Sempre que ouvimos ou lemos o mantra sagrado do machismo entre o meio gay, "não sou e nem curto afeminados", o argumento de que cada um tem o direito de direcionar seu desejo ao que melhor lhe convém sempre aparece. Contudo, eu me questiono: temos mesmo este direito? E, não pergunto se temos em teoria, mas se na prática somos realmente capazes de exercer tal direito ou somos, simplesmente, incapazes de tal feito.
É inegável que vivemos em um mundo machista e, portanto misógino e homofóbico. Todo adulto é um ser que foi criado em um ambiente que foi inundado de mais ou menos situações de preconceito que formaram seu caráter, sua forma de enxergar o mundo, seus medos e traumas e, apesar das pessoas fingirem que não aconteceu, também seus gostos. É durante sua formação como homem ou mulher adulto que um indivíduo aprende a gostar de legumes, ter medo de mariposas, votar no PSDB ou defender minorias, isso todos concordam, porém quando nos voltamos a formação do desejo amoroso/sexual esquecemos que ele também é moldado da mesma forma, e acreditamos piamente que ele advém de alguma ligação de almas inefável e impossível de ser analisada racionalmente (a maldita química).
Estamos acostumados a ter relacionamentos e amores impensados. Sobre os quais não dedicamos nenhum momento de reflexão e depois ficamos surpresos por não sabermos controlar uma paixão ou sofrer demais ao fim do relacionamento. Se alguém não sabe os mecanismos do seu próprio desejo como espera poder controlá-lo ao fim de um namoro? E um dos elementos que não questionamos é de onde vem a aversão aos efeminados.
Cada um precisa perguntar de onde vem sua própria aversão, mas alguns lugares comuns podem ser facilmente encontrados: 1) tem aquele cara profundamente no armário que teme ser visto com homens gays efeminados (ele também foge dos assumidos em geral) porque pode ser arrancado das sombras em que ele se esconde por associação (me diga com quem andas e te direi quem és); 2) tem aquele homem que vê o efeminado de si no outro, o que ele reprime poderosamente por medo de ser tratado diferente, a visão da liberdade daquele ser o ofende profundamente e, como reflexo, ele desenvolve a ofensa em forma de ojeriza; 3) tem aquele que criado sobre a sombra de um ideal de homem que não existe, educado para se tornar este exemplo de masculinidade e virilidade, experiência no qual ele próprio falhou por ser impossível, direcionou, inconscientemente, seu desejo para este personagem fictício e, agora, como quem procura entre pessoas reais um super-herói de quadrinhos, ele rejeita aqueles que não cabem no seu sonho de homem que ele deseja ser e incapaz disso o procura em outros.
Estes são alguns exemplos entre tantos outros. Mas, a pergunta que não quer calar, alguém pode desfazer estas programações? Na minha opinião a resposta é sim. Todos podemos e devemos desconstruir as programações que recebemos durante a nossa formação, basta para isso questionar nossos próprios desejos. Perguntar por que sinto isto, por que desejo aquilo, seja um objeto material, seja uma pessoa, nos garante que o desejo que está brotando em nós é nosso e não que foi plantado por outra pessoa ou mesmo pela máquina capitalista, isto é, o cinema, TV, a publicidade em geral, a moda. Entender que todos nós somos suscetíveis a este sistema que empurra-nos goela abaixo desejos é o primeiro passo para ser livre dele. O primeiro passo para ter a verdadeira liberdade, para gostar daquilo que gosto e não do que me foi ensinado a gostar, é questionar de onde os desejos vêm. Aviso que em um nível avançado você será capaz inclusive de escolher quando e a quem amar, mas tudo começa com o primeiro passo: tornar-se consciente de onde começa você e onde termina o mundo a sua volta (as fronteiras não são tão óbvias quanto parecem).












