Não me sinto bem escrevendo sobre isto aqui. Porque prevejo as reações que virão por causa dele. Posso ver as pessoas que vão dizer que eu estou enganado, posso ver as pessoas dizendo que eu não tenho motivos para dizer o que digo. Vão inclusive apontar minhas últimas postagens dizendo que as coisas estão melhorando. Sei que alguém vai comentar que eu não consigo ver o que realmente acontece ao meu redor e tem também aquele que vai dizer que tudo vai melhorar, que eu só preciso dar tempo ao tempo. Sinto-me mal porque sei que boa parte dessas pessoas estão corretas (menos aqueles que dizem que tudo um dia vai melhorar) e que eu não devia mais estar sentindo o que sinto. Afinal, se eu tenho tanta certeza que minha vida não vai ficar melhor do que já está, com um emprego que me permite ter o mínimo que preciso, sendo parcialmente dependente dos meus pais, com poucos amigos que se mantém sempre fisicamente distantes (a situação é: eu tenho amigos, mas nunca tenho a oportunidade de estar com eles), sem considerar que é impossível alguém gostar de mim, ou melhor, minimamente se interessar por algo que não seja somente sexo, se eu tenho essa certeza porque sofrer, não é? Basta aceitar tudo exatamente do jeito que é.
A Segunda Nobre Verdade do Budismo conta que o sofrimento é o que acontece quando lutamos contra aquilo que a vida nos oferece, em fez de aceitarmos as nossas experiências e de nos abrirmos a elas, com sabedoria e compaixão. Siddharta Gautama, o Buda, dizia que os desejos sempre levam ao desapontamento e este sentir-se desapontado, como estou agora, é a causa de todo sofrimento humano. Buda pregava que se um ser humano fosse capaz de matar o desejo, ele estaria livre da influência do bem e do mal, e com isso ele seria feliz. E alcançaria o Nirvana, uma doce aniquilação de todos os seus sonhos. Trocando em miúdos, o que eu deveria repetir o tempo todo é: "Bem, isso não é o que eu quero, mas é o que eu tenho; então, tudo bem!", me envergonha, no entanto, ter esta consciência e, mesmo assim, deitar a cabeça no travesseiro e fazer sempre a mesma oração: "Senhor, tem misericórdia de mim e, por favor, encerra minha vida, esta minha merda de vida, esta noite. Permite, te peço, por compaixão, que eu não acorde quando o sol novamente nascer".
Eu não devia agir assim. Eu devia agradecer por simplesmente ter os bons amigos que tenho, mesmo eles morando longe ou pouco fazendo questão da minha presença; eu devia agradecer por ter este emprego, que não paga o suficiente para que eu possa sair da casa dos meus pais e nem a altura do quanto eu estudei em minha vida; eu devia aceitar o sexo sem sentimento com pessoas que não desejam nem saber o meu nome. Devia aceitar tudo isso porque a única coisa que tenho e que posso ter, mas não consigo e esta é a causa de todo o meu vergonhoso sofrimento.


