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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Direito de Resposta

, em Natal - RN, Brasil
Caro Bento XVI,

eu soube, por meio da internet, que Vossa Santidade havia dito em uma reunião com diplomatas de 180 países que o casamento gay "ameaçaria o futuro da humanidade", essa pelo menos foi a expressão que a maioria dos sites ficou repetindo sem nem contextualizar o discurso, não que o contexto salvasse algo, mas eu repito para Vossa Santidade. As crianças, o futuro da humanidade (e acho que nenhum dos seus críticos percebeu que é disso que o Santíssimo Padre estava falando), deveriam ser criadas em ambientes adequados e estes ambientes seriam o seio familiar, o qual só poderiam ser formados por um homem e uma mulher. Dissestes que os Estados são os responsáveis por manter estes ambientes saudáveis, mantendo a família como, um dos seus mais fieis seguidores que eu conheço já me disse, intocada como a mais de dois mil anos.  Vós dissestes ainda, Santíssimo: "A unidade familiar é fundamental para o processo educacional e para o desenvolvimento dos indivíduos e Estados; daí a necessidade de políticas que promovam a família e auxiliem na coesão social e no diálogo". Vossa preocupação, Santo Padre, é realmente louvável!
Aí eu lembrei, Santo Padre, da minha família. Dos pais que eu tive que me surraram e me xingaram, que nunca me fizeram sentir amado e acolhido, pais estes que - obviamente por pura ignorância - me fizeram acreditar que eu não merecia o amor. Também lembrei dos irmãos que tive, do quanto eles me humilharam por eu ser diferente, de todas as vezes que eles disseram claramente que não queriam que eu fosse irmão deles. Também lembrei de como foi dentro de casa que eu sofri a pior ameaça homofóbica que moldou todo o meu futuro a partir dali, o dia que meu irmão virou-se para mim e me ameaçou de morte. Esta era a minha família. Como dissestes Vossa Santidade, eu concordo, uma criança merece crescer em um ambiente saudável. 
E eu prometo, Santo Padre, se um dia o bom Deus permitir que eu case, apesar do meu casamento também ser um dos terríveis casamentos gays, eu prometo, de verdade, que protegerei o futuro da humanidade. Eu, farei questão! Não permitirei que nenhuma criança, seja ela gay ou hétero, seja tratada como eu fui por nenhum pai, seja ele gay ou hétero, porque, volto aqui a repetir, nós não deveríamos estar aqui discutindo sobre o casamento gay, e sei que Vossa Santidade concorda comigo, vós bem dissestes isto neste discurso, sua preocupação também é nossas crianças. Nós deveríamos estar preocupados sim com o futuro da humanidade, preocupados em evitar que nenhuma criança fosse atacada e maltratada por um membro de sua própria família, que, infelizmente Santo Padre, na maior parte do mundo são todas formadas por heterossexuais. 
Podemos concordar com isso? Em proteger nossas crianças? 

Agradeço vossa antenção, Santíssimo.
Humildes saudações, 
Foxx.

Índia: As Virgens do Manu Smriti

, em Natal - RN, Brasil


O Manu Smriti, um dos mais antigos códigos de condutas que foram propostas para serem seguidas pelos Hindus, também menciona as práticas homoeróticas para regulá-las. Estas práticas eram consideradas parte de qualquer outra prática sexual, apesar de não ser sempre bem aceita, mas elas existiam e deviam ser reguladas pela lei. Existindo, inclusive, algumas punições para os comportamentos homoeróticos, contudo quando estes aconteciam contra outras situações sociais. 

Por exemplo, o verso 370, do capítulo VIII, que refere-se as relações sexuais entre uma mulher mais velha e uma virgem fala: "... uma mulher que poluí uma donzela (virgem) deve imediatamente ter (sua cabeça) raspada ou dois dedos cortados, e deve ser feita cavalgar (até a cidade) em um burro", sugerindo um severo castigo. Ao mesmo tempo, o verso 367, do capítulo VIII, que se refere  ao ato sexual entre duas virgens sugere uma punição menor: "... uma donzela que poluí (outra) donzela deve ser multada em duzentas (panas), pagar o dobro da sua taxa (nupcial), e receber dez (chibatadas com uma) vara". Estas disposições, retiradas do seu contexto podem parecer homofóbicas, mas, de fato, elas se preocupam não com o gênero dos parceiros sexuais, mas com a perda da virgindade que prejudicaria seu casamento futuro da donzela. Outro exemplo, a punição pelo ato sexual forçado entre um homem e uma mulher não muda muito quanto isso, vejamos o verso 367, também no capítulo VIII: "... se alguém através da força e insolência contamina uma donzela, dois de seus dedos devem ser imediatamente cortados e ele pagará uma multa de 600 (panas)", que parece ainda mais severo que o castigo prescrito para o mesmo ato entre duas virgens. 

O sexo entre mulheres não virgens geravam uma multa muito pequena, enquanto a relação homoerótica entre dois homens era censurada por uma prescrição de que, por exemplo, dois homens sempre tomassem banho usando suas roupas, nunca ficando nu diante do outro, sob a pena de "comer cinco produtos de uma vaca e manter-se uma noite acordado", e caso havendo relações sexuais propriamente ditas, a pena seria modificada pela perda de seu lugar na casta, como dizem Vanita e Kidwai.  No verso 68, no capítulo XI, fala ainda "causar injúria a um sacerdote, cheirar vinho ou outras coisas que não podem ser cheiradas, desonestidade, e a união sexual com outro homem são coisas que tradicionalmente causam a mudança de casta". No mesmo capítulo, no verso 175, a expiação dos brâmanes que realizavam atos homoeróticos é um banho: "um homem nascido duas vezes que tem relações sexuais com um homem ou com uma mulher em uma carroça puxada por bois, deve tomar um banho, em água, a luz do dia, vestido com suas roupas". Aqui, deve-se perceber, que as proscrições são especificamente para os brâmanes, não há nenhuma referência no Manu Smriti de punição para o comportamento homoerótico entre os homens de outras castas.

A discrepância do tratamento, diz Kanika Goswami, é devido ao status diferenciado entre homens e mulheres em uma sociedade em que a mulher era considerada o mesmo (ou até inferior) a terra, seu gado e seus outros bens. De qualquer forma, a maioria das questões sexuais tratadas por este livro de leis são de cunho heteroerótico, e suas punições são bem mais severas. Por exemplo, "um homem que não é um brâmane deveria sofrer a morte por adultério [samgrahana]". Isto pode indicar que os comportamentos homoeróticos não eram considerados um problema, caso não acontecessem entre os brâmanes ou envolvendo mulheres virgens. A necessidade, todavia, de um maior número de regras para o comportamento heteroerótico demonstram como esta forma de comportamento sexual precisava de um controle social mais intenso, por ser, obviamente, a base da constituição da sociedade e da propriedade, graças ao casamento.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Só Acontece Comigo

, em Natal - RN, Brasil
Sai de casa naquela noite quente de véspera de feriado de Reis sentindo-me bonito. Eu usava uma camisa justa que valorizava meu peitoral e bíceps (a musculação está fazendo efeito) e uma calça jeans reta. Olhei-me no espelho, antes de sair, e, graças a barba que tenho cultivado, pensei: "God damn it! Your hot bear!". 
Saindo de casa, caminhei pouco até o ponto de ônibus para ir ao aniversário de um amigo antigo e lá fiquei a esperar. Foi quando um Palio branco passou lentamente pelo ponto de ônibus e eu o vi virar a direita na rua adiante. Percebi, apesar de não vê-lo, que o motorista me observava. Provavelmente, pensei, quer que eu vá falar com ele. Mas claro que não fui. Não o tinha visto, não sabia quem era aquela pessoa. O risco não valia a pena. Então me virei para o outro lado e continuei esperando o ônibus. 
Passado um tempo, eu vejo o Palio novamente se aproximando. Ele fizera a volta no quarteirão e agora passava lentamente e eu aproveitei para olhar para dentro do carro desta vez. Foi quando eu vi um homem de pele quase negra, gordo, e sem pêlos, completamente pelado!, se masturbando dentro do carro. Ele me olhou, com cara de tesão no carro que passava, oferecendo o pau grande e duro.
Eu congelei ao ver a cena. Boquiaberto, girei nos calcanhares e fixei meu olhar nas luzes da avenida. Não vi o carro se afastar. Mas eu só conseguia pensar: "Sério, isso só acontece comigo!".

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Urocyon cinereoargenteus

, em Belo Horizonte - MG, Brasil





Já que ninguém foi lá no Tumblr. Pelo menos ninguém se deu ao trabalho de comentar por lá. Então resolvi presenteá-los com as fotos aqui também. E também porque não tenho muito o que falar mesmo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Primeiro de Janeiro

, em Natal - RN, Brasil
O carro rodava naquela estrada que a esquerda, após uma estreita faixa de terra, o mar alcança o horizonte; e a direita se estendia um deserto dourado e enrugado por dunas, que por sua vez também alcança o horizonte. Um homem caminhava sobre areia que refletia o sol acompanhado com um cachorro, ele parecia apenas uma mancha negra na tela quase branca, tingida pela luz do sol refletida nos cristais de silício. Meu irmão, depois de uma longa preleção, em que ele começou a falar de quanto sentia saudade do meu sorriso, que desde que eu voltara de BH nunca mais me vira sorrir, que também falou que eu estava com respostas muito agressivas a todos que me desejaram Feliz Ano Novo, "eu entendo sua desesperança, mas cadê sua educação?", ele continuou me dando conselhos, tentando me animar, dizendo que eu devia começar a olhar minha situação atual de uma outra perspectiva, sempre citando a Bíblia como uma opção válida, "você deveria lê-la como a Palavra, não com a leitura que você sempre fez dela, como historiador", concluiu: "Isso é uma fase, meu irmão, você precisa juntar suas forças e superá-la, vai passar. Você ainda vai ter o emprego dos seus sonhos, ter sua família, com sua esposa ou com seu companheiro, não me importo com o que você escolher... E não me olhe assim tão surpreso! Se eu te amasse apenas de um jeito, se escolhesse como você deveria ser para eu te amar, eu não estaria amando meu irmão de verdade. De qualquer forma, eu acredito, e você tem que acreditar que vai passar". 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A Terra Estéril

, em Natal - RN, Brasil
Era noite de sábado, formatura do meu irmão mais velho no curso de Ministros de Deus da escola Rhema, realizado no Centro de Convenções de Natal. Roupas de gala para todos, eu me recusei de ir de terno, escolhi uma calça jeans e uma camisa branca com um xadrez discreto, sapatos de couro, e um blaser bem cortado por cima. Bastava isso, sobretudo para o clima de verão de Natal. Quase toda família foi, meu pai de terno, meu irmão caçula de terno, mas sem gravata; minha mãe, minha sobrinha (filha deste irmão mais velho) e a esposa dele, todas as três de longo. Faltou o primogênito do meu pai, e sua esposa e três filhos. Todavia, ainda assim, era um clima da celebração mesmo. Celebração de um curso que ainda não entendi muito do que se trata. Também não entendi quando a cerimônia começou e, após os professores da escola formarem a banca, haver um desfile de bandeiras de alguns países e estados brasileiros, onde a Rhema tem escolas, que me lembravam a abertura de uma olimpíada. Não entendi também o show de uma banda gospel, com uma cantora loira e gorda que agitava os braços no ar, respirava pela boca e desafinava em todas as músicas. Não entendi o culto que demorou pelo menos uns 45 minutos da cerimônia. Sem entender, levantei-me e sai. Resolvi sentar no hall e fica aproveitando o cheiro de maresia que vinha do mar em frente ao centro de convenções. Meu irmão caçula me seguiu. Conversamos lá sobre filmes do 007, ele sentado num sofá desconfortável, eu sentado no braço do sofá, quando dois meninos se aproximaram. Não deviam ter mais que dezessete anos, o mais moreno olhou-me nos olhos e sentou-se no sofá, no centro, o outro sentou do outro lado, junto ao braço. O moreno então deixou-se deslizar para bem próximo de quem eu ainda achava que era apenas seu amigo e cruzou a perna, de uma forma que sua perna ficou apoiada na perna do outro, estranhei aquele comportamento, dois homens heterossexuais não sentaria assim, tão próximos. Agucei meu olhar e o amigo, mais branco, espreguiçou-se e baixou seu braço, descansando-o no apoio para as costas do assento, e foi aí que eu percebi, naquele antro de evangélicos, o menino fazer um carinho no ombro do mais moreno. Aquele carinho discreto que diz: "estou aqui do seu lado". Eu, no meu íntimo, torci naquele momento por aqueles dois meninos. Desejei-lhes toda felicidade do mundo. E eu soube, que por mais que a terra seja estéril, o amor floresce em qualquer lugar. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Índia: A Natureza e o Rigveda

, em Belo Horizonte - MG, Brasil



Os hindus tem vários textos sagrados e diferentes grupos sociais dão diferentes importâncias a cada um desses textos, além de que cada grupo tem interpretações distintas dos significados destes textos sagrados, contudo os Vedas (o conhecimento), escritos por volta de 1500 a.C., são os mais antigos textos escritos em sânscrito que nos restaram. Estes textos são considerados pela tradição hindu como incriados, isto é, como textos que sempre existiram e se revelam aos sábios que conseguiram chegar a um certo patamar da evolução espiritual. Os Vedas são basicamente constituídos por mantras que representam hinos, orações, encantos, formulas rituais, endereçados a vários deuses e deusas sendo os mais citados: Rudra, Varuna, Indra e Agni. Estes estão colecionados em antologias chamadas Samhitas que são quatro: Rigveda, a antologia de poesia e hinos; Yajurveda, a antologia de orações; Samaveda, a antologia de músicas e Atarvaveda, a antologia de ritos, encantos e formulas mágicas.
Entre os quatro o mais antigo é o Rigveda, o conhecimento dos hinos, consiste em 1028 hinos e é o único que tem passagens que tratam das relações homoeróticas. Os historiadores Ruth Vanita e Saleem Kidwai, no seu pioneiro livro Same-sex love in India, afirmam que não existem referências explicitas ao homoerotismo em nenhum dos Vedas, porém quando no Rigveda se diz que perversidade/diversidade é tudo aquilo que a natureza é, ou que aquilo que parece não-natural também é natural (vikruti evam prakriti, em sânscrito), muitos especialistas tem acreditado reconhecer aí uma constância cíclica das dimensões homoeróticas e transsexuais da vida humana, como todas as outras formas que distam do padrão. Em outras palavras, como o hinduísmo acredita que o diferente também é normal, pelo menos é o que os textos sagrados pregam, os especialistas contemporâneos tem entendido que os textos sagrados hindus seriam inclinados a aceitar as relações homoeróticas como parte da natureza humana também.
O hinduísmo é ainda mais complacente com os denominados Tritiya-prakriti, o terceiro gênero, não totalmente homem nem mulher, que são mencionados tanto nos Vedas como nos Puranas, apesar de não serem claramente definidos, deixando seu significado pairando entre o homem efeminado, às vezes também somente o covarde, mas também aqueles homens que não sentem desejo sexual pelas mulheres. Contudo, Devdutt Pattanaik diz que, não obstante, estes comportamentos homoeróticos serem conhecidos por todos na Índia, eles não eram aprovados, o que discorda Amara Das Wilhelm, historiadora que escreveu Tritiya-prakriti: People of the third sex, publicado nos Estados Unidos em 2003. Esta acredita que a posição destes membros do terceiro sexo e dos praticantes de atos homoeróticos era muito positiva na sociedade arcaica hindu, pois, diz ela, que os antigos Vedas ensina a tolerar a diversidade de tipos sexuais dentro de toda a sociedade. É o reconhecimento de que aquilo que é natural é muito mais amplo e diverso do que o binário macho-fêmea de nossa contemporaneidade.