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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A Virada (capítulo três)

, em Natal - RN, Brasil


Pelo bate-papo do Facebook, eu apenas respondi ao Fernando que entendia os motivos dele, obviamente, não gostava porque eu gostaria de ter um relacionamento e ele seria ótimo para isso. "Você também seria, Foxx, você tem tudo o que alguém como eu deseja. Inteligente, bonito, essa barba linda, esse jeito de proteger a gente, mas eu realmente não posso criar vínculos com alguém aqui em Natal". Eu sorri, com a ilusão dele de que seria possível sairmos frequentemente, como ele propunha, e não criar-se entre nós nenhum vínculo. Era tarde, nos despedimos e fomos dormir.
No outro dia, segunda-feira, no trabalho, foi um dia tranquilo. Postagens para programar, reparar se alguém tentou se comunicar com os nosso clientes durante o fim de semana e responder essas mensagens. Deu tempo de mandar um "Então, moço, como vai nesta segunda?" para o Artie, pelo Whatsapp. O menino que fiquei no sábado, na Virada. Ele respondeu rápido, e eu falei do sono que eu estava no trabalho, ele riu e perguntou no que eu trabalhava, eu expliquei: "gerente de nódoas sociais", reclamei do corretor automático do telefone e ele riu bastante, eu corrigi: "gerente de mídias sociais". Conversávamos e eu via a foto dele que ele usa no perfil: ele tem 21 anos, 10 a menos do que eu, uma boca vermelha que pede um beijo e olhos que se apertam quando ele sorri, magro, disse que preferia os gordinhos quando reclamei do meu peso. As mensagens tornaram-se comuns então, entre "bom dia!" e "como foi seu almoço?", falamos sobre quem somos e ele demonstrou claramente estar fazendo o joguinho de "vou fingir que não estou interessado", apesar de que se dá ao trabalho de responder todas as mensagens.
Conversei a semana toda, sempre amenidades, pelo Facebook sempre com o Fernando, conversas que não duravam nada mais do que uma ou duas frases; e pelo Whatsapp com o Artie, conversas que duravam uma tarde toda, as vezes, em mensagens que iam e que vinham pelo aplicativo do celular. Até que na sexta-feira, após Fernando chegar do emprego em casa por volta da meia-noite, ele resolveu abrir a câmera para mim para que eu pudesse vê-lo apenas de sunga no seu quarto. Típica provocação. Acabamos, apesar da sunga dele do outro lado e da bunda linda que ela escondia, conversando bastante. Ele comentou que jogou meu nome no Google porque um amigo de São Paulo ficou curioso. Descobriu sobre meus livros publicados, meu currículo acadêmico, eu brincando falei que isso não era nada: "Eu também canto, desenho, danço e sei levantar parede...". Ele riu, lá do outro lado, mas disse não duvidar que sou cheio de talentos. "Vamos nos ver amanhã?", ele convidou, "É minha folga e podemos fazer algo juntos". Eu concordei. E ele falou que teria que ir na academia, depois retocar uma das tatuagens que tem no braço esquerdo, mas depois disso estaria livre para me ver. "Você me liga amanhã ao meio-dia para confirmarmos direitinho?", eu assenti  e ele se despediu. Já era tarde mesmo e precisávamos dormir.
A ligação no dia seguinte não durou mais do que um minuto. Ele combinou de nos encontrarmos no studio de tatuagem próximo da casa dele, em Ponta Negra, na zona sul da cidade. Eu fui encontra-lo e ficamos conversando enquanto ele grunhia por causa das agulhas sobre X-Men e qual nossos personagens preferidos em Harry Potter, ele disse que era óbvio que eu ia gostar da Hermione, também falamos de minha coleção de filmes antigos (eu comecei ano passado uma coleção de DVDs de filmes antigos, para ser mais preciso, de filmes históricos que retratam o período da Antiguidade), pois eu havia acabado de adquirir A Queda do Império Romano e Rômulo e Remo, ficaram n'As Americanas O Egípcio e Os Dez Mandamentos,  e também que ele detestava O Pequeno Príncipe. "Mas você já leu?", ele me olhou torto e confirmou que não. "É um preconceito, tá?", admitiu, "Não quero virar miss de nada não!". O retoque da tatuagem terminou rápido, e ao sairmos do studio ele fez o convite que eu não sabia como reagir: "Vamos para minha casa?"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

"Assumido Mesmo"

, em Natal - RN, Brasil
No dia seguinte após sair do armário para meus pais, eu estou assistindo Seinfeld deitado no sofá de bruços, quando meu pai passa por mim e pergunta:
- Você estava falando sério sobre ser gay ontem?
- Sim, eu falei sim. Eu sou gay.
- Mas você é gay mesmo? Assumido mesmo?
Eu não entendi muito bem o que aquela palavra "assumido" queria dizer para ele, mas resolvi que não valia discutir com ele sobre aquilo.
- Eu estou assumindo para vocês.
- Mas que prazer você sente nisso?
Eu pensei em responder o quanto prazer eu sinto com isso, mas achei melhor não entrar nesses detalhes com ele.
- Infelizmente, meu pai, foi assim que eu nasci.
- E você se sente abençoado por Deus?
- Mas claro que sim, foi Deus que me fez ser assim. Desde pequeno.
Ele deu um passo para trás e tinha um olhar de raiva.
- Eu sempre soube. Eu sempre soube! Foi isso que eu quis evitar. Posso ter te magoado, te batido, te maltratado, mas isso foi para evitar que você se tornasse gay! Isso é errado! 
- Mas como você pode ver não adiantou. E não adiantou porque quando você me batia com 7, 10, 12 anos, eu já era gay. Eu não podia mudar porque eu já era assim.
-Você sabe que isso é uma escolha. Uma escolha errada! 
- Não, painho, não é. Ninguém escolhe ser maltratado e odiado pelos próprios pais.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Pérsia: As Respostas de Ahura-Mazda

, em Natal - RN, Brasil


A religião persa chamava-se Zoroastrismo, fundada por Zaratustra ou Zoroastro (em grego). É a primeira religião baseada em um monoteísmo ético, isto é, haviam duas divindades (dualismo), Ahura-Mazda (o bem) e Arimã (o mal), na qual os seguidores deviam apoiar Ahura-Mazda, seguindo seus preceitos e praticando o bem, para assim enfraquecer Arimã e o planeta chegar ao paraíso após a chegada de um messias. O Zoroastrismo influenciou profundamente o judaísmo e o cristianismo durante o período do Cativeiro da Babilônia. 
Antes do Zoroastrismo, a Pérsia cultuava inúmeros deuses classificados como Ahura (senhores) e Daevas (deuses e, mais tarde, demônios sobretudo por representarem deuses de outras nações, como os deuses hindus). Porém por volta de 1750 a.C., Zaratustra, conta a tradição, que era um sacerdote de um certo ahura, foi guiado por um ser feito de luz, Vohu Manah (o bom pensamento), até a presença de Ahura-Mazda e os cinco Amesha Spenta (os imortais sagrados), os quais lhe transmitiram uma nova mensagem religiosa. Zaratustra então começou a pregar sua religião dualista o que o fez ser perseguido e, após doze anos, ele teve que deixar a Pérsia e se fixou na região da Báctria, atual Afeganistão, sob a proteção do rei Vishtaspa e da rainha Hutosa que convertidos a religião do persa transformaram o Zoroastrismo na religião oficial do reino. Contudo foi Dario I, em 590 a.C., que reconheceu o Zoroastrismo como religião oficial do império persa. Neste período, existia entre os medos uma classe sacerdotal chamada os Magi ou Magoi que adotaram o Zoroastrismo e acabaram por incluir nele diversas práticas suas como a exposição dos cadáveres a aves de rapina, o casamento entre membros do próprio grupo, e a personalização dos Amesha Spenta que tomaram a forma de antigos deuses medos como Anahiti, deusa da fertilidade, que ocupa o lugar de Ameretat, a imortalidade; Mitra, o sol, que substituí Asha Vahishta, a verdade perfeita; Vayu, o vento, que ocupa o lugar de Khashathra Vairya, o governo desejável; Tishtrya, a chuva, que toma o lugar de Hauravatat, a plenitude; e Awmaiti, a terra, que tornar-se Spenta Ameraiti, devoção protetora; além de Tiri, o planeta Mercúrio, aparece no lugar de Vohu Manah, o bom pensamento.
Para a maioria dos historiadores, Zaratustra é na verdade um grande reformador. Ele propôs uma mudança no panteão indo-ariano no sentido do dualismo e monoteísmo, ao qual deu preferência aos Ahura, que passaram a representar aqueles que haviam escolhido o bem, enquanto os Daevas passariam a representar aqueles que haviam escolhido o mal. A lógica, no entanto, é a oposta quando pensamos a religião hindu, em que os Daevas são os principais deuses da Índia. Os principais documentos que permitem conhecer o Zoroastrismo são os Gathas, dezessete hinos atribuídos a Zaratustra, escritos por volta de 1500 a.C., que são o principal núcleo do Avesta, o livro sagrado do Zoroastrismo. Os Gathas revelam esse pensamento dualista porém num sentido ético, cabia ao homem escolher para si um comportamento bom, correto e honesto, porém, somente posteriormente, com outros textos que são agregados ao Avesta que este dualismo passa a tornar-se cosmológico, agir ao lado de Ahura-Mazda e contra Arimã torna-se a tarefa primordial que mantém nosso planeta intacto. Arimã tornar-se então um inimigo de Mazda, o que possuí a spenta mainyu (energia poistiva), que deve ser combatido, responsável pela destruição, pelas doenças, pelos desastres naturais, portador da angra mainyu (a energia negativa). Nesta lógica, haveria um dia, em que um descendente de Zaratustra, nascido de uma virgem, viria por fim realizar o Saoshyant, no qual o bem venceria definitivamente o mal e, com isso, Arimã seria finalmente derrotado. 
Sobre relações homoeróticas, na verdade, sobre relações sexuais, os Gathas não se pronunciam. Contudo, textos acrescidos posteriormente, inclusive para muitos estes textos são corrupções dos ensinamentos originais de Zaratustra. Um desses textos é o Vendidad, uma coleção de 22 fargards, isto é, preceitos religiosos escritos na forma de perguntas e respostas feitas ao próprio Ahura-Mazda, que fazia parte da tradição oral persa e foi compilado mais tarde e publicado junto com o Avesta. Neste, as relações homoeróticas são pintadas como uma mancha impossível de apagar na vida de qualquer iniciado na religião de Ahura-Mazda, um pecado imperdoável.
O Capítulo V, a partir do parágrafo 26, diz:

26. Ó, Criador do mundo material, tu és santo! Se um homem, pela força, comete o pecado não natural [relações homoeróticas], qual é a pena que ele deverá pagar?

Ahura Mazda respondeu: "Cem chibatadas com o Aspahe-astra, 800 chibatadas com o Sraosho-Charana."


27. Ó, Criador do mundo material, tu és santo! Se um homem voluntariamente comete o pecado não natural, que é a pena para ele? Qual é a expiação por ele? O que é a limpeza do mesmo?


Ahura Mazda respondeu: "Por esse ato, não há nada que possa pagar, nada que possa reparar, nada que possa limpar a partir dele, é uma ofensa para a qual não há expiação, para todo o sempre."


28. Quando é assim?


"É assim que se o pecador for um professor da religião de Mazda, ou aquele que tem sido ensinado nela. Mas, se ele não é um professor da religião de Mazda, nem aquele que tem sido ensinado nela, em seguida, seu pecado é tirado dele, se ele faz a confissão da religião de Mazda e resolve nunca cometer novamente tais atos proibidos."

29. A religião de Mazda na verdade, ó Spitama Zaratustra!, tira dele que faz a confissão os laços com seu pecado, que tira (o pecado de) quebra de confiança, leva embora (o pecado de) assassinando um dos fiéis, que tira (o pecado de) enterrando um cadáver, que tira (o pecado) de obras para as quais não há expiação, ele tira o pior pecado da usura, que tira todo o pecado que pode ser pecado.

30. Da mesma forma a Religião da Mazda, ó Spitama Zaratustra! purifica os fiéis de todo o mal pensamento, palavra e ação, como um vento impetuoso limpa a planície. Então, vamos todos os atos que ele pratica, doravante, ser bom, ó Zaratustra!, uma expiação completa para o seu pecado é efetuada por meio da religião de Mazda.


No entanto, o castigo que se apresenta aqui é o mesmo para diversos pecados sexuais. Vejamos, por exemplo para a masturbação, no capítulo oitavo:

26. Ó, Criador do mundo material, tu és santo! Se um homem involuntariamente emite sua semente, que é a pena que ele deverá pagar? 
Ahura Mazda respondeu: "Cem chibatadas com o Aspahê-astra, 800 chibatadas com o Sraoshô-karana".
27. Ó, Criador do mundo material, santo tu és! Se um homem voluntariamente emite sua semente, que é a pena para ele? Qual é a expiação por ele? O que é a limpeza do mesmo? 
Ahura Mazda respondeu: "Por esse ato, não há nada que possa pagar, nada que possa reparar, nada que possa limpar a partir dele, é uma ofensa para a qual não há expiação, para todo o sempre. "

É, portanto, apenas uma questão sobre vida sexual. A discussão aqui é sobre como se manter puro, e isto envolve manter-se distante de qualquer relação sexual, seja ela com uma pessoa do mesmo gênero, de um gênero diferente ou mesmo masturbando-se.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

"Someday You're Out"

, em Natal - RN, Brasil
Era já no meio de uma discussão que meus pais, irritados, queriam saber porque eu não gostava de ir para a casa de praia deles, em Santa Rita.
- Você 'tá escondendo o motivo que eu sei... 
Resmungou minha mãe.
- Não existe motivo para você não gostar de Santa Rita, Foxx. 
Meu pai dizia do outro lado. E eu repetia a exaustão:
- Pois eu não gosto de ir para aquela praia...
- Parece até que você tem vergonha de sua família.
Eu me irritei neste momento.
- Quem tem vergonha de mim são vocês. Sempre tiveram! Acha que eu esqueço quando meu irmão caçula não falava comigo na escola por vergonha de mim, ou do meu irmão mais velho que exigia que o senhor - e apontei para o meu pai - batesse em mim porque ele tinha vergonha das pessoas me chamarem de viadinho na rua. Sem contar o irmão do meio que me ameaçou de morte porque sou gay... 
Eu falava soluçando. As lágimas estouravam nos olhos.
- Sem falar que vocês dois mesmo... você, painho, me batia porque alguém na rua me chamava de bichinha; você, mainha, você mesmo me xingava de mulherzinha porque as minhas coisas eram sempre de menininha. 
- Eu nunca bati em você na vida...
Repetiu meu pai e eu gargalhei apesar das lágrimas que caiam.
- Não seja mentiroso! Você me batia porque as pessoas me acusavam na rua de viadinho quase sempre...
- E o que importa? Você não é bicha, é?
Meu pai perguntou como um desafio. E, em segundos, ocorreu uma batalha no meu cérebro. O que responder: mentir mais uma vez ou jogar toda a merda no ventilador. A resposta me surpreendeu quando brotou dos meus lábios.
- Sou sim. Sou bicha, viadinho, gay!
Minha mãe fez um comentário rápido, coberto de ironia:
- Eu sempre soube... desde pequeno...
- Eu sei que sabiam, os dois sabiam e por isso mesmo me maltrataram.
As lagrimas brotavam sem vergonha agora enquanto eu falava.
- Enquanto você, painho, me batia no lugar de me proteger de um mundo que só me atacava. 
Ele tentou balbuciar uma negativa novamente, mas eu ignorei e continuei falando:
- Você, mainha, fechava os olhos para o sofrimento do seu filho. Porque você sabia que eu era xingado e maltratado em todos os ambientes que eu estava, que eu tinha vergonha de sair de casa, que eu não tinha amigos, que meus próprios irmãos me excluíam... ai agora você vem cobrar que eu participe da família?
- Do jeito que você fala - começou minha mãe a falar ainda com ironia - parece até que você é infeliz...
- E eu sou infeliz, você que não acredita. Todos os dias eu faço força para acordar porque não tem nada em minha vida, nada!, que me faça ter prazer para acordar todos os dias. É um martírio! Um sofrimento!
Meu pai interveio:
- Então quer dizer que a culpa da sua infelicidade é nossa porque nós tentamos te consertar?
Eu sorri:
- Como se eu estivesse quebrado.
- Mas você está errado em ser gay, você devia tentar não ser. 
Concluiu meu pai. 
- Eu não posso, primeiro porque não estou errado, segundo porque eu nasci assim. Sempre fui assim e vocês mais do que qualquer um sabem que eu sou assim desde pequeno. Afinal, foi por isso que vocês me colocaram num psicólogo quando pequeno, para me curar...
Meu pai tentou negar.
- Eu nunca te levei a psicólogo não...
- Você devia parar de mentir, painho, isso sim...
Ele pretendeu continuar negando, mas minha mãe interveio.
- Realmente levamos você a um psicólogo, esperávamos estar ajudando você, mas você foi a duas sessões e não quis mais ir.
- Claro que não! Eu era criança, mas sabia perfeitamente que se eu falasse a verdade para aquela psicóloga eu ia apanhar em casa. Porque eu já apanhava e sabia que era porque meus pais não me aceitavam como eu sou. 
- Nós aceitamos você! 
Bradou minha mãe.
- Não, vocês se envergonham de mim. Sempre se envergonharam! E o pior é que eu sou o melhor dos quatro filhos que vocês tiveram, porém - e olhei diretamente para meu pai falando isso - tenho certeza que você tem muito mais orgulho do cafajeste do seu primogênito que não vale uma pataca furada, mas ele pelo menos é heterossexual, não é?
Ele não respondeu. Minha mãe, no entanto, começou a chorar e a fazer uma oração em voz alta.
- Senhor, me perdoa, me perdoa por ter feito meu filho infeliz. Ele tem trinta anos e eu nunca permiti que ele fosse feliz, Senhor! Perdoa-me!
Eu via as lágrimas caindo nos olhos dela, mas não me comovi.
- Você está querendo me tornar o vilão dessa estória, mainha, mas eu não sou. Eu sou vítima do que vocês fizeram comigo. Obviamente fruto de sua ignorância, sei perfeitamente que vocês fizeram com a melhor das intenções, contudo, o resultado não foi satisfatório, a única coisa que vocês me ensinaram foi que eu devia ter vergonha de quem sou.
Ela, no entanto, continuava a oração enquanto eu falava. Eu ouvi apenas a última parte.
- Perdoa, Senhor, a mim e ao meu filho pelo que ele é.
- Eu não tenho nada de errado pelo qual Deus vai me perdoar, mainha, porque foi ele quem me fez assim.
Ela continuava chorando, meu pai permanecia em silêncio como sem acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Eu funguei pela ultima vez e abri o computador. 








terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A Virada (capítulo dois)

, em Natal - RN, Brasil
Acordei na minha cama, ao meio dia de domingo, com um pouco de ressaca moral. Minhas roupas estavam jogadas pelo chão do quarto e eu pelado sob as cobertas, o ventilador era o único barulho no quarto. Meu primeiro pensamento foi se eu me dignei a tomar um banho, pelo menos, antes de desabar na cama, mas eu lembrei que sim. Estendi a mão e procurei meu celular que ainda estava descarregado, o liguei ao carregador e vi uma mensagem de "oi", do Artie,  no Whatsapp, provavelmente apenas para registrar seu número entre os meus contatos. Também mensagens do Tutz que pegou o Nathan falando das poesias que este último havia lhe enviado. "Não quero namorar", reclamava o outro. Lavei meu rosto e tomei meu café da manhã e foi ai que o celular tocou alto as primeiras notas de We Started Nothing de The Ting Tings, com o nome do Miguel no visor. Ele me convidava para ir a parada gay, que, apesar da ressaca, eu aceitei por motivos políticos. Eu não faltaria por nada!
Chegando lá, a primeira pessoa que eu encontrei foi o Fernando, da noite anterior, vestido com a mesma roupa. Ele veio direto falar comigo e começou se explicando que dormira na casa de uma amiga e, por isso, estava com a mesma roupa. Fernando é alto, por volta de 1,85, pratica jiu-jitsu, tem o cabelo de um ruivo escuro, quase castanho, cor de madeira em brasa, e olhos de um verde-mar, e paulista. Ele me cumprimentou e perguntou do Nathan, disse-lhe que não sabia dele. "Procurei você ontem a noite, mas não encontrei mais...", eu imaginei que devia ter sido no momento que eu estava aos beijos com o Artie, e ele começou a contar que me procurou depois que viu o Tutz ficando com o Nathan, surpreso, ele repetiu: "Eu achei que vocês dois eram namorados, Foxx!". Eu ri da confusão dele, e expliquei que éramos somente amigos. "Então cadê seu namorado?". 
Eu respondi que não namorava e ele sorriu. Ele tem um sorriso aberto e cativante, do tipo de gente que conquista os outros pela simpatia. E me tocou a cintura, acariciando minhas costas. Foi nesse momento que a parada gay de Natal começou a desandar, e os organizadores convocaram os participantes a tomarem a rua, ele foi o primeiro a se erguer e avançar, me pegando carinhosamente pela mão, e me levando até a rua. Ficamos lá, em meio a avenida, conversando e durante muito tempo de mãos dadas. Quando nos convidaram para assinar um abaixo assinado, ele também caminhou até lá comigo de mãos dadas, foi na volta que ele sorriu para mim e eu puxei a cabeça dele e o beijei. Ele, muito mais alto que eu, tinha que se abaixar um pouco para me beijar, mas ficamos a tarde e boa parte da noite na parada gay juntos, de namoradinhos, de mãos dadas ou com ele abraçado às minhas costa, ou ele na rua e eu na calçada (ai ficávamos da mesma altura) comigo o abraçando por trás. Quando ele foi embora (precisou ir embora antes porque havia machucado o joelho num treino de jiu-jitsu e o joelho começou a reclamar depois de tanto tempo em pé), o Miguel virou-se para mim e disse: "Vocês dois juntos estavam tão bonitinhos!".
Chegando em casa, eu o adicionei no Facebook e, poucos minutos depois, ele estava on-line. Conversamos algumas amenidades, quando eu disse-lhe que adorei ficar com ele naquela noite, ele agradeceu e disse que sentira o mesmo também. "...mas, antes de tudo, eu preciso te contar uma coisa...". Gelei nesse momento. "...eu estou me organizando para voltar para São Paulo, por isso não estou aberto para um relacionamento agora". Eu realmente me perguntei naquele momento porque diabos ele estava me contando aquilo com tão pouca intimidade. "Porém, contudo, todavia, entretanto, eu com certeza gostaria de ficar com você novamente... nada sério... mas eu gostaria muito de voltar a sair com você qualquer dia". 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O, Holy Night

, em Natal - RN, Brasil
Aquela família ainda mantém tradições ancestrais. Foram muito ricos no início do século passado, e apesar do dinheiro ter se esvaído por entre os dedos do herdeiro, por causa de seus erros envolvendo mulheres, e por causa de sua mãe superprotetora que pagou para que cada erro fosse escondido, nunca perderam a pose que se mantinha graças ao dinheiro, às terras, às fazendas que ocupavam todo o munício às margens do rio Ceará-Mirim, no agreste potiguar. Se reuniam na festa do nascimento de Nosso Senhor todos os anos, chegavam contando vantagem dos seus carros novos, com suas roupas de gala, e de quanto Deus era generoso com aqueles de sobrenome espanhol, mas não se encontravam o resto do ano todo porque não eram família, só compartilhavam um sobrenome. Ao redor da mesa grande, em que o herdeiro agora senta a cabeceira, porque seu pai e avô, que ergueram o patrimônio, não estão vivos para ver a decadência de sua descendência, se desfiam discursos pomposos. Primeiro fala o herdeiro, que emposta a voz como um bacharel de Chico Buarque, fala de pé, respirando compassadamente, contando as palavras para atingir um clímax, ele compete com alguém para ver quem faz o discurso mais comovente. Segue-se o primogênito da família, convertido ao pentecostalismo, acrescenta a oratória de advogado de porta de cadeia que aprendeu com o pai as habilidades desenvolvidas para o púlpito da igreja porque agora ele quer ser pastor, quer ovelhas o seguindo para acarinhar seu ego. O segundo filho homem fala em seguida e acrescenta agora uma emoção batista que difere da religiosidade racional do primogênito. O segundo filho sempre fora um homem mais emocional, alguém que se tocara profundamente pela gravidez de sua primeira esposa e agora da segunda, e isso transparecia no discurso em que ele clamava a Deus por bençãos a todos que estavam sentados em torno da mesa recheada como almoço de domingo de família italiana. Clamou por bençãos ao seu filho que ainda estava no ventre. Porém, não sentíamos cheiro de incenso no ar, o cheiro que os envolvia era sem sombra de dúvida do queijo derretido da lasanha e não do peru que aguardava no forno. A pomposidade daqueles discursos só era quebrada pelo terceiro filho, que nunca conhecera a riqueza ancestral de sua família, fora criado como um menino comum que sentava a mesa sem camisa para fazer o almoço apesar dos protestos de seu pai que dizia que aqueles não eram trajes para sentar a mesa. O pai, o herdeiro, desistiu logo de converter seus filhos mais jovens à vida que fora criado, mas que não correspondia em nada ao que ele podia pagar hoje. A matriarca então, uma senhora de 90 e tantos anos, casada com a riqueza, mas abandonada por esta na sua velhice, é quem encerra a cerimônia. Fala também como quem ainda tem riqueza na voz, mas não nas vestes, nem na pele, nem nas orelhas. Ela oferece a ceia para todos e aquela família mostra novamente que aquela riqueza é apenas uma capa que ninguém sabe mais como usar porque avança com uma ferocidade sobre os pratos de comida como se temessem que aquela mesa lotada de tigelas, sopeiras, molheiras e travessas não seriam o bastante para alimentar a todos. O terceiro filho é o único que espera, todos se servirem, e ai por fim coloca no seu prato um pouco de comida desejando profundamente uma salada. E todos brindam: Feliz Natal!

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A Virada (capítulo um)

, em Natal - RN, República Federativa do Brasil
Era uma noite quente daquelas que precedem o verão quando sai para encontrar o Tutz para irmos a primeira Virada Cultural de Natal, no bairro portuário da Ribeira. As ruas estreitas do bairro que abrigam galpões e casebres antigos foram tomadas por artistas que faziam intervenções na rua, vendiam seus quadros, declamavam poesia ao seu pé do ouvido; em algumas ruas também havia pequenos palcos para peças de teatro e de bonecos de mamulengo, além de que os teatros e boates que povoam aquele bairro que respira decadência e boemia estavam de portas abertas, sem cobrar entrada para nada. Foi o Tutz que organizou a nossa programação: num papel, em sua carteira, ele trazia anotado em tinta azul os eventos que ele achava interessante e eu o acompanhei. Começamos por uma peça de Nelson Rodrigues, Senhora dos Afogados, encenada pelo Coletivo Atores à Deriva, um grupo de atores que me impressionaram por sua capacidade de mudar de corpo. Na peça, quatro atores, três homens e uma única mulher, se revezavam fazendo papeis distintos, e cada vez que estava em cena com um personagem diferente eles, notadamente, se tornavam outras pessoas. O mesmo ator parecia para mim bonito ou feio dependendo que personagem que ele estava interpretando. Impressionante. Contudo, se falarmos em beleza até o menino que estava na porta da sala de ensaio onde eles apresentavam, indicando onde deveríamos sentar, era bonito, todos espetacularmente bonitos.
A segunda parada da noite foi na Rua Chile, no palco Diversidade. O Tutz queria ouvir uma banda potiguar chamada Androide Sem Par que tocaria no Armazém, mas antes paramos para beber umas cervejas e caipirinhas porque sem álcool fica difícil ouvir a música depressiva do Androide. Foi entre os paralelepípedos soltos daquela rua que dá de fronte para o porto de Natal que encontramos umas amigas do Tutz e uma delas, ao me ver, rapidamente vira-se e diz: "Nossa, eu não costumo gostar de homens de barba, mas em você fica muito bem!", e passa a mão na minha barba, "E ainda é macia!". Eu sorri agradecido, não sem evitar dar um passo para trás, pensando comigo mesmo: "meu espaço, seu espaço". Conversamos então entre cigarros e caipirinhas e cervejas, e logo nos dirigimos para o Armazém.  Não demoramos muito por lá, eu queria ver as intervenções e performances como a de um menino que estava sentado no chão, na posição de lótus, com uma máscara feita de pisca-piscas de Natal no formato do rosto de Ganesh. Também assistimos teatro de mamulengos com senhorinhas que riam alto. Foi quando em retorno, encontro vários amigos meus de longa data, dos distantes anos que eu cursava faculdade, além do Nathan que passou a nos acompanhar. 
Era meia-noite quando chegamos a nosso terceiro evento da noite, no Palco Eletrônico, na boate Galpão 29. Foi lá que encontramos um amigo do Nathan que se juntou a nós, o Fernando. O Galpão é uma boate gay frequentada basicamente por meninos cuja faixa etária não ultrapassa 25 anos, o Fernando por exemplo tem 23. Sendo assim, entrar lá, com meus 31 anos é sempre um desafio porque você será olhado como tio, principalmente quando se é careca e sua barba tem fios grisalhos (eu!). Mas eu costumo ignorar esse detalhe ou jogar com ele. Jogar no sentido de que, para aqueles meninos imberbes, minha barba faz um considerável sucesso. E quando eu vi, um menino de barba rala, sorrindo para mim, um sorriso largo e bonito, me aproximei e conversei pouco com ele, logo eu o pressionava contra o balcão do bar, nossas bocas estavam coladas, e ele apertava minha bunda por cima da calça jeans justa que eu usava, e pressionava um pau grosso e duro contra minha pélvis. Eram seis horas da manhã quando o Tutz me chamou para ir embora e o Artie, o menino que eu estava beijando, me passou o telefone dele. Anotei no meu bloquinho porque meu celular estava descarregado, ele então anotou o meu no celular dele.