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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Creta: O Rapto de Ganimedes

, em Natal - RN, Brasil
Estreamos aqui a nova temporada do HomoHistória. Contaremos a partir de hoje a história das relações homoeróticos na civilização creto-micênica, em Creta; em seguida trataremos do legado da Grécia Antiga; para depois lidarmos com Roma e, por fim, o princípio do mundo europeu-cristão. Espero que vocês gostem tanto de ler quanto eu de escrever sobre este assunto. 






Ganimedes é um príncipe troiano. Filho de Trós, o primeiro rei da cidade, e Calírroé. Era um jovem de extraordinária beleza, que um dia, enquanto pastoreava o rebanho paterno pelas montanhas, despertou uma paixão arrebatadora no rei dos deuses, Zeus. Algumas versões deste mito, contam que Zeus transformou a si mesmo em uma águia que raptou o jovem príncipe troiano no monte Ida, ou em outras versões, que o deus havia enviado uma águia, seu animal preferido, para raptar o belo pastor. Para empreender o rapto, no entanto, antes, o deus enviou ao rei Trós, em uma versão o seu sacerdote Tântalo, em outras o próprio deus do amor, Eros, para oferecer cavalos divinos, filhos do vento sul, Zéfiro, e uma harpia. Somente com o rapto acordado com a família do rapaz, que o deus pode buscá-lo em sua forma de águia.
Ao chegar ao Olimpo, Zeus ofertou a Ganimedes dois presentes: um aro, símbolo da completude, e um galo, protetor contra as trevas, monstros noturnos e aqueles que odeiam o amor, estes símbolos representam o verdadeiro amor para os gregos. Ele também ofertou-lhe o néctar e ambrosia, fazendo-lhe que ele se tornasse eternamente jovem e imortal. Também deu-lhe asas. Alado e imortal, agora ele passaria a desempenhar o papel que antes pertencia a deusa Hebe, deusa da juventude, de servir os deuses à mesa, trazendo-lhes o néctar e ambrosia, mas também dividira o leito do rei dos deuses pela eternidade. Ele também passou a figurar no céu como a constelação de Aquário, carregando o jarro de néctar e observado pela Águia.
O mito de Ganimedes, oriundo de Creta, é citado por vários autores gregos. Na Ilíada:

"(...) Erictônio gerou Trós,
rei dos Tróicos, que teve três filhos imáculos,
Ilo, Assáraco e - par-dos-deuses - Ganimedes,
que foi, entre os mortais, o mais belo: os Celestes
o raptaram, a fim de que, por sua beleza,
servisse o vinho a Zeus, restando entre os eternos". 
(XX, 230-235)

 "e não te esqueças dos corcéis de Enéias: 
apresa-os dos Troianos, tange-os para os Gregos, 
pois pertencem à raça dos que Zeus altíssono 
deu a Tróis, em resgate, pai de Ganimedes, 
por serem dos melhores sob o sol e a aurora
(V.263-267)

No Hino Homérico 5 a Afrodite, escrita por volta do século VII a.C:

"Em verdade, o sábio Zeus levou Ganimedes de cabelos dourados 
por causa de sua beleza, para ficar entre os Imortais 
para servir bebida aos deuses na casa de Zeus - uma maravilha de se ver -, 
honrado por todos os imortais como ele chama 
a néctar vermelho da taça de ouro ... 
imortal e para sempre jovem, assim como os deuses"
(203 ff)

Téognis, do século VI a.C., em seu fragmento 11345 diz:

"Há algum prazer em amar a juventude, uma vez que uma vez que, de fato, até mesmo [Zeus] o filho de Cronos, rei dos imortais, se apaixonou por Ganimedes, agarrou-o, levou-o ao Olimpo, e fê-lo divino, mantendo o linda flor da juventude";

Eurípides em Ifigência em Aulis (v. 1051), no século V a.C.:

"E Dardanos criança [que é descendente], Ganimedes, príncipe da Frígia, o querido deleite de Zeus à cama, mergulhado profundamente a taça de ouro [no casamento de Peleu e Tétis atendidos pelos deuses], enchendo os copos para vinho"

e Píndaro, em sua Ode Olímpica, do século V a.C.:

"Adorável graça de seu corpo, que hora primavera-maré da beleza, que há muito tempo libertou Ganimedes - assim o quis a Citera [Afrodite] - do poder implacável da morte" (10, 102).

Contudo o mito cretense transportado para Tróia, lugar mítico além do mundo conhecido pelos gregos, fala sobre o ritual minóico, que existia por volta de 1650 a.C., de iniciação adolescente em que um jovem (kleinos, o belo, o glorioso) era sequestrado por um homem adulto (philetor, o amante). Este pagava um tributo a família do jovem adolescente, e ao adolescente dava uma armadura e armas (espada e lança) e este passava a frequentar o círculo de amigos do philetor por pelo menos dois meses. Se ao fim do período com o amante, o jovem estivesse satisfeito, ele mudaria seu título para parastates (companheiro) e, somente a partir daí, eles dividiriam a mesma cama.
Strabo, um historiografo que viveu por volta de 64 a.C., dá a seguinte descrição de todo o processo:

"(Os cretenses) têm um costume peculiar em relação a casos de amor, para eles ganharem os objetos com seu amor, não usam a persuasão, mas por sequestro, a amante diz aos amigos do menino, três ou quatro dias antes que ele vai fazer o rapto, não para os amigos esconderem o menino, mas não deixá-lo sair do caminho indicado. Se o menino não aparece é de fato uma coisa mais vergonhosa, uma confissão, por assim dizer, que o menino não é digno de obter tal amante, e quando se encontram, se o sequestrador é de igual ou superior na hierarquia ou outros aspectos ao menino, os amigos o perseguem e tentam prendê-lo, mas apenas de uma forma muito suave, satisfazendo assim o costume, e depois que eles alegremente viram-se e o deixam ser levado para longe, se, no entanto, o sequestrador é indigno, eles levam o menino para longe dele.
É uma vergonha para aqueles que são bonitos na aparência ou descendentes de ancestrais ilustres e falham em obter os amantes, presume-se que se caráter (masculinidade) é responsável por tal destino. Mas os parastathentes (aqueles que ficam por seu amante em batalha ) recebem honras, pois em ambos os bailes e as corridas os que tiveram amantes têm os cargos de maior honra, e têm permissão para se vestir com roupas melhores do que o resto, isto é, o hábito dado a eles por seus amantes, e não só então, mas mesmo depois de terem crescido para a idade adulta, eles usam um vestido distintivo, que se destina a dar a conhecer o fato de que cada um se tornou kleinos, pois eles chamam a pessoa amada kleinos (distinto) e o philetor amante. 
Os jovens mais desejáveis​​, de acordo com as convenções de Creta, não são os excepcionalmente bonitos, mas sim aqueles que se distinguem pela coragem viril e comportamento ordeiro."

Aristóteles, no seu Política, elogia o método cretense porque controlava a população da ilha, evitando que mulheres ficassem grávidas (II, 10). Já Platão, em Leis, diz "E nós somos unânimes em acusar os cretenses de fabricar a história de Ganimedes: porque acreditavam que suas leis tinham vindo de Zeus, eles também têm ligado esta história ao deus, pensando que eles poderiam colher o fruto desse prazer e dizer que eles estavam seguindo o exemplo divino. Mas isso é o reino do mito" (636B-D). Não importa a opinião, a arqueologia continua encontrando inúmeros ex-votos, imagens dedicadas aos deuses, em agradecimento a estas uniões ou pedindo proteção para os parastates e philetor, mas não vamos falar tudo de uma vez não é? Porém podemos dizer que os dórios, a tribo que formara o império micênico, levaram esta instituição cretense e a disseminaram por toda Grécia, sendo bem comum encontrarmos variações dentro deste padrão em todas as futuras cidades-Estado que vão florescer por toda a Hélade.




sexta-feira, 20 de junho de 2014

Seguro Em Minhas Mãos

, em Natal - RN, Brasil




Esta campanha foi lançada esta semana pela empresa de seguros AllState, por causa do Dia Internacional do Orgulho Gay, próximo dia 28 de Junho, com o título Safe In My Hands (Seguro em minhas mãos) e fala sobre o direito dos homossexuais de demonstrarem afeto em público em segurança. A campanha, contudo, não se volta aos heterossexuais dizendo a eles que os gays tem o direito de não serem importunados, ao contrário, ela instiga os gays e lésbicas a, mesmo havendo preconceito, que eles continuem manifestando afeto em público, porque, afirma a campanha, o que torna a vida dos homossexuais mais perigosa é a invisibilidade. Quanto menos nós aparecemos, na TV, na rua, dentro dos shoppings que pipocam nas cidades brasileiras (apesar deste ser um modelo de negócio falido), mais nos tornamos vulneráveis a ataques homofóbicos. Precisamos sermos vistos em meio ao povo para sermos protegidos exatamente por estes olhares reprovadores. Quando nos escondemos em guetos, becos escuros e bairros marginais, nós damos a possibilidade para que nossos atacantes sintam-se seguros (olha que ironia) para nos atacarem.
A mim, fez muito sentido. Mas as pessoas que expus a ideia. Todas sem exceção não apoiaram. Logo surgiu a frase que me fez me arrepiar dos pés a cabeça: "Ser gay não é uma bandeira que eu devo levantar em todo lugar que eu chegar". Não é? Então é o que? Ser gay não é algo privado, ao contrário do que a militância yuppie da década de 1990 pregou. Gozar é algo privado, porque afinal de contas, você pode gozar inclusive sem a presença de nenhuma outra pessoa, às vezes, somente com sua imaginação (os sonhos eróticos estão ai para provar isso). Ser gay é uma identidade (repito isso), é algo que nós assumimos para os outros, não para nós mesmos! Ser gay é algo que fica do lado de fora do nosso corpo! E, com esta identidade, nós nos colocamos num certo posicionamento político. É como ser de esquerda, é como ser de direita, é como ser anarquista, é como ser comunista, é como ser liberal, ser gay não tem a ver com sua relação sexual, mas com o posicionamento político e cultural que você assume quando sai do armário. Por isso os g.0.y e os H.S.H renegam esta identidade, eles rejeitam o projeto político-cultural que nos envolve. 
Portanto, perceba, você, homem gay, toda vez que você beija um homem, o abraça e, principalmente, toda vez que você começa um namoro com um homem (não falo nada sobre sexo, este pouco me importa!), você assume um projeto político que precisa tornar-se consciente: estamos aqui para mudar o mundo. Ser gay significa que só vamos sair daqui quando formos aceitos. Não que eles nos deem nossos direitos (esse é o projeto yuppie), não que eles nos garantam liberdade para viver nossa sexualidade em paz (este é o projeto g.0.y e de inúmeros outros grupos), nós queremos mudar de verdade a porra desse mundo! Ser gay significa em cada beijo que você der no seu namorado, você estará mostrando as pessoas ao seu redor que a diversidade existe. Que o modelo de família heterossexual não basta, que o modelo de amor entre homem e mulher é ultrapassado, que a existência humana tem muito mais espectros do que a bipolarização homem-mulher consegue absorver. 
Desculpe te informar, mas todo gay e lésbica é um militante. Desculpem-me se vocês têm medo disto ou preguiça. Todo homem gay e mulher lésbica dedica sua vida, consciente ou não disso, de ser um exemplo para os outros que o mundo é muito maior. Ai está a diferença: se somos conscientes deste serviço, nós não agimos para atrasar o processo. Quando nós não nos beijamos na frente de alguém por "respeito", quando não seguramos na mão dos nossos namorados com medo, quando apresentamos nosso marido como amigo. Quando sabemos que nossa tarefa política é mostrar nosso estilo de vida gay é possível para qualquer um que assim o deseje, se esconder se torna uma bobagem. Então, junto com a AllState eu convoco vocês, todos, a andarem de mãos dadas com vossos namorados. Somente este gesto, vocês não sabem o quanto estarão mudando o mundo com este simples gesto.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Primeiro Passo

, em Natal - RN, Brasil
- Pronto, agora vá encontrar um namorado, permita-se encontrar um amor.
Eu disse, concluindo o tópico da conversa pelo Whatsapp. Meu amigo Doc riu.
- Vou procurar nada. Deixa acontecer. 
Eu sorri e digitei a resposta.
- Isso não existe, moço. Imagina, se todo mundo fica sentado esperando acontecer, como é que vai ter alguém procurando?
- Ah, claro que se encontra, boy. 
Ele respondeu, e continuou:
- Quantas pessoas relatam que quando pararam sua busca desenfreada conheceram alguém?
- E quantas pessoas realmente falaram a verdade quando contaram isso?
- Ah, depende da pessoa...
Ele respondeu enquanto eu ainda digitava a próxima mensagem.
- Se uma pessoa realmente tivesse parado de procurar, seria como eu, que não fico mais com homens desde outubro e neste meio tempo também não tentei conhecer ninguém novo.
- Mas também não é assim...
Tentou ele, novamente, me interromper.
- Se a pessoa não fez isso, ela não parou de procurar coisa nenhuma. Só falou isso para parecer descolado, aquele que não está preocupado em encontrar um namorado porque vive muito bem consigo mesmo, mas fica profundamente incomodado quando leva um fora na balada; ou para aparentar um milagre romântico, do tipo que causa inveja em todos: "olha como fomos feitos um para o outro".
Doc então respondeu:
- O que eu quis dizer é que não é uma prioridade neste momento, mas se por acaso eu encontrar alguém no ônibus, na faculdade, em uma festa, não tem por que não conhecer mais a fundo. Na verdade, inclusive, a todo momento conhecemos pessoas novas, trocamos olhares e tudo...
- Se você olha para o lado, você está procurando, Doc. Eu, por exemplo, não estou. Eu só saio para a Igreja e para o ensaio do coro, e quando eu saio vou lendo o caminho todo para garantir que meus olhos não esbarrem em alguém bonito pelo caminho. Isso é não procurar. Não procurar significa necessariamente não estar aberto se acontecer porque você realmente não vai ver que algo existe. Não se vê através de portas fechadas.
- Ah, agora entendi. De acordo com isso, estou procurando então. Esse negócio de conceito é foda.
- Assumir é sempre o primeiro passo.
Conclui e ele respondeu com uma risada.


Feliz Dia dos Namorados!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Como Se Nasce Gay: Nós Não Somos Mutantes! (Parte I)

, em Natal - RN, Brasil
Eu leio X-Men desde os 12 anos, e sempre me identifiquei com a ideia de ser odiado por que nascemos diferentes. Os mutantes, criados em 1962, sempre foram uma metáfora sobre aqueles que se sentiam diferentes, mas é para os negros e os gays que os Filhos do Átomo sempre falaram mais diretamente. O racismo, primeiro (a analogia entre o Professor X e o Malcom X é óbvia), e a homofobia (com mais intensidade a partir da década de 1990 quando Jonh Byrne tirou o Estrela Polar do armário e Fabian Nicieza publicou Canção do Carrasco, saga que introduziu no universo mutante um vírus que, inicialmente, só atacava portadores do gene X, que causa as mutações, mas ao contaminar o primeiro ser humano torna-se um.problema mundial, uma clara alusão a AIDS), isto é, o preconceito, este sempre foi o tema central das revistas dos pupilos de Charles Xavier e, por isso, elas semprr lideraram as vendas de quadrinhos nos EUA (já no Brasil ninguém vence a Turma da Mônica). Porém hoje, 20 anos depois, e tendo dedicado tantos anos de estudo da História das relações homoeróticas, eu não posso mais sustentar o argumento de que existe um componente genético na Homossexualidade. E explico os meus motivos para crer nisso.
Apesar de eu adorar a ideia, eu sei que o preconceito gosta de partir para o caminho biologizante. Não é de hoje qie explicações para nossas diferenças apareçam no reducionismo genético. Desde o naturalismo literário no século XIX, vemos as diferenças serem resolvidas com o maldito "pau que nasce torto, nunca se endireita". A descoberta do DNA abriu um imenso problema para a História, a Psicologia e a Sociologia porque a Medicina e a Biologia resolveram acreditar-se capaz de explicar os comportamentos humanos e generalizá-los criando leis que por definição são ahistóricas (existem sem mudança através do tempo), gerais (ignoram o individuo) e universais (desprezam fatores culturais e sociais dos diversos povos da Terra).
Um exemplo é a invenção da Frenologia, uma ciência explorada por médicos (sobretudo psiquiatras) que com base nas medições do tamanho do crânio e da mandíbula pretendia reconhecer psicopatas entre a população. Outro exemplo são as pesquisas nazistas, que com intenção de provar a superioridade da raça ariana, usavam a genética para definir raças entre judeus, ciganos e comunistas. Conseguiram em ambos os casos provarem suas teses, mas obviamente falseando seus resultados.
É bom que fique claro: não existe prova de algum componente genético na homossexualidade, esta é apenas uma teoria. É apenas uma das explicações, contudo, é uma que nos torna desvios da norma. Mutações! Segundo a teoria genética haveria um DNA normal, heterossexual, e nós portaríamos então uma síndrome que alteraria um conjunto de cromossomos, como a Síndrome de Down, e daí desenvolveríamos o homossexualismo a partir do nosso amadurecimento sexual. A ideia que existe um núcleo genético normal é a grande falha desta teoria. As pesquisas sobre Down, inclusive, cujo componente genético é particularmente importante, é quem mais nos dá argumentos contra este discurso. Considera-se hoje que a Síndrome de Down não é uma mutação que transforma os seus portadores numa subespécie de humanos (porque é isso que quer dizer mutação, Sapiens sapiens), mas apenas uma característica comum aos seres humanos que se manifesta, inclusive, com determinada regularidade.
Outro grande problema da explicação genética advém da teoria da evolução. Uma mutação só seria compartilhada entre os homens se estes homens mutantes repassassem seus genes tendo filhos. O que quer dizer que em cada casal heterossexual que teve um filho gay, o gene estava ali presente. Se o gene está presente, o que faz ele ser ativado ou não é a presença de outro gene recessivo que estaria no seu companheiro, isto é, ambos, os pais e mães carregam o código para criar um bebê homossexual. A genética conhece genes recessivos, características físicas de bisavós como olhos claros ou cabelos ruivos podem reaparecer na família após gerações nos bisnetos, estando adormecidos nos avós e pais, esperando uma outra pessoa com o par de gene igual para gerar uma criança.
Crer na pura explicação genética nos coloca numa situação muito perigosa. No limiar da medicalização e da eugenia, é possível que num futuro próximo se construir um teste que possa indicar o homossexualismo nos bebês e um casal possa ter o direito de abortar este pequeno mutante. Seria uma imensa crise no interior dos grupos contrários ao aborto porque estes também são contrários a causa gay, mas não acham que alguém levantaria esta proposta? O gatilho genético anda de mãos dadas com a definição de que somos pessoas doentes, geneticamente doentes, como homens calvos ou diabéticos tipo 2, por isso é bom abandonar essa ideia.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Dilema

, em Natal - RN, Brasil
Hoje, aqui, estava programado um texto sobre conselhos para minha vida amorosa dados por um amigo via Whatsapp. Transcrevi uma conversa, após aprovação dele, e tencionava mostrá-la a vocês, contudo desisti. O post anterior Eu Sou Theodore reapresentou aqui um tipo de texto que eu não desejava mais escrever no blog, ele retornou de mansinho, como se eu falasse sobre um filme, mas como o Marcos atentou em um dos comentários, eu só estava escrevendo mais um texto de como não tenho qualidades e como minha vida é uma bosta. E eu havia prometido (a mim mesmo) não trazer este assunto a tona novamente.
E, ironicamente, apesar de ser criticado diariamente ano passado por causa deste tópico, foi o texto que mais tive engajamentos, comentários, no ano todo. Meus textos sobre História, sobre política, sobre comportamento gay, os temas que escolhi para manter o blog vivo agora que ele caminha para os dez anos, nenhum destes temas conseguiu tanta participação de vocês, leitores, como um daqueles que eu poderia ser acusado de criar minha própria pity party. Acusação que, admito, sempre me incomodou profundamente e que fez muitas pessoas escreverem comentários agressivos (uso esta palavra para manter a polidez) que pretendiam sem dúvida me fazer parar de escrever.
Mas agora, quando começo a planejar algo especial para o décimo ano do Estórias do Mundo, eu me pergunto se vale a pena. Manter os temas inférteis que tenho abordado que geram comentários que se resumem a frases como "que texto interessante", isto é, quando existem comentários; ou abordar minha vida infeliz e solitária, atraindo muitos comentários, mas estes cheios de maldade, e que faz com que todos me considerem um depressivo pessimista mal-humorado cuja companhia, mesmo virtual, é como um câncer corrosivo que precisa ser extirpado antes que consuma a luz de suas vidas?
Eu não sei o que fazer e o dilema se instala. As opções são claras, e peço ajuda a vocês para responder na enquete acima. Mas aqui explico as opções:

1. Continuar a falar sobre História, Política e Comportamento gay.
POSITIVO: Eu estou a vontade escrevendo sobre o tema, não me exponho e preservo minha privacidade, o que dado a minha vida atual, é a melhor opção.
NEGATIVO: Não existe identificação dos leitores do blog com estes temas, o que não causa engajamento, isto é, comentários. Sem comentários eu, sinceramente, me sinto escrevendo para as paredes como se ninguém estivesse lendo. Também escrever assim sozinho, sem discutir aquilo que escrevi com os comentadores, me soa extremamente narcisista, como se eu escrevesse somente para expor meu raciocínio sem me preocupar com o que o outro tem também a dizer. 

2. Escrever sobre minha vida, isto é, minha solidão e as desventuras amorosas/sexuais que me cercam se eu abrir esta porta. Por que, infelizmente, não existe nada de bom a dizer sobre minha vida.
POSITIVO: Haveria diálogo no blog. Comentários, discussões, conversas seriam comuns.Também com a identificação das pessoas com os meus problemas, talvez alguém se reconhecesse representado e descobrisse que só porque sua vida é uma merda não significa que você está morto nem doente. Acontece nas melhores famílias.
NEGATIVO: Haters! Os comentários me atacando são cansativos. Desgastantes é a palavra. Uma coisa é alguém criticar, opinar, dar seus motivos; outra é um anônimo que só quer sapatear sobre quem já está fodido destilar seu veneno como se fossem palavras de sabedoria. Também não suporto mais o papel que me colocam de quem quer chamar atenção, de quem faz o papel de pobre coitado porque, simplesmente, ninguém consegue acreditar que minha vida é cagada.

3. Eu posso mentir. Cada vez que algo acontecer, eu posso contar a história oposta. Um dia solitário pode se tornar um jantar entre amigos aqui em casa, uma noite amarga pode se transformar uma declaração ardente de amor. Eu teria a vida que sempre desejei.
POSITIVO: Todos finalmente poderiam tirar das suas cartolas a frase "eu te disse" que estão guardados. Não haveria nenhum comentário maldoso. E também todos que me leem poderiam ter esperança que sua história também poderia mudar. Além disso, seria um ótimo exercício criativo.
NEGATIVO: Seria uma mentira. E mentiras dão trabalho para manter, eu teria que garantir que a mentira tanto nos Facebook, como Twitter, Instagram e Tumblr, isto é, minhas redes sociais, para funcionar; o que, necessariamente, atingiria também meus amigos, o que não seria um grande problema porque eu não tenho contato com eles fora do computador, isto é, nenhum deles convive comigo de fato aqui em Natal, seria fácil de nem eles saberem a verdade. Mas o que aconteceria se tudo fosse descoberto algum dia? Que problemas isto poderia me causar?

4. Fechar o blog.
POSITIVO: Existe algo? Sinceramente não vejo nada de positivo. Não para mim.
NEGATIVO: Eu não tenho a menor vontade de encerrar o blog, porque eu gosto de escrever, mas se ninguém está lendo, para quê? É uma opção, mas é algo que eu só faria em último caso. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu Sou Theodore

, em Natal - RN, Brasil


O Gato me avisou para assistir Ela (Her, Toronto, 2013) com cuidado. Ligou-me após o filme, apesar dizer que detesta spoiler, dizendo que tinha pensado em mim durante toda a fita. O enredo gira em torno de um homem solitário (Joaquin Phoenix), recém-separado, com poucos amigos e dedicado ao seu trabalho como escritor. Theodore, seu nome, vive em um futuro hipster, em que pessoas se vestem como na década de 1950 e ditam cartas para que seus computadores as imprimam como se escritas à mão fossem. Neste futuro, um sistema operacional chamado no filme de "nova consciência" é vendido e, após instalado e personalizado através de quatro perguntas, Theodore é apresentado a ela, Samantha (Scarlet Johansson). Mas Samantha é apenas uma voz, no computador. Tudo bem que ela compõe músicas para ukelêle e discute filosofia (eu avisei que era um futuro hipster), mas é com esta criatura imaterial que Theodore se relaciona, se torna amigo e, por fim, se apaixona.
Todos os amigos de Theodore apoiam o relacionamento dele com o sistema operacional. Inclusive, explica-se que aquilo tem sido comum, pessoas têm relacionamentos de amizade e amorosos com os programas. Uma cena, na minha opinião, é esclarecedora. Theodore encontra sua ex-esposa para assinar o divórcio (eles já estão separados desde o início do filme, ela aparece somente em flashbacks) e ela pergunta se ele está saindo com alguém. Ele conta sobre Samantha e que ela é um programa de computador. O diálogo que se segue é a chave para decodificar todo o filme.
As afirmações da ex-esposa sobre a incapacidade dele de lidar com a depressão dela, das exigências dele para que ela se mantivesse drogada, do afastamento dele diante da recusa dela de resolver seus problemas através do uso de medicamentos, sua percepção que Theodore não possui o amadurecimento para lidar com emoções reais, na verdade, são uma crítica de Spike Jonze, diretor e roteirista do filme, a toda geração Y e seus relacionamentos virtuais. Namoros e amizades construídas somente mediante uma rede wifi. Amigos que são incapazes de participar da vida uns dos outros quando um problema real aparece; namoros higienizados por uma total e completa ausência de contato físico entre os ditos parceiros; relacionamentos que, de fato, podem ser desligados assim que se deseja.
A crítica de Jonze me acertou em cheio. Eu sou Theodore. Sem experiências com relacionamentos reais. Catando migalhas entre aplicativos e redes sociais. Sem uma vida própria e construindo ficções de relacionamentos (amigos e amores) impossíveis de se realizar fora da rede mundial de computadores. Eu tenho 32 anos e a maturidade de um garoto de 22 anos (yes, I had been tested) porque, além de estudar, o que eu fiz mais na minha vida?
Isso talvez explique minha dificuldade em construir relacionamentos. Eu, imaturo, atrairia também garotos imaturos (eu sou realmente assediado por garotos entre 16 e 23 anos, homens mais velhos não olham para mim nem por decreto presidencial ou bula papal), os quais podem não estar interessados em relacionamentos ou, quando estão, podem se decepcionar porque eu não sou o homem maduro que eles procuram quando olham para alguém de 32 anos.
Eu sou como Theodore: vazio e incapaz de oferecer qualquer coisa na troca que é um relacionamento entre duas pessoas. Eu não fiz nada, eu não construí nada, eu não consegui nada, eu não possuo nada, eu não tenho nada do quê me orgulhar. Eu só acumulei um monte de conhecimento que se eu pensar em externar sempre vai soar como arrogante. Eu, como Theodore, sou incapaz de me relacionar com sentimentos e pessoas reais porque eu não tenho a experiência necessária. Não desenvolvi em minha vida as ferramentas que são úteis para a construção de relacionamentos humanos. Não tenho inteligência emocional, mas meu Q.I. é de 120 pontos. Não tenho a mínima experiência, não tenho a menor capacidade, não possuo nenhum talento.
Não é a toa que meu único namoro foi virtual, que todos os meus amigos só existem através do Whatsapp, Jonze conseguiu descrever minha vida ou o futuro dela, porque como seu personagem central minha inaptidão torna impossível que eu possa construir qualquer relacionamento com um ser humano. Meu futuro é um S.O. também, por mais nojento que assistindo o filme tenha me parecido a experiência, mas nenhum ser humano seria capaz de desejar ficar do meu lado. E isto é um fato.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Retractus

, em Natal - RN, Brasil
 
Retractus é o nome deminha primeira exposição que está em cartaz (se usa em cartaz para exposicão?)
na galeria do IFRN Cidade Alta (o Instituto Técnológico do Rio Grande Do Norte) até dia 30 de maio. O nome vem do latim, é o particípio passado de Retrahere, que quer dizer sair para fora. É isto o que esta exposição quer dizer. São desenhos que estavam guardados desde 2011 que agora saem para fora para encontrar o público. Para serem vistos.



O tema da exposição é a linha. Eu sempre fui apaixonado pela linha, desenhar sempre foi para mim uma mágica criada pela ponta do lápis e aquele traço que ela fazia. E, com isso, eu decidi desenhar homens. Homens para mim são o melhor exemplo para explorar a linha. Os traços de seus rostos, os músculos de seus corpos, os pêlos de suas peles são oportunidades perfeitas para fazer a linha, como protagonista, brilhar!



Além disso, praticamente como um efeito colateral, a discussão sobre homofobia também tornou-se um tema que transpassou a própria exposição. Dia 17 de maio é o Dia Internacional de Combate a Homofobia, em homenagem à retirada da Homossexualidade do rol de doenças em 1990. Esta coincidência bem vinda me fez também notar que ao colocar os desenhos de corpos masculinos na galeria eu obriguei as pessoas a verem o homem num papel reservado a mulheres: o de objeto digno de admiração.

 

Durante a história da arte recente, o corpo masculino foi distituído de toda possibilidade de beleza enquanto o belo foi associado à mulher. A exposição então discute homofobia quando reloca o homem ao lugar que atualmente é ocupado pela mulher, discute sobre o papel masculino, sobre o que é belo e obriga aquele que observa aos desenhos a enfrentar seu desconforto de encontrar beleza no homem. As pessoas que têm visitado a exposição demonstram em seu rosto o incômodo de terem que lidar com a beleza onde não acham possível existir.

 


 
PS: Todos os desenhos estão a venda e custamR$ 15.00.