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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Carnaval Hipster

, em Natal - RN, Brasil



I

Após sair do trabalho, todos da agência em que eu trabalho se fantasiaram e saíram para um baile de máscaras na rua que abre o carnaval de Natal. Eu me maquiei como um pierrot com um lápis de olho emprestado. Houve um esquenta em um café onde duas rodadas de tequila passaram pela mesa. Tocava-se frevo e marchinhas antigas e novas. Cervejas em lata eram compradas, cigarros acesos num isqueiro amarelo, alguém apareceu com um lenço embebido em éter. Lembrava um baile de minha infância quando eu não conseguia enxergar mais do que a cintura das pessoas e com isso me perdia de meus pais. Jornalistas cobrindo a festa para colunas sociais tiravam fotos do meu grupo formado por jornalistas, publicitários e artistas. Meu nome fora perguntado por um fotógrafo de pele morena e anotando num caderno de capa cor-de-vinho. E eu lembrei que fiquei, na foto, a direita, então meu nome aparecerá primeiro.

II

Conversava com o Tutz no bloco Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens pelas ruas do bairro de Ponta Negra. A praia nos observava lá de baixo, porque o bairro fica acima das antigas dunas que dominavam a paisagem. Caminhávamos ouvindo as mesmas três marchinhas de carnaval que aquela banda de metais sabia tocar. As amigas do Tutz estavam a frente de nós. Eu bebia uma long neck e ele fumava nervosamente um Lucky Srike. Ele se dedicou uns instantes a amiga dele enquanto eu reparava que um Urso me olhava ensaiando um sorriso, mas quando sorri-lhe de volta, ele me olhou dos pés a cabeça e virou-se. Eu tomei um gole da minha cerveja e o Tutz voltou com um sorriso no rosto. "Ela acha que somos namorados", eu perguntei quem, e ele apontou a namorada da irmã da amiga dele. Eu sorri, ele também. "Acho que Natal toda já está achando, afinal, somos sempre vistos juntos. As pessoas falam!". Ele concordou que era bem provável. "Afinal ela não foi a primeira a dizer isso, não é?", concluí e pensei: "Pior que você seria um maravilhoso namorado, Tutz, pena que você não pensa a mesma coisa de mim!".

III

Eu estava esperando o ônibus para ir encontrar um amigo. Ia primeiro para a casa dele, sairíamos depois. Mas para chegar a casa dele eu teria que pegar dois ônibus, porém com a possibilidade da integração não seria um problema. O relógio marcava pouco depois das 21h e eu esperava o primeiro ônibus que demorava. Foi quando eu vi um rapaz se aproximando. Ele parecia um pouco bêbado, era magro e mais baixo do que eu. Eu me aproximei do banco  do abrigo de ônibus e ele falou alto: "Não vou te assaltar não! Pode ficar tranquilo". E foi se aproximando de mim. Ele não deu três passos e sua voz mudou de tom. "Passa o celular senão eu atiro!", e me olhou sério, eu esperei a arma que ele dizia estar dentro da bermuda de surfista que ele usava, mas dava para ver que não tinha nada lá. "Não!", respondi, e saí caminhando, me afastando dele sem olhar para trás, para um ponto de ônibus que ficava do lado de um bar. O ônibus não demorou. E pulei dentro dele com um verdadeiro alívio no peito. Desci perto do Midway, um shopping frequentado pela classe média da cidade e caminhei para outro ponto de ônibus que me levaria a casa do meu amigo, foi eu me aproximando do ponto do ônibus e um mendigo se aproximando também. Estava sujo, descalço, carregando um saco de mangas, me perguntou se eu estava indo para casa e eu disse que não, ele perguntou se eu não queria comprar-lhe as mangas, eu falei que não e agradeci. "Mas 'cê não 'tá afim de um rolé não, cara?". Eu me surpreendi, ele lançava um sorriso com dentes podres. "Se você me conseguir algum dinheiro... a gente pode sair junto...". E eu disse que não, foi quando meu ônibus finalmente chegou. Que carnaval!

IV

Eu estava no computador me curando da ressaca após um churrasco na casa do namorado de um amigo, o mesmo com o qual eu passara o meu carnaval ano passado, quando o ex-namorado de um outro amigo me chamou no chat do Facebook. Ele estava triste porque era Dia de São Valentim e ele não tinha ninguém. Ele falou que era difícil encontrar em Natal alguém com todas as características que ele gostava: gostar das músicas que ele gosta, gostar de frequentar os lugares que ele gosta, não se incomodar com o fato dele fumar maconha e ser inteligente e bonito. "Você nunca conheceu ninguém que te interessou?", perguntei. E ele contou três estórias, de pequenos relacionamentos que não terminaram em namoro porque, no fim, enquanto as pessoas batalhavam para o namoro simplesmente começar, ele se ocupava em procurar aquele elemento que não se encaixava no namorado perfeito que ele construíra. Terminou a conversa contando que  tinha um outro menino dando em cima dele naquele momento, mas ele não parecia ser do jeito que ele gostava. Eu pedi licença para ele porque era tarde e eu tinha que ir dormir. Deitei na minha cama e e olhei para o teto no escuro e não conseguia parar de pensar na diferença entre a vida do meu amigo e a minha. Enquanto ele, obviamente, escolhia demais e, por isso, estava sozinho, a minha única opção de ficar com alguém envolvia dinheiro. Um aperto comprimiu meu coração. E eu chorei até dormir.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A Virada (capítulo final)

, em Natal - RN, Brasil



Naquela segunda-feira, durante o horário de almoço do trabalho, mandei uma mensagem pelo WhatsApp para o Artie. Conversamos por um bom tempo. Flertes inofensivos, na verdade. Elogios dele de lá, cantadas minhas do outro lado. Foi quando o convidei para nos encontrarmos de novo, ele falou que até o início do ano ele estava ocupado demais, mas que após o Reveillon nós poderíamos nos encontrar novamente sim. 
Voltando ao trabalho, recebi o convite para passar a festa de Ano Novo na casa de uma amiga. O Fernando estava on-line na hora e eu pensei em convida-lo. Seria bom, pela primeira vez, passar um Reveillon acompanhado. Eu fiz o convite para o Fernando, sabendo, no entanto, que passar aquela festa comigo e meus amigos era, com certeza, admitir um relacionamento que ele já havia me dito que não estava interessado em ter. Ele não negou o convite de imediato. Disse que já tinha um compromisso, mas que não tinha nada certo, que ele ia ver, e qualquer coisa me avisaria. Este convite foi reforçado algumas vezes, mas ele só recusou de fato no último dia de dezembro.
Neste dia que ele recusou, ele fez uma postagem no Facebook que explicou tudo o que estava acontecendo. Ele postou: "Deixa eu te fazer feliz. Deixa?". Eu comentei que o amor estava no ar e ele me chamou no bate-papo. Primeiro negou que havia alguém, eu insisti e foi fácil ele admitir. "Olha, Foxx, eu não menti para você. Eu não estou aberto para um relacionamento, com ninguém...". Foi quando eu completei a frase dele: "Com ninguém em Natal, não é? Já em São Paulo...". Ele demorou a responder, mas admitiu, admitiu que tinha medo de sofrer e de se machucar, e eu assumi o único papel que me cabe em todos os relacionamentos que eu já tive: o amigo. 
Dei conselhos a Fernando sobre namoros. Minha filosofia de vida aplica-se diretamente a isso: a única coisa que te faz sofrer é o medo de sofrer, e foi o que eu disse a ele, que se ele entrasse nesse relacionamento sem o desejo de ser eterno, ele não sofreria. Contei-lhe que eu nunca sofri por amor, eu sofri por estar sozinho, mas nunca por ter amado alguém, porque eu nunca esperei que meu amor durasse para sempre ou que meu amor precisasse ser correspondido, o amor chegou a mim sempre como um sentimento quente e que me fazia bem. Ele pareceu convencido e contou-me os planos dele: em maio voltaria a São Paulo e lá tentaria com o amigo por quem ele estava apaixonado.
Foi a minha deixa para desistir dele. E começar meu arrependimento por ter feito sexo com ele. Era óbvio, sempre foi claro, disso nem posso reclamar porque ele nunca fingiu. Mas the ugly truth é que se alguém não está interessado em relacionamentos isso é sempre uma mentira, um eufemismo para dizer que ele não está interessado em um relacionamento com você, especificamente, porque se ele quisesse algo além de sexo comigo, ele teria transformado esses cinco meses que restam nos mais intensos da vida dele. Talvez eu pudesse me recusar a viver isso apenas por cinco meses, mas se ele estivesse interessado ele tentaria viver aquilo pelo tempo que pudesse. 
Passei, por fim, meu Reveillon solteiro, cercado por amigos com seus namorados. Bebendo cervejas e espumante, e fumando um cigarro atrás do outro. Quando os fogos explodiram, e eles trocaram seus beijos, eu ganhei selinhos de pura pena, e pensei que era hora mesmo de desistir dessas tentativas sem futuro. Afinal a mesma verdade que servia para o Fernando também funcionaria para o Artie, se ele estivesse realmente interessado em mim arranjaria um tempo para me encontrar, um almoço ou um sanduíche numa lanchonete, afinal a girl need to eat. Brindemos ao Ano Novo! No dia seguinte, o Fernando mudou o status de relacionamento no Facebook dele: em um relacionamento enrolado.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

"Problema Seu"

, em Natal - RN, Brasil


Eu me preparava para sair de casa par ao trabalho. Era pouco mais de 7h da manhã. E minha mãe reclavam da cozinha que teria que ir para loja dela a pé, naquele dia. Eu cruzo a cozinha neste instante, ia deixar uma calça jeans no cesto de roupa suja. Ela então reclama comigo:
- Se você tivesse tirado sua carteira de motorista poderia ir me deixar agora na loja. Podia já ter o seu carro até, que a gente tinha comprado um para você.
Eu agradeci a oferta, mas respondi:
- Eu preferia ter uma casa, minha, para morar, não um carro.
- Ah, mas isso eu nunca vou te dar não. Filho meu não sai de casa p'ra morar sozinho. Você só vai sair de casa quando tiver uma família.
Eu ri e comentei:
- Então eu nunca vou sair daqui, não é?
Ela me olhou em silêncio, enquanto eu voltava para o quarto para calçar o tênis. Ela então me seguiu e continuou a conversa:
- Você só sai daqui quanto tiver uma família, uma boa esposa cristã.
Eu parei por um segundo. Olhei para minha mãe imaginando se ela tinha esquecido nossa conversa anterior, na qual eu saí do armário. Eu imaginava se aquilo tudo era um processo consciente ou não de negação. Também pensei, rapidamente, se valia a pena ou não contribuir com a fantasia dela ou fazer um outro manifesto, um outro came out. Escolhi a segunda opção.
- Ah, uma esposa é que eu não vou conseguir mesmo! Ou você esqueceu que sou gay?
Ela congelou.
- Você é mesmo gay?
Perguntou com deboche.
- Sou. Por que você não acredita? Não falei na outra vez?
- Achei que você só queria nos magoar dizendo aquilo.
Eu estava surpreso com aquele comentário.
- Não! Claro que não! Eu falei a verdade!
Ela se encheu de ironia, novamente, seu método clássico de defesa.
- Quer dizer então que você beija homens?
Calmamente eu respondi:
- Sim.
Ela, horrorizada, se tornou mais irônica:
- Então você come homens?
Eu me abaixei para amarar o cadarço do tênis, sentado na cama, e respondi como se não significasse nada:
- Sim, também!
Eu a vi entrando em desespero. Perdendo a compostura. Veio a terceira pergunta:
- Então... quer dizer que você dá a bunda?
Eu gargalhei com a escolha de palavras.
- Dou sim, sempre!
- Então eu posso sair falando para todo mundo que você é gay?
- Se desejar, fique totalmente a vontade.
Foi quando minha mãe explodiu em preconceitos.
- Isso não é coisa de Deus, Foxx.
- Mainha, Deus me fez assim, exatamente assim desde pequeno, e Deus não comete erros. 
Agradeci a Lady Gaga em pensamento, e ela engoliu seco e começou a chantagem.
- Você me faz tão infeliz...
- Eu te faço? Não! Você se fez infeliz. O problema é seu. Não tenho culpa se você não consegue aceitar o seu filho do jeito que ele é. Se isso te causa sofrimento, a culpa não é minha, é sua. Trate-se!
- Você quem deveria se tratar...
- Quem está infeliz com o fato de eu ser gay não é você? Então, o ditado não diz que quem está incomodado que se mude? Então, mude!
Ela permaneceu em silêncio, e eu, calçado, saí do quarto. Fui beber água antes de pegar minha bolsa-carteiro e ir pegar meu ônibus em direção a Tirol. Ela falou então da porta, eu ouvi a porta da rua se abrir, devia estar saindo para a loja.
- Foxx, você me faz tão infeliz. Saiba disso: você faz sua mãe muito infeliz.
Eu gritei da cozinha, não sei se ela escutou:
- Problema seu!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pérsia: Arimã e o Nascimento do Mal

, em Natal - RN, Brasil



Arimã, o Angra Mainyu ("espírito destruidor") do Avesta, é o espírito maligno na doutrina dualista do Zoroastrismo, ele se opõe a Ahura-Mazda, o senhor sábio, símbolo da luz. Sua natureza essencial é expressa em seu principal epíteto: druj, "o mentiroso" e ele representa a ganância, a ira e a inveja. Para ajudá-lo em atacar a luz, a boa criação de Ahura-Mazda, Arimã criou uma horda de demônios que incorporam inveja e todas as características negativas dos seres humanos. Ele era responsável por todo caos e sofrimento ao realizar seu ataque ao mundo, os crentes esperam ver Arimã ser derrotado na final do tempo por Ahura-Mazda. Confinado a seu próprio reino, seus demônios devorariam então uns aos outros, e sua própria existência seria encerrada.
Arimã criou as serpentes dos rios, os gafanhotos que trazem morte as plantações, as formigas, o roubo, a descrença, as lágrimas e as lamentações, o orgulho e a bruxaria e o próprio inverno, além de 99.999 doenças. Entre as criações de Arimã também teríamos o "pecado para o qual não há expiação", as relações homoeróticas. No mito de Arimã, quando ele tentou destruir o mundo, ele teria feito sexo anal consigo mesmo e desta relação homoerótica aconteceu uma explosão de poder do mal e que resultou no nascimento de uma série de grandes demônios (daevas), estes são sete: Aka Manah, Sauru (ou Shiva), Taurvi, Zairitisha, Naonhaithya (Nasataya), Aeshma e Indra.  A interpretação desta passagem tem sido no sentido de que as relações homoeróticas seriam uma forma de culto ao demônio e, portanto, pecaminoso.
Contudo essa interpretação clássica esquece de notar que, no caso do Zoroastrismo, o que era definido como culto ao demônio era o culto aos outros deuses de outras nações. É bom lembrar que os daevas que em persa significa demônios em hindu significam deuses, essa oposição linguística da mesma palavra é a chave de como devemos interpretar a forma como os persas definem sua aceitação com as relações homoeróticas. Outra chave é a presença dos deuses hindus Shiva, grande deus da destruição e renascimento; Nasataya, um dos gêmeos Ashwins Kumaras, que representavam o nascer e o pôr do sol, e Indra, senhor da guerra e do paraíso na Índia, entre os grandes demônios persas.
A questão aqui vai além da tradução de daevas para demônios ou deuses, mas para a definição do que é permitido ou não para um fiel de Ahura-Mazda. Contudo, estes mitos não fazem parte dos textos sagrados, mas sim parte da tradição oral que foi agregada a religião reformada por Zoroastro. Ela faz parte, na verdade, de uma tradição popular o que coloca uma interessante questão sobre a sociedade persa: a existência  na mesma sociedade da aceitação da existência dos eunucos entre as altas classes, eunucos esses que eram provavelmente recrutados dentro dessa mesma classe; e a conotação de pecado dada pelas classes populares às relações homoeróticas.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ninguém Namora os Fofos

, em Natal - RN, Brasil


-  Ei, fiz a foto do meu buxinho, como te prometi. Mas o cel não enviou, deu erro. Fiz no dia seguinte, conforme combinado, mas não funcionou.
Ele puxou conversa pelo bate papo do Facebook. Fazia referência a elogios que eu fiz de uma foto que ele havia postado apenas de sunga. Lindo, como sempre na foto, eu elogiei.
- Papo!
Respondi e continuei.
- Você não tem buxinho nada. Ai agora inventou essa de que a foto não veio para não dar o braço a torcer.
Brinquei.
- Tenho, seu moço! E a foto ‘tá no meu celular, garanto.
- Menino, mentir é feio. Deus castiga.
- Ligo já a câmera para você ver. Deixa só eu carregar a bateria do celular aqui.
- Já ‘tá arranjando outra desculpa... você é lindo, menino, deixa de coisa.
- Você não vai me fazer postar p’ra geral ver, né?
- Você não tem buxo em canto nenhum.
- Só esse homi.
- Só eu? Nem vem, deve ter até fã-clube gritando embaixo da sua janela ai.
- Deixa de onda! Até parece...
- Moço, você não vai me convencer que você sofre para encontrar gente...
- Não, eu sofro para encontrar gente decente igual a você né?
Fui pego de surpresa pelo elogio dele. Mas recuperei-me em cima do cavalo e continuei o galope.
- Decente igual a mim? Ora, se sou tão decente porque você vive me dando fora?
Ele com certeza não esperava essa resposta e demorou um tanto para responder.
- Eu sofro para achar gente decente dentro do padrão que eu curto...
- Ah, pronto, agora sim está explicado.
Comentei rindo do outro lado do computador.
- Decente igual a mim, mas não no meu padrão.
Ele tentou concertar:
- Isso, isso, eu não fico com amigos...
- Principalmente aqueles que você considera feios.
E eu gargalhei
- Mas não se preocupe, como o senhor é lindo sempre haverá gente interessada, basta escolher.
- Não é bem assim, você não é feio.
Ele falou
- Você é fofo.
Eu agradeci o elogio, mas isso é uma verdade: ninguém namora os fofos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A Virada (capítulo quatro)

, em Natal - RN, Brasil


Chegamos ao apartamento dele conversando sobre escritores franceses e mangás japoneses, ele me ofereceu água gelada e, depois de um copo, me beijou sedento. Beijou-me guiando meu corpo até o quarto onde ele sentou na cama. Eu dei dos passos para trás e coloquei minha bolsa de lado. Ele então me olhou com aqueles olhos verdes cor-de-mar, e me puxou, abraçando minha cintura, sua cabeça alcançou o meu peito, ele podia inclusive ouvir meu coração batendo em dúvida, eu lhe fiz um cafuné. Ele não se mexeu, só parecia um menino que precisava de carinho, e eu não lhe neguei. Continuei os cafunés até minha mão esquerda descer-lhe pela nuca e acariciar suas costas por cima da camisa de algodão branco. Ele gemeu e me apertou entre os braços tatuados. O plástico que protegia a tatuagem recém retocada do seu braço esquerdo chegou a tocar minha pele por baixo da camiseta que se erguera.
Eu então levantei sua cabeça com um leve puxão de cabelo e o beijei. Ele, me puxando pela bunda, me trouxe para cima do corpo dele. Senti-o excitado por baixo de sua calça jeans, de novo, calça jeans folgada demais na minha opinião. Minha camiseta foi a primeira a ser jogada no chão, e as mãos dele se encheram com os pêlos do meu peito. Ele me fez sentar em seu colo, enquanto lambia meus mamilos e sorria. "Lindos seus pêlos!". O elogio me animou e tirei a camiseta dele, revelando o peitoral branco e liso, definido sem exageros. Beijei-lhe o peito, esfreguei minha barba em seu pescoço, mas seus gemidos eram mesmo intensos quando eu explorava seu ponto fraco: as costas. Os carinhos o faziam amolecer. Logo as calças e a cueca dele estavam jogadas no chão, as minhas foram parar do outro lado da cama, e eu estava deitado sobre ele, e meus pêlos escuros contrastavam com os dele, ruivos. E quando nossas bocas se juntaram éramos um só.
Ele afastou-se do meu hálito apenas uma vez, para deitar-se de bruços e oferecer-se como Rimbaud para mim. Mordi sua orelha, neste instante, deitando-me sobre ele, lambi seu pescoço e desci sentindo o gosto de sua pele branca na minha língua por toda coluna vertebral até encontrar-lhe a bunda pequena e redonda, rija e coberta com pêlos ruivos finos e quase invisíveis, praticamente apenas brilhavam contra a luz do sol que se punha do outro lado da janela. Lambi-lhe os pêlos, a bunda, ele gemeu como um francês, e eu respirava embebido na espuma dos seus glúteos brancos que desciam até a auréola . Eu subi ouvindo seus gemidos quase agradecidos, e me deitei sobre o corpo excitante dele, ele sentiu que eu estava excitado e rebolou, eu procurei sua boca e nossos dedos se entrelaçaram enquanto ele forçava o quadril para me ter dentro dele.
Foi quando ele me empurrou e sentou no meu colo. Enroscou seus dedos nos pêlos do meu peito e puxou. Ele me olhava excitado, eu o masturbava. Foi quando, ele rápido, forçou para que eu adentrasse aquele pequeno degrau dourado, "entre os cordões de seda, os cinzentos véus de gaze, os veludos verdes e os discos de cristal que enegrecem como bronze ao sol -, vejo a digital abrir-se sobre um tapete de filigranas de prata, de olhos e de cabeleiras". Ele pediu que eu aguardasse enquanto ele se acostumava. "Não estou muito acostumado a fazer isso", comentou. Ele demorou um tempo, mas ai começou a rebolar, foi quando sentei-me e ele deslizou mais um pouco, gemendo profundamente, eu tinha tocado bem lá.
Beijei sua boca e lembrei que faltava uma coisa. Pedi-lhe um instante e levantei, vesti rápido uma camisinha e voltei, com o meu cinto preto na mão e ordenei-lhe que ficasse de bruços, ele obedeceu sorrindo. Prendi-lhe os dois braços fortes, atados pelo cinto na altura do pulso nas costas, lambi-lhe a bunda dourada mais uma vez e o penetrei com cuidado porque ele gemia muito, excitado. Deitei sobre ele, esfregando os pêlos do meu peito nas costas nuas dele e sentindo ele rebolar embaixo de mim. "Caralho... isso é... bom... demais", sussurrava. "Tá gostoso?", perguntava, "Minha bunda tá gostosa?".
Eu o libertei nesse momento, o virando de frente para mim e erguendo suas pernas em meus ombros. "Você é todo gostoso", respondi finalmente. E o penetrei novamente segurando suas pernas, ele se masturbava agora intensamente. Puxava com uma mão a minha bunda para mais perto dele. "Soca fundo!", pedia e eu obedecia. Ele gemia alto naquele momento. Olhei pela janela atrás dele e vi a praia de Ponta Negra ao fundo, ele estava de olhos fechados, quase gozando. "Goza em mim, por favor! Dentro de mim!", ele implorou. E eu acelerei. Gozei apertando as coxas ruivas dele, ele se masturbava aproveitando que eu ainda estava duro dentro dele. Mas cansou, foi ai que eu assumi e, com a boca, "uns filamentos, como lágrimas de leite, choraram, ao vento inclemente que os expulsa".

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

"And Dance Again"

, em Natal - RN, Brasil


Noite de sábado, eu estava na praia com dois amigos, tomando um açaí com cupuaçu a beira do mar. A lua crescente mal iluminava a areia e o mar após o calçadão de pedras portuguesas, falávamos sentados nas mesas de madeira sobre independência e problemas familiares, em uma mesa mais a frente quatro homens sem camisa, grandes e musculosos, devoravam sanduíches, atrás de nós uma família inteira comia batatas fritas enquanto dois filhotes de gatos andavam por baixo das mesas. Quando já nos preparávamos para ir embora uma mensagem pelo Facebook chega no meu celular. "Vamos a Vogue?", era o meu amigo comissário de bordo, eu topei e ele perguntou aonde eu estava. "Estou em Ponta Negra terminando de tomar um açaí". Ele disse que também estava no mesmo bairro, comendo, e me perguntou se eu não queria ir acompanhá-lo até a casa dele aonde ele se trocaria para podermos ir a boate. Eu olhei no relógio e eram pouco mais de 21h, se eu fosse para casa para depois encontrá-lo era realmente muito trabalho, e eu aceitei. 
Ele me pegou na frente da feirinha de artesanato e fomos conversando. "Ah, também preciso jantar alguma coisa antes de ir para a boate". Eu estranhei. "Mas você não me falou que estava comendo quando me mandou uma mensagem?", ele riu e aí eu entendi. Ele sacou o celular e abriu o Grindr, mostrou um modelo paulista que trabalha como garoto de programa. "Esse foi o menu. Ele veio a trabalho, mas tirou uma folga para se divertir um pouquinho comigo!". Eu gargalhei e comentei que ele sempre pega muito bem. Ele me olhou sério: "Não achei meu pau no lixo não, meu amigo". Chegamos a casa dele rápido, ele preparou um lanche fácil e logo tomou banho, eram 23h quando chegamos a porta da Vogue e uma fila imensa já havia se formado.
"Gente do céu, o que tem hoje aqui?", ele perguntou. Aconteciam na cidade mais outras três festas grandes, duas gays e uma hetero, não esperávamos que a Vogue estivesse tão lotada daquele jeito. Bem, era cedo e ainda não estava, mas ficou. Muito lotada. Ficamos na fila então. Foi quando recebi minha primeira cantada da noite. Ele era baixo, baita mais ou menos do meu queixo, pele quase negra e um braço musculoso e um peitoral grande, apertado dentro de uma camiseta gola v preta. Ele sorriu para mim e eu o cumprimentei com um aceno de cabeça. Foi quando ele me chamou para falar com ele, e eu fui. Ele tinha uma voz grossa, estava bebendo cerveja do lado do carro, havia um amigo sentado no banco com vários anéis nos dedos e uma corrente de prata no pescoço e um menino no banco do motorista bem efeminado, que quando cumprimentei deu-me a mão como uma lady do século XVIII. "Já vai entrar?", ele me perguntou. Eu respondi afirmativamente e o convidei para entrar comigo. Ele falou que não podia entrar até terminar a cerveja que ele e os amigos haviam comprado. Eu então disse-lhe que bastava então ele me procurar lá dentro que eu estaria o esperando. Ele sorriu um sorriso largo e pegou na minha mão carinhosamente, seria o momento para um beijo sem sombra de dúvida, mas ele apenas sorriu e eu não fiz nenhum outro movimento. A fila então se moveu e o amigo dele efeminado falou para eu me apressar senão ia perder meu lugar, notadamente incomodado com a minha presença. Eu então disse-lhe: "Te espero lá então!", e ele somente sorriu.
Entramos na boate antes da meia-noite e eu comprei algumas doses de vodca para mim. Decidi que aquela noite era uma para aproveitar como os russos e honrar meu nome. Foi quando fiz check in no Foursquare, no entanto, que o celular tocou e um casal de amigas lésbicas mandou-me uma mensagem avisando que também estavam indo para a VG. Ri, pensando: "Esta é a utilidade desse troço afinal!". Peguei a primeira dose de vodca e entramos na pista. You shout it loud, but I can't hear a word you say. I'm talking loud not saying much. I'm criticized but all your bullets ricochet. You shoot me down, but I get up! O terceiro ambiente da Vogue é sempre o mais escuro e esfumaçado. As luzes coloridas e o raio laser verde tornam-se praticamente sólidos quando passam pela fumaça do gelo seco. As pessoas dançam sobre um dancefloor que acende e brilha conforme as músicas que tocam. Foi na pista que um loiro agora, de corpo também extremamente musculoso, mas baixo e rosto feio, sorriu para mim enquanto passava puxado por uma amiga. You shoot me down, but I won't fall, I'm titanium. "Hoje vai ser os dias dos cafuçus, pelo jeito", falei para meu amigo, e ele riu. "Tirando a cabeça, ele até que é apresentável", rimos até ele reclamar em seguida que estar naquela boate sem poder beber era um crime, ele não ia ter coragem de ir falar com ninguém. "The sun goes down, the stars come out, and all that counts is here and now".  "Pode deixar que se quiser eu cuido disso para você", ele agradeceu rindo, e veio a segunda dose de vodca.
Logo a pista estava lotada e o ar condicionado começou a dar sinais de que não daria conta daquela quantidade de pessoa. Estava difícil de andar, ainda mais de pegar bebida, muito pior ainda para dançar. "Oppan Gangnam style, Gangnam style". Apesar disso, os que estavam sem camisa já estavam assim desde muito antes. Foi quando as portas laterais da boate, que dão acesso ao lounge e a área que é utilizada para grandes shows foram abertas. As pessoas então puderam se espalhar mais e, mesmo a distância, ouvir tanto a música do ambiente de música eletrônica no lounge, dobrando o espaço; ou ouvir a música do ambiente de música ao vivo que dá para o gramado onde se arma o palco maior. "Like it's the last night of our lives, we'll keep dancing till we die" Morrendo de calor, decidi ver o que estava acontecendo no ambiente de música ao vivo, que também estava lotado tocando uma banda de forró e peguei minha terceira dose de vodca cujas pedras de gelo acabavam sendo um alívio naquele calor infernal. Fiquei pouco tempo ouvindo aquele forró em que homens dançam juntos paquerando com os outros que estão parados. Foi o tempo de fumar um Lucky Strike e sair para o lounge, onde o maior espaço e a melhor ventilação afastava o calor e ainda permitia ver as pessoas que estavam por ali. Bem melhor para paquerar e ser paquerado, mas no meu caso encontrar e ser encontrado.
Alguns amigos estavam ali. "Há quanto tempo não te vejo por aqui, Foxx!?", disse-me uma, "Achei que agora que o senhor é doutor tinha abandonado essas baladas gays!", eu ri e admiti que realmente fazia muito tempo que eu não saia para boates. "We found love in a hopeless place". "Tem que sair sim, sempre, como você espera conhecer alguém em casa?", eu gargalhei dizendo que eu não havia deixado de sair de casa, eu apenas estava preferindo outros tipos de programa, tipo teatro, cinema, bares. "Mas olha, de qualquer forma você precisa parar de ser tão seletivo", falou ela do nada, com certeza influência do álcool, "porque eu só estou sozinha porque fico escolhendo demais, tem sempre um monte de meninas e eu não sei qual escolher, fico procurando a melhor e acabo sozinha, você tem que parar de procurar demais sabe?", nesse momento eu ri muito, não dela, mas de como as pessoas acham que os problemas dos outros são iguais aos seus. "You're a shooting star I see, a vision of ecstasy", e expliquei-lhe inutilmente que não era o meu caso, que eu não escolho demais porque escolher implica ter mais de duas pessoas e eu não posso escolher entre zero e zero. Foi quando ela foi comprar água e eu consegui minha quarta dose de vodca que um menino se aproximou pedindo o fogo para acender seu cigarro. "At first sight I felt the energy of sun rays, I saw the life inside your eyes". 
Baixinho, gordinho e bem feminino, com uma postura estranha de quem não sabia onde colocar os braços. Ele pediu o fogo e puxou papo, ficamos conversando, perguntou se eu era de Natal e falou de Brasília, falou que Brasília era incrível, falou das boates da cidade e das milhares de coisas boas de lá, se ele pretendia ficar comigo, escolheu, sem dúvida, a pior abordagem possível! Gabar-se de vir de São Paulo, do Rio, de Brasília, de Guiné Bissau, quando se está em outra cidade só atrai putas das boates para turistas, convenhamos. No entanto, admito, ele se tornou mais interessante quando o primo dele, também de Brasília, se aproximou. Forte, com costas largas, ele falava arrastado como quem já havia bebido por demais. "Preciso cuidar dele agora, pelo jeito", disse-me o menino, eu desejei-lhe sorte e voltei para a pista.
"I wanna dance, and love, and dance again". Muita gente já beijava ao meu redor. Todos os amigos que eu encontrava estavam já de lábios colados com algum amor que eles acabaram de conhecer e que duraria até a próxima música. Eu cantava e dançava bebendo já minha quinta dose de vodca, esta que fui no bar e o bartender fez questão de fazê-la dupla com um sorriso nos lábios. Eu o agradeci com um sorriso e meu amigo comissário de bordo falou no meu ouvido, ao ver o copo quase transbordando daquele destilado de batatas: "Ah, esse aí 'tá querendo te comer!". Gargalhamos e nos votamos para assistir ao melhor show de drag queens que já vi em terras potiguares. E a madrugada avançava. Eu estava ali, de fato, apenas como observador. Via as pessoas encontrando bocas, namorados de mãos dadas, meninos fazendo carão e mariconas que não sabem que um sorriso e convidar alguém para conversar é sempre melhor que fazer cara de mal. Já na sexta dose de vodca, também dupla, feita pelo mesmo bartender, e num número perdido de cigarros, "The dog days are over, the dog days are out", só me restava dançar até amanhecer por através daquelas portas largas.