I
Após sair do trabalho, todos da agência em que eu trabalho se fantasiaram e saíram para um baile de máscaras na rua que abre o carnaval de Natal. Eu me maquiei como um pierrot com um lápis de olho emprestado. Houve um esquenta em um café onde duas rodadas de tequila passaram pela mesa. Tocava-se frevo e marchinhas antigas e novas. Cervejas em lata eram compradas, cigarros acesos num isqueiro amarelo, alguém apareceu com um lenço embebido em éter. Lembrava um baile de minha infância quando eu não conseguia enxergar mais do que a cintura das pessoas e com isso me perdia de meus pais. Jornalistas cobrindo a festa para colunas sociais tiravam fotos do meu grupo formado por jornalistas, publicitários e artistas. Meu nome fora perguntado por um fotógrafo de pele morena e anotando num caderno de capa cor-de-vinho. E eu lembrei que fiquei, na foto, a direita, então meu nome aparecerá primeiro.
II
Conversava com o Tutz no bloco Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens pelas ruas do bairro de Ponta Negra. A praia nos observava lá de baixo, porque o bairro fica acima das antigas dunas que dominavam a paisagem. Caminhávamos ouvindo as mesmas três marchinhas de carnaval que aquela banda de metais sabia tocar. As amigas do Tutz estavam a frente de nós. Eu bebia uma long neck e ele fumava nervosamente um Lucky Srike. Ele se dedicou uns instantes a amiga dele enquanto eu reparava que um Urso me olhava ensaiando um sorriso, mas quando sorri-lhe de volta, ele me olhou dos pés a cabeça e virou-se. Eu tomei um gole da minha cerveja e o Tutz voltou com um sorriso no rosto. "Ela acha que somos namorados", eu perguntei quem, e ele apontou a namorada da irmã da amiga dele. Eu sorri, ele também. "Acho que Natal toda já está achando, afinal, somos sempre vistos juntos. As pessoas falam!". Ele concordou que era bem provável. "Afinal ela não foi a primeira a dizer isso, não é?", concluí e pensei: "Pior que você seria um maravilhoso namorado, Tutz, pena que você não pensa a mesma coisa de mim!".
III
Eu estava esperando o ônibus para ir encontrar um amigo. Ia primeiro para a casa dele, sairíamos depois. Mas para chegar a casa dele eu teria que pegar dois ônibus, porém com a possibilidade da integração não seria um problema. O relógio marcava pouco depois das 21h e eu esperava o primeiro ônibus que demorava. Foi quando eu vi um rapaz se aproximando. Ele parecia um pouco bêbado, era magro e mais baixo do que eu. Eu me aproximei do banco do abrigo de ônibus e ele falou alto: "Não vou te assaltar não! Pode ficar tranquilo". E foi se aproximando de mim. Ele não deu três passos e sua voz mudou de tom. "Passa o celular senão eu atiro!", e me olhou sério, eu esperei a arma que ele dizia estar dentro da bermuda de surfista que ele usava, mas dava para ver que não tinha nada lá. "Não!", respondi, e saí caminhando, me afastando dele sem olhar para trás, para um ponto de ônibus que ficava do lado de um bar. O ônibus não demorou. E pulei dentro dele com um verdadeiro alívio no peito. Desci perto do Midway, um shopping frequentado pela classe média da cidade e caminhei para outro ponto de ônibus que me levaria a casa do meu amigo, foi eu me aproximando do ponto do ônibus e um mendigo se aproximando também. Estava sujo, descalço, carregando um saco de mangas, me perguntou se eu estava indo para casa e eu disse que não, ele perguntou se eu não queria comprar-lhe as mangas, eu falei que não e agradeci. "Mas 'cê não 'tá afim de um rolé não, cara?". Eu me surpreendi, ele lançava um sorriso com dentes podres. "Se você me conseguir algum dinheiro... a gente pode sair junto...". E eu disse que não, foi quando meu ônibus finalmente chegou. Que carnaval!
IV
Eu estava no computador me curando da ressaca após um churrasco na casa do namorado de um amigo, o mesmo com o qual eu passara o meu carnaval ano passado, quando o ex-namorado de um outro amigo me chamou no chat do Facebook. Ele estava triste porque era Dia de São Valentim e ele não tinha ninguém. Ele falou que era difícil encontrar em Natal alguém com todas as características que ele gostava: gostar das músicas que ele gosta, gostar de frequentar os lugares que ele gosta, não se incomodar com o fato dele fumar maconha e ser inteligente e bonito. "Você nunca conheceu ninguém que te interessou?", perguntei. E ele contou três estórias, de pequenos relacionamentos que não terminaram em namoro porque, no fim, enquanto as pessoas batalhavam para o namoro simplesmente começar, ele se ocupava em procurar aquele elemento que não se encaixava no namorado perfeito que ele construíra. Terminou a conversa contando que tinha um outro menino dando em cima dele naquele momento, mas ele não parecia ser do jeito que ele gostava. Eu pedi licença para ele porque era tarde e eu tinha que ir dormir. Deitei na minha cama e e olhei para o teto no escuro e não conseguia parar de pensar na diferença entre a vida do meu amigo e a minha. Enquanto ele, obviamente, escolhia demais e, por isso, estava sozinho, a minha única opção de ficar com alguém envolvia dinheiro. Um aperto comprimiu meu coração. E eu chorei até dormir.






