Eu estava voltando da minha corrida. ao som de Arctic Monkeys, relembrando do menino que eu era quando passava por aquelas mesmas ruas voltando da escola, quando lembrei de ligar para o Bobtuso e cobrar que ele me apresentasse o Jazzy Rocks Lounge Bar. "Meu amor, claro, passo na sua casa daqui a pouco e te pego, ok?". Combinamos e ele logo me buscou em casa e fomos ao novo bar de rock de Natal, e eu sinceramente esperava mais. É uma casa no meio de um bairro residencial, com as paredes descascando, quente e apertada, com a área externa coberta por areia e poucas mesas de madeira, mesas estas que provavelmente foram o maior investimento feito no bar. Nas paredes, fotos de bandas de rock, recentemente imprimidas em papel ofício, eram a única coisa que diferenciava aquele bar de qualquer festa organizada por um menino de 15 anos com seus amigos da escola, mas admito que a forma que foram coladas na parede me lembravam muito os álbuns seriados que eu fiz em minha aulas de inglês na escola. Ah, minto!, também havia uma banda, Talma & Gadelha, que eu não conhecia (foram 4 anos fora, não é?), tocando na sala apinhada de fãs que sabiam todas as letras, enquanto eu cantava apenas os covers e as pessoas fumavam despudoradamente.
Como dissse, decepcionante, porém tudo me cheirava a uma decadência tão planejada que comecei a achar tudo muito interessante. De fato, o clima do bar era esse, então pedi minha primeira cerveja no balcão enquanto observava um negro de dreads apertando um beck do outro lado e me dediquei a observar a fauna local. Muitos casais de lésbicas estavam abraçados, alguns casais gays também, me surpreendi como estes estavam a vontade naquele ambiente, como os gays estavam a vontade em Natal. Camisetas quadriculadas mostravam que os hipsters já haviam também chegado aqui e circulavam em meio as meninas que pareciam ter estudado em alguma escola pública, me lembrando, desagradavelmente, muitas das minhas ex-alunas, e, não obstante, muitos meninos bonitos. Foi quando um passou por mim, lindo, alto, barba por fazer, corpo bonito, e o Bob percebeu e disse no meu ouvido: "Ele deve ter pouco mais que metade de sua idade". Eu me assustei e ele confirmou: "17!". Chocado, sai do salão e fui ao jardim dianteiro da casa, acendi um cigarro e fiquei observando as pessoas por lá, reencontrando alguns conhecidos. Muitos abraços, sempre fui uma pessoa muito popular, do tipo que conhecia metade da cidade, foi fácil encontrar muitas pessoas perguntando como eu estava e se havia voltado de vez.
Foi quando recebi uma ligação de Peter, meu amigo que coleciona meninos perdidos. Contei-lhe onde eu estava e ele comentou: "Nossa, como você é chique!". E eu pensei: "Como assim? O conceito de chique de Natal mudou eu não soube?". Ele então disse que passaria por lá, logo, e me pegaria para fazermos alguma coisa. Como o Bob já havia dito para irmos embora após o fim do show, concordei com o convite. Peter chegou exatamente cinco minutos após o fim do show da banda que eu não conhecia nenhuma das músicas, mas que havia gostado do que ouvira e, junto com um amigo nosso, me convidou para ir a Vogue, a maior boate gay da cidade. Bob declinou da oferta imediatamente. Eu topei.
Saímos do Jazzy e, após uma parada na casa deste amigo para ele trocar de roupa, logo estávamos entrando na rua da boate e ao estacionar um garoto de programa de braços gigantescos se ofereceu para um de nós, se ofereceu aleatoriamente pegando no pau por cima da calça, o que foi sumariamente descartado por nós três com uma gargalhada. Caminhamos pouco pela rua de paralelepípedos do estacionamento até a entrada da boate e, recebidos pela drag queen residente, Shakira, entramos naquele local que eu não visitava fazia dois anos e fui recebido por cantora usando um chapéu panamá tocando no palco samba. Decidi então fazer um giro no local, para me aperceber de quem eram as pessoas que estavam lá, e eu revi o mais do mesmo. Homens sarados sem camisa ficando com outros sarados sem camisa; meninos efeminados sozinhos dançado e se divertindo, além de esbanjando dinheiro; cafuçus de todo tamanho e jeito esperando para encontrar algum homem que decida sustentá-los; muita gente feia também, o que me fez pensar como eu conseguia ficar com tantas pessoas ali (será que meu gosto melhorou ou as pessoas ficaram mais feias?). Além disso, encontrei alguns conhecidos, gente que me abraçava e dizia que era muito bom que eu estava de volta, e um ex-aluno e um vizinho.
O ex-aluno foi o que eu vi primeiro. Não era nenhum dos que eu contei aqui anteriormente, mas era da mesma escola. E eu provavelmente ainda vou encontrar mais uns cinco meninos e duas meninas que estudavam naquela escola na noite gay de Natal, podem esperar. Todos os que eu suspeitei, em todas as turmas tinha pelo menos um, em uma delas tinha três, e este era desta turma, da que tinha três que eu desconfiava. Fui falar com ele e ele não me reconheceu de imediato, ficou bem sem graça, era óbvio que ele achava que me aproximei porque queria ficar com ele, até lembrar-se quem eu era. "Fui seu professor no J.P.". E ele disse meu nome. Conversamos pouco, um cara muito bonito logo o chamou para dançar e ele foi. Estávamos na pista de música ao vivo da boate, eles tocavam forró naquela noite. E enquanto meu ex-aluno saiu para dançar com o cara bonito, eu me peguei pensando como era irônico o fato de naquela boate gay ter pessoas dançando forró enquanto alguns já me acusaram aqui de defender uma "cultura gay" baseada somente nas divas pop. Pensava eu: "Eu sou daqui, dessa terra em que viado dança forró na buatchy! E a pessoa tem a cara de pau de me dizer que eu acho que a cultura gay é homogênica. Tifudê!".
Meus amigos decidiram então entrar na pista de música eletrônica. Peter terminara de fumar então poderíamos entrar. O som ali estava irritantemente ruim. Parecia que as caixas de som não suportavam a altura do que se tocava. O DJ também não ajudava. Parecia que ele queria compensar a péssima qualidade do som e da escolha de músicas aumentando o som no máximo. Ouvia-se apenas uma batida abafada do que deveria ser uma música da Britney, eu acho. Foi lá que eu vi meu vizinho pela primeira vez. Ele dançava abraçado a um menino que notei ser-lhe um amigo, pois logo já estava dançando com outro. Contei a Peter que ele estava ali. "Aquele ali, meu vizinho... já peguei o irmão dele!". Peter gargalhou, perguntando se eu não tinha pego ele também, "afinal ninguém te escapa, né?". Ai meu vizinho virou-se para nós e Peter respondeu sua própria pergunta: "Ah, já vi por que você preferiu pegar o irmão e não ele". Rimos os dois. E saímos de lá, indo buscar uma cerveja para cada um.