"Eu tive um sonho, vou te contar"...
Eu estava em uma festa de casamento, comemoramos Hímeros, o deus grego das uniões amorosas, em uma grande festa em que todos comem e bebem, estamos em um navio ancorado em um porto, e conversamos sobre arte, literatura, música e filosofia. Sou a alma da festa, rindo, com comentários bem humorados e inteligentes. Eu circulo entre os grupos, conversando com todos, sentando em mesas e conhecendo pessoas. Eu, no entanto, espero a chegada de alguém. Às vezes eu desço até a entrada do navio e fico olhando para o porto, esperando, preocupado, alguém chegar. Alguém me vê lá parado e pergunta:
- O que você está fazendo ai, Foxx?
- Eu pedi um vinho especial para comemorarmos hoje e ele ainda não chegou.
- Mas nós temos esse vinho na adega.
- Temos? Ah, então eu vou buscar.
Eu desço então para buscar o vinho e volto com duas caixas para a festa, porém, no meio do caminho eu caio no mar. Eu fico flutuando nas caixas de vinho, tentando, exaustivamente subir no navio, ou alcançar o porto, eu chego a pular tentando voltar, mas eu não consigo, sempre caio no mar e me agarro novamente ao meu vinho para manter-me na superfície. Eu tento gritar, pedindo ajuda, também, mas a música da festa abafa meus pedidos de socorro. Era noite, também, as trevas me envolviam.
Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali, mas quando minhas forças estavam esgotadas (eu realmente me sentia muito cansado), a pessoa que me mandou buscar o vinho abre uma porta na base do navio, exclamando:
- Meu Deus! O que aconteceu?
Ele explica que veio me procurar porque eu estava demorando tanto, após me retirar da água, junto com as caixas de vinho que haviam se tornado apenas restos de papelão molhado. Eu estava sentado no chão, molhado e exausto. Ele me convida para voltar a festa, no entanto, eu estou cansado demais para sequer subir as escadas em espiral que levam para a parte superior do navio.
"É o que devemos saber"...
Na minha interpretação, este sonho fala da minha vida amorosa. A festa à Himeros representa a minha vida pregressa de encontros sexuais fortuitos, pegações em baladas, conquistas de uma noite, em que eu me divertia e fazia um considerável sucesso. Mas, sempre, foi algo vazio. Sempre faltou algo especial que faria aquela festa que já era incrível se tornar perfeita, o vinho que falta representa meu amor ausente.
Cansado de esperar que este amor venha até mim, no meu barco ancorado e impossibilitado de partir, eu sigo atrás dele, que traduzindo significa ter deixado Natal, a cidade em que nasci, e mudado para Belo Horizonte. Eu consigo o meu próprio vinho, isto é, meu amor próprio, mas eu não consigo voltar à festa que estava, eu caio no meio do caminho. Ou seja, eu me deparo com a dura realidade que é o mundo fora da província que eu cresci, extremamente igual! Ao mar, eu somente sobrevivo porque sou capaz de usar o vinho, isto é, o amor que eu havia trazido comigo como salva-vidas.
Mas eu fico tempo demais no mar, quando sou resgatado por alguém que finalmente nota minha ausência, o que quer dizer também que as relações que eu construí na festa eram em sua maioria superficiais porque somente uma delas notou que eu havia sumido. Fico tempo demais no mar que o vinho que eu levava torna-se somente pedaços de papelão molhado, ou seja, o amor que eu tinha foi todo consumido para me manter vivo. Nada restou mais. No entanto eu sou convidado a retornar a festa, pelo meu único amigo, e eu exausto declino do convite. Eu não conseguiria mais voltar a vida que eu tinha antes, estou cansado demais para isso.