Google+ Estórias Do Mundo

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O, Holy Night

, em Natal - RN, Brasil
Aquela família ainda mantém tradições ancestrais. Foram muito ricos no início do século passado, e apesar do dinheiro ter se esvaído por entre os dedos do herdeiro, por causa de seus erros envolvendo mulheres, e por causa de sua mãe superprotetora que pagou para que cada erro fosse escondido, nunca perderam a pose que se mantinha graças ao dinheiro, às terras, às fazendas que ocupavam todo o munício às margens do rio Ceará-Mirim, no agreste potiguar. Se reuniam na festa do nascimento de Nosso Senhor todos os anos, chegavam contando vantagem dos seus carros novos, com suas roupas de gala, e de quanto Deus era generoso com aqueles de sobrenome espanhol, mas não se encontravam o resto do ano todo porque não eram família, só compartilhavam um sobrenome. Ao redor da mesa grande, em que o herdeiro agora senta a cabeceira, porque seu pai e avô, que ergueram o patrimônio, não estão vivos para ver a decadência de sua descendência, se desfiam discursos pomposos. Primeiro fala o herdeiro, que emposta a voz como um bacharel de Chico Buarque, fala de pé, respirando compassadamente, contando as palavras para atingir um clímax, ele compete com alguém para ver quem faz o discurso mais comovente. Segue-se o primogênito da família, convertido ao pentecostalismo, acrescenta a oratória de advogado de porta de cadeia que aprendeu com o pai as habilidades desenvolvidas para o púlpito da igreja porque agora ele quer ser pastor, quer ovelhas o seguindo para acarinhar seu ego. O segundo filho homem fala em seguida e acrescenta agora uma emoção batista que difere da religiosidade racional do primogênito. O segundo filho sempre fora um homem mais emocional, alguém que se tocara profundamente pela gravidez de sua primeira esposa e agora da segunda, e isso transparecia no discurso em que ele clamava a Deus por bençãos a todos que estavam sentados em torno da mesa recheada como almoço de domingo de família italiana. Clamou por bençãos ao seu filho que ainda estava no ventre. Porém, não sentíamos cheiro de incenso no ar, o cheiro que os envolvia era sem sombra de dúvida do queijo derretido da lasanha e não do peru que aguardava no forno. A pomposidade daqueles discursos só era quebrada pelo terceiro filho, que nunca conhecera a riqueza ancestral de sua família, fora criado como um menino comum que sentava a mesa sem camisa para fazer o almoço apesar dos protestos de seu pai que dizia que aqueles não eram trajes para sentar a mesa. O pai, o herdeiro, desistiu logo de converter seus filhos mais jovens à vida que fora criado, mas que não correspondia em nada ao que ele podia pagar hoje. A matriarca então, uma senhora de 90 e tantos anos, casada com a riqueza, mas abandonada por esta na sua velhice, é quem encerra a cerimônia. Fala também como quem ainda tem riqueza na voz, mas não nas vestes, nem na pele, nem nas orelhas. Ela oferece a ceia para todos e aquela família mostra novamente que aquela riqueza é apenas uma capa que ninguém sabe mais como usar porque avança com uma ferocidade sobre os pratos de comida como se temessem que aquela mesa lotada de tigelas, sopeiras, molheiras e travessas não seriam o bastante para alimentar a todos. O terceiro filho é o único que espera, todos se servirem, e ai por fim coloca no seu prato um pouco de comida desejando profundamente uma salada. E todos brindam: Feliz Natal!

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A Virada (capítulo um)

, em Natal - RN, República Federativa do Brasil
Era uma noite quente daquelas que precedem o verão quando sai para encontrar o Tutz para irmos a primeira Virada Cultural de Natal, no bairro portuário da Ribeira. As ruas estreitas do bairro que abrigam galpões e casebres antigos foram tomadas por artistas que faziam intervenções na rua, vendiam seus quadros, declamavam poesia ao seu pé do ouvido; em algumas ruas também havia pequenos palcos para peças de teatro e de bonecos de mamulengo, além de que os teatros e boates que povoam aquele bairro que respira decadência e boemia estavam de portas abertas, sem cobrar entrada para nada. Foi o Tutz que organizou a nossa programação: num papel, em sua carteira, ele trazia anotado em tinta azul os eventos que ele achava interessante e eu o acompanhei. Começamos por uma peça de Nelson Rodrigues, Senhora dos Afogados, encenada pelo Coletivo Atores à Deriva, um grupo de atores que me impressionaram por sua capacidade de mudar de corpo. Na peça, quatro atores, três homens e uma única mulher, se revezavam fazendo papeis distintos, e cada vez que estava em cena com um personagem diferente eles, notadamente, se tornavam outras pessoas. O mesmo ator parecia para mim bonito ou feio dependendo que personagem que ele estava interpretando. Impressionante. Contudo, se falarmos em beleza até o menino que estava na porta da sala de ensaio onde eles apresentavam, indicando onde deveríamos sentar, era bonito, todos espetacularmente bonitos.
A segunda parada da noite foi na Rua Chile, no palco Diversidade. O Tutz queria ouvir uma banda potiguar chamada Androide Sem Par que tocaria no Armazém, mas antes paramos para beber umas cervejas e caipirinhas porque sem álcool fica difícil ouvir a música depressiva do Androide. Foi entre os paralelepípedos soltos daquela rua que dá de fronte para o porto de Natal que encontramos umas amigas do Tutz e uma delas, ao me ver, rapidamente vira-se e diz: "Nossa, eu não costumo gostar de homens de barba, mas em você fica muito bem!", e passa a mão na minha barba, "E ainda é macia!". Eu sorri agradecido, não sem evitar dar um passo para trás, pensando comigo mesmo: "meu espaço, seu espaço". Conversamos então entre cigarros e caipirinhas e cervejas, e logo nos dirigimos para o Armazém.  Não demoramos muito por lá, eu queria ver as intervenções e performances como a de um menino que estava sentado no chão, na posição de lótus, com uma máscara feita de pisca-piscas de Natal no formato do rosto de Ganesh. Também assistimos teatro de mamulengos com senhorinhas que riam alto. Foi quando em retorno, encontro vários amigos meus de longa data, dos distantes anos que eu cursava faculdade, além do Nathan que passou a nos acompanhar. 
Era meia-noite quando chegamos a nosso terceiro evento da noite, no Palco Eletrônico, na boate Galpão 29. Foi lá que encontramos um amigo do Nathan que se juntou a nós, o Fernando. O Galpão é uma boate gay frequentada basicamente por meninos cuja faixa etária não ultrapassa 25 anos, o Fernando por exemplo tem 23. Sendo assim, entrar lá, com meus 31 anos é sempre um desafio porque você será olhado como tio, principalmente quando se é careca e sua barba tem fios grisalhos (eu!). Mas eu costumo ignorar esse detalhe ou jogar com ele. Jogar no sentido de que, para aqueles meninos imberbes, minha barba faz um considerável sucesso. E quando eu vi, um menino de barba rala, sorrindo para mim, um sorriso largo e bonito, me aproximei e conversei pouco com ele, logo eu o pressionava contra o balcão do bar, nossas bocas estavam coladas, e ele apertava minha bunda por cima da calça jeans justa que eu usava, e pressionava um pau grosso e duro contra minha pélvis. Eram seis horas da manhã quando o Tutz me chamou para ir embora e o Artie, o menino que eu estava beijando, me passou o telefone dele. Anotei no meu bloquinho porque meu celular estava descarregado, ele então anotou o meu no celular dele. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Parada Parada

, em Natal - RN, Brasil
Natal teve neste domingo, 16 de dezembro, a sua XIV Parada do Orgulho LGBT, ela estava programada para sair do bairro de Ponta Negra, que tem o nome da famosa praia potiguar, onde haveria sua concentração e se seguiria-se para a praça da árvore de Natal, em Mirassol, onde um palco traria atrações regionais como cantoras e shows de drag queens, tudo muito simples para um público esperado de não mais do que 100 mil pessoas. Contudo no momento em que os motores dos trios elétricos são ligados, chega a ordem vinda do Corpo de Bombeiros Militares do Rio Grande do Norte, a parada gay não poderia sair.
Os trios elétricos não tiveram permissão do CBM para fazer o pequeno percurso animando o público que já se aglomerava. Eles interditaram os trios elétricos argumentando que eles não ofereciam a segurança necessária; seguiam ordem da Cosern, Companhia de Eletricidade do Rio Grande do Norte, que argumentava que os trios elétricos poderiam cortar os fios de alta tensão ao passar no seu trajeto pela avenida. Os organizadores esbravejaram. Xingava-se a governadora Rosalba Ciarlini, acusava-se de homofobia institucional o Corpo de Bombeiros, o comandante-geral da corporação, cel. Dantas, também não foi perdoado. Foi quando um grito de ordem ecoou pelos altos falantes: "Se eles não permitem que saiamos com os trios, nós ocuparemos a avenida". Os participantes atenderam o apelo e espalharam-se pela avenida Engenheiro Roberto Freire, impedindo o trânsito dos carros e fechando a principal artéria da zona sul da cidade. Perguntava-se se no Carnatal, que havia sido semana passada, os bombeiros também faziam as mesmas exigências de segurança para Cláudia Leite cantar seu Largadinho.
O trânsito constante foi então bloqueado por drag queens em cima de saltos altíssimos e leques imensos. Meninos usando regatas cavadas se espalharam pelo asfalto dançando ao som da musica ensurdecedora que continuava saindo dos trios. Um dos organizadores conclamava: "Lembrem-se em quem vocês vão votar na próxima eleição, meus amigos, nós fomos impedidos de realizar nossa parada porque vivemos num governo homofóbico de uma governadora que usa tailleurs da década de 50 com os brincos mais cafonas que eu já vi na vida". Gargalharam com a comparação que ele fez em seguida entre a governadora e o personagem Valéria, do Zorra Total.
"Who run the world? Girls!" explodindo no outro trio era a trilha sonora de motoristas impacientes  que só podiam olhar enquanto uma drag desfilava sua bunda desnuda na frente do seu para-brisa. Outro organizador grita no microfone: "Fora Rosalba! Somos cidadãos e merecemos respeito!". Outro agradecia, no entanto, o apoio da prefeitura de Natal, que permitira o uso da avenida, na figura da Secretária de Saúde que estava em cima do trio elétrico, também agradecia a Polícia Militar que fazia a segurança e protegiam, agora, os manifestantes dos carros. Por entre os carros então manifestantes resolveram distribuir camisinhas e pediam assinaturas para um projeto de lei que criminalizaria a homofobia. 
Meninas logo colocaram suas garrafas de refrigerante e vodca no chão e faziam círculos onde conversavam animadas e paqueravam outras meninas que passavam por ali. Inúmeros vendedores ambulantes também começaram a tomar o espaço, puxavam seus carrinhos com uma grande caixa de isopor e uma placa imensa dizendo Skol R$ 2,00 e ocuparam a avenida se fixando entre os participantes que dançavam "hey, ey, ey, ey, like a girl gone wild, a good girl gone wild". Uma drag queen convidava as pessoas nos ônibus parados para descer e comemorar o orgulho de ser quem somos. 
A organização do evento tentou uma liminar na justiça autorizando que o evento ocorresse, e conseguiu, porém o comando do Corpo de Bombeiros ignorou completamente a ação. Eles estavam irredutíveis! Então o protesto se manteve. Foram sete horas de trânsito bloqueado. A polícia teve que intervir e criar um desvio após as duas primeiras horas. Mas o congestionamento foi inevitável. As 20:45 da noite, a primeira fala dos bombeiros apareceu. Thaisa Galvão, blogueira natalense de politica, disse que o coronel Dantas afirmava que a questão era exclusivamente a segurança, que os trios elétricos tinham 6 metros e não 5 como fora permitido. "Pode ver que ali na Roberto Freire os fios são baixos e tem até fios de alta tensão". Mas eu lembrei que o trio elétrico do Chiclete com Banana tem 7 metros de altura, e o de Ivete Sangalo 5,40. O tema da parada este ano, "A Homofobia fez isso comigo, e com você?", me pareceu bem apropriado.



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pérsia: Os Homens de Confiança de Ciro

, em Natal - RN, Brasil


Além de Bagoas, houveram outros grandes eunucos na história da Pérsia. Todos muito bem educados. Podemos citar, usando o exemplo que Andrew Chugg retira de Diógenes Laércio, Hermias, que fora educado por Aristóteles, na Grécia, onde fora enviado por seus pais, adolescente, e já castrado. O que demonstra que a "imposição" destes jovens na situação de eunuco era um investimento familiar em seu futuro. Esta imposição funcionava exatamente como o casamento era colocado para as mulheres. Era uma forma de ascender socialmente, Hermias, inclusive, tornou-se governador da satrapia de Atarneus, na região da Jônia (atual Turquia), e se rebelou contra o grande rei Ciro tornando-se independente do império persa durante um curto período de tempo. 
Apesar da traição de Hermias, na Ciropedia, escrita por Xenofonte, historiador grego, que está a mais detalhada descrição dos eunucos persas. Diz ele: "Ciro sabia que os homens precisam amar os filhos ou esposas ou favoritos dos quais eles se encantam: enquanto eunucos, que são privados de todos os entes queridos, certamente colocam em mais alta conta de quem poderia enriquecer-los ou ajudá-los se eles foram feridos ou terem sua honra abalada. E para receber tais benefícios o eunuco sempre está disposto a pensar que ele poderia oferecer mais ao mundo. Além disso, o eunuco, sendo degradados aos olhos de outros homens, é levado a procurar a ajuda de algum senhor ou mestre. Sem tal proteção não há um homem no mundo que não se ache no direito de sobrepujar um eunuco. Segundo Ciro, não havia qualquer razão para supor que o eunuco não seria o mais fiel de todos os servos. Quanto à noção comum de que um eunuco deve ser fraco e covarde, Ciro não estava disposto a aceitá-la ... nenhum homem se mostrar mais fiel do que eunucos quando ruína cai sobre seus senhores. Na força física, talvez, os eunucos podem parecer não estarem na mesma vantagem, mas o aço é um grande nivelador e torna o homem fraco igual ao forte na guerra. Mantendo isso em mente, Ciro resolveu que seus assistentes pessoais, desde os seus porteiros, deveriam ser todos eunucos."
São muitos os exemplos de eunucos ligados ao poder imperial. Primeiro o outro Bagoas, grão-vizir de Artaxerxes Ochus, que em 338 a.C., com a morte do imperador, reinou no império até subir ao trono Dario I, que para muitos não passava de uma marionete nas mãos do eunuco. Um outro exemplo da participação política destes personagens é Artoxares que viveu entre os reinos de Artaxerxes I e Dario II, um século depois deste primeiro Bagoas. De acordo com Ctésias, este último com apenas 20 anos participou do exército contra o rebelde sátrapa Megabyzus, que derrotado foi enviado exilado para o Golfo Pérsico. Por causa de sua participação na guerra, Artoxares tornou-se sátrapa da região da Armênia. Ele também, após a morte de Artaxerxes e do fim da guerra civil entre os seus filhos que resultou na vitória de Dario II, quem Artoxares apoiava, o eunuco tornou-se uma das pessoas mais influentes da corte persa de meados do século V a.C. Porém, corrompido pelo poder, o eunuco conspirou contra o rei e foi executado por ordem da rainha Parysatis. 
Um exemplo desta fidelidade foi de Batis, eunuco que governava a cidade de Gaza, quando Alexandre, o Grande, tentou tomar a cidade. De acordo com um fragmento de Hegesias, citado por Chugg, Batis fingiu se render ao conquistador grego só para ter uma chance de se aproximar dele e esfaqueá-lo. Apesar de ainda sair ferido, Alexandre sobreviveu ao atentado e, para dar o exemplo, matou o eunuco e amarrou o corpo em seu carro, arrastando-o em torno das muralhas da cidade como Aquiles fez com Heitor. Ou Hermotimo, de 480 a.C., que fora o favorito de Xerxes. Este tornou-se segundo guardião (algo como padrinho) dos inúmeros filhos do rei, um papel que só era reservado a outros reis. Este tornou-se eunuco ainda criança quando foi vendido para o palácio do rei o que não impediu que ele se torna-se um cruel soldado como demonstrou nas Guerras Médicas contra os gregos, inclusive participando da famosa Batalha de Salamina. Xerxes inclusive tinha uma guarda pessoal formada apenas por eunucos, como lembra Don Benjamin.
Inclusive, Don Benjamim acredita que os eunucos seriam melhor entendidos se fossem pensados como funcionários reais extremamente comprometidos com seus reis. Tão comprometidos que abdicavam de sua virilidade como prova disso. Eles são representados pela arte sempre sem barba, transportando os armas de seus governantes, segurando guarda-sóis, afastando-lhe as moscas ou abanando-lhe. Eles acompanhavam os governantes em caçadas e dirigiam seus carros, além de serem responsáveis pelo seu guarda-roupa. Eunucos também são retratados como músicos tocando liras e harpas; como escribas escrever cartas para seus governantes, registrando pilhagem e prisioneiros de guerra, e elaboração da anais no campo de batalha.
Acrescentamos, no entanto, que o fato de um homem persa tornar-se um eunuco não queria dizer que ele dedicaria sua vida as relações homoeróticas, os registros falam de alguns, porém também existem inúmeros relatos de eunucos que, inclusive, eram casados com mulheres. Ser eunuco na Pérsia não passava de um trabalho.



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Fidelio

, em Natal - RN, Brasil

Ato I

Conversando no MSN com um menino loiro e de sorriso encantador que conheci através do Manhunt.
- Você é de Natal?
- Sou. 
Respondo.
- Mas já morou fora?
- Sim, passei cinco anos morando em Belo Horizonte. 
Eu confirmo.
- Pois então você vai me entender. Eu não sou de Natal, e eu me surpreendo: o que acontece nessa cidade nenhum cara aqui quer namorar? Eles só pensam em sexo e depois do sexo... desaparecem. É impressionante. Quando você nota eles já sumiram e não tem como você voltar a ter contato com eles. Parece mágica.
Eu gargalho.
- É, eu também noto isso. Aqui as pessoas estão preocupadas com milhares de outras coisas... roupas, corpos musculosos, status... não tem espaço em suas agendas lotadas para se relacionar com alguém.
- É exatamente o que eu sinto. Que bom encontrar alguém que pensa como eu.
- E também alguém que não pensa como eles.
Concluo. Ele sorri do outro lado da câmera.


Ato II

- Foxx... eu preciso ser sincero com você. 
Diz ele depois que aviso que não tenho mais celular porque fui roubado e que por isso não poderíamos nos comunicar como de costume.
- Pois fale, meu querido.
- Você tem sido um fofo desde que nos conhecemos. Sempre atencioso e carinhoso ao telefone e aqui pela net. Mas...
- Mas?
- É que eu não estou preparado para um relacionamento com ninguém agora.
- Oi?
Fico sinceramente surpreso, afinal, eu o conhecera reclamando que ninguém nesta cidade estava disposto a namorar.
- É, cara, não consigo corresponder a forma carinhosa que você me trata, porque eu não estou preparado para me envolver com alguém de novo.
- Você não se sente preparado? 
Repito, mas na verdade queria dizer que ele provavelmente nunca tinha sido tratado daquela forma e por isso se sentia tão incomodado.
- É, fui muito machucado em outros relacionamentos, então não consigo permitir que você entre. Não consigo. É um bloqueio meu. 
- Entendo. Não gosto, mas entendo... 
Demoro muito tempo neste momento pensando o que vou responder. Até que em um rompante:
- Mas eu também tenho meus bloqueios, sabe? Fica difícil continuar investindo em alguém que afirma categoricamente que não vai me dar nunca nenhum retorno...
- Eu sei. 
Responde ele. 
- Sendo assim, acho que encerramos por aqui. 
Falo, e soa para mim um tanto quanto ríspido. Ele não responde, eu concluo:
- Boa sorte então para você, moço.
- Boa sorte.
E ele já estava on-line de novo no Manhunt.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Classe Média Sofre

, em Natal - RN, Brasil

Neste fim de semana ocorreu em Natal o seu carnaval fora de época em que bandas como Chiclete com Banana, Asa de Águia e Parangolé, além de cantoras como Cláudia Leite e Ivete Sangalo puxam trios elétricos na região sul da cidade. O Carnatal que acontece sempre em dezembro, no final de semana após o vestibular, é uma tradição da cidade e já foi o maior evento deste tipo a acontecer fora da Bahia. É uma festa imensa, regada a muita bebida, música alta, homens musculosos em roupas justas, sujeira pelas ruas, assaltos, meninas vestidas exatamente do mesmo jeito, beijos roubados, sexo atrás de carros estacionados, abadás caros e um trânsito infernal em toda a cidade das 14h até as 2h da madrugada. Esse, no entanto, foi o primeiro ano sem a barraca gay que centralizava toda a festa, o Caldeirão do Lu, que inclusive fazia com que Cláudia e Ivete fizessem questão de que o trajeto de seus blocos passasse diante da barraca aonde elas paravam e faziam um pequeno show para o seu público.
Neste ano, também, graças ao surgimento de uma imprensa de esquerda na cidade se ouviu muitas críticas ao evento. Sobretudo a Carta Potiguar afirmou com veemência que a festa não era do natalense, brincando com jingle “a festa é sua, meu amor, sorria”. O cerne das críticas era esse: a Destaque Promoções (a realizadora do evento) era a única dona da festa, uma festa privada que utilizava o espaço público e cobrava por isso. Eles criticavam a venda dos abadas para um público que faria uma festa privada num espaço que era público, as ruas da cidade. Também criticavam a construção de camarotes e de arquibancadas no logradouro público e, que isso, não trazia nada em contrapartida para a cidade. Também era uma festa que não celebrava a cultura potiguar ao importar atrações bahianas que cantam “we are the world of Carnaval, we are Bahia”. Eu os acuso de cegueira de classe média. 
Quem critica o carnatal é com certeza alguém que não enxerga a festa como um todo. Realmente, os espaços cobrados pela Destaque só rendem lucro a ela, mas a festa é muito mais do que o corredor por onde passa o trio elétrico. Existem inúmeros vendedores ambulantes que tomam as calçadas vendendo comida e bebida em carrinhos; bares também se deslocam para o local do evento e montam barracas; nas ruas em volta, terrenos baldios se transformam em estacionamentos; não se encontra uma latinha de cerveja no chão porque os catadores são muito mais rápidos. Quem critica o Carnatal não para para conversar com um vendedor de cervejas e saber que este fatura, em média, R$ 300,00 por dia de festa, são quatro. Existe um lucro que não é explorado pela Destaque ao redor do corredor, alimentado sobretudo pela pipoca. 
Ai está também parte da cegueira desta classe média que finge que é politizada, ela só consegue enxergar a festa de quem tem 300 a 500 reais e não de alguém que participa de toda festa fora das cordas que isolam os blocos. E é muita gente. Pessoas que ficam nas calçadas, barracas e pelas ruas consumindo e dançando conforme os blocos vão passando. A festa de quem gasta apenas 50 reais por noite entre cervejas, cachaças, acarajés e churrasquinhos compradas nos canteiros centrais das avenidas. Isso é o carnatal. 
A critica também ignora, de forma desavergonhada, que a festa atrai para a cidade turistas também. Pernambucanos, paraibanos e cearenses, além de muitos potiguares do interior visitam a cidade exclusivamente para pular nos blocos como os tradicionais Caju, de Cláudia Leite; o Cerveja e Coco, da Ivete Sangalo; o Nana Banana, do Chiclete com Banana; ou o Bicho Papão, do Ricardo Chaves, ou algum dos novos que tem o Swingaê, que traz o Parangolé; e o Bikoka, trazendo Netinho. Estes turistas vem para cá para aproveitar a festa bahiana que, sim, foi importada. Mas convenhamos: argumentar que nossa cultura está sendo destruída por causa de uma invasão de estrangeirismo é muito demodè, principalmente enquanto digita no seu iPhone o texto para um blog. Eu, particularmente, não tenho nada contra o Carnatal, mas me incomoda bastante esses comunistas de beira de piscina que não reconhecem o que significa “festa popular” de tão acostumados que estão de observar o mundo das varandas de seus apartamentos. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ring Ring

, em Natal - RN, Brasil





Eu estava no ônibus, indo em direção ao trabalho, quando o celular toca. Eram pouco mais de 8h da manhã e me surpreendi com a ligação. Achei que era um dos meus chefes com alguma solicitação urgente, mas vejo o nome de Rodrigo no visor. "Bom dia!", respondo animado. A pessoa faz um silêncio do outro lado da linha e eu tento novamente chama-lo. Eu havia conhecido o Rodrigo semanas antes pelo Manhunt, ele entrou em contato comigo e nós conversávamos já alguns dias, todas as noites, por webcam e nos tornávamos íntimos. Ele era de São Paulo, mas viria no fim do mês de novembro morar em Natal. Dentista, bonito e inteligente. Ele dizia então que queria me conhecer, e ligava-me duas vezes por dia, quase todos os dias, mas no dia anterior fui eu que tentei ligar para ele e não consegui nenhuma notícia dele, a noite ele também não aparecera na internet como já tornara-se um costume nosso. "Por que você está ligando para o telefone do meu marido?", perguntou uma voz masculina do outro lado do telefone. Eu sem saber o que responder, somente balbuciei umas tentativas de perguntas, mas a voz continuou. "Ontem o Rodrigo esqueceu o telefone dele aqui em casa, vi sua ligaçãi para ele, e também suas mensagens...", o homem do outro lado do telefone tentava controlar a raiva, mas ela ainda era perceptível, eu realmente ligara uma vez para ele e mandara duas mensagens perguntando o porquê do seu sumiço o dia todo. "Você não tem vergonha, não, de dar em cima de um homem casado?". Eu gargalhei e o homem do outro lado se irritou. Começou a gritar, e eu calmamente desliguei. Rápido, eu digitei a seguinte mensagem: "Caro marido do Rodrigo, desculpe-me, eu nunca soube que o senhor seu marido era casado. Ele me adicionou através do meu perfil do Manhunt e me contou estórias de que estava vindo voltar a morar em Natal e que queria encontrar um amor. Fui tão enganado por este homem quanto você. Não sou o vilão dessa estória, ele quem é". Nunca mais ouvi falar de Rodrigo, o dentista paulista, nem do marido dele.