Cheguei a conclusão que nosso único problema, o único mesmo, a causa de todos os nossos males sejam eles sociais, políticos, religiosos e sexuais, absolutamente tudo!, é o analfabetismo histórico. Duvidam de mim? Vejamos alguns exemplos: o racismo. Se pretende resolver este problema a partir da exposição de uma igualdade baseada na Biologia/Genética, mesmo que isto não seja verdade. É visível que não somos iguais. Brancos, negros, índios, indus, orientais, árabes, judeus tem características físicas/genéticas que os diferenciam uns dos outros. Isto é um fato! Seja a quantidade de melanina, seja a suscetibilidade a algumas doenças. Somos sim diferentes! É preciso, na verdade, parar de jogar para debaixo do tapete esta realidade e começar a aceitar que a diversidade humana começa em nossos corpos. No lugar de ensinarmos que somos todos um, precisamos ensinar que todos somos diferentes, mas nem por isso merecemos ser tratados com desrespeito. O racismo se resolve facilmente quando reconhecemos que apesar de todas as diferenças nós, humanos, compartilhamos uma História em comum. Nós, brasileiros, americanos, europeus, africanos, asiáticos dividimos este planeta desde o começo do tempo. Porém se o conhecimento histórico fosse acessível a todos saberíamos que, neste mundo de meu Deus, nós fomos explorados igualmente explorados independente de nosso código genético. O problema definitivamente não está na inferioridade de alguns corpos, como os defensores da eugenia, de tempos em tempos repetem.
Outro exemplo? Eu poderia citar o papel ridículo da classe média brasileira pedindo o retorno da Ditadura Militar ou comparando o governo petista com um governo socialista. A falta de conhecimentos sobre o nossos governos ditadoriais ou sobre o que é socialismo me fazem quase chorar. De verdade! Posso também citar como os americanos elegem inimigos mortais a cada mandato presidencial. Inimigos que eram antes aliados, devo dizer. Clínton elegeu o Iraque; Bush, o Afeganistão; Obama, Irã e agora a Venezuela. Os americanos esquecem que seus presidentes só tem reais poderes em caso de guerra, que qualquer governador pode promulgar leis em sua federação, e portanto sem um inimigo (mesmo que imaginário) ele perde toda a utilidade. Se o conhecimento histórico fosse disseminado poderiam os americanos questionar o porquê de seu antigo aliado hoje é um inimigo. Hussein, os aiatolás afegãos, os fundamentalistas iranianos e até mesmo a economia venezuelana exclusivamente baseada em vender petróleo para os EUA e consumir seus produtos foram resultado de influência direta dos americanos.
Exemplos não se acabam. O fundamentalismo islâmico e evangélico é resultado direto também do analfabetismo histórico. Dos fiéis pelo mundo que não conhecem a verdadeira História do Alcorão e da Bíblia. Que não leem seus livros sagrados a partir do contexto histórico que os formulou. Que acreditam que porque este conhecimento fora revelado por Deus os homens que os escreveram estavam imunes ao tempo que viveram. O analfabetismo neste caso está relacionado ao desconhecimento de um dos conceitos-chave da História: historicidade. Nenhum homem é imune a seu tempo. Nem mesmo profetas, nem mesmo o messias. Ninguém pode existir neste planeta sem viver sobre as suas regras e uma delas é o tempo. Homens que vivem dentro de um mesmo tempo, educados dentro de uma mesma sociedade, socializados dentro dos mesmos conceitos, só conseguem pensar seu mundo dentro de um certo limite. Conceitos como ateísmo, amor romântico, infância, escravidão, saúde, natureza, entre outros, não são imutáveis. Eles dependem do tempo em que existiram para serem definidos e pressupor que nossos conceitos de hoje são os mesmos de autores que escreveram entre 2 mil e 1500 anos atrás é o maior crime que alguém que já teve uma aula de História pode ter: anacronismo.
O analfabetismo histórico, portanto, leva diretamente a este pecado. Leva a acreditar que o mundo sempre foi do jeito que ele é hoje. Faz todos acreditarem que as relações entre homens e mulheres são naturais. É daí que se origina o machismo, "os homens sempre dominaram as mulheres", que se origina a homofobia, "os homens de verdade sempre foram assim", que se origina as críticas ao casamento homoafetivo, "o casamento sempre foi entre homens e mulheres". Sem o estudo da História, com seriedade, como elemento de transformação social, nós estamos fadados a acreditar que o mundo nunca foi diferente do que é hoje, tanto para o bem, como para o mal. Sem esta consciência, repetiremos os mesmos erros incessantemente e não reconheceríamos sequer que aquilo é um erro porque não saberíamos que o diferente é possível. Sem aulas de História, sem aulas que ampliem a consciência de crianças e adultos para além da experiência imediata que nossos sentidos são capazes de fornecer não nos tornaremos nunca seres humanos melhores.
