Google+ Estórias Do Mundo

sábado, 15 de setembro de 2012

Texto Que Me Envergonha

, em Natal - RN, Brasil
Não me sinto bem escrevendo sobre isto aqui. Porque prevejo as reações que virão por causa dele. Posso ver as pessoas que vão dizer que eu estou enganado, posso ver as pessoas dizendo que eu não tenho motivos para dizer o que digo. Vão inclusive apontar minhas últimas postagens dizendo que as coisas estão melhorando. Sei que alguém vai comentar que eu não consigo ver o que realmente acontece ao meu redor e tem também aquele que vai dizer que tudo vai melhorar, que eu só preciso dar tempo ao tempo. Sinto-me mal porque sei que boa parte dessas pessoas estão corretas (menos aqueles que dizem que tudo um dia vai melhorar) e que eu não devia mais estar sentindo o que sinto. Afinal, se eu tenho tanta certeza que minha vida não vai ficar melhor do que já está, com um emprego que me permite ter o mínimo que preciso, sendo parcialmente dependente dos meus pais, com poucos amigos que se mantém sempre fisicamente distantes (a situação é: eu tenho amigos, mas nunca tenho a oportunidade de estar com eles), sem considerar que é impossível alguém gostar de mim, ou melhor, minimamente se interessar por algo que não seja somente sexo, se eu tenho essa certeza porque sofrer, não é? Basta aceitar tudo exatamente do jeito que é. 
A Segunda Nobre Verdade do Budismo conta que o sofrimento é o que acontece quando lutamos contra aquilo que a vida nos oferece, em fez de aceitarmos as nossas experiências e de nos abrirmos a elas, com sabedoria e compaixão. Siddharta Gautama, o Buda, dizia que os desejos sempre levam ao desapontamento e este sentir-se desapontado, como estou agora, é a causa de todo sofrimento humano. Buda pregava que se um ser humano fosse capaz de matar o desejo, ele estaria livre da influência do bem e do mal, e com isso ele seria feliz. E alcançaria o Nirvana, uma doce aniquilação de todos os seus sonhos. Trocando em miúdos, o que eu deveria repetir o tempo todo é: "Bem, isso não é o que eu quero, mas é o que eu tenho; então, tudo bem!", me envergonha, no entanto, ter esta consciência e, mesmo assim, deitar a cabeça no travesseiro e fazer sempre a mesma oração: "Senhor, tem misericórdia de mim e, por favor, encerra minha vida, esta minha merda de vida, esta noite. Permite, te peço, por compaixão, que eu não acorde quando o sol novamente nascer". 
Eu não devia agir assim. Eu devia agradecer por simplesmente ter os bons amigos que tenho, mesmo eles morando longe ou pouco fazendo questão da minha presença; eu devia agradecer por ter este emprego, que não paga o suficiente para que eu possa sair da casa dos meus pais e nem a altura do quanto eu estudei em minha vida; eu devia aceitar o sexo sem sentimento com pessoas que não desejam nem saber o meu nome. Devia aceitar tudo isso porque a única coisa que tenho e que posso ter, mas não consigo e esta é a causa de todo o meu vergonhoso sofrimento.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Israel: A Imagem dos Filisteus

, em Natal - RN, Brasil


Os filisteus são uma tribo que ocupava a Filisteia, região a oeste do reino de Judá e a sul de Israel, na atual região de Gaza. Referências egípcias dizem que eles faziam parte dos "Povos do Mar" que tentaram invadir o Egito vindo das ilhas creto-micênicas do Mediterrâneo, expulsos das terras do faraó, os filisteus se fixaram  por volta do ano 1200 a.C., no início da Idade do Ferro, em cidades-estado na costa da região do Levante como Gaza, Ashkelon, Ashdod, Gath e Ekron, a borda das terras do faraó. Se reconhece que a cultura filisteia tem relações com as ilhas que estavam sobre controle da ilha de Creta por causa da sua língua e da cultura material. Os filisteus adotaram a língua comum aos reinos que viviam naquela região, porém inúmeras palavras de origem creto-micênica foram introduzidas no aramaico e restaram como fósseis de uma cultura desaparecida. Já sua cultura material (roupas, armas e navios) tem seus correspondente entre as populações que viviam nas ilhas do mar Egeu, incluindo Creta, além da a costa ocidental da Anatólia (atual Turquia) e Micenas, na Grécia. Por fim, a última prova é apresentada por Bruce L. Gerig. Ele lembra que no livro de Jeremias se diz: "É que surgiu o dia da destruição dos filisteus, e de Tiro e Sidônia será tirado o que lhes resta de aliados, porque o senhor vai arruinar os filisteus, e os restos da ilha de Caftor" (47:4), e que Caftor é a palavra aramaica para Creta de onde eles seriam originários. 
Sansão e Davi viveram boa parte de suas vidas entre os filisteus (Juízes 14:1-2, 16:4-5; 1Samuel 27:1-6) e, segundo Tom Horner, conviveram com uma cultura que aceitava tranquilamente as relações homoeróticas exatamente como em Creta. Na ilha minóica, eram comuns uma série de ritos de iniciação que passava por relações homoeróticas, isto é, para se tornar um homem adulto era comum que o jovem passasse por um período de relações homoeróticas intensas, rituais estes que não aconteciam no mundo israelita; porém é provável que eles aconteciam nas cidades-estado filisteias. Na Bíblia, no entanto, não existem referências sobre estas práticas, mas, afirma Bruce L. Gerig, frequentemente, homens israelitas devem ter visto (ou ouvido falar de) expressões de afeição homoerótica entre dois homens filisteus na rua, lojas e mercados ou no campo. 
Contudo, os filisteus eram o grande inimigo. Tanto do reino de Israel como de Judá. Com melhores armas (como lanças, armaduras e espadas e cimitarras, além de carros puxados por cavalos), tornaram-se um empecilho para os desejos israelitas e judeus de ampliação dos seus reinos. Inclusive, nem Judá nem Israel possuíam grandes minas de ferro e, portanto, era de vital importância para a ampliação dos dois reinos a dominação do território da Filisteia para a produção de armas. A imagem então que a Bíblia constrói dos filisteus é sempre de um inimigo belicoso e bárbaro, como diz Elizabeth Yehudá, encarnados em Dalila, que corta os cabelos de Sansão; em Golias, que luta contra Davi; e em um de seus deuses, Baal-Zebu ou Belzebu, que torna-se a personificação do próprio paganismo, apesar de Dagan ser seu deus principal. 
Fazer então, nesta situação política de guerra, comentários a favor das relações homoeróticas em qualquer dos livros históricos como Josué, Juízes, Rute, Samuel, Reis e Crônicas, e nos livros proféticos como Isaías, Jeremias (os livros compostos neste período de guerra entre filisteus e israelitas/judeus) é se manifestar a favor de seus maiores inimigos, pelo menos até a destruição da pentápole filisteia pelos assírios em 605 a.C., na batalha de Karkemish que subjugou todo levante sob o jugo de Sargão II.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Nornes

, em Natal - RN, Brasil
Urdh

Sexta-feira, o expediente já acabou faz mais de uma hora, e eu, meu chefe e a sócia terminamos o planejamento da semana quando ela junta suas coisas e corre para buscar a filha em algum lugar. Meu chefe levanta, e junta suas coisas, e fala: "Esse chopp sai ou não sai hoje?". E sorri. Somos amigos desde a época da faculdade quando para todos no curso de História ele traia a namorada dele comigo, seu único e verdadeiro amor. Lembramos disso após o terceiro copo de chopp, e quando um amigo dele ligou e perguntou aonde ele estava, respondeu: "Tô tomando um chopp aqui com meu namorado!", e gargalhou. Após desligar o telefone, ele me olhou arqueando a sobrancelha  do olho esquerdo, e falou: "Precisamos te arranhar um namorado". Eu sorri, já demonstrando a ironia que eu queria prender, e acendi um cigarro esperando a continuação da fala dele. "Você precisa encontrar alguém, Foxx, não dá para ficar assim. Você tem que encontrar alguém, vou te apresentar um amigo meu, ele é gay e, conhece todo mundo, com certeza ele vai poder encontrar alguém p'ra você". Eu olhava para ele com um olhar de descrença que tenho treinado na frente do espelho. É um olhar que por dentro eu estou descrente, mas a pessoa vê até um brilho de animação. "Você não fala nada?". Eu poderia me manter nesse personagem difícil de quem está feliz sozinho, but alone is so lonely alone: "Eu gostaria imensamente que fosse possível p'ra você ou p'ra qualquer um, meu amigo, encontrar alguém que fosse capaz de se interessar por mim. Mas a não ser que você possa pagar por um namorado p'ra mim, eu vou continuar sozinho sim". Ele bebeu mais um gole, descrente. Eu bebi, resignado.

Skuld

Sábado, estávamos na fila da Vogue, eu e o Comissário, um amigo que namora atores pornôs. Chove fininho e a drag queen que trabalha de hostess na boate se apressa para permitir que todos entrem logo no lugar e ninguém tome chuva e desista de entrar. Ela me cumprimenta como todas as noites que apareço por lá. "Foxx, quando você tira férias?". Calculei que faria um ano de trabalho em junho e que só poderia tirar férias agora após essa data. "É que minhas férias serão em maio e eu tenho desconto para viajar pela empresa, eu estou pensando em fazer um mochilão de uns vinte dias pela Europa...", ele falava e eu ficava imaginando o quão seria um sonho fazer essa viagem que ele planejava naquele momento, "então eu pensei se você não gostaria de ir comigo...", eu o olhei naquele instante e ele não parecia estar brincando, eu pensava com meus botões: como eu poderia simplesmente pensar numa viagem para Europa tendo voltado a trabalhar há apenas dois meses, "porque como eu tenho desconto a minha passagem sai por 500 reais, ida e volta, e eu tenho direito a comprar duas passagens neste mesmo valor, que você poderia comprar, que tal?". Eu fiquei boquiaberto e repeti: "500 reais para passar vinte dias pela Europa?". Ele confirmou. "Ah, eu dou meu jeito! Tô dentro!".

Verdandhi

Domingo, após um dia na praia, Peter acendia um cigarro na varanda do apartamento novo do Andarilho. Dava para ver Natal ao longe, no horizonte. As luzes e os prédios de altos condomínios. Nós estávamos apenas no quarto andar e ouvíamos ainda a música de uma festa realizada numa mansão próxima. Haviam muitas mansões por ali. Eu estava perdidos em pensamentos, lembrava da cerveja a dois reais na esquina do condomínio, em um churrasquinho de calçada, e também que corria um boato que todas as mansões dali pertenciam a Zezé di Camargo, deve ter sido por isso que ele e a esposa se separaram, ganância pelas mansões de Parnamirim, ou porque o Zezé gostava de tomar a cerveja de dois reais do churrasquinho.  Enquanto eu me perdia nessas divagações, Peter começou a falar. "Meus amigos estão todos bem de vida. O Andarilho aqui com esse apartamento novo em folha, casado; Borboleta comprou seu carro agora". Eu olhava para ele em silêncio e ele adivinhou meus pensamentos. "E você: pode não ter construído ainda nada tão palpável, mas é que você investiu no seu intelecto, agora vai ganhar o título de doutor. Doutor Foxx!". E sorriu para mim. "É bom ver todos os meus amigos se dando bem na vida".

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Os Canhões de Cesare Borgia

, em Natal - RN, Brasil
Eu bebi demais. De fato, foram muitas cervejas, muita caipirinha, e eu sai da boate já pela manhã. E eu ando de ônibus. Não gosto de carro, acho um gasto inútil de dinheiro que não preciso fazer. Vou para todo lugar que eu quero ir de ônibus mesmo. E acho discurso vazio quando as pessoas falam que se tivessem um bom sistema de transporte deixariam o carro em casa. Deixa o carro em casa agora, e reclama bastante no Twitter do ônibus até ele melhorar. Enquanto você for o único motorista dentro do seu carro, aumentando em quase quatro metros o congestionamento, o sistema de transporte público não vai melhorar. Esperar o mundo melhorar para fazer o correto não conta, ok?, tem que fazer o certo agora com o mundo errado. Como, por exemplo, beber e voltar para casa de ônibus. 
Mas não durma no ônibus! Porque eu dormi. E acordei do outro lado da cidade no ponto final. Ai tem que descer e pegar outro ônibus, com a cara toda amassada. Eu acordei em Felipe Camarão, no ponto final do meu ônibus. Tive que esperar o próximo, e pior que esta não foi a primeira vez, tanto que quando eu acordei, pelo menos, eu já sabia onde estava, na primeira vez que foi ruim porque eu tive que perguntar aonde diabos eu tinha ido parar. Desta vez eu só precisei esperar o novo ônibus sair e sentei na cadeira preferencial e encostei minha cabeça no vidro.
Foi alguns pontos depois que ele subiu e passou pelo cobrador, eu o vi caminhar para o fundo do ônibus onde eu estava sentado e trocamos alguns olhares no curto trajeto. Era um menino alto e magro, parecia bem jovem, a pele descamava do Roacutan contra as espinhas que ele provavelmente tomava. Tinha os olhos amendoados bem apertadinhos. Mas passou e sentou duas cadeiras atrás de mim. O ônibus continuo no seu caminho e uma senhora subiu e eu levantei, o meu assento era preferencial o que significava que caso alguém chegasse eu deveria ceder o lugar. Levantei e foi quando o vi olhando para mim, duas cadeiras atrás, ele sorriu e os olhos amendoados se transformaram em duas linhas. Eu sorri de volta e ele pediu meu telefone. E eu ditei e ele anotou no telefone e me mandou uma mensagem se apresentando. Conversamos ali alguns metros um do outro por mensagens de texto e marcamos um cinema mais tarde porque ele estava indo para a aula e eu voltando da balada. 
Marcamos as 18h, eu cheguei as 17:15 porque estava próximo ao cinema no ensaio do meu coral. Liguei para ela tentando confirmar e não houve nenhum retorno. Esperei até as 18:30h, as 19h decidi escolher a próxima sessão e ir ao cinema sozinho. Ele não viria mesmo.

*

Cheguei no ponto de ônibus saindo da aula que estou frequentando de desenvolvimento mediúnico. Ele já estava lá. Muito alto, mais ou menos 1,95, moreno, vestindo roupas de basquete, moreno, estava lendo um livro de capa dura, azul, ele me olhou e sorriu. Eu sorri de volta e ele disse oi. Parei do lado dele e respondi, ele se apresentou, eu me apresentei e sorri e ele jogou: "Seu sorriso é lindo". Ele perguntou de onde eu estava vindo, eu devolvi a pergunta e ele falou que era personal em uma das academias que eu já havia olhado para frequentar. E também falei que estava gordo, que precisava voltar a malhar, e ele disse que não, eu não estava gordo. E ele começou um discurso: "Eu não vejo muita graça em pessoas que vivem em academias e que são todas iguais. Sempre gostei daqueles que não são como os outros, por exemplo, eu acho sua careca linda!", e sorriu. Eu fiquei vermelho por um instante. Ele sorriu e os olhos apertaram. Então respondi: "Não costumo receber elogios de homens tão bonitos!". Ele sorriu e comentou que assim ficaria encabulado. "Muito bonito mesmo!", reforcei. Sorriu novamente e mudou de assunto perguntando onde eu morava e, diante da resposta: "Olha, moramos perto!". Pegamos o mesmo ônibus, falando sobre educação no Brasil, crianças e ioga. Ele era bem grande e mal cabia no banco. Conversamos animados, com alguns silêncios, nos quais alguns ele me olhava sorrindo, e parecia que pensava em me beijar. Logo o lugar que eu desceria do ônibus se aproximou e ele não fazia nenhum movimento para pedir meu telefone, então anotei em um papel, e entreguei-lhe, o qual ele agradeceu colocando dentro do livro que lia no ponto. Ele não me ligou.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

"A Ordem das Árvores Não Altera O Passarinho"

, em Natal - RN, Brasil


Estava saindo do ensaio do coral quando o Tutz me manda uma mensagem no celular. "Você vai ao show de Tulipa Ruiz no largo do Teatro Alberto Maranhão?". Eu respondi que não sabia de show algum, e ele me explicou que se tratava do Agosto da Alegria, que comemora o mês do folclore na cidade, e seria gratuito. "Vamos comigo?", ele convidou e eu aceitei. Acabamos pegando o ônibus juntos e fomos conversando, comentando que "todas as hipsters da cidade" estariam neste show. Eu contava piadas sobre hipsters, sobre o mainstream e as bandas desconhecidas, sobre bigodes, gadgets e óculos wayfarer, até que chegamos a Ribeira e descemos do ônibus e demos de cara com um grupo de meninos vestidos exatamente como eu. Camiseta, bermuda um dedo acima do joelho, sapatilhas nos pés e bolsa carteiro. "Pois é", riu o Tutz de mim, "eu quero é ver você me chamando de indie, seu hipster!"

*

"Ah, eu não sou puta nada!", negou o Tutz, "Eu só estou curtindo minha solteirice por enquanto". Eu continuava dizendo que quem pega tanto quanto ele tem pego atualmente já estava bem próximo a puta sim, e ria, era apenas uma piada obviamente, quando passou um menino extremamente bonito do nosso lado e meus olhos o acompanharam, quando voltei a olhar para o Tutz, ele estava rindo: "Depois eu que sou a puta né?", e gargalhou. Eu contra-argumentei: "Ah, querido, mas eu não quero pegar! Eu olho por pura admiração estética, como quem admira uma obra de arte em um museu!". Ele riu: "Admiração estética? Sei!". E gargalhamos juntos.

*

Era um sábado cuja chuva deu um tempo apenas para o show de Alceu Valença no largo do teatro regado a cerveja por apenas R$ 2,00. Estávamos já no ônibus, indo em direção ao Parque das Dunas porque eu dormiria na casa nova do Miguel, que eu ainda não conhecia. Era uma visita que eu estava devendo. Íamos eu e ele, além do menino que ele estava pegando. Um dos vários pretendentes que Miguel tem. Vários! "Pois é, nós nos conhecemos há seis anos, Foxx", ele falava meio arrastado já por efeito do álcool, "e por isso me sinto no direito de falar o que penso a você". Eu concordei que ele realmente tinha aquele direito. "Pois a Taís achou que eu fui grosso com você quando falei que realmente você nunca vai ter um namorado aqui em Natal porque você não tem o biotipo que agrada o público natalense". Eu me interessei e vi que o ficante do Miguel estava um pouco constrangido, ele apenas continuou. "Você usa barba, tem pêlos, não é magro e nem sarado. Eu entendo e concordo que você deve ser do jeito que você se sente bem! Para você mesmo! Se você gosta do seu visual no espelho você 'tá certíssimo em, por exemplo, cultivar a sua barba. Mas que isso afasta as pessoas, afasta p'ra caralho!". Eu concordava com a cabeça e ele continuava: "É claro que é possível que nesse mundo de Deus haja alguém que curta o seu biotipo, porém nesta cidade em que vivemos é praticamente impossível!". Eu sorri, ele também. "Não que eu te ache feio, claro que não! Mas você não agrada a todo mundo e isso faz diferença porque reduz consideravelmente as suas possibilidades".

*

Eu saía da casa do Miguel ao meio-dia já para ir ao ensaio do coral, quando ele e o ficante resolvem ir me deixar no ponto de ônibus. Caminhamos na avenida pouco, e adiante vemos um homem por volta de 40 anos, carregando inúmeras sacolas, e resmungando alto. Ele nos olhava com óbvia reprovação, e quando passa por nós fala alto. "Antes nesse Parque das Dunas era só eu de viado, agora 'tá infestado!". Nós três nos olhamos, o tom de raiva do homem era claro. Nós então gargalhamos. "Isso tudo é inveja porque somos lindas!", comento.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Israel: Os Cães Cananeus



No Levítico, cuja intenção é a construção de uma identidade hebreia entre uma população que estava exposta o tempo todo a outras etnias como os fenícios, filisteus e cananeus, existe um trecho que diz: "Não darás nenhum de teus filhos para ser sacrificado a Moloc; e não profanarás o nome de teu Deus, Jeová. Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isto é uma abominação. Não te deitarás com nenhum cão (keleb), para não te contaminares com ele. Uma mulher não se prostituirá como um cão: isso é uma abominação. Não vos contamineis com nenhuma dessas coisas, porque é assim que se contaminaram as nações que vou expulsar diante de vós" (Levítico 18:21-24). 
Este trecho que retiramos como exemplo será aqui dividido em dois: o 18:21-22 e o 18:23-24 por questões didáticas somente. O primeiro que diz: "Não darás nenhum de teus filhos para ser sacrificado a Moloc; e não profanarás o nome de teu Deus, Jeová. Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isto é uma abominação" (18:21-22) tem uma relação imediata com o sacrifício feito a Moloc. Este é o deus do sol entre os cananeus, de origem fenícia, cujo qual o primeiro filho de todas as famílias era sacrificado. Durante muito tempo, os estudos bíblicos consideravam este sacrifício como um sacrifício de sangue, porém, graças as pesquisas que cruzaram as referências bíblicas com os textos gregos e romanos sobre o culto a Moloc, percebeu-se que sacrificar o filho é torná-lo um sacerdote do deus, cujo culto, envolvia a prostituição sagrada também. Os versículos vistos em conjunto diriam então que uma pessoa não deve sacrificar o próprio filho para ser prostituto sagrado de um deus pagão e que isto é uma abominação.
O segundo trecho, segundo o o pastor presbiteriano John Barclay Burns, reforça a mesma ideia. A segunda parte que separamos diz: "Não te deitarás com nenhum cão (keleb), para não te contaminares com ele. Uma mulher não se prostituirá como um cão: isso é uma abominação. Não vos contamineis com nenhuma dessas coisas, porque é assim que se contaminaram as nações que vou expulsar diante de vós" (18:23-24) chama atenção para a palavra keleb, cão em aramaico, traduzido na maior parte da Bíblias simplesmente como animal, o que faz parecer que é uma proibição a zoofilia, porém se refere exatamente a prostituição masculina comum em toda Canaã, entre povos não-hebreus.  É bom registrar também que o em Deuteronômio se diz: "Não haverá mulher cortesã nem prostituta entre as filhas de Israel; também nenhum filho de Israel se prostituirá. Seja qual for o voto que tiveres feito, não levarás à casa do Senhor, teu Deus, o ganho de uma prostituta nem o salário de um cão (keleb); porque uma e outra coisa são abominadas pelo Senhor, teu Deus" (Deuteronômio 23:17-18), o que comprovaria a teoria do pastor John Burns. O cão seria então um prostituto que teriam, basicamente, o papel passivo na relação sexual, isto é, é penetrado analmente durante o intercurso sexual. 
Bruce L. Gerig afirma que a prostituição masculina, na verdade, é um problema real e persistente em Israel. O problema é citado durante o reinado de Reboão, em Judá, século X a.C. Em Reis, diz-se: "O povo de Judá fez o mal diante do Senhor e com os seus pecados excitaram-lhe o zelo mais do que tinham feito os seus pais. Edificaram para si lugares altos, estelas e ídolos assearás sobre todas as colinas e debaixo de tudo que fosse árvore verde. Até prostitutos sagrados houve na terra. Imitaram todas as abominações dos povos que o Senhor tinha expulsado de diante dos israelistas" (1Reis 14:22-24). Nove reis depois, no século VIII a.C., no reinado de Ezequiel, o livro de Reis reclama do mesmo problema, em que o rei reforma o culto que havia absorvido as características dos cultos dos deuses ao redor, inclusive a prostituição sagrada. "Destruiu os apartamentos das prostitutas e prostitutos que se encontravam no Templo do Senhor, onde as mulheres teciam vestes para Asserá (Astarte, deusa fenícia)" (2Reis 23:7). Em resumo, a conexão é sempre feita entre a prostituição masculina (e as uniões homoeróticas) e as práticas idólatras. É uma questão de identidade, novamente, em que esta população hebraica precisa, desesperadamente, se diferenciar dos grupos étnicos ao seu redor e, para isso, constrói uma religião que se diferenciava em tudo daquelas ao seu redor, começando pelo monoteísmo, seguindo pelas proibições alimentares, sexuais e, sobretudo, de culto.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A Terceira Surpresa

, em Natal - RN, Brasil

Horas antes, meu chefe senta na mesa ao meu lado, e calmo, mas expressando uma preocupação fora do normal, exige:
- Preciso que você termine o relatório deste cliente hoje a tarde, sem falta, Foxx. 
- Que aconteceu?
- Você bem sabe que a assessoria de imprensa dele acredita que nosso trabalho nas mídias sociais é dinheiro jogado fora. E depois do meu último e-mail que eu falei para eles se colocarem no lugar que lhes cabe e deixar para que nós cuidemos do nosso métier
- Ok!
Eu paro tudo que estou fazendo e vou me dedicar a fazer aquele relatório que estava programado para entregar somente no fim do mês, mas eu preciso termina-lo em três horas. É hora de preparar gráficos e explica-los numa linguagem simples. Torno-me somente analista de mídias por algumas horas. Como já fui assessor de imprensa e jornalista fotográfico, esse trabalho me exige sempre cumprir funções das mais diversas as que nunca me esquivei de fazer, mas agora é necessário concentração.
- Foxx, você pode vir aqui.
É meu chefe, ele está sentado com a sua sócia na sala de reuniões e quando eu entro a porta é fechada atrás de mim. 
- Sente-se!
Pronto, pensei: "serei despedido agora". Eles devem ter imaginado que o problema entre a assessoria e a equipe seria eu, o intermediário, e como eu fora contratado para cuidar desta conta exatamente, o mais lógico era procurar uma outra pessoa para o meu trabalho. 
- Foxx... 
- Posso falar? - Pediu a palavra a sócia, e meu chefe assentiu com a cabeça, ela respirou fundo e começou: - Temos gostado muito do seu trabalho por aqui. Você demonstrou que se adaptou muito bem ao trabalho com as mídias, ao trabalho de redação, e tem resolvido problemas sempre, nunca apareceu com um problema sem uma solução junto com ela, tem boas ideias para as campanhas, nossos dois últimos sorteios foram ideia sua, estamos muito felizes por termos escolhido apostar em você para esse trabalho.
Respirei aliviado. E ela continuou.
- Você sabe dos problemas que temos passado aqui na empresa, nossa reorganização com a saída da terceira sócia, nossos problemas pessoais que você sabe bem sendo amigo do seu chefe antes de vir trabalhar aqui e, por isso, temos uma proposta para fazer a você. Precisamos de ajuda e, achamos, que você é a pessoa certa a fazer isso por aqui.
Fiquei bastante curioso com o que eles gostariam de me pedir.
- Temos uma nova proposta de trabalho para você. Queremos que você assuma a gerência das mídias da agência para que nós dois possamos nos dedicar mais aos clientes e ao pensamento estratégico da empresa e menos ao trabalho prático das postagens e internet. Topa?
- E isso, obviamente - interrompeu o chefe - inclui um aumento salarial, admito que pequeno para o volume de trabalho, porém seu contrato não será mais temporário. Estamos te efetivando na empresa agora.
E sorriu.
- Então, topa? A sócia repetiu a pergunta.
- Eu topo tentar.