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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Liebster

, em Natal - RN, Brasil
O lindo Hórus me indicou para o Liebster Award e com isso eu tenho que responder algumas perguntas.  Ele as listou, são 11.

1) Qual sua cor favorita?
Isso é uma pergunta dificil, já foi branco, já foi verde, já foi azul, eu vivo mudando de cor favorita, você pode ver pelo meu guarda-roupa, eu acabo comprando sempre as mesmas cores de roupas dependendo daquela fase que estou. Agora eu tenho usado muito cinza.

2) Qual a tua viagem de sonho?
Grécia, sem sombra de dúvida. Sou apaixonado pelo mundo grego desde a adolescência quando descobri a mitologia grega. Na verdade, inclusive, eu só decidi estudar História na faculdade por causa dessa paixão. Então espero um dia visitar a Grécia sim: Atenas, Esparta, Corinto, Cyclades, Creta, Trácia, Tebas. É uma relação tão intensa que eu tenho com essa terra sem nunca ter estado lá que só pode ser lembrança de vidas passadas.

3) Partilha algo engraçado sobre ti.
Uma vez, numa boate, um menino chegou próximo de mim e me ofereceu bebida. Ficamos lá perto e eu conversando com ele, falando, falando, falando, e ele sempre em silêncio apenas ouvindo, até que eu perguntei: "você não vai falar nada?", e ele continuou em silêncio, eu insisti mais, e ele continuava em silêncio, eu notei que as pessoas ao meu redor me olhavam estranho, amigos dele, e eu continuava forçando, até que ele, muito envergonhado tentou falar, "bah, bah, bah" foi o único som que ele emitiu, ele era mudo. E eu estava insistindo para ele falar. Eu queria um buraco para me enfiar naquele momento. Um conhecido que estava do meu lado, disparou a rir, e eu fiquei extremamente sem graça diante do menino, sem saber como agir.

4) Qual a música mais especial para ti? Porquê?
Nossa! Pergunta difícil! São algumas músicas, sobretudo as que eu cantei com meus corais, são meses de trabalho em cima de uma música, você acaba tomando um carinho especial por todas elas. Mas acho que eu deveria citar Carinhoso, de Pixinguinha. "Meu coração, não sei por quê, bate feliz quanto te vê, e os meus olhos ficam sorrindo, e pelas ruas vão te seguindo, mas mesmo assim foges de mim". Essa é a música que eu canto quando estou extremamente triste. Canto só para mim, me acarinhando.


5) Se tivesses uma Máquina do Tempo, onde gostavas de ir? Porquê?
Grécia Antiga, gente! Precisa perguntar porquê?

6) Qual tua maior qualidade?
Acho que sou um excelente amigo, a pessoa que sempre estará disponível para ajudar quem quer que seja, a hora que for. Sou do tipo de pessoa que sempre estende a mão e oferece ajuda, sem pensar em si mesmo, sempre preocupado em ajudar o outro.

7) Qual o teu maior defeito?
A racionalização. Eu vejo o mundo e o esquadrinho dentro de uma visão extremamente racional das coisas. Por falta de experiencias amorosas e emotivas (tanto em namoros como na minha família), eu não aprendi essa perspectiva de amor, emoção e carinho, e acabo enxergando o mundo apenas sobre o prisma da racionalidade matemática e ergonômica.

8) Se pudesses mudar algo na tua vida, o que mudavas?
Meus pais! Se eu não tivesse sido criado como fui, sem amor, sofrendo homofobia de todos os lados, apanhando, com medo, abandonado apesar de estar dentro da casa dos meus pais, eu seria uma pessoa muito mais capaz de enfrentar os problemas da vida adulta que tenho hoje. Eu mudaria isso, apesar de saber que se isso tivesse acontecido eu não seria a mesma pessoa que sou hoje, e eu me adoro!

9) Encontras a lamparina mágica e dela sai um gênio que te concede um desejo. O que pedirias?
O fim dessa dor que me comprime o peito nomeada de solidão. Eu pediria o fim disso da forma que ele julgasse melhor, fosse me arranjando um namorado, fosse me matando, fosse me fazendo aceitar que eu sempre estarei sozinho. Qualquer fim que o gênio desse valeria a pena! Se eu conseguisse tirar esse peso do meu peito eu, finalmente, poderia tentar ser feliz.

10) Qual a maior loucura que fizeste até hoje por amor?
Eu deixei Natal, a cidade em que nasci, onde tinha um emprego concursado e uma vida que começava a se encaminhar, para ir morar em Belo Horizonte a procura de alguém que fosse capaz de gostar de mim, somente para descobrir que não importa o quanto eu tente somente é possível que alguém me queira para sexo.

11) Dá um título para o livro que é a história da tua vida.
"Só".

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Observemos!

, em Natal - RN, Brasil
Natal tem experimentado uma novidade neste último ano que retornei: o deslocamento das festas gays para região norte da cidade. Para entender o que isso significa é necessário conhecer um pouco da Cidade do Sol. A capital potiguar é dividida em regiões administrativas batizadas com os nomes dos pontos cardeais. A Zona Sul é a mais rica e, portanto, a que reúne os bares mais caros, as boates consideradas melhores, os endereços mais quentes, em resumo, citando Cazuza. Ponta Negra, Neópolis, Candelária e Lagoa Nova reúnem a fina flor da sociedade natalense. Já a Zona Leste é a mais antiga da cidade e se divide em uma região pobre (Rocas, Mãe Luíza), bairros com o metro quadrado caríssimo como Tirol e Petrópolis e uma região que congrega a cena underground da cidade. Bairros como a Ribeira e a Cidade Alta reúnem bares de rock, boates indie, sambas de raiz, bares antigos, sebos, becos batizados com nomes estranhos e cafés modernos nos quais se encontram os intelectuais e pseudo-intelectuais natalenses. A Zona Oeste, no entanto, é bem popular. Com uma população de baixo poder aquisitivo, comparada com a região mais pobre da Zona Leste, e com índices de criminalidade parecidos, senão superiores. É uma região de bairros tradicionais como o Alecrim e a Cidade da Esperança, que tem o maior foco no comércio popular de rua, e regiões residenciais como o Nossa Senhora de Nazaré, Felipe Camarão e Dix-Sept Rosado. 
A Zona Norte localiza-se do outro lado do rio Potenji que corta Natal. Era uma antiga região dormitório da cidade que cresceu basicamente por meio de conjuntos habitacionais com preços populares, contudo, de uma década para cá, essa população ascendeu a classe média e ganhou maior poder aquisitivo. Logo a ZN ganhou sua própria região de comércio, o bairro de Igapó, e começou a atrair para aquela região da cidade cuja malha de transporte coletivo só tem ônibus que saem de lá e levam as empregadas domésticas para a casa dos patrões um investimento intenso para fixar o dinheiro dos moradores lá mesmo. Os moradores da Zona Norte não queriam mais deslocar-se para outras regiões da cidade para gastar o dinheiro deles. Restaurantes e bares, pequenas e grandes lojas começam a abrir por toda a região planejada anteriormente para ser apenas residencial o que culmina com a inauguração do Norte Shopping, seu primeiro grande shopping com cinema, Carrefour, McDonalds, C&A e Colcci do outro lado do rio. 
Os habitantes do Santarém, Pajuçara, Parque das Dunas, Salinas e Redinha não queriam mais se deslocar até o outro lado da cidade, principalmente, para se divertir. A conclusão lógica, sobretudo a noite, seria deslocar-se as opções de lazer noturna para aquela região da cidade; contudo, sobretudo no meio gay, esta opção era encarada com grande preconceito. Algum empresário abrir uma boate na Zona Norte era enfrentar de cara o preconceito que as outras regiões da cidade tem com a ZN. É mais fácil um morador da Zona Sul ou Leste deslocar-se para uma cidade próxima como Macaíba, Parnamirim ou Tibau do Sul, na famosa praia da Pipa, do que ele resolver ir a uma boate que ficasse localizada na Zona Norte. Apesar disso, tenho visto, surpreso, a explosão de festas gays na região.
São festas, não abriu nenhum lugar novo por lá. Elas têm um mesmo padrão: organizadas como uma private, elas se lançam em grupos no Facebook e são organizadas por amigos que alugam uma casa de praia na Redinha ou Santa Rita, o material básico de som e luz e contratam um DJ que está começando. Com nomes em inglês (End of the world, Open Minds), e claramente inspiradas em pool parties, cobram um entrada que varia entre R$ 10,00 e R$ 15,00 que dá direito durante toda a noite a, normalmente, caipirinhas feitas com a cachaça mais barata do mercado, mas que permitem também que você traga sua própria bebida de casa (eles fornecem o gelo), ou seja, com a mínima possibilidade de dar prejuízo aos organizadores. O público é composto basicamente por moradores da Zona Norte, meninos de uma geração que foi nascida e criada na região, de pais que compraram sua primeira casa própria por ali nos conjuntos habitacionais e melhoraram de vida. São meninos jovens, bonitos e estudados, ligados em moda e tecnologia e frequentadores ávidos de academias. Meninos e meninas que também se descobriram gays cedo e lidam com sua sexualidade de uma forma natural. Em todas as festas, existe sempre na entrada um grande recipiente lotado de camisinhas e gel lubrificante e, como as festas se realizam em casas, os quartos são abertos para que os participantes possam utilizá-los. Pequenas orgias acontecem, meninos que fazem sexo com seis ou sete na mesma noite também, alguns que saem com a fama de terem pelo menos dado, beijado ou chupado cada um dos membros da festa são comuns.  
Estas festas são um espaço novo que estes jovens da Zona Norte estão conquistando. Já ouço algumas pessoas no meio gay argumentarem que preferem as festas nas casas de praia do que o ambiente tão batido das boates da cidade "no qual sempre estão as mesmas pessoas". O argumento que me relembra o boom de raves que vivi na minha casa dos vinte anos aqui em Natal. Reconheço também, sobretudo entre os meninos e meninas mais jovens que moram na Zona Sul e Leste tem tido cada vez mais participação nas festas, trazidos sempre por amigos, e que acabam gostando daquele clima de liberdade sexual que paira nestas casas de praia. Falta, de fato, profissionalismo. É tudo ainda muito amador, são apenas meninos brincando de fazer festas para seus amigos, contudo enxergo aí o início de uma mudança para a cidade. A cena gay de Natal está mudando, observemos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Felicidade

, em Natal - RN, Brasil
Minha mãe sentada na mesa da cozinha fala:
- Você devia era agradecer por ser tão feliz.
- E quem disse a você que sou feliz? Respondi.
Ela me olhou com o olhar de deboche que só ela tem:
- E porque você não seria feliz?
- Não posso ser feliz, minha querida mãe, porque eu não tenho nada do que eu sempre desejei p'ra mim.
- E o que você desejou para você que você não conseguiu, por acaso? Ironizou ela.
Eu contei para ela mostrando os dedos para contabilizar:
- Em primeiro lugar, meu trabalho paga menos do que eu recebia quando era professor. Apesar do doutorado, eu recebo menos do que recebia quando dava aulas nas escolas públicas do município.
- Você só pensa em dinheiro, menino! Felicidade não se encontra nas coisas materiais.
Eu ri e respondi:
- Ah, é? Então, eu também não tenho amigos próximos. Meus amigos estão todos distantes e, os que moram em Natal, raramente os encontro. Estes, não lembram de me convidar para sair, não sentem minha falta, nem se importam se eu estou bem ou mal...
Ela me olhou com um ar de que isso não tinha importante, quase deixou escapar algo como "amigos não servem para nada". Mas eu não a deixei falar.
- Em segundo lugar, eu não namoro. Nunca namoro porque ninguém é capaz de gostar de mim.
- Você sempre repete esse mesmo discurso!
- Porque é verdadeiro, ou você já me viu namorando alguma vez na vida?
Ela não respondeu. Engoliu a sua resposta negativa para não dar o braço a torcer e eu continuei.
- Por esses três motivos eu me considero infeliz, mainha, por que não tenho nenhum desses três pontos em minha vida.
- Pois eu sou muito feliz com a minha vida. Respondeu meu pai que estava sentado, ouvindo a conversa, comedo uma gemada.
- Que bom para o senhor, que bom para o senhor!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Israel: O Amor entre Davi e Jônatas

, em Natal - RN, Brasil


As referências entre Davi e Jônatas são as mais reclamadas pela militância gay entre as fileiras cristãs e muito se escreveu sobre este assunto. Davi é o segundo rei de Israel, o primeiro é Saul, de acordo com o texto hebraico da Bíblia, e segundo os evangelistas Lucas e Mateus seria ancestral de Jesus Cristo. Ele teria reinado entre 1003 e 970 a.C., porém a única prova da existência de Davi são os livros de Samuel, Reis e Crônicas da própria Bíblia, além dos Salmos que são atribuídos ao talento musical do rei dos judeus. 
Segundo o texto bíblico, Davi toma o trono de Israel de Saul porque Deus retirou-lhe seus favores. "O Senhor disse a Samuel: Arrependo-me de ter feito rei a Saul: ele se desviou de mim e não executou as minhas ordens" (1Samuel 15:10-11). O profeta Samuel então procurou um novo rei entre os filhos de Jessé em Belém. Sete dos filhos de Jessé são levados diante do profeta, mas nenhum deles o agradou, porém ainda faltava o menor, que havia levado as ovelhas para o pasto. Davi então foi trazido para a presença do profeta. "Ele era louro, de belos olhos e mui formosa aparência. O Senhor disse: Vamos, unge-o. É ele!" (1Samuel 16:12). Belo e habilidoso com a harpa, Davi foi introduzido na corte de Saul pelo profeta como músico real, "Davi chegou a casa do rei e apresentou-se a ele. Saul afeiçoou-se ( אהבה - ahab) a Davi e o fez seu escudeiro" (1Samuel 16:21). Esta, falam os pesquisadores queer que seria a primeira referência homoerótica envolvendo Davi. O relacionamento entre o rei e o músico, em que o último passa a frequentar o quarto do primeiro, torna-se extremamente íntimo e aproxima Davi do príncipe, filho de Saul, Jônatas. 
É após Davi demonstrar sua bravura após derrotar o gigante Golias, ao trazer a cabeça ao filisteu ao rei, que ocorre o primeiro encontro entre o músico e o príncipe: "Tendo Davi acabado de falar com Saul, a alma de Jônatas apegou-se à alma de Davi e Jônatas começou a amá-lo (אהבה - ahab) como a si mesmo. Naquele mesmo dia, Saul o reteve em sua casa e não o deixou voltar para a casa do seu pai. E Jônatas fez um pacto com Davi, pois o amava (אהבה - ahab) como a si mesmo. Tirou seu manto, deu-o a Davi, bem como a sua armadura, sua espada, seu arco e seu cinto" (1Samuel 18:1-4). 
Tanto na primeira referência envolvendo Saul, quanto com Jônatas, a presença da palavra hebraica אהבה (ahab) vai de encontro a interpretação comum de que se refere a apenas uma amizade. Não obstante, uma interpretação platônica para o relacionamento entre Davi e Jônatas tem sido a visão predominante encontrada na exegese bíblica, tanto por autores judeus e cristãos. Estes argumentam que a relação entre os dois, embora forte e estreita, é em última análise, uma amizade platônica. A aliança que se faz é política, e não erótica, enquanto qualquer intimidade é um caso de união masculina e homossocialidade, isto é, uma camaradagem íntima entre dois jovens soldados sem envolvimento sexual. 
Os livros de Samuel não documentam nenhuma intimidade física entre os dois personagens, além do beijo. "Logo que Davi deixou seu esconderijo e curvou-se até a terra, prostrando-se três vezes; beijaram-se mutuamente, chorando, e Davi ainda mais comovido que seu amigo" (1Samuel 20:41). Os tradicionalistas afirmam que o texto bíblico não se escusa em narrar claramente as abundantes relações sexuais entre Davi e suas esposas e concubinas, e também as de Jônatas que casou e teve um filho, porque então ele não se dá ao trabalho de ser claro no relacionamento homoerótico do músico e do príncipe? Martti Nissinen afirma que "o amor recíproco, com certeza, foi considerado pelos editores [da Bíblia] como fiel e apaixonado, mas sem alusões indecorosas para práticas proibidas pelo Levítico. Sua proximidade emocional e até física não parecem preocupar os editores da história". A Homossociabilidade não é vista como sendo parte do tabu sexual no mundo bíblico.
Nada no texto bíblico, porém, possibilita ou impossibilita uma leitura homoerótica desses versículos. Porém se a opção for por uma leitura homoerótica possibilitaria um melhor sentido para trechos como a reação de Saul ao saber da relação do filho com o músico faz pensar que existe mais do que uma amizade entre guerreiros. "Então Saul encolerizou-se contra Jônatas: Filho de prostituta - disse-lhe -, não sei eu porventura que és amigo do filho de Jessé, o que é uma vergonha para ti e para tua mãe? Enquanto viver esse homem na terra, não estarás seguro, nem tu nem teu trono. Vamos! Vai buscá-lo e traze-mo; ele merece a morte! Jônatas respondeu ao seu pai: Por que deverá ele morrer? Que ele fez? Saul brandiu sua lança para feri-lo e Jônatas viu que a morte de Davi era coisa decidida pelo seu pai. Furioso, deixou a mesa sem comer naquele segundo dia de lua. As injúrias que seu pai tinha proferido contra Davi tinham-no afligido profundamente" (1Samuel 20:30-34). Apesar da acusação de regicida feita por Saul, as palavras proferidas ao filho e a aflição de Jônatas demonstra não corroboram a tese de simples amizade. Segundo David Jobling, inclusive, o apartamento feito por Saul do próprio filho no qual a vergonha cairia somente entre ele e a própria mãe é uma chave que transforma Jônatas em uma efeminado, isto é, o filho apenas de uma mulher, sem semente viril. "Então Jônatas, filho de Saul, foi ter com ele em Horesa. E confortou-o, dizendo: Não temas, porque não te atingirá a mão de meu pai. Tu reinarás sobre Israel e eu serei o teu favorito; meu pai bem o sabe. Fizeram ambos uma aliança diante do Senhor. Davi ficou em Horesa e Jônatas voltou a casa do seu pai" (1Samuel 23:17-18). Gordon Hugenberger tem procurado desde 1944 relações entre o casamento heterossexual e a aliança entre Davi e Jônatas, relação esta citada três vezes no livro de Samuel. No entanto, apesar das pesquisas de John Boswell reafirmarem que os ritos de casamento homoafetivos serem muito anteriores aos ritual de casamento eclesiástico cristão, obviamente, a relação política entre o príncipe e o músico aspirante a rei é quem subordina a relação de amor entre eles.
A referência mais famosa, contudo, é a primeira poesia de Davi apresentada por Samuel em seu segundo livro. "Jônatas, meu irmão, por tua causa meu coração me comprime! Tu me eras tão querido! Tua amizade me era mais preciosa que o amor das mulheres" (2Samuel 1:26). David Jobling escreve: "A história de Davi e Jônatas, e estas palavras em particular, vem a ter grande importância para ativistas que defendem os direitos dos gays, porque eles são a única apresentação positiva da homossexualidade masculina na Bíblia judaica. Neste trecho, um homem revela seu amor por outro homem, em comparação com o amor heterossexual e conclui que é superior. Uma leitura de Samuel que pretenda abordar as questões de ética e libertação humana não pode continuar a ignorar a importância desta perspectiva para uma questão tão importante de nosso tempo".

sábado, 22 de setembro de 2012

Correio Amoroso

, em Natal - RN, Brasil

Recebi este bilhete através de um garçom no Donana, um pub gay na região sul de Natal com mesas de jardim francês e garçons bonitos que você leva facilmente para cama se pagar o preço deles. O que não é nada caro, porque eles não são garotos de programa, são o que chamamos aqui de cafuçu, eles não recebem dinheiro, eles dizem que você da a eles apenas presentes.  Respondi ao bilhete pedindo uma caneta ao garçom e escrevendo com a bic preta dele em um quardanapo: "Oi Thiago, venha e se apresente para mim, Foxx". Advinha o que aconteceu? Eu estou esperando uma resposta dele até agora. Acompanhei discretamente o garçom chamado Alan que foi até a mesa e entregou a um garoto gordo o meu bilhete. Eles pareciam discutir o assunto. Alan o incentiva a ir falar comigo. Ele dizia não. Coisas de Natal. Ele realmente esperava que sem eu sequer saber quem ele era levantasse da minha mesa e fosse conversar com ele. Eu me perguntei naquele instante: "Ele não estava tão interessado? Para onde foi todo aquele interesse?". Eu tomei como regra desde o ano passado, durante uma conversa com minha terapeuta, que só valeria a pena investir em um relacionamento se eu notasse que a outra pessoa minimamente investe também algo. Levantar-se da mesa dele e se apresentar era o mínimo que ele poderia fazer para demonstrar interesse afinal, até segunda ordem, eu não sabia quem havia me mandado o bilhete. Eu sei que qualquer um pode argumentar agora que ele não se aproximou porque era tímido, mas se vocês me permitem eu tenho que pensar em mim, cuidar de mim, sabe o amor por si mesmo?, eu não me aproximei porque não vale a pena investir em alguém que não se dá ao trabalho de se apresentar a você.


Hoje é aniversário do blog: oito anos! Obrigado a todos os meus leitores e aos comentadores, só continuo porque vocês estão por ai.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

À Beira do Fim do Mundo

, em Natal - RN, Brasil
O fim do mundo realmente deve ser assim. Se vocês não sabem, a prefeita de Natal, Micarla de Souza, do Partido Verde, teve em pesquisa recentemente divulgada pelo IBOPE uma rejeição de 93%. Este nível de impopularidade nunca foi alcançado por nenhum prefeito na história desse país. E o porque disso acontecer: porque a capital do Rio Grande do Norte se tornou o retrato do caos.
Em 2008, a jornalista Micarla de Souza foi eleita com pouco mais de 50% dos votos válidos, derrotando a deputada estadual do PT, Fátima Bezerra. Contra Fátima pesava o fato de desconfiarem que ela é lésbica; arma que Micarla utilizou apresentando-se como "mãe, esposa e mulher". Delicada como uma borboleta (seu símbolo de campanha), Micarla é filha da elite política do Estado, dona de um canal de TV, no qual ela fora âncora de um jornal diário e um programa com seu nome. Um seguido ao outro que contabilizava 3 horas com a moça no ar. Lembro que seu programa, um talk show, estreou sem convidados. Micarla se entrevistou naquele dia, eu assisti boquiaberto e temi por sua sanidade.
Eleita, os problemas começara a pipocar. Salários de professores atrasaram, aluguéis de prédios pararam de ser pagos, luz e água de postos de saúde começaram a ser cortados. O prédio da própria prefeitura ficou sem luz. Faltou dinheiro para os caixões que eram doados para as famílias de baixa renda, faltou dinheiro para tapar os buracos das ruas da cidade, o estádio para a copa do mundo atrasou de forma preocupante. Até que a população se revoltou e, organizada pelo Twitter, saiu às ruas exigindo #ForaMicarla. Jovens enfrentaram a polícia atrás de ônibus em chamas exigindo o impeachment da prefeita, no entanto, a câmara votou que a prefeita-borboleta continuasse no governo até o final do seu mandato.
O impeachment tentando ano passado fracassou, mas ensinou aos vereadores da cidade que os jovens têm poder de organização, mas, pelo jeito, não ensinou nada a prefeita. Ela, iludida por algo que eu só consigo entender como egocentrismo, pleiteou no seu partido a possibilidade de reeleição. Surgiram as primeiras pesquisas para avalia-la, e os números devem tê-la feito notar que os jovens arruaceiros, pintados pelo seu marido que agora comandava o canal de tv dela, representam sim a maior parte da população da cidade. Micarla, a prefeita-borboleta, então decidiu sabiamente retirar-se da política.
Contudo, parece que ela resolveu bancar Pilatos e lavou as mãos. Parou de pagar a coleta de lixo, aprovou aumentos de passagem de ônibus, cortou os fundos para obras de hospitais que estavam sendo feitas e  atrasou os salários da SAMU. Os estudantes saíram as ruas novamente, acompanhados de trabalhadores, sindicatos e partidos de esquerda, fecharam uma avenida e caminharam até a prefeitura. Foram recebidos pela polícia com bombas de gás e balas de borracha. A prefeita havia decretado ponto facultativo. Não havia ninguém no Palácio Felipe Camarão quando os protestantes chegaram. Sem prefeita, os donos das empresas de ônibus se viram no direito de cancelar a integração das linhas de ônibus (a possibilidade de alguém pagar uma passagem e poder pegar dois ou três ônibus no intervalo de 1 hora), os guerreiros desta cidade fecharam, em resposta, hoje, agora, três pontos de Natal: as duas pontes e mais a maior avenida que dá acesso a Zona Sul.  A cidade está sitiada. 
Acho que deve ser bem assim o fim do mundo. Ele realmente é em 2012 e tudo começa aqui em Natal. E o detalhe é que ninguém, fora desta cidade, está sabendo de nada do que acontece aqui. Não é?


PS: Dois onibus foram incendiados nos protestos. Veja a reportagem do G1 aqui.

sábado, 15 de setembro de 2012

Texto Que Me Envergonha

, em Natal - RN, Brasil
Não me sinto bem escrevendo sobre isto aqui. Porque prevejo as reações que virão por causa dele. Posso ver as pessoas que vão dizer que eu estou enganado, posso ver as pessoas dizendo que eu não tenho motivos para dizer o que digo. Vão inclusive apontar minhas últimas postagens dizendo que as coisas estão melhorando. Sei que alguém vai comentar que eu não consigo ver o que realmente acontece ao meu redor e tem também aquele que vai dizer que tudo vai melhorar, que eu só preciso dar tempo ao tempo. Sinto-me mal porque sei que boa parte dessas pessoas estão corretas (menos aqueles que dizem que tudo um dia vai melhorar) e que eu não devia mais estar sentindo o que sinto. Afinal, se eu tenho tanta certeza que minha vida não vai ficar melhor do que já está, com um emprego que me permite ter o mínimo que preciso, sendo parcialmente dependente dos meus pais, com poucos amigos que se mantém sempre fisicamente distantes (a situação é: eu tenho amigos, mas nunca tenho a oportunidade de estar com eles), sem considerar que é impossível alguém gostar de mim, ou melhor, minimamente se interessar por algo que não seja somente sexo, se eu tenho essa certeza porque sofrer, não é? Basta aceitar tudo exatamente do jeito que é. 
A Segunda Nobre Verdade do Budismo conta que o sofrimento é o que acontece quando lutamos contra aquilo que a vida nos oferece, em fez de aceitarmos as nossas experiências e de nos abrirmos a elas, com sabedoria e compaixão. Siddharta Gautama, o Buda, dizia que os desejos sempre levam ao desapontamento e este sentir-se desapontado, como estou agora, é a causa de todo sofrimento humano. Buda pregava que se um ser humano fosse capaz de matar o desejo, ele estaria livre da influência do bem e do mal, e com isso ele seria feliz. E alcançaria o Nirvana, uma doce aniquilação de todos os seus sonhos. Trocando em miúdos, o que eu deveria repetir o tempo todo é: "Bem, isso não é o que eu quero, mas é o que eu tenho; então, tudo bem!", me envergonha, no entanto, ter esta consciência e, mesmo assim, deitar a cabeça no travesseiro e fazer sempre a mesma oração: "Senhor, tem misericórdia de mim e, por favor, encerra minha vida, esta minha merda de vida, esta noite. Permite, te peço, por compaixão, que eu não acorde quando o sol novamente nascer". 
Eu não devia agir assim. Eu devia agradecer por simplesmente ter os bons amigos que tenho, mesmo eles morando longe ou pouco fazendo questão da minha presença; eu devia agradecer por ter este emprego, que não paga o suficiente para que eu possa sair da casa dos meus pais e nem a altura do quanto eu estudei em minha vida; eu devia aceitar o sexo sem sentimento com pessoas que não desejam nem saber o meu nome. Devia aceitar tudo isso porque a única coisa que tenho e que posso ter, mas não consigo e esta é a causa de todo o meu vergonhoso sofrimento.