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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Os Mestres Egípcios

, em Natal - RN, Brasil
Para mudar um pouquinho, e porque também não tenho nada o que escrever mesmo, mostro meus outros talentos. Os desenhos são todos meus, feitos com base nas ilustrações egípcias que decoram as paredes das pirâmides. E como aprender alguma coisa não faz mal a ninguém: é bom que vocês saibam que os egípcios não tinham deuses antropozoomórficos, isto é, com corpo parte animal, parte humana, estas imagens são palavras, na verdade. Um homem com cabeça de falcão é a palavra Hórus, uma mulher com cabeça de gato preto é a palavra Bastet, um homem verde (a cor da morte) é a palavra Osíris. Nenhum egípcio acreditava que Hator andava por ai com chifres de vaca na cabeça e o sol brilhando acima dela ou que Rá tinha um sol com uma serpente em cima de sua cabeça. Numa linguagem pictográfica é assim que se representava os nomes próprios, que se identificava um indivíduo único. A leoa unida a figura de Sekmet revela sua ferocidade, o chacal unido a Anúbis revela a sua ligação com os corpos em decomposição (já que o animal se alimenta de carniça). Agora, a pergunta que não quer calar é: quem foi o historiador idiota e preconceituoso que viu isso e imaginou deuses com cabeça de animais?


Sekmet, a poderosa, deusa da vingança.

Bastet, deusa da alegria, música e dança.

Hathor, deusa do amor e do nascimento.

Thot, deus da lua e da escrita.

Ptah, deus da sabedoria, ciência e arte.

Ra, deus criador do mundo, o sol ao meio dia.

Anúbis, deus que guia os mortos.

                                                               Osíris, deus dos mortos.

Nut e Geb, deusa do céu e deus da terra.

Ísis, deusa da vida e da fertilidade.

Hórus, deus do sol e da luz.

Seth, deus da magia, protetor contra o mal.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Júpiter Em Leão

, em Natal - RN, Brazil
Por algum motivo, Júpiter em Leão provavelmente, não é raro algum homem me adicionar no Facebook. Adicionam cheios de segundas intenções obviamente. Bonitos homens que chegam com conversas mansas, perguntando sobre minha vida, minhas preferências e minhas ideias. Por acaso, são realmente homens interessantes. Não todos, mas a maioria. Em um mês, por exemplo, teve um de nome francês, corpo de jogador de capoeira, cabelos com dreads e que havia viajado boa parte do mundo e me contava estórias da Nova Zelândia, Bélgica e Filipinas; teve um bancário, de roupa alinhada, sorriso perfeito e barba por fazer, amigo de um amigo, que perguntou tudo sobre mim ao nosso conhecido em comum e o fez ficar torcendo para que eu finalmente desencalhasse; teve um estagiário de direito, magrinho e com um sorriso lindo, imberbe, cujas roupas sociais ficavam grandes demais para ele, menos na mala; e o modelo, lindo!, de cabelo perfeito, sorriso perfeito, rosto perfeito, corpo perfeito, e que ao me encontrar me perguntou: "você me achou mais feio pessoalmente não foi?", e eu fui obrigado a dizer-lhe que, pelo contrário, ele era extremamente mais bonito pessoalmente que nas fotos que eu havia visto.
Sim, eu encontrei com todos eles. Sempre em uma quarta-feira. Meu único dia livre a noite. O primeiro me levou a um bar. Disse que achava que ele ia beber cerveja sozinho, mas que eu estava bebendo e ele já estava ficando tontinho. Conversamos sobre biologia, evolucionismo e criacionismo, sobre tipos de vozes masculinas. E eu sabia que ele não estava interessado por mim no instante que a conversa chegou a este determinado ponto:
- Os fonoaudiólogos dizem que se você não está satisfeito com sua tessitura vocal, (eu dizia) isto é, se você acha a sua voz fina ou grossa demais, é possível mudar. A minha já foi muito mais aguda do que agora, por exemplo.
- E você acha que a sua já está bom? Perguntou o garoto de nome francês.
E eu respondi: - Não, é aguda demais, eu sei, mas não me interessa mudar. Eu aprendi que eu tenho um dom, que nem todo homem pode alcançar as notas que eu consigo, comprometer esta habilidade porque eu não encaixo no fetiche dos viados desta cidade não está nos meus planos.
Ele mudou o assunto para a Dilma e o Aécio, e eu soube ali que não haveria um segundo encontro, apesar de bêbado ele ter mencionado que seria legal me ver cantar.
O bancário, numa outra quarta-feira, me convidou para tomar um açaí. Ele era lindo, não tão lindo quanto o francês, mas eu o encontrei numa lanchonete e comemos falando sobre o mundo gay natalense, sobre meus grupos de corais, sobre os amigos dele e nosso amigo em comum, ele pagou a conta no final com uma cara de culpado. Eu li nos olhos dele o seguinte quando ele pagou a conta: "Eu fiz ele vir até o outro lado da cidade para nada porque nem beijá-lo eu vou, vou pelo menos pagar a conta". E, o que eu achei bem honrado, ele mal esperou nos separarmos para mandar uma mensagem, via Whatsapp, dizendo: "Olha, eu nem sei bem como te dizer isso, mas você é um cara legal e não quero te dar falsas expectativas, mas não rolou química". Eu respondi com um tumbs up e um "de boa". E toquei minha vida.
Com o estagiário eu comi, também numa quarta, um sanduíche em uma lanchonete de rua.  Detesto praças de alimentação de shoppings, só vale a pena se o calor estiver infernal. Conversamos sobre o trabalho dele, ele perguntou sobre o que eu havia estudado, seus olhos brilharam quando eu falei que era doutor, ele perguntou sobre minha dissertação, minha tese e da experiência em Belo Horizonte (eu menti dizendo que tinha adorado tudo e que tinha sido um grande sucesso, para quê falar sobre meus fracassos, não é?). Ao sairmos para ir embora, ele parecia excitado sob a calça, o que confirmou depois pelo Whatsapp, vindo até minha casa dias depois para nos conhecermos ainda melhor, if you know what I mean. Chegou meio bêbado porque havia saído de uma festa com amigos e estava animado. Seu corpo branco e apertado era quente e macio. Mas, apesar de eu ter mantido contato, algumas semanas depois, quando eu enviei uma mensagem novamente o convidando para ele voltar aqui, ele respondeu: "Podemos ver isto sim, algum dia". Ok, né? Nunca mais voltou.
O modelo chegou atrasado quase uma hora quando marcamos. Ele mora longe, é verdade, e pediu mil desculpas dizendo que houve um acidente, implorou para que eu o desculpasse, e porque não né?, era quarta-feira e eu estava em casa sem fazer nada mesmo. Ele veio até perto da minha casa, na verdade, caminhamos juntos e ele falou sobre estudos, sobre planos para o futuro, fez perguntas indiscretas sobre minha situação financeira e quis conhecer minha casa. Eu não resisti. E ele explodiu sobre meu peito duas vezes sem se tocar. Foi lindo de ver. Ele era lindo de ver. Voltou outra vez, não ficou 1 hora comigo, e eu percebi que apesar de toda aquela beleza, ele, estranhamente, tinha muita vergonha do seu corpo, sempre pedindo que eu desligasse as luzes quando ele pretendia se despir. 



domingo, 25 de janeiro de 2015

Spice Your Life

, em Natal - RN, Brazil
Sabemos que o processo homossexual de assumir-se, o famoso sair do armário, pode ser bastante doloroso e traumático para várias pessoas, tanto homens quanto mulheres, seja o processo inicial de aceitar a si mesmo como diferente para a progressão (que se torna inevitável) de assumir-se para amigos, familiares e colegas de trabalho (normalmente nesta ordem). Inevitável porque após assumir-se para si, de forma plenamente satisfatória (sim, porque existem níveis de aceitação de si mesmo) tornar-se normalmente irritante continuar tentando se esquivar dos outros, em determinado momento qualquer um se cansa (o que muda neste processo é somente o tamanho da paciência de cada um). No entanto, para lidar com este processo, com os problemas que esta situação leva cada um a enfrentar, sobretudo o preconceito, os homens gays costumam ter cinco tipos de reações mais comuns. São normalmente processos bastante inconscientes de defesa que eles controem em torno de si para se proteger do mundo que eles consideram, no mínimo, perigoso porque os odeia. Cinco reações são as mais comuns e, coincidência ou não, podemos representá-las pelas cinco Spice Girls.
Se vocês não se lembram, as Spice Girls era um grupo de música pop inglesa, formado por cinco garotas que ffez muito no sucesso no fim da década de 1990. O grupo era formado por Emma Bunton, Geri Halliwell, Melanie B (Brown), Melanie C (Chisholm) e Victoria Adams (depois Beckham). Elas eram também conhecidas por seus apelidos: Emma era a Baby Spice; Geri, Ginger Spice; Mel B, Scary Spice; Mel C, Sporty Spice; e Victoria, Posh Spice. 

1) Baby Spice.

Emma era a mais jovem das Spices. Já muitos homens gays para reagir ao preconceito se comportam de forma infantil. Reagem aos problemas que lidar com sua própria aceitação causaram paralisando a vida deles numa eterna juventude. Irresponsáveis e imaturos, promíscuos também, dedicam suas vidas a noitadas intermináveis, drogas inúteis e bebedeiras homéricas. Não constroem nada, nem projetam nada para o futuro, tudo porque se viram tão privados de todas essas vivências em sua adolescência ou juventude - bloqueados porque temiam serem descobertos - que, tardiamente, precisam viver tudo isso com imenso afã. 

2) Ginger Spice.

Geri era a Spice sexy, e inúmeros homens gays reagem ao preconceito que minou sua autoestima superinflando-a. Eles pensam que todos os querem, que todos os desejam. Eles se consideram os homens mais lindos, mais gostosos, mais bonitos e mais interessantes de todos os lugares que estão. Irresistíveis, todos os homens, sejam eles gays ou heterossexuais, tem que desejá-lo. É uma reação clara de alguém que se sentiu tão inferior que ele se sente forçado a empurrar-se para o outro extremo, quanto mais ele sentir-se superior, quanto mais homens ele ter em sua lista, mas ele terá vencido sua própria história de vida.

3) Scary Spice.

Acredito este ser o tipo mais comum. Mel B, a negra, era a assustadora do grupo e aqui são os homens gays que saem armados todo dia de casa. Eles foram em suas histórias de vida tão agredidos que agora eles estão sempre prontos para uma briga, para um barraco, para o ataque. Também de gestos grandiosos, nada discretos, espalhafatosos, teatrais, eles montaram personagens que são difíceis de conviver porque é difícil assistir uma peça 24 horas por dia. Eles querem, com isso, exatamente afastar as pessoas antes que eles os machuquem. O objetivo aqui é assustar para longe da verdadeira e frágil pessoa que está embaixo da armadura. Tão feridos que foram, tanta luta pelo que já passaram, eles aprenderam a esperar somente o ataque e por isso atacam primeiro, seja em suas roupas, em seus gestos, em suas ações. Eles recusam-se, terminantemente, a ser novamente vítimas.

4) Sporty Spice.

Mel C deveria representar as meninas mais masculinas entre os personagens da banda, entre os gays esta se refere aqueles que mantém fixação com seus corpos. E sei que muita gente vai pensar nas barbies (os garotos malhados que dedicam horas nas academias para esculpir seus corpos), mas eu também incluo neste grupo os ursos (os gordinhos peludos) e os efeminados. Atacados em sua consciência de grupo, renegados por amigos, estes homens procuram um modelo físico que lhes garanta aceitação externa que eles não conseguiram antes ou que achavam não merecer. Desvalorizados, como eles se percebem, acreditam que a aceitação está em achar um modelo cujo qual eles possam reproduzir e, sendo igual aos outros, ele poderão finalmente ser aceitos por algum grupo e finalmente fazer alguns amigos.

5) Posh Spice. 

Victoria, que se tornou esposa de David Beckham, deveria representar as garotas fúteis preocupadas com suas roupas e representa também um grupo extremamente fragilizado em sua autoestima: aqueles que reagiram achando que basta cobrir-se de roupas caras, frequentar os lugares mais caros e mais badalados, conhecer as pessoas dos círculos mais ricos que ele seria recoberto com uma sensação de valor que sua história de vida negou-lhe. Protegidos pelo dinheiro, sobretudo, eles não seriam mais incomodados por aqueles que os faziam se sentir inferiores.


Não estou com isso cavando justificativas para aqueles que tem estes comportamentos, apenas reconhecendo que estes comportamentos são explicados por causa das trajetórias de enfrentamento que ser gay exige. Também, de forma alguma, pretendo dizer que todos os gays passaram por algum destes tipos. Absolutamente. Muitos superam os crimes que foram-lhes cometidos mais rápido, alguns, graças a Deus, nem tem problemas com aceitação de todos os lados, mas eu estou errado em ver estes tipos circulando por ai? Eu com certeza encontrei vários destes tipos pela minha vida, também admito que aqui em Natal, durante muito tempo, eu acreditei que a vibe Posh Spice era a única forma de sobreviver a cidade que eu vivo, mas graças a Deus, o amadurecimento me provou o contrário. E com vocês?

domingo, 18 de janeiro de 2015

Praga de Mãe

, em Natal - RN, Brazil

Na loja, minha mãe atende o telefone. É uma das irmãs dela. Uma das inúmeras tias que eu tenho e que nunca vejo porque meu pai fez questão de nos criar apartados do lado materno da família. Elas conversam sobre os filhos que estão se casando, sobre os netos que vem chegando. Minha mãe só tem netos tortos, isto é, os netos dela são dos filhos do primeiro casamento do meu pai. Ela ainda aguarda ter um neto dos seus próprios filhos.
- Não, ele não 'tá casado não.
Eu presto atenção a partir daqui na conversa.
- Ele 'tá sim aqui comigo. Agora está me ajudando aqui na loja.
Eu percebo que o assunto agora sou eu. E minha mãe não faz questão de esconder.
- Ah, o Foxx é que não vai casar mesmo. Este não casa nunca. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

Rotineiramente

, em Natal - RN, Brazil
Noite de segunda-feira, passei o dia no trabalho, na loja da minha mãe, arrumando cabides, limpando o chão por onde os clientes caminhavam, cheguei em casa às 20h e direto ao banho atravessei a casa. Tomei um banho rápido para tirar o suor e a poeira daquela loja que grudam como óleo, fiz um lanche de biscoito e iogurte grego e sentei diante do meu altar. Diante de Buda, Saint Germain e mestre Kuthumi, de Rá, Zeus, Apolo e Têmis, do arcanjo Miguel e Jesus Cristo, e também Palas Athena, Aéolo, Zé de Alagoas e Menininha, sobre uma almofada azul e fiz minhas orações.
Do lado de fora uma cachorra latia alto. Da casa ao lado, na vila em que moro, Vila Paiva, eu ouvia uma televisão ligada no que eu pensava ser alguma novela. Outros vizinhos brigavam, eu não reconhecia as palavras, mas somente um burburinho agressivo chegava até mim. Um liquidificador tocava sua música em algum lugar e meu gato, o Seth, estava ali deitado ao meu lado, alheio a tudo. 
As velas tremulavam a minha frente e eu tentava concentrar-me no fogo para visualizar a luz divina preenchendo meu corpo. Fiz meu ritual diário, que sempre faço a hora em que eu nasci, 23:30h, mais cedo porque o sono já me consumia. Terminei-o apenas para me jogar na cama e encerrar o dia aplicando reiki em mim e enviando para aqueles que já me pediram. Adormeci rápido e em exatas 12 horas eu já estava novamente de pé.
Era terça-feira, dia de trabalho, cheguei cedo a loja, para arrumar as bermudas nos cabides das araras, limpar o chão por onde os clientes caminham e...

domingo, 4 de janeiro de 2015

Sacro Ofício

Sou sacerdote. Dia 6 de dezembro, eu fiz meus votos:

"Salvar todos os homens
Renunciar aos maus desejos
Aprender todos os ensinamentos
Alcançar a perfeita iluminação".

Para quem não sabe, desde 2012, quando retornei a Natal, eu frequento uma igreja universalista, o Templo Universal Despertar. O templo me ajudou bastante num momento em que eu voltava para esta cidade para morrer, considerando que junto com meus sonhos destruídos, minha vida havia se extinguido, eu retornei para Natal para me fechar em uma espécie de túmulo. A convite de um conhecido, porque o grupo tinha um coro e eu queria continuar cantando, eu visitei o grupo pela primeira vez em uma sexta-feira em fevereiro e, ao me identificar com a filosofia de integração religiosa, patrocinada pela Fraternidade Branca, em que todas as religiões tem uma parcela da verdade e cabe a nós reunir esta verdade sobre Deus, eu passei a frequentar quatro vezes por semana a igreja durante todo aquele ano. Segunda, quarta, quinta e sexta. Esta foi minha rotina durante os últimos anos. Segundas, aulas espirituais; quarta, ensaio do coral; quinta, primeiramente desenvolvimento mediúnico, depois o ambulatório de terapias alternativas atuando como terapeuta reikiano; e sexta, no trabalho de desagregação da casa. E, durante, este ano de 2014, acrescentaríamos a esta rotina noturna também o noviciado de nossa igreja que consumiu vários fins de semana com aulas e ritos de inúmeras religiões. Dia 6 de dezembro, sob a lua de Sagitário, diante da vitória divina, eu finalmente pude fazer os votos, aprovado no curso. Sou agora um sacerdote. Ainda haverá muitas aulas a fazer, me torno um reverendo somente com três anos de muito estudo, mas agora encontrei um novo propósito em minha vida, é um novo recomeço, e sou um novo homem.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Presença de Anitta

, em Natal - RN, Brasil




No início de dezembro, a funkeira Anitta e  a roqueira Pitty foram ao programa Altas Horas discutir sobre a notícia que 48% dos jovens acreditam que seja errado uma mulher sair sem o namorado. A discussão ficou polarizada: Anitta defendendo que as mulheres conseguiram os mesmos direitos (civis) e que agora querem tomar o lugar dos homens, se comportando como eles e impedindo que os "instintos masculinos" de proteger a mulher possam ser exercidos; e Pitty falando que estamos longe de conseguir direitos porque se alguém ainda pensa que um mulher não tem o direito de sair sozinha, as mulheres não tem, portanto, nenhuma igualdade com os homens. Eu, obviamente, apoio Pitty na discussão, porém eu entendo o lugar de onde Anitta fala.
Paulo Freire, o pedagogo, diz que o mais difícil em modificar uma sociedade é fazer o oprimido entender que o discurso do opressor não é verdadeiro. No caso, fazer Anitta reconhecer que ela está repetindo o discurso machista como se fosse dela. Que ela está repetindo o machismo e não nota. Que ela está tão imersa num mundo machista que ela passou a considerar natural, passou a considerar que este é o mundo real, as imposições que sua vida de oprimida faz contra ela. O controle do seu corpo feito por outros, o controle de suas ações ditado por outros, o controle de sua sexualidade definido de fora são realidades tão esmagadoras para Anitta que ela não consegue ver além. Te entendo, Anitta, vem cá para eu te dar um abraço.
Mas o que isso é interessante para gente? Não é muito diferente com inúmeros homens gays. Nós absorvemos o discurso de opressão também, isto é, a homofobia e a repetimos em nossa vida diária. Vejamos exemplos: todos lembram de Clodovil, não é? Clodovil nunca, em sua vida, assumiu ser gay, ele considerava isto algo de foro íntimo e sentia-se extremamente envergonhado quando era colocado contra a parede. Clodovil também afirmou em uma entrevista ter certeza que iria para o inferno e torturava-se costumeiramente por isso. Ele absorveu o discurso dos outros sobre ele e ninguém precisava lembrá-lo sobre seu pecado infame, o próprio Clodovil martirizava-se. Caso extremo? Mas bastante comum. 
Mas existem outros exemplos mais simples também. Como quando definimos um modelo de homem. Que ser homem significa ter barba, ser másculo, ter voz grave, etc. Nós repetimos um modelo de homem que nem é o do homem heterossexual já que vários homens heterossexuais são imberbes, podem ser mais delicados, podem ter vozes agudas, ou seja, criamos um modelo de homem que não é atingido por ninguém, nem os homossexuais, nem os heterossexuais, e forçamos as pessoas a seguirem este modelo, como também forçamos nosso cérebro a entender que este modelo é um padrão de beleza e, daí, surge a aversão representada pelo "não sou e não curto afeminados" dos aplicativos sociais. 
Nós absorvemos o discurso que nos oprime, a homofobia, e a aplicamos em nossa vida como se ela fosse real. O discurso do opressor torna-se aquele que define para você sua realidade. Se você não sabe se você absorveu a homofobia, façamos o seguinte teste:

1) O que é homofobia?
a) atacar uma pessoa, motivado pelo preconceito em relação a ser gay.
b) o preconceito em relação a gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.
c) a mesma coisa que machismo, só que para homens.

2) O que você considera um ataque homofóbico?
a) agressão física.
b) repressão/agressão verbal.
c) repressão/agressão verbal e agressão física.

3) O que é um homem?
a) o contrário da mulher.
b) uma criatura geneticamente definida por genes XY.
c) uma construção cultural.

Se você não marcou a terceira resposta em todas as perguntas acima, camarada, temo lhe informar que você foi dominado. E está na hora, tal qual a Anitta, de você começar a observar o mundo fora da sua caixinha. Sugiro uma viagem ou fazer uns amigos bem diferentes dos quais você tem convivido ou, quem sabe, seguir algumas dicas do Ken Hanes no seu Guia Prático para a Vida Gay. O livro é ótimo, pequeninho, e ele dá umas dicas bem interessantes, são 463 ao todo, eu escolhi algumas que podem ajudar nesta situação, como:

5. Convide um ativista da campanha de prevenção da Aids para almoçar com você.
17. No momento em que nossa cultura estabelece como ato de desobediência civil o fato de alguém confessar-se publicamente gay, ser gay é uma atitude política. Aceite, pelo menos por enquanto, a ideia de que seu comportamento sexual é uma espécie de militância.
18. Não deboche de drag queens, dos travestis e dos gays exageradamente frescos. Pense onde estaríamos sem eles.
85. Se você for vítima de agressão física, ou mesmo de insultos, reúna testemunhas, chame seu advogado, e mova um processo contra o agressor.
91. Quando passar por algum lugar onde um gay está sendo humilhado ou agredido, não finja que não viu nada, não banque o indiferente. Se não puder ajudá-lo pessoalmente, vá buscar ajuda, chame a polícia, faça qualquer coisa.
138. Os direitos gays são seus direitos. Faça tudo que estiver ao seu alcance para ampliá-los e reforçá-los. Apoie a causa.
142. Saiba que, ao iludir as pessoas, tentando passar por heterossexual, estará sinalizando para o mundo que não é uma boa coisa ser gay.
170. Não confunda masculino com macho.
189. Se você acha os outros gays muito chatos, olhe-se no espelho. Procure descobrir as coisas de que você não gosta em si mesmo e está vendo neles.
268. Não esconda de crianças que você é gay.
334. Procure enturmar-se com pessoas de várias idades, com estilos de vida diferentes do seu. Pessoas diferentes de você podem enriquecer sua vida.
416. Nunca use as expressões "comportamento de homem" e "homem de verdade". É pura homofobia.