestismo é enquadrado como uma doença mental pela Organização Mundial de Saúde? Mas e quanto os homens que se sentem sexualmente atraídos por homens mais velhos, os daddies?
Ai está um grande problema no mundo gay. Existem inúmeros padrões que não podem ser rompidos (ironicamente num grupo formado a partir da contra-cultura punk). Não se pode ser gordo, não se pode ser efeminado, não se pode envelhecer. Estes são os três pilares da beleza gay inventados pela revista Advocate. De fato, o mais engraçado é que em 1991 uma revista americana definiu que este era o padrão de beleza que os gays deveriam seguir e eles, calados, obedeceram sem pestanejar. Dirão que foi culpa da AIDS, eu digo: "me poupe"!. Nós, gays, somos um grupo que levanta a bandeira da diversidade. Nós dizemos o tempo todo, somente por existir, que modelos não podem ser impostos para as pessoas porque elas não cabem neles, contudo empurramos um padrão de beleza que simplesmente não alcança os membros do nosso grupo. Eu poderia falar horas aqui sobre como é maldoso definir que homens gordos são feios somente por serem feios, como também como é extremamente maligno definir que alguém é feio somente porque é efeminado, mas vamos manter o foco: a idade não torna ninguém feio.
O grande problema que a comunidade gay tem, e isto é um fato, não um preconceito, é que este grupo (talvez por causa dos momentos em que sempre é destratado e sofre preconceito) tem uma grande necessidade de se afirmar. E, uma das formas de se afirmar, sobretudo entre os próprios pares é manter-se dentro daquilo que é aceito no grupo. Muitos malham somente porque os amigos malham, muitos usam a marca da moda, escutam a música da moda, vão aos lugares da moda para serem bem vistos pelo grupo, mas, também, a grande maioria sufoca seus próprios desejos para manter uma imagem dentro do grupo. É comum, entre gays, apesar do desejo de ficar com um homem mais velho, alguém que o conquistou, alguém que despertou seu interesse, alguém por quem ele se sentiu atração, preferir continuar ficando com os mesmos garotos imberbes que seus amigos ficam para não ser criticado. Eu até entendo! Já somos criticados em todos os lugares que chegamos, ainda seremos criticados pelos nossos amigos por causa do namorado/ficante que escolhemos? Muitos preferem o caminho mais fácil. Mas o preconceito cresce.
Não existe, na verdade, nada melhor em namorar/ficar com um homem de mais de 30 anos. Eles, quer dizer, nós não somos nada diferentes de garotos de 18 anos. Na verdade, eu conheço garotos de 18 anos mais maduros que muitos de mais de 30. Contudo, homens com mais de 30 anos não vão parecer com garotos de 18 anos. Nosso corpo muda, o de todos muda. O acúmulo de gordura abdominal é incontrolável, os cabelos e pêlos brancos nascendo pelo corpo são fatídicos, a preguiça de ficar na balada até as 6h da manhã e depois esticar para um after é real. Esta é a Casa dos 30. Você com certeza se divertirá mais com um menino de 18 anos e seu corpo no ápice do vigor humano e, se tiver sorte, este menino de 18 pode assinar a Carta Capital, ler Homero no original e viveu dois anos em um templo budista no Tibet. E, com o extra, de não vir com toda a bagagem que um homem de 30 anos sempre traz consigo. Porém, o pior, é ver que meninos de 18 anos e homens de 30 veem que aqueles que passaram dos 25 anos não são mais atrativos antes de conhecê-los. Primeiro por vergonha dos amigos (em ambos os casos), mas também porque neste mundo torto em que vivemos a capa sempre fala mais sobre o livro do que as linhas que estão escritas nele. Quantas estórias magníficas deixam de ser lidas/escritas/vividas por causa disso. É tão triste.   


PS: Acho que voltarei a postar, mas provavelmente serão textos como este, nada mais da minha vida pessoal. Não é porque eu não queira falar sobre minha vida pessoal, mas porque não existe nada nela digno de nota. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Simples Especialistas

, em Natal - RN, Brasil


Todo homossexual se acha um especialista em homofobia e se vocês perguntarem a qualquer um significado desta palavra, a resposta virá imediatamente (tentem!): "é o preconceito/ódio que os heterossexuais têm pelos homossexuais". Em ciência, sobretudo nas ciências humanas, para uma definição ser válida, todavia, ela tem que cobrir todos os aspectos do problema. Aí surge nosso primeiro problema: existem homossexuais homofóbicos também (e estes costumam ser os mais difíceis de falar sobre o assunto), não é um problema que existe somente dentro do grupo heterossexual. Se estes existem, então a definição não pode dizer que é um preconceito oriundo do grupo que é a maioria, heterossexual, em relação ao grupo minoritário. Concordam? Outro problema: a homofobia é uma questão de ódio pelos gays? É uma simples questão de lógica,  a + b = c, se afirmamos que existem homossexuais homofóbicos, esta pessoa seria alguém que odeia outros homossexuais e, portanto, também odeia a si próprio sendo então sempre uma pessoa que está dentro do armário, que sofre por não se aceitar, certo? Errado! Quando um homossexual não se aceita, esta situação é chamada de de conflito egodistônico pela psicologia e é causada pela homofobia, é resultado dela, não sua geradora. Esta pessoa é muito mais uma vítima do que qualquer outra coisa. Afinal é o fato dele viver em um ambiente que não aceita os gays que impede que ele se aceite plenamente. Trocando em miúdos, ele é fruto do seu meio.
Outra resposta comum é que a homofobia é uma agressão que uma pessoa, pensa-se sempre primeiro em um heterossexual, faz a outra pessoa que julga ser homossexual. Nesta explicação deveras comum a homofobia é uma ação. Ela só existe quando alguém é agredido, quando alguém sofre um ferimento. Alguns, poucos, ampliam dizendo que se a agressão for apenas verbal também existe homofobia, mas para a maior parte das pessoas para sofrer esta espécie de preconceito é necessário que se derrame sangue. Há uma linha invisível que separa o olhar ameaçador, os xingamentos na rua, a perseguição na calçada do primeiro chute que derruba um garoto que volta de uma boate no chão. Até o agressor tocar a vítima, este estava apenas expressando seu direito sagrado de liberdade de pensamento. Afinal, ninguém tem o direito de dizer o que ele deve pensar ou o que não pode fazer. Deus nos livre da censura! Aqui, a confusão se dá sobretudo por causa da definição de crime com motivação homofóbica, sobretudo o principal crime que se pretende punir legalmente com as leis anti-homofobia que é a agressão física e a construção da motivação homofóbica para assassinatos. Como o tema Homofobia tem sido explorado sobretudo neste aspecto jurídico, para muitos, criou-se a ilusão de que ele só existe também neste formato jurídico, e um crime só existe após ser praticado, e o crime que se quer punir não é a homofobia e sim a "agressão por motivos homofóbicos".
Outro problema da definição que os homossexuais especializados em homofobia têm nos dado é que os heterossexuais (pasmem!) também sofrem esta espécie de discriminação. E muito além dos casos que foram relatados pela imprensa como o pai que teve a orelha arrancada porque estava abraçado ao filho, ou dos irmãos que um foi assassinado porque voltavam abraçados de uma festa, meio bêbados. Heterossexuais sofrem homofobia quando um menino ganha uma bola e uma menina uma boneca, quando um bebê é obrigado a usar azul e outro rosa, quando uma menina tem a orelha furada e um garoto não pode chorar. É isso que os gays, em sua maioria, não sabem: a verdadeira definição de homofobia diz que ela acontece quando definimos um modelo para ser homem e um modelo para ser mulher, e todas aquelas pessoas que desviam deste padrão são, furiosamente, atacadas. É por isso que o pai e os irmãos foram atacados, por exemplo, homens não abraçam outros homens.
Segundo uma sociedade homofóbica, e que se entenda este adjetivo a partir de agora como: "uma sociedade que impõe uma forma de comportamento para homens e mulheres", um homem precisa ser másculo, forte, insensível, sem habilidades artísticas, pouco detalhista, bom motorista, hábil em atividades físicas como esportes, agressivo, sem vaidade, entre outras coisas, e, principalmente, o oposto disto é o que faz uma mulher. Qualquer um que se arrisque a caminhar no meio destas situações opostas é visto como desviante, desviado, viado. Um ataque homofóbico não acontece porque os heterossexuais odeiam os gays, acontece porque para algumas pessoas ser homem significa seguir um padrão exato de características, os homens que não seguem estas características precisam então serem violentamente reeducados para "virar homem", é isso que está por trás de ataques com lâmpadas fluorescentes nas ruas de São Paulo, dos estupros corretivos nas quadras de Brasília ou dos assassinatos de travestis nas pequenas cidades da Bahia. Existem pessoas no mundo que acreditam que existe um modelo correto de homem e outro modelo correto de mulher.
Então quando afirmamos que também existem homossexuais homofóbicos é porque também entre este grupo que é o mais perseguido pela homofobia existem pessoas que aprovam esta teoria que existe um padrão para ser homem e um padrão para ser mulher, e que inclusive modelam o seu desejo pelo mesmo gênero seguindo este padrão que é arbitrário, totalmente construído e, poderíamos inclusive dizer, artificial. Vejamos um exemplo: nos sites de relacionamento (Manhunt, Disponível, Grindr, Scruff) é comum encontrar a expressão "não curto efeminados" nos perfis. Esta afirmação por si pode não dizer nada, ela passa inocentemente por uma descrição de um gosto pessoal, contudo, geralmente, as pessoas que tentam explicar porque não gostam de efeminados costumam afirmar que "se quisessem mulheres, eles seriam heterossexuais". Só que esta pessoa efeminada é um homem, ele tem pênis, tem um gene Y herdado de seu pai, poderíamos inclusive supor que esta pessoa se encaixasse em todos os outros aspectos que citei sobre o que é ser um homem menos o aspecto da masculinidade, porém a ausência deste aspecto torna a pessoa incapaz de despertar interesse. Por que isso se dá?
A homofobia não aparece quando um homossexual não se excita por um homem efeminado, ela aparece quando este define o que é ser homem. Os homossexuais retornam para o modelo imposto pela sociedade heteronormativa e projetam seu desejo para aquele manequim construído com pedaços de pessoas para representar o tal ser masculino ideal. Todos, no fundo, procuram um príncipe, e este não foi criado dentro da própria cultura gay, este homem ideal ainda é o reflexo doentio do pai machista que os criou, o Homem com H maiúsculo. O combate a homofobia, portanto, não pode ser considerado como a luta pela aceitação de gays e lésbicas, nem tampouco apenas conseguir direitos, é a batalha pela diversidade. Combater a homofobia é lutar pela destruição destes dois modelos de comportamento (Homem e Mulher) e, com isso, aceitar que os seres humanos não podem ser classificados dentro desta gama dualista quanto suas identidades e seus gêneros. Masculino e feminino não podem ser definidos de forma tão simplista como Homem e Mulher.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Que Todo Cidadão Gay Precisa Saber

, em Natal - RN, Brasil


Vamos falar de política? Marina Silva e Heloísa Helena estão agora fundando um partido novo que tem como nome provisório Rede Sustentabilidade, no entanto, além de lançar uma nova moda para o nome dos partidos políticos brasileiros vejo nas duas um mais do mesmo entre os políticos brasileiros que sinceramente não me anima a votar. Para quem não lembra, ambas foram candidatas a presidência em 2006, Marina Silva repetiu o feito em 2010. As duas são egressas do PT e saíram em épocas diferentes, Heloísa Helena ainda durante o governo Lula (em 2003) em protesto ao que chamaram de "políticas econômicas neoclássicas" e Marina Silva (em 2009) desgostosa em relação ao desenvolvimento sustentável do país. Marina se uniu ao Partido Verde, então; Heloísa Helena ajudou a fundar o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).
Quando ambas se candidataram em 2006 eu pesquisei melhor sobre elas para ver o que elas prometiam em suas plataformas políticas. Afinal, como historiador que sou, é-me impossível votar em tucanos, havia algumas possibilidades de esquerda: Dilma com o PT, Marina com o PV e Heloísa com o PSOL. A primeira vista parecia uma excelente situação para qualquer pessoa que estava cansado de ver o governo brasileiro nas mãos constantes da oligarquia cafeeicultora paulista, contudo a análise mais superficial fez com que Dilma se tornasse, não a melhor opção, mas a única opção. 
Marina Silva foi a primeira que os movimentos LGBTs procuraram em busca de que ela tomasse alguma posição clara sobre políticas específicas para esta minoria. Ela fugiu da raia. Lembro perfeitamente de como militantes gays praticamente armavam tocaias para surpreendê-las e arrancarem afirmações, até que alguém conseguiu empurrar uma bandeira do arco-íris e Marina Silva afastou de si como se tocada pelo próprio demônio. A máscara então caiu. Evangélica, a candidata do Partido Verde estava muito mais preocupada com a salvação de sua alma ou com os votos de uma parcela extremamente conservadora da população para assumir qualquer compromisso com a comunidade gay. Marina, no entanto, foi obrigada a tomar uma posição que fosse e ela saiu com a bendita ideia de um pebliscito: a proposta de Marina Silva era que os direitos reinvindicados pela militância gay como proteção contra ataques de natureza homofóbica e discriminação de qualquer tipo; casamento civil igualitário e todos os direitos que advém do casamento, sendo, especificamente, a adoção de crianças por casais gays, fossem todos decididos por meio de uma votação "democrática". 
O problema da democracia é que ela não é o governo do certo, é o governo da maioria. Vamos criar uma suposição aqui: digamos que Silas Malafaia ou Marcelo Crivella conseguissem passar uma lei que propusesse um plebicito no qual todos os gays do país seriam deportados. Digamos! Isso, de fato, não é algo certo ou correto, expulsar alguém do seu próprio país, no entanto se o pleito tivesse um resultado positivo a proposta ela seria cumprida com a força da lei. E, como os gays, as pessoas que seriam prejudicadas diretamente, são uma minoria, e também são minoria os heterossexuais que apoiam cidadãos gays, o resultado final deste sufrágio seria, provavelmente, a aprovação com ampla maioria. Nestas situações, cabe ao Estado, não expôr a minoria a os leões democráticos, e sim protegê-la para que ela possa ter direitos iguais apesar de ser menor. 
Já Heloísa Helena deu mais sorte. Como a ex-ministra Marina era uma candidata mais forte, a militância gay correu para ela; mas ao ver que esta tinha as raízes dentro da neopentecostalismo, voltou-se para a terceira opção de esquerda, a professora, senadora de Alagoas, Heloísa. Contudo a bomba do aborto explodiu, jogada por Serra, tentando desestabilizar a campanha de Dilma. O assunto então esfriou e a pauta se voltou ao movimento feminista e a legalização do aborto. Em entrevista ao Jornal da Globo, em 31/08/2006, Heloísa Helena foi perguntada sobre o aborto e respondeu que era contra, dizendo: "Se alguém acha que ser de esquerda ou ser feminista é ser favorável ao aborto, então não me incluam, os aborteiros do país, na estrutura da esquerda". Isto apesar do programa do PSOL ser claramente a favor do descriminalização do aborto, programa este que Heloísa Helena ajudou a montar, afinal ela é uma dos seus fundadores. Sobre as políticas gays, no entanto, não houve nenhum registro, nenhuma manifestação positiva ou negativa, da parte da senadora, porém muitos disseram que ela era favorável porque também no programa do partido diz: "Combate à homofobia e à discrimianção e repressão policial e social motivadas pela opção (sic) sexual dos indivíduos". Evangélica, no entanto, motivo pelo qual a fazia ser contra as regras do partido sobre o aborto, ficou difícil para mim acreditar que ela também, por causa de sua posição religiosa, também não pudesse esquecer este trecho do programa partidário.
Agora em 2013, então, Marina Silva e Heloísa Helena abandonam seus respectivos partidos para fundar uma nova sigla. A Rede Sustentabilidade nasce num momento em que elas novamente se vêm em conflito com os partidos. Marina Silva viu sua imagem manchada pelos vereadores eleitos e a prefeita de Natal, Micarla de Souza, do PV. Marina exigiu sua expulsão do partido, não aceita pelos outros colegas, pouco tempo depois a própria Marina pediu seu desligamento a chapa. Heloísa Helena viu o PSOL, partido a qual fundou, se tornando o maior defensor da causa gay através da imagem de Jean Wyllys. A Rede Sustentabilidade começou com a proposta audaciosa de não aceitar nenhum inscrito no partido que tivesse sua ficha suja, isto é, que respondesse a algum processo na justiça; esta ideia já foi a primeira a cair. Vendido como a nova política brasileira, o Rede Sustentabilidade, contudo, não passa de um novo nome para o modelo ultrapassado que já vimos. Gente conservadora que finge ser de esquerda, igual ao meu pai. Não confio nenhum pouco nessas duas senhoras, mas agora você pode dizer que tudo isso é apenas daddy issues.