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domingo, 4 de janeiro de 2015

Sacro Ofício

Sou sacerdote. Dia 6 de dezembro, eu fiz meus votos:

"Salvar todos os homens
Renunciar aos maus desejos
Aprender todos os ensinamentos
Alcançar a perfeita iluminação".

Para quem não sabe, desde 2012, quando retornei a Natal, eu frequento uma igreja universalista, o Templo Universal Despertar. O templo me ajudou bastante num momento em que eu voltava para esta cidade para morrer, considerando que junto com meus sonhos destruídos, minha vida havia se extinguido, eu retornei para Natal para me fechar em uma espécie de túmulo. A convite de um conhecido, porque o grupo tinha um coro e eu queria continuar cantando, eu visitei o grupo pela primeira vez em uma sexta-feira em fevereiro e, ao me identificar com a filosofia de integração religiosa, patrocinada pela Fraternidade Branca, em que todas as religiões tem uma parcela da verdade e cabe a nós reunir esta verdade sobre Deus, eu passei a frequentar quatro vezes por semana a igreja durante todo aquele ano. Segunda, quarta, quinta e sexta. Esta foi minha rotina durante os últimos anos. Segundas, aulas espirituais; quarta, ensaio do coral; quinta, primeiramente desenvolvimento mediúnico, depois o ambulatório de terapias alternativas atuando como terapeuta reikiano; e sexta, no trabalho de desagregação da casa. E, durante, este ano de 2014, acrescentaríamos a esta rotina noturna também o noviciado de nossa igreja que consumiu vários fins de semana com aulas e ritos de inúmeras religiões. Dia 6 de dezembro, sob a lua de Sagitário, diante da vitória divina, eu finalmente pude fazer os votos, aprovado no curso. Sou agora um sacerdote. Ainda haverá muitas aulas a fazer, me torno um reverendo somente com três anos de muito estudo, mas agora encontrei um novo propósito em minha vida, é um novo recomeço, e sou um novo homem.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Presença de Anitta

, em Natal - RN, Brasil




No início de dezembro, a funkeira Anitta e  a roqueira Pitty foram ao programa Altas Horas discutir sobre a notícia que 48% dos jovens acreditam que seja errado uma mulher sair sem o namorado. A discussão ficou polarizada: Anitta defendendo que as mulheres conseguiram os mesmos direitos (civis) e que agora querem tomar o lugar dos homens, se comportando como eles e impedindo que os "instintos masculinos" de proteger a mulher possam ser exercidos; e Pitty falando que estamos longe de conseguir direitos porque se alguém ainda pensa que um mulher não tem o direito de sair sozinha, as mulheres não tem, portanto, nenhuma igualdade com os homens. Eu, obviamente, apoio Pitty na discussão, porém eu entendo o lugar de onde Anitta fala.
Paulo Freire, o pedagogo, diz que o mais difícil em modificar uma sociedade é fazer o oprimido entender que o discurso do opressor não é verdadeiro. No caso, fazer Anitta reconhecer que ela está repetindo o discurso machista como se fosse dela. Que ela está repetindo o machismo e não nota. Que ela está tão imersa num mundo machista que ela passou a considerar natural, passou a considerar que este é o mundo real, as imposições que sua vida de oprimida faz contra ela. O controle do seu corpo feito por outros, o controle de suas ações ditado por outros, o controle de sua sexualidade definido de fora são realidades tão esmagadoras para Anitta que ela não consegue ver além. Te entendo, Anitta, vem cá para eu te dar um abraço.
Mas o que isso é interessante para gente? Não é muito diferente com inúmeros homens gays. Nós absorvemos o discurso de opressão também, isto é, a homofobia e a repetimos em nossa vida diária. Vejamos exemplos: todos lembram de Clodovil, não é? Clodovil nunca, em sua vida, assumiu ser gay, ele considerava isto algo de foro íntimo e sentia-se extremamente envergonhado quando era colocado contra a parede. Clodovil também afirmou em uma entrevista ter certeza que iria para o inferno e torturava-se costumeiramente por isso. Ele absorveu o discurso dos outros sobre ele e ninguém precisava lembrá-lo sobre seu pecado infame, o próprio Clodovil martirizava-se. Caso extremo? Mas bastante comum. 
Mas existem outros exemplos mais simples também. Como quando definimos um modelo de homem. Que ser homem significa ter barba, ser másculo, ter voz grave, etc. Nós repetimos um modelo de homem que nem é o do homem heterossexual já que vários homens heterossexuais são imberbes, podem ser mais delicados, podem ter vozes agudas, ou seja, criamos um modelo de homem que não é atingido por ninguém, nem os homossexuais, nem os heterossexuais, e forçamos as pessoas a seguirem este modelo, como também forçamos nosso cérebro a entender que este modelo é um padrão de beleza e, daí, surge a aversão representada pelo "não sou e não curto afeminados" dos aplicativos sociais. 
Nós absorvemos o discurso que nos oprime, a homofobia, e a aplicamos em nossa vida como se ela fosse real. O discurso do opressor torna-se aquele que define para você sua realidade. Se você não sabe se você absorveu a homofobia, façamos o seguinte teste:

1) O que é homofobia?
a) atacar uma pessoa, motivado pelo preconceito em relação a ser gay.
b) o preconceito em relação a gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.
c) a mesma coisa que machismo, só que para homens.

2) O que você considera um ataque homofóbico?
a) agressão física.
b) repressão/agressão verbal.
c) repressão/agressão verbal e agressão física.

3) O que é um homem?
a) o contrário da mulher.
b) uma criatura geneticamente definida por genes XY.
c) uma construção cultural.

Se você não marcou a terceira resposta em todas as perguntas acima, camarada, temo lhe informar que você foi dominado. E está na hora, tal qual a Anitta, de você começar a observar o mundo fora da sua caixinha. Sugiro uma viagem ou fazer uns amigos bem diferentes dos quais você tem convivido ou, quem sabe, seguir algumas dicas do Ken Hanes no seu Guia Prático para a Vida Gay. O livro é ótimo, pequeninho, e ele dá umas dicas bem interessantes, são 463 ao todo, eu escolhi algumas que podem ajudar nesta situação, como:

5. Convide um ativista da campanha de prevenção da Aids para almoçar com você.
17. No momento em que nossa cultura estabelece como ato de desobediência civil o fato de alguém confessar-se publicamente gay, ser gay é uma atitude política. Aceite, pelo menos por enquanto, a ideia de que seu comportamento sexual é uma espécie de militância.
18. Não deboche de drag queens, dos travestis e dos gays exageradamente frescos. Pense onde estaríamos sem eles.
85. Se você for vítima de agressão física, ou mesmo de insultos, reúna testemunhas, chame seu advogado, e mova um processo contra o agressor.
91. Quando passar por algum lugar onde um gay está sendo humilhado ou agredido, não finja que não viu nada, não banque o indiferente. Se não puder ajudá-lo pessoalmente, vá buscar ajuda, chame a polícia, faça qualquer coisa.
138. Os direitos gays são seus direitos. Faça tudo que estiver ao seu alcance para ampliá-los e reforçá-los. Apoie a causa.
142. Saiba que, ao iludir as pessoas, tentando passar por heterossexual, estará sinalizando para o mundo que não é uma boa coisa ser gay.
170. Não confunda masculino com macho.
189. Se você acha os outros gays muito chatos, olhe-se no espelho. Procure descobrir as coisas de que você não gosta em si mesmo e está vendo neles.
268. Não esconda de crianças que você é gay.
334. Procure enturmar-se com pessoas de várias idades, com estilos de vida diferentes do seu. Pessoas diferentes de você podem enriquecer sua vida.
416. Nunca use as expressões "comportamento de homem" e "homem de verdade". É pura homofobia. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Cores de Natal

, em Natal - RN, Brasil
Estou voltando do ensaio de um dos coros que participo. Eu vinha caminhando, tranquilo de minha vida, cantando Cores do Vento, de Pocahontas. Se pensa que esta terra lhe pertence, você tem muito o que aprender. Caminho para casa quando passo pela esquina da rua em que moro. Pois cada planta pedra ou criatura, está viva e tem alma, é um ser. Do outro lado da rua, estão sentados, na calçada, quatro garotos de no máximo 17 anos. Se vê que só gente é seu semelhante  e que os outros não tem o seu valor. Magrinhos, alguns muito bonitos, dois precisamente. Um branquinho de olhos grandes e assustados, rosto bonito, bem magro; e um negrinho, de corpo roliço, bunda perfeita e coxas grossas, este está sem camisa, mostrando a barriga e a cintura estreita que só destaca a bunda quando ele anda pela rua de paralelipípedos. Mas se seguir pegadas de um estranho, mil surpresas vai achar ao seu redor. Eles sempre estão por lá, ou na outra esquina um quarteirão acima, sob a marquise de uma padaria. Quando passo perto, isto é, do outro lado da rua, Já ouviu um lobo uivando para a lua azul?, escuto baixinho:
- 50!
Eu entendi, e ri por dentro, Será que já viu um lince sorrir?, obviamente entendi. Mas eu olho para eles e um dos garotos, talvez o mais feio, um negrinho de pele achocolatada, segura o pau, É capaz de ouvir as vozes da montanha?, repetindo:
- 50!
E com as cores do vento colorir.
Continuei caminhando para casa, Correndo pelas trilhas da floresta, havia uma família fazendo uma festinha algumas casas a frente, Provando das frutinhas o sabor, no alpendre em frente da casa, havia uma churrasqueira, Rolando em meio a tanta riqueza, e eles bebiam cerveja conversando animadamente, Nunca vai calcular o seu valor
Eles gritaram quando eu estava ali na frente.
- 50!!
Não vai mais o lobo uivar para a lua azul
Eu parei na frente do portão da vila que moro, e fui procurar a chave para poder entrar que insistia em sumir dentro da mochila. Já não importa mais a nossa cor. E eles gritaram novamente, sem se importar com mais alguém ouvir na rua. 
- 50!!!
Vamos cantar com as belas vozes da montanha.
Eu abri o portão e entrei, sem parar de cantar. 
Você só vai conseguir, desta terra usufruir, se com as cores do vento colorir.


domingo, 14 de dezembro de 2014

"Que delicinha!"

, em Natal - RN, Brasil

Venho caminhando a noite. Voltando de um jantar de trabalho regado a muito vinho do Porto, em que eu não comi nada, mas foram muitas taças de vinho. É uma quarta-feira e observo dois garotos caminhando de encontro a mim. Eu estou pensando que preciso de uma casa maior e mais confortável quando observo os dois por um segundo paralisado no tempo, eu estava em uma esquina, prestes a virar a direita, eles estavam do outro lado da rua, para atravessar para o lugar que eu estava. Não deviam ter mais de 20 anos, usavam camisetas polo e bermudas jeans, calçavam chinelos, pareciam irmãos ou primos, havia uma semelhança. Eram brancos, bonitos, inclusive, cabelos cortados baixinhos, o mesmo e exato corte, um deles falava ao telefone. Mas os vi e simplesmente retornei as minhas preocupações mundanas, e fiz a conversão a direita. Foi quando ouvi:
- Que delicinha!
E virei para trás, o que falava ao telefone não estava mais lá, vi apenas um deles, já saindo do meu campo de visão, escondidos por trás da parede, com um sorriso no rosto. E eu lembrei de Marina Abramovic. A dançarina fez uma performance que dizia para os visitantes que não se moveria por seis horas, não importa o que fizessem com ela. Ao mesmo tempo colocou a disposição, em uma mesa ao seu lado, 72 objetos que poderiam ser usados em seu corpo. Eram flores, poás, facas e até uma arma carregada, entre outras coisas. Os visitantes poderiam usar os objetos como desejassem, não havia limites. Inicialmente os visitantes eram pacíficos e tímidos, mas ao perceberem que ela realmente não reagiria, a agressão surgiu. Suas roupas foram rasgadas, ela foi cortada, enfiaram os espinhos das rosas pelo seu corpo, até a arma foi apontada para sua cabeça (sim, ela estava carregada). Ao fim da performance, Abramovic levantou-se e aí aconteceu o que eu considero mais importante e mais chocante nesta experiência artística (que se chama Rhythm 0): as pessoas que a feriram fugiram dela.
Sempre que se analisa a história do Rhythm 0, se observa a desumanização que a dançarina sofre quando se coloca a mercê dos visitantes, como rapidamente as pessoas se tornam sádicas infligindo-lhe dor, eu nunca observei por este ângulo. Eu noto é como as pessoas são covardes porque só demonstram seu sadismo quando o outro não pode defender-se. No instante que Abramovic levanta-se, aqueles que decidiram expressar-se, através do corpo dela, com violência fogem apavorados, pois temem serem responsabilizados por seus atos. É, pelo menos aqui em Natal, como estes garotinhos agem. Estas piadinhas são comuns e elas só acontecem nestas situações de que o autor se vê protegido de qualquer tipo de enfrentamento comigo e, por causa dessa impossibilidade de enfrentamento, eu muitas vezes fico em dúvida: eles são homofóbicos ou é uma cantada? Analisemos. 
Alguém pode parar agora e dizer: "Mas eles não foram homofóbicos, eles fizeram um elogio!". Será? Um elogio é feito diante de alguém, para que alguém escute, aquela foi uma cantadinha machista, como quando gritam gostosa na rua para uma mulher. O objetivo de gritar "gostosa" para uma mulher não é elogiá-la, mas reforçar o papel de homem-pegador e de mulher-objeto-do-desejo dentro das relações sociais. Quando o homem grita, sempre ao lado de seus confrades, ele reforça seu papel de macho-alfa no meio do seu bando, garantindo assim privilégios diante dos amigos, e também reforça entre os membros femininos do grupo que seu lugar é o de objeto a ser admirado por aqueles que detém o poder. Admirado e devorado (não é a toa que a expressão é "gostosa" e não "linda"). O mesmo acontece aí. Eles gritam para mim "delicinha", que não é diferente de "gostosa", e ainda ocorre na feliz coincidência que o gênero da palavra não deixa de me colocar no papel de mulher-objeto e deles como homens-dominantes. Disfarçado de elogio, a dominação ocorre.
Mas e se foi um elogio mesmo? Por que, diabos!, alguém faz um elogio a outro e não fica para receber os louros? Que espécie de fetiche é esse em que a pessoa sai pelas ruas a noite chamando as outras pessoas que encontra na rua de deliciosas e se esconde depois? Qual a utilidade de uma cantada que termina sem, no mínimo, o telefone do seu objeto de desejo? Qual o objetivo, pergunto curioso? Até porque eu não sei como reagir. Meu impulso foi responder:
- Vocês dois também são deliciosos!
Eu bem que achei naquele segundo que os observei. Mas minha prudência me fez calar. Porque se eles estão sendo homofóbicos, responder com o mesmo elogio seria colocá-los na posição de mulher-objeto no qual eles haviam me posto antes. Esta é a maior dificuldade que os homens héteros tem ao se verem assediados por um homem gay, eles de repente se vêem no lugar de objeto em que colocam as mulheres, no lugar de coisa, de criatura sem autonomia, de ser inferior. E aí eles poderiam se irritar e eu apanhar ali... quer dizer... eles dois apanharem muito de mim porque, gato, eu não apanho de homem nenhum nessa vida. #ProntoFalei. Não quero ter sangue de menininhos héteros na minha mão não. Ou eu devia mesmo ter respondido? 






domingo, 7 de dezembro de 2014

Ódio Praieiro

, em Natal - RN, Brasil
A praia da Pipa fica a, mais ou menos, duas horas ao sul de Natal, a precisamente 90,4 km de distância da capital, e é um pequeno distrito de Tibau do Sul que já foi vila de pescadores e agora reúne turistas europeus, hippies anacrônicos de toda a América Latina e uma atmosfera de resort mediterrâneo ou do filme Mamma Mia com a Meryl Streep (você escolhe a referência). As praias paradisíacas emolduradas por falésias coloridas, Mata Atlântica e saltos de golfinhos tem um único grande defeito: ela é, sem sombra de dúvida, a região mais antipática aos gays de todo o Rio Grande do Norte. É como uma ilha de heterossexualidade, o seu último reduto, no Estado dos índios bravios.
Avisei a Ronnie sobre isso, mas ele não acreditou. Ronnie é um amigo mineiro que agora vive na Bahia e me visitava por causa de um congresso, chegamos juntos a praia em uma noite de quarta-feira, era, de fato, um dia péssimo, mas ele queria aproveitar o que dava já que retornaria a terra de todos os santos ainda no fim da semana. Mas, apesar de ser quarta, havia muitos turistas, tanto brasileiros (ouvimos muito o sotaque paulista e carioca) e estrangeiros, muitas belezas também, dos tipos importados e nativos, mas nenhuma paquera ou olhares. Ronnie se decepcionou, mas como eu disse, parece que em Pipa é necessário deixar sua homossexualidade lá na entrada do vilarejo.
"Sério que eles não fazem?", ele perguntava. Eu contei-lhe que anos atrás tentaram abrir uma boate gay por ali e entre pichações com palavras de ódio e ordens para que deixassem a praia, um incêndio criminoso cujos autores nunca foram encontrados destruiu a boate na noite da inauguração. Eu conhecia as donas, na época, e elas fugiram apavoradas. E, sinceramente, seria um imenso acréscimo a noite de Pipa que, atualmente, não passa de uma rua estreita, com bares de música ao vivo, restaurantes de comida italiana  e creperias (nunca vi tantos concentrados em um espaço tão pequeno) e alguns poucos de comida regional. Conta-se de uma mítica boate, Calango's (sim, com apóstrofe, Natal sofreu uma praga que impregnou todos os nomes de casas noturnas e motéis com esta moda), que nunca saiu da década de 1980. E só. Não há muito o que fazer por lá.
Claro que durante o dia sempre podemos aproveitar a praia. Aproveitar as belas paisagens naturais, o mar intensamente verde e o sol que brilha sem trégua e, por trás dos nossos óculos escuros, observar os corpos dos surfistas tostando ao sol, dos nativos que nos servem cerveja barata nos bares com os pés na areia e camisetas coladas (obviamente nós escolhíamos os bares pela beleza dos garçons) e os turistas europeus que desfilam seus corpos em sungas minúsculas (Deus abençoe os italianos!). Também é possível aproveitar as aulas oferecidas por alguns dos nativos de surfe, standing up surfing e capoeira, curtir as pousadas e albergues ou aproveitar uma rede, inúmeras latas de cerveja e uma roda de amigos numa casa de praia. Você só não pode ser abertamente gay. Ai não pode.

domingo, 30 de novembro de 2014

O Ritual do Macho Man

, em Natal - RN, Brasil
Era tarde da noite já, eu voltava da igreja, havia pego o primeiro ônibus que me deixava mais ou menos perto de casa, isto é, uns 10 minutos de caminhada entre o ponto e a porta de minha residência por impaciência de esperar mais e, por isso, passei diante de um bar, como já havia feito milhares de outras vezes antes, mas desta vez, eu notei que um dos garçons reparou em mim. Ele era magro e alto, tinha uma bela bunda que se destacava dentro da bermuda jeans que eles usavam. Sim, ali naquele bar de esquina que ocupava parte da avenida com suas mesas, os garçons serviam os clientes de bermudas e chinelos. Ele tinha uns olhos verdes cor-de-mar, mas do mar de Natal, um verde pálido porque todas as cores aqui são meio pálidas, afinal o branco da luz do sol suprime tudo.
Eu, como não fujo de olhares, sustentei até ele baixar os olhos. Passei ao lado dele e ele estava de cabeça baixa, vencido no seu jogo de macho, mas percebo agora que não segui meus próprios conselhos para pegar hétero: fazer o papel da virgem constrangida que baixa os olhos e tem a face coberta pelo rubor da ingenuidade (eu, na verdade, nunca faço isso e depois reclamo que ninguém chega em mim, quando é que eu dou oportunidade para alguém? Se me interesso e a pessoa corresponde pelo menos com um sorriso, eu não fico esperando o outro agir, mas voltando...). Por curiosidade, dois paços a frente dele eu olhei para trás e ele me acompanhava e riu neste momento, comentando com o colega que estava próximo dele algo, mas somente quando viu que eu estava distante o bastante para não conseguir ouvir. Eles então riram juntos e o deboche seguiu-se de um assovio. E outro, e outro.
Caminhando, sem olhar para trás, eu fiquei pensando na lógica maluca dessas pessoas. Pelo menos comigo, homens não se sentem seguros a me insultar sozinhos, e muito menos para mim. Deve ser algo que faz parte do ritual de socialização do homem heterossexual (nunca participei dessas coisas, então, não sei se é): fazer uma piada para seus confrades sobre aqueles outros que estão, hierarquicamente, abaixo deles, no caso gays, mas também mulheres. Eu sempre penso que a piada não tem, de fato, o objetivo de ferir seu alvo, somente de reforçar os laços entre aqueles homens e o seu lugar como um igual dentro do grupo. Não que a piada deixe de ser homofóbica porque não tem o objetivo de atingir o homossexual, ela continua sendo porque seu núcleo é de que existe em homens mais homens e outros menos homens, cabendo ao primeiro o controle sobre o segundo tipo.
Por outro lado, a piada que eles resolvem fazer é flertar comigo. A visível timidez dele (ele baixou os olhos) é superada no instante em que ele consegue um amigo, coisinha típica de machos adolescentes, e aliado a um amigo ele pode assoviar para mim para todo o bar ver, para todo o bar ouvir. O comportamento é obviamente fundado em mais machismo. No conceito de que homem de verdade deve estar sempre sexualmente disposto e, aqui no Nordeste, isto inclui também "não negar fogo" caso uma bicha (moi!) se insinue. E não importa para eles se eu somente havia passado a caminho da minha casa, o mesmo imaginário que faz de todo homem heterossexual um garanhão disposto ao sexo faz de todo homem homossexual um promíscuo disponível para se tornar objeto (neste sistema todo homossexual é necessariamente passivo e quer ser dominado por um macho heterossexual). Como mulheres, nós existimos para sermos objeto de prazer do "homem de verdade", mas enquanto a elas cabe o dever de negar, em defesa de sua honra, até que o homem de verdade a seduza, aos homens gays, por definição homens sem honra, é inconcebível que recusem ao sexo independente de quem seja seu parceiro.
É uma lógica doente, sinceramente. Estes homens acreditam-se detentores de poder sobre o corpo tanto de mulheres quanto de homens gays, mas como reagir a isso? Nós, as vitimas? Ah, e antes que alguém diga que ele na verdade estava interessado, que era uma cantada: primeiro, você está sofrendo de Síndrome de Estocolmo, aquela em que os sequestrados/torturados desenvolvem sentimentos pelos criminosos que os agridem, por isso você não enxerga o machismo que te banha todos os dias; segundo, se ele tivesse somente interessado em mim, qual a necessidade do amigo participar do seu flerte? Ele apenas repetiu um ritual para reforçar os laços com os outros machos do bando que acontecerá novamente toda vez que algum viado ou qualquer mulher (que não seja ligada a ele por parentesco de primeiro grau, isto é, avós, mães e irmãs) passar na frente do bar; terceiro, bora largar esse romantismo?

domingo, 23 de novembro de 2014

Street View

, em Natal - RN, Brasil
Saio as 11 horas da manhã de uma reunião de trabalho que começou três horas antes e caminho até à sombra do abrigo do ponto de ônibus para esperar minha condução, sob o sol escaldante que já brilha no céu de Natal anunciando um verão que será como todos os outros: quente. A parada do coletivo fica ao lado da Vila Naval, um condomínio militar com suas cadas padronizadas, pintadas de azul e branco. Dois jovens usando uma regata e um short curto, nas mesmas cores das paredes e portas das residências, exibindo braços musculosos e pernas torneadas, faziam reparos numa parede não muito distante. Eram aspirantes a marinheiros, acho. Eu me perdi em pensamentos de como seria crescer gay dentro daquele ambiente (com aqueles homens circulando por ali com aquelas roupas minúsculas) somente para me encontrar quando vejo alguém, do outro lado da rua, balançando um imenso pacote que ele guardava dentro da bermuda.
Assustado, me recuperei a tempo de perceber o que estava acontecendo. Era provavelmente um morador de rua, nem bonito, nem feio, mas bastante sujo. Ele ainda estava distante quando começou a pegar no próprio pênis, masturbando-o por cima do tecido da bermuda surf wear que usava enquanto me encarava, mas somente quando ele estava mais próximo, do outro lado da avenida larga, que eu pude notar o volume imenso que ele carregava. Devo ter arqueado as sobrancelhas neste momento, de susto!, mas ele, como um gato, deve ter interpretado aquilo como aprovação, como elogio ao tamanho imenso do pau dele, foi aí que ele sorriu para mim e piscou um olho. Eu virei rapidamente o rosto, olhando em direção de onde viria meu ônibus, esperando que ele seguisse o seu caminho e pensando: esse tipo sempre nota a minha presença né?