Busto de Ptah-Hotep
Ptah-hotep era o administrador da cidade e primeiro-ministro (ou vizir) durante o reinado do faraó Djedkaré Isesi, na V Dinastia, entre 2380 e 2342 a.C.. Ele e seus descendentes foram sepultados em Saqquara, na necrópole em que os grandes faraós foram sepultados também, numa mastaba ao norte. E seu túmulo tornou-se famoso pelas representações nas paredes como as que esta aqui abaixo, que o representam no seu trabalho de administração da cidade:
Decoração do túmulo de Ptah-Hotep
Os ensinamentos atribuídos a este vizir encontram-se registados de forma completa no Papiro Prisse – assim chamado devido ao egiptólogo francês Émile Prisse d'Avennes, que o encontrou na necrópole de Tebas ainda no século XIX. O Papiro Prisse foi datado do Império Médio, cerca de 1900 a.C, e hoje se encontra na Biblioteca Nacional da França. Além deste papiro, o texto ainda pode ser encontrado em dois papiros que encontram no Museu Britânico, um também do Império Médio e outro do Novo Império (a partir de 1580 a.C.), e também na Tábua Carnavon I, do Museu Egípcio do Cairo.
Segundo o texto encontrado nesse conjunto de documentos, Ptah-hotep, já em idade avançada, solicitou ao faraó a possibilidade de retirar-se do seu cargo de vizir, solicitando que seu filho o substituisse, o que seria habitual já que na sociedade egípcia se esperava que o filho seguisse a profissão do pai. O faraó aceitou a proposta do seu vizir e este então decidiu que deveria transmitir os seus conhecimentos sobre a vida para o filho.
O texto então divide-se em:
1) Prólogo, no qual Ptah-hotep se apresenta perante o rei pedindo a sua saída do cargo;
2) As Máximas, 37 conselhos que o vizir dá ao próprio filho;
3) Epílogo
Segundo Miriam Lichteim, este texto, no entanto, provavelmente foi composto no final da VI Dinastia, isto é, muito tempo depois da morte do vizir. Segundo a egiptóloga, as Máximas eram conselhos repetidos pela cultura popular egípcia que foram reunidos em um manual cuja autoria fora atribuída ao vizir para garantir maior autoridade aos ensinamentos. Estes ensinamentos não tem nenhuma ordem aparente, contudo versam sobre as coisas mais simples da vida egípcia, como educação dos filhos, "como é maravilhoso um filho que obedece o pai; cuidado com os campos, "se você trabalhar duro, e se o crescimento acontece como deveria nos campos, é porque o deus tem colocado abundância em suas mãos"; relacionamentos matrimoniais, "ame a sua esposa com paixão"; além de ensinamentos morais como evitar o ódio, a ganância e o ressentimento.
Sobre relações homoeróticas, o parágrafo 32 é a única referência:
Não copule [nk] com um menino-mulher [hmtj], porque você sabe que isso (geralmente) é opor a [necessidade] ao seu coração, e isso que está em seu corpo não será acalmado. Deixe de gastar suas noites num fazer que se opõe a fim de que possa ser calmo, depois de [extinto], seu desejo. Renuncia a este desejo que ele cessará.
Mais importante do que o conselho claramente negativo atribuído ao vizir Ptah-Hotep, afinal apesar de admitir que o desejo é comum, ele deveria ser submetido a moral e controlado, acreditamos que a citação ao hmtj, isto é, o menino-mulher da tradução que utilizamos é mais interessante para falarmos aqui.
No Egito, em sua língua, haviam três gêneros: o masculino, tai (lê-se tie); o feminino, sht (lê-se sheket); e um terceiro gênero, intermediário entre os dois, hmtj (heme) ou hmt (hemet). Os historiadores modernos, no entanto, têm dificuldade de explicar como esse terceiro gênero funcionava fora da língua, pois as pistas para descobrir como viviam estes hmtj são difíceis de encontrar. Uma das provas que este gênero é mais do que linguístico são as pinturas nas paredes dos túmulos, como afirma Jockheere. Os tai são pintados uniformemente com um vermelho-ocre, como podemos ver abaixo:
Já, afirma os historiadores especializados em História Egípcia, as mulheres (sht) representadas aparecem pintadas com um marrom-amarelado, como vemos:
Uma das teorias sobre este terceiro gênero é que ele seria composto por eunucos. Eunucos que seriam castrados ou pela retirada do pênis, ou dos testículos ou mesmo a retirada total da genitália. Este processo deveria acontecer, preferencialmente, ainda na infância para evitar que as transformações hormonais da adolescência causassem anormalidades como hipertofia abdominal e ginecomastia (isto é, o crescimento em homens de seios). Contudo mais pesquisas são necessárias, ainda, para podermos entender como funcionava a vida dos hmtj no Antigo Egito.





