Google+ Estórias Do Mundo

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Creta: O Antigo Amante

, em Natal - RN, República Federativa do Brasil


Dentro do ciclo apolíneo, após cometer o assassinato da Píton, em uma versão, e dos Ciclopes, durante a guerra entre os deuses e os Titãs, em outra, o deus da luz e das artes se isolou na corte do rei Admeto para purificar-se do pecado contra a vida que havia cometido por nove anos. Admeto era filho de Feres, rei da cidade que levava seu nome, e Periclímene. Participou na juventude da caçada ao javali de Cálidon e da expedição dos Argonautas em busca do velocino de ouro, dois importantes ciclos entre os heróis gregos. Ao retornar a sua cidade natal, jovem ainda, tornou-se rei porque o pai abdicou do trono em sua honra e, nos primeiros anos do seu reinado, o deus Febo Apolo pediu exílio em sua casa, tornando-se pastor do seu gado e, conta-se também, que eles teriam se apaixonado. 
O Hino a Apolo escrito por Calímaco foi um dos poucos textos que nos sobraram que descrevem o relacionamento entre o rei e o deus. É no parágrafo 47, traduzido abaixo que encontramos a referência:

[47] Febo e Nômio podemos chamá-lo, desde que, quando por Amfrísios, ele cuidava de éguas domesticadas, atingido pelo amor do jovem Admeto, cuidava do seu rebanho de gado, de abelhas, nem faltava às cabras do rebanho, sobre o qual como eles se alimentam, Apolo lançava seu olho; nem sem leite que as ovelhas, que também não eram estéril, mas todas teriam cordeiros em pé; e ela que nua em breve seria mãe de gêmeos.

Apesar de Junito Brandão propor que foi a extrema deferência com a qual foi tratado pelo rei que o fez o deus manter sua gratidão, algumas referências falam que é paixão de Apolo por Admeto o faz ajudá-lo nas mais incríveis tarefas, mesmo depois que o exílio termina. Por exemplo, quando o rei decide se casar com Alceste, a filha de Pélias, rei de Iolco, foi o deus quem ajudou-o na tarefa imposta pelo rei para dar a mão da princesa em casamento. Pélias exigiu que o noivo se apresentasse em um carro puxado por uma parelha antagônica: um leão, símbolo da valentia e da força; e um javali, tradução de poder espiritual. O deus de Delfos concedeu-lhe um carro puxado pelos animais (o que, com certeza, representa uma iniciação dentro dos mistério dentro da religião apolínea) e com isso o rei de Feres recebeu em felizes núpcias a bela Alceste. 
Febo também salvou Admeto de uma morte prematura quando as Queres sorteiam seu nome para a morte. Apolo embriagou as senhoras do Destino e as fez prometer que se alguém tomasse o lugar do jovem rei, sua vida não precisava ser extinguida. Em sua glória, o deus apareceu a seu antigo amante e contou o que havia conseguido para ele. No entanto, infelizmente nem seus idosos pais, nem seus amigos ou irmãos quiseram fazer este sacrifício, somente Alceste, sua amada esposa, prontificou-se quando o deus contou a forma como poderia salvar sua vida. Na tragédia Alceste, de Eurípedes, é Herácles, que era amigo de Admeto desde a expedição dos Argonautas quem salva a bela rainha da garras de Tânatos, a morte, já diante do túmulo. Porém as versões mais antigas afirmam que foi a rainha dos mortos, Perséfone, que admirada com tamanho amor que Alceste demonstrou pelo marido a enviou de volta a vida para que o amado do deus não sofresse. 
É interessante notar que o relacionamento entre Apolo e Admeto não inviabiliza de maneira alguma o casamento e o verdadeiro amor que este último vem nutrir depois pela princesa de Iolco. O amor entre o antigo amante divino e de Alceste é real e reconhecido pelas divindades também (Herácles e Perséfone) demonstrando o quanto a sexualidade aqui não estava dividida entre distantes polos rotulados como homossexual e heterossexual cuja experiência em um lado impossibilitaria a vivência de qualquer coisa na sua contraparte, isto é, na sociedade creto-micênica as experiências homoeróticas e heteroeróticas podem ser vividas pelo mesmo indivíduo sem nenhum problema, na verdade, elas só demonstram fases distintas da vida de um mesmo homem, sendo as relações homoeróticas voltadas normalmente à juventude enquanto é reservado à maturidade (sobretudo pensando na geração de descendentes) os relacionamentos com o gênero oposto. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Le Garçon Blond (prendre un)

, em Natal - RN, Brasil
Tarde de domingo, um sol escaldante banhava o bairro de Ponta Negra com uma luz que exigia a presença de óculos escuro no rosto de qualquer um que ousasse sair a rua. Eu estava ministrando um curso sobre Astrologia Cármica por ali, e sai para comer com duas das minhas alunas porque voltaríamos a tarde para a segunda parte das aulas. Eu não o vi quando entrei, somente quando sentei no fundo do restaurante, o vi me observando lá do outro lado. Ele sorriu para mim com alguns dentes tortos. Era branquinho, com olhos apertados e corpo sarado. Cabelo arrumado para cima e pele lisa, sem pêlos ou aquela sombra de barba de quem tem muita testosterona no corpo. Rosto imberbe é a descrição correta. Ele me observava de frente a mim e eu calculava que ele não teria nada mais do que 19 anos. Um rapazinho. Almocei sobre seus olhares e levantei para pagar a minha conta, mas antes parei para tomar um chá e, por acaso, perto dele. Ele então se apresentou. O significado do nome dele é loiro. E eu sorri. Ele perguntou se já nos conhecíamos e eu disse que sim. Dias atrás (eu lembrei quando ele se aproximou), ele tinha me pedido meu telefone no ônibus, mas não ligara. Ele lembrou, mas não se envergonhou, só concluiu: "Pois desta vez eu vou ligar sim" e pediu, novamente, o telefone, o que eu dei, movido pelo meu sentimento de não querer ser o sabotador de minha vida amorosa. Ele me escreveu, no Whatsapp, no fim da tarde. Falou que ter me encontrado de novo era coisa do destino e que dessa vez ele não ia deixar passar, precisava me conhecer melhor. E eu senti cheiro de cafajeste. Ele se disse solteiro e falou sobre trabalho e eu, como quem não quer nada, perguntei-lhe o nome completo. E joguei no Facebook. E estava lá: em um relacionamento sério desde o dia anterior. Dezenove aninhos, achando que conhece a vida, e que sabe como enganar a raposa aqui, mas porque não brincar um pouco com ele?

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Nova Bossa

, em Natal - RN, Brasil
Não conhecer história é um crime imperdoável, sabe? Imperdoável! Porque ficamos repetindo coisas como se fossem criações nossas. Acreditamos que somos especiais, que somos criativos, que somos livres, quando não somos nada mais do que repetidores de programações que herdamos. Somente tendo consciência que estamos sendo programados, que existe um discurso que se finge de natural e que pretende controlar nosso pensamento, que podemos enxergar que existem algo ali que precisa ser descartado. É olhando para o passado, que podemos ver como nossos antepassados se comportavam diferente que podemos ver que existe algo errado no nosso presente.
São inúmeros os exemplos. Ver a minha coluna sobre Homohistória mostra, por exemplo, que o comportamento sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo mudaram consideravelmente através do tempo. Podemos falar também sobre como entendemos a infância o que causa sempre polêmicas por causa de nossa invenção mais recente, a pedofilia. Eu poderia dizer até para vocês que a própria morte tem sua história porque, apesar das pessoas morrerem, a relação com este fato se processou diferentemente dependendo da época. Mas o exemplo que eu queria falar hoje é o nosso atual comportamento em relação ao amor. Antes é bom dizer: o amor ele é um fato, ele existe entre os seres humanos desde antes de aprendermos a registrar o que pensávamos e sentíamos, contudo, a forma como nos relacionamos com este sentimento variou muito desde a pré-história, passando pelas diversas civilizações da Antiguidade, a religiosidade cristã medieval que convivia com a poligamia islâmica, a alteração gritante que a invenção do casamento como sacramento causou e da alteração deste sacramento após a Peste Negra, sem deixar de citar o que o ideal burguês, depois o Romantismo, causaram no mundo ocidental, e mesmo a invenção do Capitalismo, o Imperialismo, as Grandes Guerras, o movimento hippie e a Contra-cultura, sobretudo os punks, anarquistas e o movimento gay, a Bossa Nova. O Amor tem uma história que precisa ser conhecida.
Quer um exemplo fácil? Na época década de 1950 no Brasil o discurso era exatamente o contrário do atual sobre este sentimento tão nobre. O legal, o moderno, o libertário era sofrer por amor. As músicas, a poesia, os boêmios queriam mesmo era contar que conheceram uma pequena, se apaixonaram e sofreram muito. Mas muito mesmo! E isso foi há 60 anos, à época que os pais destes jovens eram crianças. Dá para levantar uma lista de músicas sobre paixões não correspondidas, sobre dor de cotovelo, sobre amores impossíveis, estava na moda. Vinícius, o poetinha, é sem sombra de dúvida o grande destaque deste universo, ele diz: "Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu, ai".
Contudo quem conhece a História do Amor? Quem tem menos de 30 anos hoje e lê sobre História sem ser porque vai cair no vestibular? O que eu vejo são jovens gays alienados que repetem (e eu acredito que dizem isso somente porque este é o discurso que está na moda, isto é, para parecerem descolados) que não querem amar, que o amor traz sofrimento, que é muito melhor estar sozinho do que se envolver num relacionamento. Este discurso que (acho) tem origem nesta cultura hipster irritante que vê como ruim qualquer coisa que seja comum a todos e o mainstream é querer ter alguém para esquentar seus pés numa noite fria. 
Eles, estes jovens gays que mal saíram dos cueiros, repetem que sofreram demais em seus primeiros namoros (quando você pergunta detalhadamente é sempre um único namoro anterior ou inúmeros namoricos que não duraram 3 meses) e que agora não querem mais nenhum relacionamento. Interessante é que este discurso nunca é dito por alguém com mais de 30 anos (com poucas exceções na verdade). E também que todos repetem o mesmo exato texto (o que por si só já era para desconfiar não é?). Contudo, no fim, ao conhecer alguém que desperte o mínimo de tesão (porque eles não têm a maturidade para reconhecer a diferença entre tesão, paixão e amor, até porque não experimentaram todos eles) já acreditam que estão eternamente apaixonados,  planejando seu casamento ao som de músicas da Lana Del Rey, só para descobrir que era fogo de palha e sofrer horrores. Afinal de contas, imaturos e desinformados sobre o mundo, a vida, a história e a sociedade em que vivem eles não tem a percepção de que somente repetem um discurso que venderam para eles como moderno, libertário, legal.
Dois discursos para ser exato. Dois discursos que não se encaixam de jeito nenhum. Primeiro, o do amor eterno. Esse vendido por novelas e desenhos de princesas Disney que faz todos acreditarem que o amor é fácil e simples de acontecer, que você vai encontrar o príncipe em uma festa, haverá um único beijo e todos serão felizes para sempre. Nunca haverá nenhuma briga, nenhuma rusga, que o amor para ser verdadeiro tem que ser com alguém perfeito. Este discurso romântico barato alimenta o desejo que é negado constantemente pela nova moda: eu sou autossuficiente. Todos criados dentro de uma geração cujos egos estão a explodir dado como se posicionam como centros do mundo, estes jovens gays, que olham para um mundo que deveria admirá-los como divas e saciar seus desejos como deuses, querem que o amor chegue para eles sem esforço, mas se ele exige um pouco de dedicação, seus egos os fazem pular fora e responder com "ah, eu não queria mesmo"! A ironia hipster, no fundo, é perfeita para fingir que eles não desejavam nada. O ego vence no final das contas.
Mas é a desinformação, no fundo, o grande pecado, claro. Também o fato de que eles acreditam, e isso é culpa da idade mesmo, de que eles já sabem tudo o que é preciso saber. E o mal do conhecimento é que você não sabe o quanto precisa dele até possuí-lo. Até lá, o mundo pequeno em que alguém desinformado vive, as vendas que cobrem seus olhos, não permitem nem que ele sinta falta da informação que não sabe ainda que precisa. Então, esses homens gays imaturos (a maioria bem jovem, mas a verdade é que muitos trintões e quarentões também estão no mesmo barco) precisa aprender sobre o passado para reconhecer as armadilhas que o presente constrói para nós. São muitas, muitas mesmo! Esse conselho serve também para a eleição que vem aí.

(acho que eu já estou velho falando dos "jovens gays" como se fossem um grupo distinto de mim, entrei de vez na casa dos trinta agora, né?)



terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Filho Viado

, em Natal - RN, Brasil
- O que significa "discurso homofóbico", Foxx?
Perguntou meu pai, enquanto eu estava sentado no sofá cinza da sala dos meus pais.
- Significa ser contra gays.
Eu respondi, sem me alongar muito na questão. Eu também já estava me levantando para sair, eu precisava voltar para casa porque já era tarde. Devia ser quase 23h da noite e eu faço minhas orações sempre as 23:30h. 
- E quem seria a favor dos gays? - perguntou minha mãe - Nenhum deles presta!
Ela falou olhando nos meus olhos, em tom de ataque.
- Eu presto. 
Sorri para ela. Intocado pela raiva que ela me lançava.
- Você não é gay.
- Sim, eu sou, mãe. E não adianta você dizer que não sou. Tentar negar isto.
Eu peguei minha bolsa no sofá e coloquei no ombro.
- Eu não coloquei no mundo nenhum viado, Foxx. Filho meu não é gay!
Disse ela de voz alterada.
- Então eu acho que nasci de chocadeira.
Eu encerrei a discussão, girando nos meus calcanhares, para ir embora. Ela gritou ainda:
- Eu não tenho filho viado!
- Sua opinião foi registrada.
E eu caminhei pela garagem escura sozinho.


P.S.: Esta é a septigentésima postagem. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Creta: O Dom do Belo Deus

, em Natal - RN, Brasil


Os centros de culto de Apolo na Grécia eram Delfos e Delos e datam de VIII antes de Cristo. O santuário de Delos foi dedicado também à sua irmã-gêmea, Ártemis. Em Delfos, no entanto, o deus era venerado como o grande matador da serpente Python e como profeta. É, sem sombra de dúvida, nesta função que adquire desde a Grécia arcaica, que Febo Apolo se tornou mais importante para todas as cidades-estado da Hélade. De sua origem oriental, Apolo trouxe a arte de inspiração (semeía kai térata), isto é, o sacerdote ou sacerdotisa era possuído pelo deus e neste estado de transe falava sobre o passado e o futuro daqueles que consultavam o oráculo; o deus da luz também ensinava a seus sacerdotes à observação dos presságios dos dias, das estrelas e do movimento dos planetas para prever o futuro. O trabalho oracular introduzido a partir de Anatólia era bastante popular, fazendo do deus um dos poucos personagens pan-helênicos, isto é, cultuado em todas as cidades gregas sem exceção, inclusive nas colônias gregas na Ásia, África e Itália. Mesmo o deus também estando conectado com rituais de cura (através do Paean, o médico dos deuses), e inspirava magia através de uma canção (hino, paián) que deixava o fiel e o sacerdote (iatrománteis) em êxtase permitindo a cura; mesmo ele mantendo uma popular figura de deus que evita o mal (Apollon Alexikakós), nos tempos clássicos, era como profeta que Apolo era mais importante.
E é também como parte do ritual de iniciação do sacerdote para tornar-se apto a falar pelo deus que os mitos que falam de relações homoeróticas envolvendo Apolo se encaixam. Diz Filóstrato, o Jovem, em Imagens, no III século d.C, ao descrever uma pintura sobre cujo tema é o amor de Apolo e Jacinto:

"O filho de Leto para o amor dos jovens promete dar-lhe tudo o que ele possui em troca de permissão para associar-se com ele, pois o deus vai ensinar-lhe o uso do arco e música, e entender a arte da profecia, e não para ser inábil com a atração, e presidir o concurso da palestra, e ele vai conceder a ele que, andando no carro puxado por cisnes, ele deve visitar todas as terras caras à Apolo" (24) .

Febo Apolo promete dar aquele que o ama tudo o que ele possui. E um dos talentos que o deus da luz possui é esta semeía kai térata, trazida do Oriente, que permite que o seu iniciado possa comunicar-se diretamente com ele e, portanto, também saber do futuro. A técnica, portanto, somente é ensinada àqueles que o deus amaA expressão "amado de Apolo" é bastante comum entre os profetas tanto homens como mulheres. Marpessa, Cassandra, foram mulheres que ao ganharem o amor do deus ganharam o dom da profecia (mantía). Alguns homens também ganham o mesmo dom ao receberem o beijo do filho de Zeus e Leto. Temos uma lista de amantes que também eram sacerdotes e/ou profetas: Apolônio de Rodes, no Argonautica (II. 178), e o Pseudo-Apolodoro, no Bibliotheca (III, 1, §2), falam de Atimnio, filho de Fêniz e Cassiopeia, ou de Zeus e Cassiopeia, era um belíssimo jovem, que também fora amante de Sarpédon, mas amado pelo deus, chegou a ser cultuado em Creta. 
Diz Pseudo-Apolodoro:

[3.1.2] Agora Astério, príncipe dos cretenses, casado com Europa e trouxe suas crianças 
9, mas quando eles estavam crescidos, eles brigavam entre si; porque amaram um menino chamado Mileto, filho de Apolo por Aria, filha de Cleochus.
10 Como o menino era mais amigável para Sarpedon, Minos foi para a guerra e teve o melhor dele, e os outros fugiram. Mileto desembarcou em Caria e ali fundou uma cidade que chamou de Mileto depois de si mesmo; e Sarpedon aliou com Cilix, que estava em guerra com os Lycians, e tendo estipulado para uma parte do país, tornou-se rei de Lycia.
11 E Zeus concedeu-lhe a viver há três gerações. Mas alguns dizem que eles amavam Atimnio, filho de Zeus e Cassiopeia, e que era sobre ele que eles brigaram. Radamante legislou para os ilhotes
12 mas depois ele fugiu para a Beócia e casou Alcmena
13; e desde sua saída do mundo, ele atua como juiz em Hades, juntamente com Minos. Minos, residente em Creta, aprovaram leis, e se casou com Pasífae, filha de Hélios
14 e Perseis; Asclepíades mas diz que sua esposa era Creta, filha de Astério. Ele gerou filhos, a saber, Catreus, 
15 de Deucalião, Glauco, e Androgeus: e filhas, a saber, Acalle, Xenodice, Ariadne, Fedra; e por uma ninfa Paria tinha Eurymedon, nephalion, Crises e Philolaus; e por Dexithea tinha Euxanthius.

Plínio, no História Natural e As Cartas de Filostrato, conta sobre Branco, que seria ou filho de Apolo ou filho de Smicrus e amante do deus, sua mãe era uma mulher de Mileto, que, enquanto estava grávida, teve uma visão de que seu ventre estava sendo perfurado com um raio de luz. Branco recebeu então habilidades proféticas de Apolo e introduziu a adoração do deus em Didyma e Mileto. Seus descendentes, o Branchides, eram um clã influente dos profetas (Reunindo-se em conselho, os Címios deliberaram consultar o oráculo dos Branquides sobre o partido a tomar [Heródoto, História, 1, CLVII]). Luciano  também o cita em seu Diálogo dos Deuses (6.2), entre Zeus e Eros.

EROS: Você pode me deixar fora, Zeus! Acho que eu você está sendo mal comigo! Eu sou apenas uma criança; uma criança rebelde.
ZEUS: Uma criança, mas nascido antes de Japeto não é? Você é um velho ruim! Só porque você não tem barba, e nem cabelos brancos, acha que pode passar por uma criança?
EROS: Bem, e o que tais danos, ó poderoso, tem este velho já feito a você para que você fale em acorrentar-me deste jeito?
ZEUS: Pergunte ao seu próprio sentimento de culpa, ó mal. As brincadeiras que você me jogou! Sátiro, touro, cisne, águia, chuva de ouro, eu fui tudo no meu tempo; e eu tenho que lhe agradecer por isso? Você nunca por acaso fez as mulheres apaixonarem-se por mim; ninguém é ferido com meus encantos, que eu tenha notado. Não, deve haver magia nele sempre; e devem ser mantidos bem longe da vista. Eles gostam do touro ou o cisne bem o suficiente, mas uma vez que eles puseram os olhos em mim, e eles estão com medo por suas vidas.
EROS: Bem, é claro. Eles são apenas mortais; a visão de Zeus é demais para eles.
ZEUS: Então, por que Branco e Jacinto gostam tanto de Apolo?
EROS: Dafne fugiu dele, de qualquer maneira; apesar de seu cabelo bonito e seu queixo suave. Agora, vou dizer-lhe o caminho para conquistar os corações. Mantenha essa égide de vocês tranquilos, e deixe seu raio em casa; torne-se tão inteligente como você pode; enrolar o cabelo e amarrá-lo com um pouco de fita, obter um manto de púrpura, e os sapatos enfeitados com ouro, e marchar adiante para a música de flauta e tambor; e veja se você não pode conseguir um mais fino com Dionísio, para todos os seus Ménades.
ZEUS: Oh! Eu não vou ganhar nenhum corações em tais termos.
EROS: Oh, nesse caso, então não se apaixone. Nada poderia ser mais simples.
ZEUS: Atrevo-me a dizer; mas eu gosto de estar apaixonado, só que eu não gosto de todo esse alarde. Agora mente; se eu deixá-lo fora, é sobre esse entendimento.

Píndaro em Píticas (v.106) e as Narrações de Conon citam Carneus que era um vidente da Acârnia, filho de Zeus e Europa, que havia sido criado pela mãe do deus, Leto. Criado junto com o deus, seu companheiro de infância, também fora amante de Apolo. Conta Pausânias que Carneus acompanhou os Heraclidas em sua invasão a Grécia, mas foi morto por Hipotes por que suas profecias eram obscuras. Apolo no entanto vingou o amante, atingindo os dórios com a peste, que só foi afastada quando os Heraclidas expulsaram Hipotes do seu acampamento e instituíram o culto a Carneus, para felicitar o deus.
Pausânias, em vários trechos de Descrição da Grécia (3.24.5, 4.31.1, 4.33.5), mas, principalmente, quando ele se dedica a Esparta, o historiógrafo conta o mito, diferenciando o profeta do culto específico a Apolo que acontecia na maior cidade-estado da Lacedemônia:


[3.13.3] Carneus, a quem eles davam o nome "da Casa", teve honras de Esparta, mesmo antes do retorno dos Heraclídes, o seu lugar está na casa de um vidente, Crius (RAM), o filho de Theocles. A filha deste Crius foi vista quando ela estava enchendo o seu cântaro por espiões dos dórios, que entraram em conversa com ela, e visitaram Crius e aprenderam com ele como tomar Esparta.

[3.13.4] O culto de Apolo Carneus foi estabelecida entre todos os dórios desde então.  Carneus, um acarnaniano por nascimento, que era um profeta de Apolo. Quando ele foi morto por Hipotes, filho de Filas, a ira de Apolo caiu sobre o acampamento dos dórios que entraram em exílio por causa da culpa de sangue, e a partir deste momento o costume foi estabelecido entre os dórios de propiciar o vidente acarneu. Mas esse não é o Carneus lacedemônio, que era adorado na casa de Crius o vidente enquanto os aqueus ainda estavam na posse de Esparta.

[3.13.5] A poetisa Praxilla representa Carneus como o filho de Europa, Apolo e Leto sendo seus enfermeiros. Há também uma outra conta do nome; em Tróia, às árvores que foram cortadas pelos gregos para fazerem o grande cavalo que venceu a guerra vieram de um bosque que era consagrado a Apolo. Ao saber que o deus se indignou com eles, para evitar a ira do Deus, os gregos propiciaram-lhe sacrifícios e nomeado Apollo Carneus da árvore carneia que derrubaram para o cavalo, um costume prevalecente desde velhos tempos.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Meu Pecado É A Vaidade

Todos sabem por aqui do meu desejo de encontrar um namorado. Não é novidade, não tenho vergonha! Contudo, mais importante do que saber qual é o motivo para que ninguém se interesse por mim, é crucial saber porque eu desejo tanto encontrar alguém (talvez, inclusive, eu possa ser chamado de obsessivo por causa disso, porque penso demais sobre este assunto, e penso mesmo, mas porque quero resolver este problema, porque já é um!, e a melhor maneira de resolver algo que te incomoda é meditar sobre o tema). São dois motivos, de fato. O primeiro, a relação com meus pais, e segundo, minha auto-imagem. Meus pais sempre definiram-me como o filho que os decepcionava, desde muito jovem, por ser gay. Eu não era digno de seu amor por causa da minha sexualidade desde a tenra infância, ou era?  Um amor torto é verdade. Tenho certeza que havia amor nas surras que meus pais me davam tentando me tornar heterossexual, como nas mesmas surras que eu recebi por tirar notas baixas em matemática na 6ª série, mesmo meus pais sendo pedagogos, eles preferiram resolver o problema através de castigos físicos e não tentar descobrir porque eu não conseguia aprender matemática. Coisas da criação dos meus pais, com certeza. Eu os perdoei há muito tempo atrás, contudo, isto me causou um problema que eu tento resolver com amigos e com namoro, tento suprir com estes relacionamentos a carência que meus pais me impuseram durante minha formação como ser humano. Eu tento me convencer, todos os dias, que meus pais estavam errados, que eu sou digno de amor, que eu mereço amor. Tento desconstruir a programação que meus pais me impuseram.  Mas eu já falei sobre isto aqui no blog.
Já, o segundo ponto, minha auto-imagem. É algo que eu tenho reparado com mais intensidade nos últimos tempos. Sempre me acusaram de ter problemas de baixa auto-estima aqui no blog, coisa que eu sempre rebati com veemência, porque, acreditem, este problema não existe. Eu, na verdade, sofro mais de megalomania ou de exagero de auto-estima do que do contrário. Meu grande sofrimento, inclusive, sobre o fato de eu estar sozinho tem relação com isso: como alguém maravilhoso como eu, tão bonito, inteligente e interessante, pode estar sozinho? Como as outras pessoas que são tão inferiores a mim podem ter namorados normalmente e para mim é esta luta sem fim da qual eu sempre saio derrotado? Como todo homem que eu me envolvo escolhe qualquer outro cara a mim em questão de dias? Como eu, tão maravilhoso quanto penso que sou, posso ser preterido? Todo meu sofrimento, minha ofensa, vem desta vaidade ferida, este orgulho tão leonino. Por que eu, tão bom, tão vitorioso, tão sortudo como sempre fui na minha vida toda (afinal inteligente e talentoso eu sou), não consigo vencer na área mais simples da vida de todo mundo, em que crianças de 15 anos têm mais experiência que eu com o dobro de suas idade?
São estas perguntas que tornam minha solidão uma experiência tão amarga. O Gato é quem afirma que eu deveria observar esta minha vida sobre outro prisma e ele tem razão, e o prisma diferente é exatamente este: eu não sou tão especial, tão bonito, tão inteligente, tão interessante quanto penso ser. Sou sem graça, sem sex appeal, feio mesmo, além de efeminado, para a maioria das pessoas; sou de fato um homem interessante e inteligente, mas não existe nada que faça alguém se aproximar tempo o suficiente de mim para descobrir que estas qualidades existem, e se o fazem já me colocaram na prateleira de amigo há muito tempo atrás para que eu me torne elegível como namorado novamente. Sabendo qual é minha verdadeira imagem, e sabendo que as pessoas me veem ainda pior por causa do seu preconceito com homens gordos, efeminados e carecas, fica muito claro porque estou sozinho e, também, fica muito claro que não existe motivo algum para sofrimento. Não posso sofrer porque meu orgulho está ferido! Não posso lançar-me nas garras desta dor somente porque minha vaidade não é alimentada por alguém que me ache bonito, sexy e interessante. 
Em resumo, meu problema todo é porque eu desejo alguém que alimente meu ego. Um homem que eu considere bonito que me considere bonito, um homem que eu considero inteligente que me considere inteligente, um homem que eu considere interessante que me considere interessante são minha necessidade apenas de alguém que reforce a minha auto-imagem para que eu acredite nela. E, neste momento, os dois pontos que falei antes se relacionam: eu preciso de um namorado para corroborar a auto-imagem que eu criei para sobreviver aos meus pais, e meus sofrimento acontece porque ninguém é capaz de enxergar o super-homem que eu criei dentro de mim para vencer esta família. E eles não enxergam porque ele não está lá. O sofrimento que passei com meus pais foi terrível para mim, mas na minha mente infantil ele sempre parecia muito maior do que realmente era. Eu, com certeza, desenvolvi talentos para superar aquela vida a qual eu estava encerrado (consegui sair do gueto afinal de contas),  mas nada mais do que qualquer um. Não sou especial em nada. Nenhum homem deveria me idolatrar como "quase cósmico, semi-fenomenal". Não que eu não tenha nenhum valor, eu tenho, mas nada melhor, maior ou simplesmente mais importante do que qualquer um, essa ilusão de acreditar que eu mereço um amor especial é quem me mantém em perpétuo sofrimento. É hora de abandoná-lo reconhecendo quem eu sou, nem mais, nem menos. Somente uma pessoa comum. 


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Qual O Seu Fetiche?

, em Natal - RN, Brasil
Era noite de sábado, chovia bastante na cidade. Os invernos em Natal são assim, chuvosos, e tem ficado cada vez mais. O bom da chuva é que ela traz um clima bem mais agradável para a cidade. Entre 20° e 22°, dá até para arriscar um casaquinho. Não que esteja muito frio, mas porque o calor não se torna mais aquele que decide com que roupa eu vou. O Ariano havia acabado de chegar aqui. É a terceira vez que ele me visita este ano. Recife não é tão longe, afinal de contas. Chegamos de táxi no Donana. Este é um bar para lésbicas, pequeno, que vive lotado, com poucas mesas de jardim na área externa, e muito menos espaço na parte interna porque o palco onde se toca MPB e pagode em dias alternados ocupa muito espaço. Apesar dele focar num público feminino, são homens gays que ocupam a maior parte das mesas em grupos grandes e ecléticos. Vemos ali meninos muito humildes, comprando cervejas nas promoções, e homens dando gorjetas gordas para os garçons, são pessoas muito diferentes que se encontram protegidos sob o mesmo teto. Mas naquela noite, de chuva, e com uma festa do Disponível.com acontecendo em um novo bar que abriu na cidade, o in Bare, só tinha alguns gatos pingados por ali. Havia mesas disponíveis no lado de fora (coisa que nunca acontece se você não chega as 19h), quase ninguém ouvindo a banda no interior. Sentamos do lado de fora, cada um de um lado da mesa redonda, entre três mesas cheias com rapazes bonitos, conversando animados, bebendo cervejas e fumando Free.
Estávamos entretidos conversando sobre nossas vidas, sobre o Gato, sobre trabalho, quando eu notei que éramos observados da mesa a nossa esquerda. Eram dois, um menino magro, usando uma camisa de onça e um short curto, efeminado e fumando como uma mademoiselle; o outro, um garoto de barba, cara de safado e uma bela bunda, que olhava sob as sobrancelhas e sorria para mim. Notei, no entanto, que eles acreditavam que eu e o Ariano éramos namorados, mas isso não impediu que o primeiro paquerasse o Ariano, e o segundo me seguisse até o banheiro. O sorriso dele era de verdade intoxicante, ele me olhava nos olhos também com uma malícia que era sedutora, de fato. Mas eu apenas sorri quando ele me olhava através do espelho, atrás de mim, no banheiro, e voltei a mesa. E, com certeza, meu sorriso no banheiro foi para ele uma certeza de que podia dar em cima de mim a vontade e que eu estava disposto a trair meu namorado. Quando retornei ao banheiro, ele não demorou para estar lá novamente. 
Puxou-me pela cintura, e me beijou. E eu correspondi, afinal de contas um copo d'água, um beijo na boca e um boquete não se nega a ninguém. E foi um beijo cheio de desejo, de vontade, de excitação. Ele logo ficou inclusive de pau duro enquanto me beijava e eu apertava-lhe a bunda linda que ele tinha sob a bermuda jeans. E gemia enquanto eu apertava aquelas nádegas macias e a vontade de comê-lo ali mesmo surgiu, não vou negar. Ele se apresentou, Henrique, e não acertou meu nome de primeiro. Novamente beijou-me com intensidade, mordiscando meu lábio inferior, e voltou a mesa em que estava com amigos. Quando voltei, e sentei com o Ariano, ele afirmou que outro havia dado em cima dele assim que o de barba tinha levantado para falar ir atrás de mim. Qual era o problema desses dois caras?, era a única coisa que eu podia imaginar, mas o Ariano estava se divertindo. Primeiro porque ele queria me ver ficar com alguém e romper meu celibato auto-imposto, mas também porque ele queria ficar com o outro também. Foi quando ele se levantou para ir ao banheiro, e o rapaz de barba levantou-se e veio até a mesa conversar comigo.
"Quero ficar com você, como isso pode acontecer?". Eu sorri. "Você pode sentar aqui e nós podemos ficar, ora...". Ele sorriu, acendendo um cigarro. "E seu namorado?". Por um segundo passou-se pela minha cabeça que devia manter a fantasia dele, mas eu quis apostar que ele possuía objetivos mais elevados do que, simplesmente, provar que era tão mais gostoso e esperto que faria um homem que tem namorado trair o mesmo para ficar com ele. "Eu não tenho namorado, ele é apenas meu amigo!". O sorriso dele se desfez. Ele apenas virou-se nos calcanhares e foi embora, voltando aos amigos dele. Eu me servi de cerveja, nenhum pouco surpreso com a atuação daquele menino tão gostoso, mas admito que um pouco triste, mas do que deveria por alguém que com certeza não valia nada. Afinal eu estou em Natal, não é?