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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Homens de Barba

, em Natal - RN, Brazil



Para quem não sabe, eu uso barba faz muito tempo. Na verdade, eu poderia dizer que sempre usei já que sendo meus pêlos faciais daquele tipo que cresce muito rápido, eu nunca pude curtir um rosto lisinho desde minha adolescência. Tirar a barba para mim sempre significou ficar com o rosto verde pelo resto do dia e antes de adormecer, já precisar tirar a barba de novo. Foi essa exigência diária que me fez adotar a barba como parte do meu visual, que aconteceu juntamente quando eu assumi a calvície, eu pensava: "Já que não tenho cabelos na cabeça, talvez a barba compense de alguma maneira". Isso, definitivamente, não agradou de imediato. Eu sofri preconceito de gays e héteros (que ironicamente concordavam na crítica: eu não era homem o bastante para usar barba), mas, logo, veio a explodir a moda hipster, com suas camisas de flanela xadrez, óculos vintage inspirados na década de 1980 e um visual desleixado com cabelos compridos e barba por fazer. A haute couture também ajudou durante os fins da década de 2000, modelos com barbas por fazer frequentava desfiles e logo estes pêlos vistos como falta de cuidado com a aparência tornaram-se moda, in, e as mesmas pessoas que me olhavam torto, além de me concederem elogios, agora tentavam cultivar seus pêlos faciais, os mesmos que combatiam a sessões à laser ou torturantes depilações com cera ou pinça. 
Como a barba tornou-se popular, então, minhas fotos com ela também passaram a ser curtidas. É interessante observar isso também. Eu tive um Fotolog anos atrás, que também era uma rede social que se baseava em curtidas e comentários sobre as fotos, aquelas que eu tirava com barba era com certeza menos curtidas do que as que eu fazia logo após afeitar-me. Contudo, de uns tempos para cá, tanto no Facebook e depois no Instagram (que fiz minha conta não faz um ano), tornou-se comum minhas fotos serem cobertas de elogios em relação a barba. São meninos recém saídos da adolescência, borbulhando com o fetiche daddy; aproveitadores que acham que tenho cara de suggar daddy, ursos e chasers, entre outros, mas, recentemente, um grupo muito estranho tem, principalmente no Instagram, curtido meus auto-retratos, que agora são chamados de #selfies. Estes postam fotos de homens barbudos e de camisetas com frases do tipo "se seu pai não tem barba, você tem duas mães" ou "se torne homem, deixe a barba crescer". Eu me assustei por diversos motivos, mas dois são os mais graves: homofobia e racismo.
1) Homofobia. Homofobia significa, na verdade, não o preconceito contra gays, como se popularizou, o preconceito é apenas o resultado da homofobia, mas ela se caracteriza pelo ato de forçar um modelo de homem para ser seguido pelas outras pessoas. Seja este modelo de comportamento afirmar que homem não chora, que é homem é sempre mais forte, que homem gosta de futebol e que homem só se sente atraído sexualmente por mulheres. No caso que analisamos aqui, então, quando se levanta a bandeira de que homem de verdade é um homem com barba se constrói mais um modelo de homem para ser seguido e novos preconceitos homofóbicos são construídos e disseminados como se este mundo já não tivesse o bastante. Eventos como o #BarbaDay no Twitter, inúmeros Tumblrs dedicados a homens com barbas, postagens no Facebook afirmando que a existência ou não de pêlos no rosto de alguém torna este ser humano especial. Tudo isso uma bobagem sem tamanho e, o mais perigoso, uma bobagem homofóbica.
Qualquer um pode considerar que levar essas "piadinhas" sobre a barba a sério é que é a verdadeira bobagem, mas um garoto de 8 anos de idade, em São Paulo, foi espancado pelo pai até a morte porque não queria cortar o cabelo curto "como um homem de verdade" (veja a notícia aqui), o cabelo curto foi definido como o cabelo masculino exatamente como hoje se define que a barba é o suprassumo da masculinidade humana: a moda assim decidiu e nós admitimos como uma verdade universal, a história, todavia, está ai para provar que décadas atrás o bigode era o grande exemplo de masculinidade, depois a depilação total e a jovialidade e ambiguidade sexual decorrentes entraram na moda, agora é a vez da barba, mas estes processos cíclicos que sempre começam dentro do mundo gay não passam de modismos que mudam ao sabor dos ventos da próxima temporada. 
2) Racismo. Além deste problema homofóbico que a elevação da barba do status de fetiche para símbolo da masculinidade do macho humano, como a juba de um leão ou a cauda de um pavão, existe o detalhe racista que passa desapercebido. Existe uma gradação entre os amantes de barba que vai daquelas barbas mais fechadas, ditas completas e sem falhas (prestem atenção nos adjetivos que levam para o sentido de perfeição) para as mais ralas (barbas falhadas) e os imberbes. Entre estes pogonófilos, aqueles sem falhas são superiores e, não por acaso, são os homens brancos aqueles que, normalmente, apresentam estes tipo de pêlos no rosto. Negros, ameríndios, orientais, hindus, mongóis (talvez a única exceção sejam os árabes) não possuem a barba perfeita. Eu não acredito em coincidências (desconfiar é um excelente exercício intelectual, vocês deveriam tentar!), por isso eu desafio qualquer um a procurar nestes grupos e comparar a quantidade de fotos compartilhadas de homens brancos versos aqueles de outras etnias, inclusive os árabes. 
Observação: Eu sei que, agora, todos vão lembrar que conhecem alguém que é negro ou de ascendência japonesa, por exemplo, aqui no Brasil, que tem uma barba fechada. Lembrem que no Brasil nós temos uma miscigenação imensa, poucos brasileiros não são mestiços, e isso transfere para um indivíduo características genéticas dos diversos grupos étnicos ao mesmo tempo. Porém, os grupos que divulgam fotos do tipo "Faça amor, não faça a barba" não utilizam fotos de modelos brasileiros, não é? 
Conclusões. Para mim, no fim das contas, elevar o homem barbado ao lugar de destaque da masculinidade humana é, além de forçar violentamente mais uma imagem aleatória de homem como um modelo a seguir, cristalizar no imaginário coletivo a figura do homem branco como o ápice da sociedade humana (já que o homem seria melhor que a mulher e o homem branco melhor do que todos os outros homens) e, sinceramente, não precisamos de mais disso. Já tivemos um nazismo uma vez, e ao contrário da barba, ele está definitivamente fora de moda.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Politicagem Hipster

, em Natal - RN, Brazil
É impressão minha ou a esquerda virou mainstream? Desde a eleição de Lula e o aparecimento do fenômeno hipster na cultura pop, o cúmulo do niilismo sobre o niilismo, temos visto a ascensão de um novo tipo de intelectual de classe média, meio fotógrafo, sempre publicitário (mesmo que nunca tenha pisado em uma faculdade, mas ostenta o título nas mídias sociais acompanhado com um adjetivo irônico), o Comentador de Direita. Comentador, apenas, porque é nos seus comentários nas Mídias Sociais (Facebook, Twitter, LinkedIn, blogs); e nunca, mas nunca mesmo, na produção de ensaios e discussões mais aprofundadas e maiores do que uma única lauda; que ele manifesta suas opiniões sobre o mundo, a sociedade, a política, isto é, o mundo real. O Comentador de Direita surge em detrimento do Sindicalista de DCE e os Socialistas de Beira de Piscina que estão cada vez mais fora de moda.
É interessante ver como, todavia, estes grupos têm coisas em comum. Ambos são formados por jovens estudantes ingressando no mundo acadêmico e descobrindo seu poder transformador no mundo ou, pelo menos, alguém que passou por esta fase e continuou lá. Contudo, os de esquerda, nossos intelectuais old fashion, tão populares nos anos anteriores a eleição de Luís Inácio Lula da Silva como presidente, foram formados em um ambiente intelectual de repressão política e sérias restrições econômicas. Oriundos de um Brasil extremamente pobre, a transformação/salvação brilhava nas páginas do Manifesto Comunista como um farol, as promessas utópicas de Karl Marx, reforçadas pela excelente análise sobre o modo de produção capitalista, eram o escape ideal para imaginar que este país poderia sim ser o país do futuro. Além disso, a vaidade intelectual também cobria muitos. Em um universo intelectual em que ser inteligente era dominar as ciências humanas, que Psicologia, História, Antropologia e Ciência Política eram as disciplinas da elite pensante do país, era nos centros estudantis destas faculdades que tudo acontecia.
Mas aí chegamos ao novo milênio, elegemos Lula em 2002, a internet se espalhou por todo este país varonil, em 2006 o Twitter dá o ar de sua graça, Steve Jobs lançou o iPhone em 2007, e tudo mudou na senda dos intelectuais brasileiros. De repente, não mais do que de repente, aquele nerd (ser associal que somente sabia sobre computadores, sci-fi e e língua élfica) tornou-se o novo modelo de intelectual. Repetiu-se: smart is the new sexy. Mas é um novo modelo de inteligência. Diz-se mais inteligente que o antigo, mas que abandona todo o conhecimento filosófico e histórico construído pela tradição ocidental em nome do novo, da descoberta, da invenção. Este novo intelectual de conhecimento meramente técnico programa computadores e constrói códigos e pode, do dia para noite, tornar-se um milionário ao vender uma de suas ideias que desenvolveu na garagem da sua mãe para uma gigante internacional. 
Este novo intelectual, que não é capaz de relações sociais (inclusive manifestando isso através de síndromes como Tourette, Bipolaridade, entre outras) porque é inteiramente analfabeto em métodos de avaliação do mundo que está ao redor dele dado que passou a própria adolescência e toda a sua formação acadêmica construindo um universo só para ele, torna-se o novo modelo e é imitando este novo nerd que surgem nossos personagens. Eles nasceram e cresceram em outro um ambiente, em um país cujo novo estado econômico e uma democracia nunca antes experimentada criaram uma juventude yuppie anacrônica que visava, somente, seu sucesso no futuro.
Óculos quadrados, camisetas com personagens de filmes sci-fi, quadrinhos e livros de fantasia em uma mão e um smartphone na outra, esta é a descrição destes Comentadores de Direita que só existem, como nerds, atrás de suas telas. Fora do ambiente virtual estes homens e mulheres não existe, porque incapazes de avaliar o mundo como ele realmente é, estes Comentadores precisam da segurança e do recorte que o mundo virtual garante a eles. Segurança porque, escondidos atrás de seus nicks, eles se tornam quem desejam ser, elencam personagens que se fazem sucesso entre seus amigos ou seguidores permanecem, mas se não são facilmente substituídos e transformados em outros, podem ser homens ou mulheres ou mesmo uma Sailor Moon independente do sexo de quem está entre a cadeira e o teclado. Recorte porque estes novos intelectuais de direita não aprenderam, porque nunca ouviram falar nisso, que existem, no mínimo, duas verdades para cada fato, e que uma não exclui a outra. O raciocínio binário não comporta esta percepção da realidade, mas o mundo real não é binário, não é preto ou branco, ele tem uma gama de cores, padronagens e, me desculpem, salmão não é apenas um peixe e o pufe fica melhor perto da ráfia. 
O conhecimento, e era isso que se aprendia dentro das faculdades de ciências humanas que, agora, são tão mainstream, é que o mundo é absurdamente mais complexo do que 140 caracteres podem responder, que discursos irônicos não conseguem transmitir nenhuma verdade e que críticas de verdade só podem ser feitas quando se demonstra o começo, o entremeio e um modo de resolver o problema. E eu ofereço um: parem! Simplesmente parem! Primeiro porque inteligência sem capacidade emocional de lidar com a realidade é um problema sério que precisa ser tratado e não estimulado porque faz garotos espinhentos se tornarem milionários do dia para noite, a maioria deles continua sendo homens espinhentos sem pódio de chegada ou beijo de namorada. Segundo porque inteligência sem capacidade crítica de lidar com a informação não é inteligência é treinamento especializado e até peixes dourados em aquários podem ser treinados para fazer alguns truques, aprender a programar não é nada mais do que ensinar a alguém um imenso truque, saber, no entanto, avaliar este conhecimento para reconhecer o que ele significa em um nível maior dentro da história da Humanidade é que significa alguma coisa. Neste caso, o mesmo vale para os antigos Sindicalistas e Socialistas, Karl Marx sucks! Antes de comentarem sobre o mundo, criticá-lo, é bom entendê-lo e isso somente com bastante pesquisa e bastante experiência na maior variedade possível de atividades, então, antes de ironizar qualquer coisa, acho que é bom experimentá-la de peito aberto. Vale mais a pena!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Entre o Fetiche e o Mundo Real

, em Natal - RN, Brazil



Esta é Madonna causando escândalo de novo. Aos 55 anos,  a Sra. Cicconne está namorando um garoto (um dançarino) de 26 anos. Isto bastou, obviamente (e fico muito infeliz por usar este advérbio aí), para causar "confusão e gritaria" nas redes sociais. Muitos aplaudindo, outros (e esta a grande maioria) criticando a Rainha do Pop. As críticas se baseavam na premissa de que mulheres não podem/ não têm o direito de namorar homens mais jovens e, muito menos, usá-los como boy toys. Exatamente como homens têm feito desde (principalmente) quando os yuppies ascenderam socialmente em meados da década de 1980. Foram eles que inventaram o homem poderoso que demonstra o quanto venceu na vida através do seu carro, de suas roupas de marca e jovens mulheres que são trocadas quando ultrapassam os 25 anos, ou seja, inventaram Hugh Hefner, dono da Playboy, e suas coelhinhas. Criticavam Madonna sobretudo porque ela já deveria ser uma mulher casada, uma senhora respeitável, e que não devia mais se exibir com garotos por ai que ela joga fora após sugar-lhes a vida.
Discutir o quanto existe de machismo neste discurso é, obviamente, chover no molhado, não é? Além disso o querido @BrunoEtilico já fez isso no Os Entendidos. Agora o que eu me vi questionando é o quanto este discurso sai da boca de homens gays e como eles se veem presos em duas opções radicalmente distintas de comportamento: apoiar aqueles que tem boy toys e execrar os homens mais novos que tem relacionamentos com homens mais velhos.  O primeiro ponto se deve a educação machista que recebemos. Homens são educados a ver beleza na juventude, mulheres são educadas a verem segurança na maturidade. Os homens gays então são educadas e bombardeados o tempo todo com modelos de beleza que envolvem o corpo jovem. Veja as revistas masculinas voltadas ao público gay publicadas no Brasil, desde a Júnior até a GMagazine. É um desfile de corpos jovens e até mesmo na categoria fetiche em que o daddy seria permitido, já que os lolitos são comumente retratados, os homens que aparecem em fotografias como daddies nunca tem mais que 35-40 anos. É o limite gay: um homem só pode ser bonito até seus 35 anos e, somente, para aqueles que tem um certo fetiche. A beleza acaba aos 30. Sendo assim, é natural, que um homem na casa dos 30 anos se interesse por jovens entre 18 e 25 anos. Na verdade, ele é estimulado. 
Claro que não para ter um relacionamento! Porque o jovem, e essa é a ironia, entre 18 e 25 anos é um garoto que ainda tem muito o que aprender com os homens que passaram por entre as pernas dele, mas para divertir-se, ou seja, boy toys, eles são absolutamente perfeitos. Os lolitos são um fetiche comum e socialmente aprovado. Sim, porque existem fetiches que são aprovados e outros que não podem nem ser mencionados. Quantas vezes ouvimos que homens musculosos são perfeitos e pessoas que gostam de homens gordos são reprimidas ao falarem? Quantas vezes é socialmente permitido dizer que se tem fetiche por homens fardados enquanto o travestismo é enquadrado como uma doença mental pela Organização Mundial de Saúde? Mas e quanto os homens que se sentem sexualmente atraídos por homens mais velhos, os daddies?
Ai está um grande problema no mundo gay. Existem inúmeros padrões que não podem ser rompidos (ironicamente num grupo formado a partir da contra-cultura punk). Não se pode ser gordo, não se pode ser efeminado, não se pode envelhecer. Estes são os três pilares da beleza gay inventados pela revista Advocate. De fato, o mais engraçado é que em 1991 uma revista americana definiu que este era o padrão de beleza que os gays deveriam seguir e eles, calados, obedeceram sem pestanejar. Dirão que foi culpa da AIDS, eu digo: "me poupe"!. Nós, gays, somos um grupo que levanta a bandeira da diversidade. Nós dizemos o tempo todo, somente por existir, que modelos não podem ser impostos para as pessoas porque elas não cabem neles, contudo empurramos um padrão de beleza que simplesmente não alcança os membros do nosso grupo. Eu poderia falar horas aqui sobre como é maldoso definir que homens gordos são feios somente por serem feios, como também como é extremamente maligno definir que alguém é feio somente porque é efeminado, mas vamos manter o foco: a idade não torna ninguém feio.
O grande problema que a comunidade gay tem, e isto é um fato, não um preconceito, é que este grupo (talvez por causa dos momentos em que sempre é destratado e sofre preconceito) tem uma grande necessidade de se afirmar. E, uma das formas de se afirmar, sobretudo entre os próprios pares é manter-se dentro daquilo que é aceito no grupo. Muitos malham somente porque os amigos malham, muitos usam a marca da moda, escutam a música da moda, vão aos lugares da moda para serem bem vistos pelo grupo, mas, também, a grande maioria sufoca seus próprios desejos para manter uma imagem dentro do grupo. É comum, entre gays, apesar do desejo de ficar com um homem mais velho, alguém que o conquistou, alguém que despertou seu interesse, alguém por quem ele se sentiu atração, preferir continuar ficando com os mesmos garotos imberbes que seus amigos ficam para não ser criticado. Eu até entendo! Já somos criticados em todos os lugares que chegamos, ainda seremos criticados pelos nossos amigos por causa do namorado/ficante que escolhemos? Muitos preferem o caminho mais fácil. Mas o preconceito cresce.
Não existe, na verdade, nada melhor em namorar/ficar com um homem de mais de 30 anos. Eles, quer dizer, nós não somos nada diferentes de garotos de 18 anos. Na verdade, eu conheço garotos de 18 anos mais maduros que muitos de mais de 30. Contudo, homens com mais de 30 anos não vão parecer com garotos de 18 anos. Nosso corpo muda, o de todos muda. O acúmulo de gordura abdominal é incontrolável, os cabelos e pêlos brancos nascendo pelo corpo são fatídicos, a preguiça de ficar na balada até as 6h da manhã e depois esticar para um after é real. Esta é a Casa dos 30. Você com certeza se divertirá mais com um menino de 18 anos e seu corpo no ápice do vigor humano e, se tiver sorte, este menino de 18 pode assinar a Carta Capital, ler Homero no original e viveu dois anos em um templo budista no Tibet. E, com o extra, de não vir com toda a bagagem que um homem de 30 anos sempre traz consigo. Porém, o pior, é ver que meninos de 18 anos e homens de 30 veem que aqueles que passaram dos 25 anos não são mais atrativos antes de conhecê-los. Primeiro por vergonha dos amigos (em ambos os casos), mas também porque neste mundo torto em que vivemos a capa sempre fala mais sobre o livro do que as linhas que estão escritas nele. Quantas estórias magníficas deixam de ser lidas/escritas/vividas por causa disso. É tão triste.   


PS: Acho que voltarei a postar, mas provavelmente serão textos como este, nada mais da minha vida pessoal. Não é porque eu não queira falar sobre minha vida pessoal, mas porque não existe nada nela digno de nota. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Três Dicas Para 2014

, em Natal - RN, Brazil



O ano de 2014 será ano de eleição. E estamos órfãos, caríssimos! A população LGBT que segundo pesquisas representa pelo menos 10% da população brasileira está orfã nas próximas eleições. Nenhum partido ou candidato, ninguém nas eleições para o executivo, levantará nossa bandeira novamente e, mesmo que faça, a lição deixada por Dilma Rousseff, o PT e a Comissão de Direitos Humanos nos prova que somos moeda de troca, que valemos antes da eleição nossos votos, mas que também seremos facilmente abandonados quando nossos interesses forem de encontro com o de outras bancadas. Votaremos para ser trocados de novo?
Porém como não votar? A democracia é o respeito à vontade da maioria, mas a vontade da maioria que se manifestou. Votar nulo não é um ato de protesto, é deixar nas mãos dos outros a responsabilidade sobre nossa própria vida. Agora, mais do que antes, precisamos nos posicionar de forma muito clara para que os nossos políticos reconheçam que não estamos dispostos a ser enganados de novo. E como faz isso? Dou três dicas:

1) Conscientize-se e informe-se.

Não adianta de nada reclamarmos da política no Brasil e dos políticos que não nos representam, mas não lembramos em quem votamos, não cobramos dos nossos representantes eleitos aquilo que prometeram e não nos informamos sobre o que está acontecendo ao nosso redor, sobretudo, aquilo que nos afeta diretamente. Graças a internet, todavia, temos a possibilidade única de nos informarmos: blogs, sites, páginas no Facebook disponibilizam informação gratuitamente, mas sempre caberá somente a nós parar por alguns minutos no dia e lermos as notícias, pesquisarmos mais informação e juntarmos tudo a partir de nossa própria consciência crítica ou, trocando em miúdos, também precisamos não acreditar em tudo que falam por aí.
Mas, além disso, é preciso fazer um esforço de entender política. Entender quais os grupos estão em disputa. De que lado está o PSDB, de que lado está o PT, saber reconhecer a diferença entre o lado que eles dizem está e onde eles realmente estão. E, mais importante, de que lado você está e/ou pensa que está. Uma questão, inclusive, que a militância gay precisa superar é que como nossa ausência de direitos e cidadania não respeita classe social, o grupo se divide em relação a outras questões que historicamente defendeu, não obstante se reunir sob o propósito de lutar pela defesa dos direitos de todo homem ou mulher homossexual, bissexual ou transexual neste país. Um parêntese talvez precise ser aberto aqui: é bom todo mundo saber que o movimento gay nasceu anarquista e punk, chegou a ser comunista e de esquerda e acomodou-se na década de 1990 aliado da direita e yuppie. Todo este arcabouço unido que levantou nossas reinivindicações de hoje e, felizmente, nos permitiu nossa consciência de diversidade.

2) Posicione-se publicamente. 

Vivemos na época do Twitter, Facebook, Instagram e outras três mil redes sociais. E por causa destas postagens podemos fazer com que pessoas que não vivem o que nós vivemos possam experienciar aquilo que experimentamos. Falamos sobre comida, sobre filmes, sobre programas de tv, compartilhamos nossas opiniões sobre todo o tipo de assunto considerando que quem está do outro lado da tela do computador está interessadíssimo em nossa opinião, porém, estranhamente, não nos manifestamos quando o assunto é política. 
Nós, a população LGBT, é quem precisa estar atenta aquilo que nos afeta. E quando algo surgir, alguma ameaça, que pode nos prejudicar, cabe a nós colocarmos a boca no trombone. A reação, por exemplo, contra o Feliciano só aconteceu porque nós expusemos a pessoa que ele era. Sua situação se tornou um imenso escândalo político do governo Dilma e de todo o Congresso porque nós reclamamos nas mídias sociais. Sem nós não haveria a menor atenção sobre ele (inclusive foi por isso que ele foi escolhido para o cargo; por ser, apesar de racista e homofóbico, politicamente inexpressivo). 
Sendo assim, é hora de todo cidadão LGBT deste país ser um cabo eleitoral ao contrário. É hora de tomarmos para nós a tarefa de expôr os podres de cada um destes políticos que se posicionou contra nós. É hora de retirar deles os votos de nossos conhecidos, amigos e familiares. Se as pesquisas dizem que somos somente 10% da população, tomemos por nossa responsabilidade mudar o voto de cinco, somente cinco pessoas. Multiplique então 5 x 10% e você verá uma revolução.

3) Saia do armário.

Não adianta lutar, comentar, se informar, etc, se o ato político mais importante que um homem gay ou bissexual, uma mulher lésbica ou bissexual pode fazer ainda não se realizou. Foi por causa do movimento yuppie, em que gays a partir de 1980 e 1990 deixaram de lutar contra o sistema e passaram a tentar fazer parte dele, que o ato de assumir-se gay deixou de ser um manifesto libertário para tornar-se algo de foro íntimo. Estes homens e mulheres preocupados em manter seus empregos e viver uma vida sem perseguições afirmavam que isto não era da conta de ninguém. Uma bela mentira, por sinal.
De fato, assumir-se pode trazer inúmeros problemas. Há quem é expulso de casa pela família (check!), os que perdem os amigos, os que são demitidos de seus empregos ou sequer contratados (check!) ou não podem chegar a crescer dentro de empresas, e há também os que acontece tudo isso junto. Foi tentando evitar estes reveses que os jovens americanos pregavam que ser gay era algo que só devia ser mencionado dentro de quatro paredes. Porém, não obstante estes fatos, assumir-se gay é algo que você não faz para você mesmo, mas para os outros. 
Eu lembro sempre de um filme, Wedding Wars, com John Stamos (de Três é Demais) e Eric Dane (de Grey's Anatomy), um daqueles filmes B americanos, daqueles que vão direto para DVD. O filme trata da história de Ben (Dane) que faz um discurso para o governador apoiando uma lei que proibe o casamento gay, Shel (Stamos), irmão de Ben, gay, que planejava o casamento do irmão com a filha do governador suspende a organização do casamento e entra em greve. Ele faz um protesto diante da casa do governador e da noiva, o que causa um comentário negativo de um jornalista que ironiza dizendo que o mundo não precisa de gays porque eles ocupam apenas profissões supérfluas, esse comentário causa uma mobilização de todos os gays de outras profissões, jornalistas e câmeras são os primeiros a entrar em greve no ar; advogados, dentistas, professores e toda espécie de profissionais também entram em greve apoiando o personagem de Stamos. 
A ideia é perfeita, mas impraticável no mundo real porque simplesmente as pessoas teriam medo de assumir-se. O Brasil inclusive passou pelos riscos de exigir uma situação assim. A Comissão de Direitos Humanos estava em vias de decidir que ser gay era uma doença, o melhor protesto que se poderia fazer, com certeza, era que todos os homens gays e mulheres lésbicas deste pais faltassem ao trabalho no dia seguinte alegando estar com um sério caso de homossexualismo. Muitos inclusive deveriam entrar na Previdência Social com suas aposentadorias por invalidez, mas cadê que, argumentando que assumir-se é uma questão íntima, alguém teria a coragem?
Quando nós nos assumimos, quando tomamos para nós a bandeira do arco-íris, nós nos tornamos parte de um grupo político. Não é dizer para o seu amiguinho da escola que você gosta de beijar meninos, assumir-se gay é se posicionar politicamente contra uma série de posicionamentos machistas, sexistas e homofóbicos que regem o universo binário heterossexual em que homens têm um papel e mulheres outros. Além disso, nos tornamos exemplos. Assumir-se gay é assumir-se para o outro também, para a família, para os amigos, para o colega de trabalho, afinal muitas pessoas afirmam por ai que não conhecem nenhum homem gay ou nenhuma mulher lésbica, porém convivem com um em algum lugar e nem desconfiam. Como então esta pessoa vai apoiar os direitos desta minoria se ela não conhece absolutamente ninguém com quem possa relacionar aqueles problemas? Precisamos sair e mostrar a cara, mostrar que somos muitos, e que podemos fazer a diferença sim. Ou juntar as malas e fugir para a Argentina, são as únicas opções.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Como Minha Mente Funciona

, em Natal - RN, Brazil


Outro dia, no Twitter, o @uaiNick postou esta notícia aqui que me deixou bastante intrigado. A notícia publicada pela Folha de São Paulo, em seu portal on-line, cuja manchete dizia "Gordinho Saudável é um mito, diz pesquisa", falava que segundo pesquisadores do Hospital Mount Sinai, em Toronto, Canadá, não haveria um nível saudável de obesidade. A pesaquisa consistiu em monitorar o coração de pessoas que, apesar de acima do peso, mantinham níveis de colesterol, pressão arterial e açúcar normais durante dez anos. A afirmação ao final da notícia, assinada pela enfermeira-chefe do hospital e não pelo responsável pela pesquisa, é de que sem controlar o peso, com o tempo, com certeza, o risco de doenças cardiovasculares será gigantesco.
Eu li e parei para pensar. Eles acompanharam "gordinhos saudáveis" por 10 anos. Tempo, dez anos. Porra, esse povo por acaso não envelheceu? E como não existe menção na existência de grupos de controle com magros saudáveis, magros com taxas alteradas e gordos com alterações de colesterol, pressão e açúcar, nós simplesmente não sabemos se qualquer um, magro ou gordo, que se exercite ou não, quando envelhece tem mais chances de ter problemas do coração. Não sou especialista na área, mas acredito, que todos, independente do peso, precisam se cuidar mais na velhice pois todo o corpo fica mais frágil e, portanto, os 10 anos de acompanhamento, não a gordura corporal, seria o fator de risco que prejudicou o resultado final da pesquisa. Porém, na notícia, cuja origem é a BBC, a Folha apenas traduziu a matéria, não é uma preocupação do jornalista (que deveria ser especializado em jornalismo científico) nem dizer qual era a idade do grupo analisado. E, sinceramente, eu estranho quando uma notícia científica esconde parte dos dados, vocês deveriam também.
Aí eu lembrei do Nazismo. Hitler, Alemanhã, II Guerra. Lembrei de Hans Günther e seu Higiene Racial do Povo Alemão, dos médicos Josef Mengele, Sigmund Rascher e Karl Brandt e como a ciência (e a medicina especificamente) foi utilizada para autorizar o extermínio de um povo que era "comprovadamente" inferior. A ciência do início do século XX (e não apenas na Alemanha, mas em todo o mundo, veja, por exemplo, Gilberto Freire, no Brasil, e o nosso mito de democracia racial) havia construído e provado a existência do conceito de raça e autorizava com isso todo o horror nazista, o Holocausto e os campos de concentração. E pensei: qual a diferença?
Respondi então no Twitter para o @uaiNick que aquilo me parecia "ditadura da magreza", e eu me lembrava da Cidade da Penumbra do futuro apocalíptico de Lollita Pille em que você é proibido de ser gordo e/ou infeliz. Eu não conseguia enxergar diferença entre um artigo sobre ciência que omite uma parte importante da pesquisa que se referenciado poderia fazer com que a mesma fosse interpretada de forma oposta. "Gordinho, se você manter seu colesterol, pressão e açúcar em níveis normais, você tem a memsa chance de um ataque cardíaco que uma pessoa magra quando envelhecer". Porém, o objetivo aqui é obviamente outro. Não é tranquilizar a população, mas instigá-la a procurar o pote de ouro no fim do arco-íris. Continue atrás da magreza, continue atrás da saúde! Minha dúvida, entretanto, é a quem esta falácia jornalística poderia beneficiar. A indústria da moda? Não, ela também é usada para perpetuar essa imagem com suas modelos esqueléticas e homens com pernas raquíticas e troncos desproporcionais. A indústria textil? Ela não seria obrigada a mudar os moldes, mas também não poderia vender mais caro as roupas especiais. A indústria farmacêutica? Ela tem o costume de criar doenças para vender novos remédios. Ou será que eu estou vendo conspirações onde elas não existe e apenas os jornalistas da BBC não sabem fazer jornalismo científico de qualidade?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Simples Especialistas

, em Natal - RN, Brasil


Todo homossexual se acha um especialista em homofobia e se vocês perguntarem a qualquer um significado desta palavra, a resposta virá imediatamente (tentem!): "é o preconceito/ódio que os heterossexuais têm pelos homossexuais". Em ciência, sobretudo nas ciências humanas, para uma definição ser válida, todavia, ela tem que cobrir todos os aspectos do problema. Aí surge nosso primeiro problema: existem homossexuais homofóbicos também (e estes costumam ser os mais difíceis de falar sobre o assunto), não é um problema que existe somente dentro do grupo heterossexual. Se estes existem, então a definição não pode dizer que é um preconceito oriundo do grupo que é a maioria, heterossexual, em relação ao grupo minoritário. Concordam? Outro problema: a homofobia é uma questão de ódio pelos gays? É uma simples questão de lógica,  a + b = c, se afirmamos que existem homossexuais homofóbicos, esta pessoa seria alguém que odeia outros homossexuais e, portanto, também odeia a si próprio sendo então sempre uma pessoa que está dentro do armário, que sofre por não se aceitar, certo? Errado! Quando um homossexual não se aceita, esta situação é chamada de de conflito egodistônico pela psicologia e é causada pela homofobia, é resultado dela, não sua geradora. Esta pessoa é muito mais uma vítima do que qualquer outra coisa. Afinal é o fato dele viver em um ambiente que não aceita os gays que impede que ele se aceite plenamente. Trocando em miúdos, ele é fruto do seu meio.
Outra resposta comum é que a homofobia é uma agressão que uma pessoa, pensa-se sempre primeiro em um heterossexual, faz a outra pessoa que julga ser homossexual. Nesta explicação deveras comum a homofobia é uma ação. Ela só existe quando alguém é agredido, quando alguém sofre um ferimento. Alguns, poucos, ampliam dizendo que se a agressão for apenas verbal também existe homofobia, mas para a maior parte das pessoas para sofrer esta espécie de preconceito é necessário que se derrame sangue. Há uma linha invisível que separa o olhar ameaçador, os xingamentos na rua, a perseguição na calçada do primeiro chute que derruba um garoto que volta de uma boate no chão. Até o agressor tocar a vítima, este estava apenas expressando seu direito sagrado de liberdade de pensamento. Afinal, ninguém tem o direito de dizer o que ele deve pensar ou o que não pode fazer. Deus nos livre da censura! Aqui, a confusão se dá sobretudo por causa da definição de crime com motivação homofóbica, sobretudo o principal crime que se pretende punir legalmente com as leis anti-homofobia que é a agressão física e a construção da motivação homofóbica para assassinatos. Como o tema Homofobia tem sido explorado sobretudo neste aspecto jurídico, para muitos, criou-se a ilusão de que ele só existe também neste formato jurídico, e um crime só existe após ser praticado, e o crime que se quer punir não é a homofobia e sim a "agressão por motivos homofóbicos".
Outro problema da definição que os homossexuais especializados em homofobia têm nos dado é que os heterossexuais (pasmem!) também sofrem esta espécie de discriminação. E muito além dos casos que foram relatados pela imprensa como o pai que teve a orelha arrancada porque estava abraçado ao filho, ou dos irmãos que um foi assassinado porque voltavam abraçados de uma festa, meio bêbados. Heterossexuais sofrem homofobia quando um menino ganha uma bola e uma menina uma boneca, quando um bebê é obrigado a usar azul e outro rosa, quando uma menina tem a orelha furada e um garoto não pode chorar. É isso que os gays, em sua maioria, não sabem: a verdadeira definição de homofobia diz que ela acontece quando definimos um modelo para ser homem e um modelo para ser mulher, e todas aquelas pessoas que desviam deste padrão são, furiosamente, atacadas. É por isso que o pai e os irmãos foram atacados, por exemplo, homens não abraçam outros homens.
Segundo uma sociedade homofóbica, e que se entenda este adjetivo a partir de agora como: "uma sociedade que impõe uma forma de comportamento para homens e mulheres", um homem precisa ser másculo, forte, insensível, sem habilidades artísticas, pouco detalhista, bom motorista, hábil em atividades físicas como esportes, agressivo, sem vaidade, entre outras coisas, e, principalmente, o oposto disto é o que faz uma mulher. Qualquer um que se arrisque a caminhar no meio destas situações opostas é visto como desviante, desviado, viado. Um ataque homofóbico não acontece porque os heterossexuais odeiam os gays, acontece porque para algumas pessoas ser homem significa seguir um padrão exato de características, os homens que não seguem estas características precisam então serem violentamente reeducados para "virar homem", é isso que está por trás de ataques com lâmpadas fluorescentes nas ruas de São Paulo, dos estupros corretivos nas quadras de Brasília ou dos assassinatos de travestis nas pequenas cidades da Bahia. Existem pessoas no mundo que acreditam que existe um modelo correto de homem e outro modelo correto de mulher.
Então quando afirmamos que também existem homossexuais homofóbicos é porque também entre este grupo que é o mais perseguido pela homofobia existem pessoas que aprovam esta teoria que existe um padrão para ser homem e um padrão para ser mulher, e que inclusive modelam o seu desejo pelo mesmo gênero seguindo este padrão que é arbitrário, totalmente construído e, poderíamos inclusive dizer, artificial. Vejamos um exemplo: nos sites de relacionamento (Manhunt, Disponível, Grindr, Scruff) é comum encontrar a expressão "não curto efeminados" nos perfis. Esta afirmação por si pode não dizer nada, ela passa inocentemente por uma descrição de um gosto pessoal, contudo, geralmente, as pessoas que tentam explicar porque não gostam de efeminados costumam afirmar que "se quisessem mulheres, eles seriam heterossexuais". Só que esta pessoa efeminada é um homem, ele tem pênis, tem um gene Y herdado de seu pai, poderíamos inclusive supor que esta pessoa se encaixasse em todos os outros aspectos que citei sobre o que é ser um homem menos o aspecto da masculinidade, porém a ausência deste aspecto torna a pessoa incapaz de despertar interesse. Por que isso se dá?
A homofobia não aparece quando um homossexual não se excita por um homem efeminado, ela aparece quando este define o que é ser homem. Os homossexuais retornam para o modelo imposto pela sociedade heteronormativa e projetam seu desejo para aquele manequim construído com pedaços de pessoas para representar o tal ser masculino ideal. Todos, no fundo, procuram um príncipe, e este não foi criado dentro da própria cultura gay, este homem ideal ainda é o reflexo doentio do pai machista que os criou, o Homem com H maiúsculo. O combate a homofobia, portanto, não pode ser considerado como a luta pela aceitação de gays e lésbicas, nem tampouco apenas conseguir direitos, é a batalha pela diversidade. Combater a homofobia é lutar pela destruição destes dois modelos de comportamento (Homem e Mulher) e, com isso, aceitar que os seres humanos não podem ser classificados dentro desta gama dualista quanto suas identidades e seus gêneros. Masculino e feminino não podem ser definidos de forma tão simplista como Homem e Mulher.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Work, Bitch!

, em Natal - RN, Brasil



Nesta semana Britney Spears lançou sua nova música, nada de surpreendente eu posso dizer-lhes. Os mesmos samplers que já ouvimos em diversas outras músicas pop, a mesma Britney com seu vocal sexualizado entupido de efeitos eletrônicos e sem saber dançar nada que envolva uma coordenação motora que exigisse mover braços, pernas e respirar ao mesmo tempo. Para dizer a verdade uma única coisa me surpreendeu: o obviedade como a dublê da Britney aparece nas poucas cenas que ela está dançando, o truque mais velho do mundo de fazer o cabelo da dublê cobrir-lhe o rosto para que ninguém notasse que é outra pessoa foi como observar um episódio da Turma do Didi numa cena em que o dublê do Didi aparece.
Contudo eu, infelizmente, reparei na letra. A letra diz isso:

You wanna hot body
You wanna Bugatti
You wanna Maseratti
You better work bitch

You wanna Lamborghini
Sip martinis
Look hot in a bikini
You better work bitch

You wanna live fancy
Live in a big a mansion
Party in France
You better work bitch
You better work bitch
You better work bitch
You better work bitch


Não é surpreendente para mim ver que Britney vende o discurso do american way of life, o discurso máximo do capitalismo do século XX, de que basta você trabalhar bastante, fazer por merecer, que é possível conseguir tudo aquilo que você deseja, ela cita carros caros (Bugatti, Maseratti, Lamborghini), ela cita um estilo de vida caro (sip martinis, fancy big mansions, party in France), e a surpresa não existe porque este discurso está infiltrado em todos os aspectos de nossa sociedade ocidental. Britney foi contaminada por ele, você talvez também tenha sido e se engane achando que só precisa trabalhar mais e mais, "work out, bitch", que um dia você vai poder comer queijo brie e tomar champange num apartamento com vista para a Torre Eiffel.. Ai você pode estar pensando: lá vem o Foxx dizendo que o mundo está errado de novo, mas todo mundo sabe que é assim mesmo que se consegue algo, trabalhando muito.  
Sim, trabalhar muito pode trazer muitas coisas, mas não basta somente isso. Imagine a situação: uma menina nasce no bairro do Bom Pastor em Natal, cresce brincando aos pés da linha férrea, molhando os pés no esgoto ao céu aberto, ela terá as mesmas oportunidades para trabalhar como estilista na indústria da moda que uma garota que nasceu e se criou na ilha de Manhathan? Ao meu ver não! O trabalho, lutar por aquilo que vc deseja, é sem dúvida um elemento importantíssimo para "vencer na vida", todos aqui responderiam afirmativamente se eu perguntasse se é preciso trabalhar muito para vencer na vida, não é? Mas a resposta se manteria positiva se fizermos a pergunta de outra maneira: todo mundo que trabalha muito com certeza vence na vida? Britney vende uma filosofia do século passado que não via que os problemas sociais interferem na felicidade das pessoas, em poucas palavras: Britney é uma liberal. Ah, e eu eu nem mencionei que o clipe vende o perfume que leva o nome da cantora e um dos sons mais caros do mercado, não é?
A praga do Liberalismo surgiu no século XVI para competir com as políticas econômicas mercantilistas em que o Estado interferia diretamente na economia para atender os desejos de um monarca, era a cura esperada para o poder totalitário das monarquias nacionais. Mas hoje,  rebatizado de neo-liberalismo, ele defende que o Estado também não pode interferir na economia, porque ela se regula sozinha, e ao se auto regular ela com certeza vai levar em consideração que existem pessoas mais pobres e outras mais ricas e, naturalmente (deve ser pela vontade de Deus), a economia equilibraria a situação permitindo que os mais pobres ficassem cada vez mais ricos.
Mas, além disso, uma coisa mais me preocupou no que essa música vende, duas frases exatamente: "you wanna a hot body" e "Look hot in a bikini". Não obstante vender um Liberalismo político quando o Estado de Bem Estar Social já se provou o melhor modelo (veja a Inglaterra de Blair, não a cagada de Tatcher), numa época em que reconhecemos o bullying como uma agressão, em que outras cantoras como Christina Aguilera (Beautiful), Katy Perry (Fireworks) e Lady Gaga (Born this way) gravam hinos defendendo que beleza é algo diverso, que, roubando a frase da Gaga, Deus não comete erros, a Srta. Spears resolve afirmar que a culpa de alguém não ter um hot body é de sua falta de insistência. Que quem work out alcança os padrões de estética imposto por ela ou pela Anna Wintour (que por caso foi quem inventou que um vão entre as coxas das mulheres é algo bonito e fez com que a Marie Claire chame o corpo de refugiada da Somália da Izabel Goulart de perfeito). 
Olha, na minha opinião (que de humilde não tem nada, nós sabemos), quem é que define o que é look hot in a bikini não é  o fato de alguém ter suado pencas numa academia, mas os olhos do outro. Existem pessoas que não acham homens musculosos bonitos, que preferem uma barriga ou alguém magrinho, existem homens que preferem mulheres gordas e outros que preferem bundas enormes. Acho que vocês entenderam os exemplos, mas o que quero dizer é que existem milhões de padrões físicos para o que alguém pode considerar hot (lembrem que os dentes separados da Madonna e da Georgia Jagger são considerados charmosos por uns, enquanto japonesas arrancam os próprios dentes saudáveis para implantar próteses para manter o sorriso infantil com dentes proporcionalmente maiores, como o sorriso da Xuxa), em um mundo diverso, que é o que estamos aprendendo, finalmente, que é o planeta em que habitamos, padrões de beleza não podem ser impostos por alguém como uma meta para encontrar a felicidade e ninguém deve se render a um padrão imposto por uma revista, uma modelo em uma passarela ou na música de uma péssima cantora pop, afinal, não adianta, a beleza sempre estará nos olhos de quem vê. 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sobre o Amor

, em Natal - RN, Brasil



Eu, particularmente, acredito que o amor só faz bem a uma pessoa. Não acredito no discurso repetido incansavelmente por adolescentes de todas as idades de que se apaixonar é sinônimo de sofrer, contudo eu reconheço que existe uma imensa distância entre o que eu entendo por amor e o que estas pessoas aprenderam nas novelas da Globo e nos romances românticos, foi inclusive o maldito Romantismo (com letra maiúscula) que destruiu este sentimento para a maioria das pessoas que se tornaram incapazes de experimentá-lo como ele devidamente é. Falta educação sentimental para as pessoas, mas isso até a Paula Toller já sabe.
Para mim o amor não é nada mais do que o ato de doar. Amar alguém é necessariamente doar algo a uma pessoa, seja seu carinho, seu cuidado, seu tempo, seus sentimentos, sua vida até, isto que significa amar. Porém uma doação só acontece, ela só existe, se for um ato que não espera retorno. Doar é, necessariamente, uma ação que envolve dar ao outro e não esperar nada, absolutamente nada, em troca. E isso, somente isso, é amor, qualquer outra coisa é uma invenção literária que vocês engoliram e acham que estão procurando algo real. Vocês procuram unicórnios quando a única coisa que temos são rinocerontes.
Mas aí você deve estar se perguntando: mas então eu não amo para ser amado de volta? Em uma palavra: não! E é no fato de você fazer esta pergunta que está todo o problema em relação ao amor que eu vejo entre as pessoas hoje em dia, elas não doam seu amor, elas investem (êta Capitalismo maravilhoso!), elas amam apenas e exclusivamente para que o objeto do seu amor lhe ame em retorno. É por isso que é tão fácil ver casais de namorados dizendo "eu te amo" ou batizando um ao outro de "meu amor", está imposição do amor num relacionamento que mal começou é somente uma tentativa de receber do outro o mesmo tratamento. Não é amor dado, é um amor cobrado.
E todo sofrimento de amantes desde o século XIX, arrisco dizer (não por acaso também nascimento do Capitalismo), se origina deste desejo egoísta de ser amado. Não é o amor que causa algum sofrimento, reafirmo, afinal ninguém que está cobrando ser amado ama de verdade, o que causa o sofrimento é a frustração de um desejo infantil. Lembro de Freud e de Buda pensando sobre isso. Freud fala sobre o ego em seu trabalho, fala como a satisfação de impulsos egóicos são características da infância e da imaturidade e quanto a supressão desses desejos causa sofrimento psíquico e físico ao indivíduo, porém é esta mesma repressão que permite a própria vida em sociedade. É a capacidade de abrir mão de seus desejos egoístas, que somente ocorre com o amadurecimento psíquico, que torna um ser humano capaz de abrir mão de si próprio pelo outro. Atos como pensar no seu semelhante (amor ágape), cuidar de uma criança (amor materno), ajudar um amigo (amor philia) ou fazer algo no sexo para dar prazer ao parceiro (amor erótico) só são possíveis graças a esta capacidade cotidianamente lapidada em nossa psiquê.
Já Buda fala sobre a dor e a frustração. Segundo o pensamento budista toda dor é oriunda da frustração de um desejo. Então quando o maldito Goethe criou um novo tipo de amor para entediada burguesia no século XIX cujo objetivo era encontrar duas almas que se amassem reciprocamente, a partir dali, criou-se um desejo que não existia antes (ser amado em retorno) e, com a existência de um novo desejo, uma série de pessoas frustradas, amarguradas e sofrendo apareceram, tempero para a vida sem graça da burguesia alemã. Acrescento inclusive que o livro do Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther, causou uma onda de suicídios na Europa porque os jovens burgueses perceberam que nunca foram amados como o personagem e, portanto, decidiram extinguir a própria vida. Mas voltando a Buda e o amor: é o desejo de ser amado em retorno, que não é o amor, quando frustrado (seja porque ele não te deseja, seja porque ela terminou com você), que causa todo o sofrimento dos amantes. Arranca-lhe lágrimas e rouba-lhes noites de sono.
Todos querem uma receita para não sofrer de amor e eu dou-lhes a minha: cresçam! Saiam dessa fase infantil de seu desenvolvimento em que seus desejos precisam ser satisfeitos ou vocês reagem como crianças mimadas. O amor não lhes deve nada. E quando se apaixonarem deem, somente isso, deem amor, carinho, atenção, tempo, a bunda, só deem e não peçam absolutamente nada em troca. Eu aprendi uma única coisa com minha terapeuta que eu compartilho com vocês aqui: não é, de fato, justo dar mais do que você receber. É, inclusive, sensato, dar a pessoa que você ama a mesma quantidade de amor, carinho, atenção, etc, que você recebe dela, evita que você dedique seu amor a uma pessoa que não o valoriza, porque esse tipo de coisa realmente existe. Contudo, todavia, porém, entretanto não faça nenhum ato de carinho seja com um namorado, uma amiga ou sua mãe somente para receber o carinho de volta. Entregue-o para fazer bem aquele que você ama, não para retornar a você. Sejamos todos apenas doadores e assim, somente assim, poderemos conhecer o amor verdadeiro.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Livraria, Hipermercado, Farmácia

, em Natal - RN, Brasil



Eu estava numa livraria quando me deparei com o livro Pura Picaretagem: Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ciência para te enganar, escrito pelos físicos Daniel Bezerra e Carlos Orsi, que discute os livros de autoajuda e, principalmente, a ideia recorrente de que pensamento é capaz de alterar a realidade. Li o livro todo em quinze minutos, pulado as inúmeras páginas sobre história da física, filosofia da ciência e mecânica quântica, restando com isso umas vinte páginas de tiradas sarcásticas sobre a ingenuidade popular dos quais ri concordando com todas elas.
A primeira crítica ri da falta de percepção das pessoas da absoluta psicopatia que é querer ser capaz de controlar tudo. Porque é disso que se trata: quando alguém diz que acredita que seu pensamento positivo é capaz de alterar a realidade, de fazer com que algo de bom aconteça em sua vida, ele está intimamente acreditando que tem o controle total sobre o que acontece consigo. É uma ilusão de onipotência, Nietzsche estava certo e o homem matou Deus! Meus amigos, ninguém é capaz de controlar o que acontece na própria vida. Podemos controlar como reagir ao que nos afeta, mas em hipótese alguma esperar que nossos pensamentos afetem a realidade ao nosso redor. Não posso, e este é um exemplo do Daniel Bezerra e do Carlos Orsi, pular de um prédio e esperar que com meu pensamento a aterrissagem seja confortável. Minha mente não é capaz de suspender a gravidade.
Sabe, também, quando dizem que o universo conspira ao nosso favor quando pensamos positivo? Balela! O único universo que poderia conspirar ao nosso favor é aquele formado por nós mesmos. Eu, você, cada um de nós, é um microcosmos, uma pequena realidade auto-contida e, em teoria, quando pensamos positivo nós nos esforçaríamos mais, lutaríamos mais, correríamos atrás do que desejamos, em teoria, repito. A verdade, revela o Pura Picaretagem, é que o contrário ocorre. Pessoas que pensam positivamente confiam que tudo há de se resolver magicamente, e simplesmente não agem, não se esforçam, não lutam, não correm atrás, sentam e esperam esperando a conspiração acontecer. Os físicos dão exemplo do vestibular de medicina da USP: seu pensar "positivo" pode não te fazer estudar e mesmo se o fizer estudar mais, não muda em nada o fato de que o estudante está concorrendo com vinte candidatos por vaga. O mundo não muda porque você pensou em arco-íris, unicórnios e coalas, ninguém vive na Terra do Nunca.
Porém, o que mais me irrita nesta conversa de pensamento positivo é que ela sai da boca de pessoas inteligentes que não veem que estão comprando o discurso capitalista da meritocracia com uma roupagem mística. Lembrem que este discurso nasceu em livros de autoajuda iupies como O Segredo e que traduz a ideia de que se eu trabalho o suficiente, eu alcançarei o sucesso, independente das barreiras que eu encontrar no caminho, isto é, que um menino nascido em uma favela carioca e um garoto criado nas coberturas do Leblon têm a mesma chance de sucesso na vida, basta que ambos trabalhem com afinco! Se você concorda com isso, o liberalismo te pegou, querido, e você é um homem de direita (ou mulher). Esta filosofia barata positiva diz o mesmo: não importa o lugar que você vive, as pessoas com que convive, sua vida em resumo, se você pensar positivo o suficiente a vida se abrirá para você como um Éden em que corre leite e mel e o cordeiro vive ao lado do lobo. Mas o que acontece se você não pensar positivamente o suficiente?
Eu não entendo como não se vê qual o objetivo disto. É claro feito Valium. O capitalismo meritocrata estabeleceu uma meta inatingível: a felicidade plena. E esta felicidade é de responsabilidade única e exclusiva sua. Você é o único que pode manter-se feliz, mesmo ninguém em nossa sociedade apreciando muito o estilo ermitão de viver, mas, sobretudo, não é nenhuma responsabilidade do Estado garantir a sua felicidade (o que por acaso vai de encontro a Declaração Universal dos Direitos do Homem), e a forma com a qual você pode fazer-se feliz é através de um controle espartano de sua própria mente. Mantenha os pensamentos positivos! Afinal qualquer falha, deslize, descrença, um segundo de dúvida, destruirá sua vida por completo, te arruinará, te condenará a danação eterna. Não é coincidência o uso de expressões religiosas porque é a partir de um esoterismo de salão que este discurso entra na moda e aparece entre os ricos da sociedade de países emergentes que acham lindo explicar que conseguiram seu dinheiro também por causa de sua mente apurada.
Só que quem é capaz de alcançar essa meta? Ninguém! A infelicidade faz parte da vida humana também, porém a culpa não é dos fatos, não é da economia e do Estado, não é das relações humanas, dos amigos, família e namorados, a culpa é do próprio infeliz que não consegue controlar os próprios pensamentos. Não é a toa que é junto com este discurso que explodem, como epidemia, diagnósticos de depressão, para qualquer lágrima derramada, e bipolaridade, para qualquer mudança de humor. As pessoas proibidas de serem infelizes, como na cidade futurista de Lolita Pille, são medicadas com remédios que não pretendem nenhuma cura e que causam seríssima dependência. Uma indústria criou um nicho e agora lucra com o mercado. Viva o capitalismo! O pensamento positivo não faz nada por você, meu amigo, pule fora desta filosofia religiosa de gôndola de hipermercado agora enquanto é tempo, antes que você tenha que frequentar a farmácia.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Cura Gay: O Começo de Tudo



Não vou discutir o absurdo desta proposta, nem a homofobia implícita neste projeto, ou o problema político que representa a presença de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos, o que me preocupa é o precedente que a aprovação deste projeto abre na sociedade brasileira, que ao meu ver leva somente para um caminho: uma teocracia cristã nos moldes do Talibã islâmico. A cura gay não é um projeto que legisla sobre a vida das pessoas, ele não se preocupa com o comportamento privado de nossos gays e lésbicas, este projeto pretende legislar sobre a psicologia, sobre as afirmações científicas que esta ciência construiu sobre as relações homoeróticas, sobre o conhecimento que desde o século XIX a ciência da alma produziu sobre este aspecto da psiquê humana.
A psicologia, como ciência, é a maior responsável pela criação da homossexualidade como a conhecemos hoje. Foi ela que diagnosticou o comportamento homoerótico como distinto do comportamento heterossexual e, naquele momento dos anos de 1800, definiu este comportamento sexual como doentio. Contudo, a ciência sempre se projeta para o progresso (quando há liberdade) e, com isso, um século depois, somente no fim do século XX, ela reconheceu que estava enganada e reconheceu que o único sofrimento que a homossexualidade pode trazer para um indivíduo é quando, por causa do preconceito, não consegue assumir o seu próprio desejo, definindo o Transtorno Egodistônico.
No entanto, este progresso é agora impedido do lado de fora da ciência. Um projeto de lei proposto por um grupo ligado a setores religiosos de nossa sociedade pretende, sob a desculpa de manter a liberdade de pensamento, legislar sobre um tema que lhe escapa completamente: uma verdade científica. Não é nada além disso! Os deputados-pastores e devotados católicos querem definir, a força de uma lei, o que uma ciência deve acreditar e defender. E isso é deveras perigoso! Não sei, neste caso, onde estão até agora o CNPq (Conselho Nacional de Pesquisas) e a SBPC (Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência) que não se manifestaram ainda temendo o mesmo que eu. O que impede que este mesmo grupo, a bancada evangélica, lance projetos de lei proibindo o Evolucionismo, a teoria que propõe que os seres vivos evoluíram a partir de criaturas unicelulares até os complexos seres vivos de hoje, na Biologia; ou proibir as pesquisas em Pré-História, já que a Bíblia diz que a Terra tem apenas 5 mil anos e os primeiros registros humanos no Brasil, por exemplo, datam de pelo menos 15 mil anos atrás?
Este projeto abre um precedente, como eu disse, que vai exatamente de encontro a desculpa que eles usam: a liberdade de expressão. Este projeto determina, de fato, que o poder legislativo brasileiro tem o poder de decidir como a ciência pode pensar, como deve agir e o que pode defender. Rouba-lhe, por completo, todo e qualquer liberdade de expressão. Nossas ciências estão agora sobre o mando poderoso dos homens da religião, voltamos a Idade Média. A aprovação deste projeto é a confirmação do controle de nossas mentes pensantes pelos nossos deputados e senadores e é assim que as piores ditaduras começam, inclusive Guerra nas Estrelas.


Feliz dia do orgulho gay!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Gentileza Gera Gentileza

, em Natal - RN, Brasil


As pessoas não se elogiam o bastante. Eu acho. Todo mundo fica sempre pronto para lançar uma crítica, para dizer o que não gostou, para apontar o dedo e dizer onde está a falha, mas cadê o momento de comentar o que foi bem feito, o que está bonito, o que deu certo? Com a internet inclusive ficou mais fácil. Um texto apontando críticas, defeitos, falhas, se populariza rápido e se torna viral; uma imagem de crítica, de erro, de um momento da Paris Hilton sem calcinha é compartilhada por milhares de pessoas; além disso se tem a possibilidade de se manter anônimo. O anonimato e a sensação de impunidade que ele permite fazem que as pessoas acreditem que podem dizer qualquer coisa, xingar um artista conhecido internacionalmente, apontar as falhas do projeto de um governante, acusar um político ou ameaçar de morte um blogueiro (se vocês não lembram, eu fui ameaçado de morte uma vez e fiz uma denúncia para me proteger numa delegacia especializada em crimes eletrônicos). O Twitter dispara xingamentos para todos os lados vindos de adolescentes revoltados (de todas as idades). Contudo quando é que somos elogiados? 
Primeiro, o que é o elogio? A palavra, segundo o dicionário Priberam, tem dois significados extremamente distintos: o primeiro significado tem a ver com louvar uma pessoa, fazer-lhe um panegírico ou um encômio, em outras palavras, falar bem e descrever as boas características de algo ou alguma pessoa; o outro tem o sentido de crítica, como em Erasmo de Roterdã (Erasmo inclusive brinca com este duplo sentido da palavra, mesmo), e censura, associado a ironia; mas aqui ignoremos o segundo sentido, porque neste sentido, é muito comum o elogio, não é? Mas porque ninguém gasta seu tempo, energia e boa vontade para louvar outra pessoa sem nenhum motivo por trás? É disso que eu quero falar aqui: tem muita gente ai que facilmente abre sua boca para destilar elogios quando pretende ganhar algo com isso, ganhar amizade, ganhar seu coração, comer você, isso é fácil de encontrar, mas por que não temos o hábito saudável de dizer as pessoas que encontramos elogios sem nenhum objetivo por trás disso? 
Isso é tão sério que, muitas vezes, algumas pessoas não aceitam bem quando ouvem um elogio. Estamos tão desacostumados que, algumas pessoas, não recebem um elogio quando ele é feito. Estas pessoas esperam que ele seja cobrado depois, como moeda de troca, te elogio e você faz algo para mim, que muita gente não aceita quando ganha um elogio com medo de ter que pagar por ele depois. Estas pessoas sempre manifestam uma modéstia falsa neste instante, mas não tem culpa, só não estão acostumadas a ser elogiado.  Também nunca acreditamos, quando ouvimos o elogio, que ele não tem segundas intenções. É difícil um homem falar um elogio a uma mulher sem que ela considere que ele está interessado nela, o mesmo entre homens gays, talvez exista ai um agravante machista, mas nossa falta de costume com o elogio reforça o problema.
Mas, na verdade, o maior problema é que não estamos acostumados com a gentileza. Nenhum tipo de gentileza. Não ouvimos bom dia quando cruzamos com alguém pela manhã, ninguém pede licença para sentar do nosso lado, raramente alguém pede desculpas por ter nos incomodado, a verdade, as pessoas raramente percebem que estão incomodando os outros. Este é o fato: perdemos o hábito da gentileza, e sugiro, todos nós, que passemos a exercitá-lo, porque gentileza gera gentileza, não é? Então vamos começar: primeiro diremos bom dia, boa tarde e boa noite a todos que encontrarmos; pediremos licença e desculpas a quem necessário for (e peçamos desculpas pelas pequenas coisas também), mas também é uma gentileza um pequeno elogio.  Então façamos um exercício hoje? Vamos espalhar por ai elogios? Começando agora: 3, 2...

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Evangelho Segundo Saturno

, em Natal - RN, Brasil

Deve ter terminado minha luta com Saturno, só pode. De um mês para cá, as coisas simplesmente pararam de dar em merda. É surpreendente e assustador. Mas deixem-me me explicar: desde os 29 anos, quando Saturno dá uma volta completa em torno do Sol, minha vida se tornou uma série inexplicável de percalços que reduziram minha fé, em Deus, no futuro e em mim mesmo, em minúsculas partículas. Porém, em abril, quando começa o novo ano (pelo menos o astrológico) e entrei no meu 32º ano de vida, magicamente, as coisas começaram a parar de dar errado. 
E quando eu falo dar errado, ao contrário do que muitos pensam por aqui, eu nunca fui homem de ficar esperando as coisas darem certo, as coisas simplesmente acontecerem. Eu sempre fui do tipo que corre atrás dos próprios sonhos, do que faz tudo o que está ao seu alcance para conseguir aquilo que planejou, desejou, sonhou, mas nos últimos três anos todas as minhas tentativas resultavam em estrondoso fracasso. Era difícil simplesmente levantar e continuar. Quando eu deixei Belo Horizonte e voltei para Natal, em novembro de 2011, eu estava exausto. Tão exausto que eu só pensava que a morte me permitiria algum alívio. E esse pensamento não se manteve apenas no plano das ideias, houve duas tentativas de suicídio, que no momento pareciam de fato a coisa mais certa a se fazer, hoje parecem birra de uma criança mimada. 
Foram 3 anos deveras cansativos. Ocorreram problemas em todas as esferas da minha vida: eu tinha pouco dinheiro, eu precisei espremer leite de pedra para não passar fome, inutilmente, porque foram muitos os dias que eu não tinha nada mais do que água para comer, passei fome de verdade; a tese no doutorado não fluía, eu passava dias para escrever cinco páginas, apesar de saber que eu era, facilmente, capaz de escrever cinco páginas em apenas um dia, tudo por causa da ausência completa de orientação na universidade, o que resultou, por fim, numa tese que quase foi reprovada; eu também me sentia sozinho numa cidade no qual eu era sempre um imigrante, afinal os mineiros exigem que você adote Minas como sua terra natal, adote os costumes deles, o sotaque deles, o seu modo de vida, como eu resisti a isso, eu sempre era considerado perigoso, e sim, eu sofri muita xenofobia em Belo Horizonte; e, obviamente, nem preciso contar sobre meus tremendos fracassos amorosos, sobre o sexo perigoso, as propostas envolvendo dinheiro e drogas ("a gente vai até sua casa, você me compra uma carreirinha de pó e eu te como") e os amores não correspondidos. Eu cheguei em Natal, de volta, exausto.
Ano passado então eu tentei me recuperar e mergulhei no mundo espiritual frequentando um templo universalista, fiz orações e trabalho voluntário, doei meu tempo e energia para pessoas que estavam doentes e sofrendo. Passei praticamente todo meu tempo livre dentro daquele templo nem que fosse varrendo o chão ou esfregando o vaso sanitário. Eu aceitei o desafio do sumo-sacerdote do templo quando pisei lá pela primeira vez: "Venha conosco e trabalhe, você mesmo disse que não tem mais nada, o que tem a perder?". Eu concordei e dediquei este último ano ao outro, no sentido mais cristão que estas palavras podem ter, e acho que agora um milagre aconteceu. Ou foi só Saturno que passou.
A lista, na verdade, ainda é pequena: primeiro encontrei o Mr. Creepie (que por acaso detestou este apelido), que apareceu na minha vida mostrando que, por incrível que pareça, algum homem é capaz de se interessar por mim; depois o apartamento, que um golpe de sorte juntou-me ao apartamento e a uma amiga que estava disposta para dividir; agora um aumento de salário (providencial), que não é muita coisa, mas já me permite de ter o luxo de uma internet melhor na minha casa; e agora, também finalmente, o meu diploma de doutoramento, é, por causa da minha orientadora eu ainda não havia sido aprovado, definitivamente, no programa de doutorado, somente agora, meses depois, eu sou finalmente um Professor Doutor.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A Dúvida Que Me Corrói

, em Natal - RN, Brasil


Sou um homem de poucas dúvidas na minha vida. Sempre tive muita certeza daquilo que eu era ou o que queria. Mas ultimamente eu tenho pensado muito em duas opções para minha vida que são antagônicas. Tenho ouvido na verdade muitos conselhos que afirmam categoricamente que eu estou errado, e são críticas de pessoas tão distintas uma das outras que eu começo a duvidar se estou certo. E tudo culminou, no sábado passado, quando sentei novamente em frente aquele pedaço de tecido onde meu amigo jogou as pedras das runas e, para falar da minha vida amorosa, aconselhou: "abra-se, pegue, mas não se apegue". 
Eu fiquei abalado com isso. Se quando até os deuses nórdicos me mandam sair por ai pegando e que eu não me apegue a ninguém que passe por mim, minhas crenças de que estava fazendo o melhor para mim ficaram um tanto abaladas. Que fique claro, eu não fico com as pessoas atualmente porque eu não dou em cima como eu dava antes, de chegar para conversar numa balada e tal, vê-se inclusive que nas poucas vezes que fiz isso ano passado, normalmente, eu fiquei com os meninos que eu cobiçava, mas o resultado final, em todos os casos, foi o mesmo, mesmo dando em cima e pedindo o telefone depois, as pessoas não se interessavam por nada mais além daquilo que já havíamos tido, principalmente após eu afirmar categoricamente que eu só fazia sexo depois de estar namorando. Como as pessoas se interessavam apenas por um beijo na balada ou uma noite de sexo com um semi-desconhecido, nenhuma delas voltou a falar comigo (temos a exceção do Fernando no qual eu omiti a parte sobre o sexo, mas aí fizemos sexo mesmo sem estar namorando e ele sumiu, como todos os outros, afinal era o único interesse dele).
Mal consigo escrever sobre este assunto dado minha confusão aqui. Eu, em resumo, não sei se devo manter minha política atual de não me envolver com ninguém. Evitar beijos e sexo com semi-desconhecidos. Ou se devo recriar o Heitor Renard, e fazer sexo com pessoas por aí sem fazer nenhuma conexão com elas além da física. O primeiro me faz mal, de fato, porque me afasta das pessoas, é uma realidade mesmo, diminui as minhas possibilidades de encontrar alguém, contudo a segunda opção é, no mínimo, repugnante para mim hoje em dia. Não critico ninguém que se relaciona com pessoas somente sexualmente, não é falso puritanismo, mas, até pouco tempo atrás, eu tinha crises de pânico só de me ver numa situação parecida como uma sauna ou o dark room, eu ficava apavorado. Hoje eu controlo esse sentimento, consigo entrar numa boate ou ir a uma casa de praia e ver todas as pessoas se pegando sem sair correndo do lugar imediatamente com falta de ar, no entanto, como o sexo com o Fernando provou, eu me senti muito mal por ter feito sexo com alguém que eu nunca mais verei de novo. Não deixei de ficar com homens porque eu deixei de acreditar que poderia encontrar alguém no meio da multidão que fosse capaz de gostar de mim, isso aconteceu depois, eu deixei de ficar com homens porque aqueles relacionamentos fracassados me magoaram profundamente. Vale a pena me apresentar de novo neste jogo mesmo sabendo que o resultado continuará sendo o mesmo: ninguém vai querer ficar comigo (afinal as próprias runas já avisaram que eu não devo me apegar)? Vale a pensa aceitar as esmolas como se fosse a única coisa que eu mereço?
Não sei nenhuma dessas respostas. Não sei o que fazer. Eu queria muito que alguém surgisse e me arrancasse desse círculo infinito, mas quais são as chances disso? Estou aqui, igual a Alice, não sei qual o melhor caminho a tomar.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Onde Está o Amor? ou Get Over It!

, em Natal - RN, Brasil


Um grande problema meu não é haver ou não haver pessoas que me amam. Elas existem! O problema é o meu coração, tão machucado e maltratado, que tornou-se muitas vezes incapaz de reconhecer o amor quando ele não está óbvio, pintado de vermelho, sustentando um cartaz imenso dizendo: Estou aqui e te amo! Este é o problema que agora tenho tentado resolver. Por exemplo: preciso reconhecer que agora, após sair do armário, o esforço que meus pais tem feito para manter tudo embaixo do tapete e ignorar tudo que foi dito é a forma deles de me amar. Não é a melhor forma, obviamente. Eu com certeza preferia que eles dissessem que têm orgulho de mim, mas o que eu esperava é que eles me expulsassem de casa. E isso não aconteceu. E não aconteceu por causa do amor. 
Preciso também entender que tudo que eles fizeram comigo, todas as surras, humilhações, etc, em resumo, tudo o que me tornou carente como sou agora, foi a forma torta e errada deles me amarem. Infelizmente este é um fato. Não foi por falta de amor que sofri o que sofri com meus pais, foi porque eles aprenderam que amar um filho é torná-lo o melhor e ser gay não estaria nesta lista. Além disso, durante os anos que morei em Belo Horizonte, tudo o que eles fizeram (neste caso) por mim, sem dúvida, demonstram o seu amor. Meus pais me apoiaram em tudo (sobretudo financeiramente) durante meu doutoramento e se isso não é amor, o que mais seria, não é?
Outro exemplo são meus amigos. Todos eles. Os que moram longe e os que moram perto. Neste último ano, que voltei para Natal, foi o ano em que mais me apoiei nos meus amigos que moram longe. Conversei mais com o Cara Comum e o Rajeik (de BH), o Gato de Cheshire e o BrunoEtílico (do RJ) e o Bernardo (que mora na Alemanha) do que com qualquer amigo meu de Natal. E, todavia, eu era sempre muito injusto quando reclamava da falta de amigos que eu sentia. Tudo culpa deste coração machucado que precisava de amigos perto para não se sentir sozinho. A distância não impede a amizade, graças a tecnologia (internet e telefones), a Alemanha é bem ali.
Sobre meus amigos de Natal, eu realmente os perdi. Morando cinco anos em Belo Horizonte, eu perdi com eles o hábito de nos encontrarmos, coisa que só comecei a recuperar agora. Notem: o que perdemos foi o hábito, não o vínculo. Eles perderam o hábito de me incluir nos programas que eles organizam, cabia a mim, e só a mim, ligar e perguntar o que eles estavam fazendo, e eles sempre estavam já em algum lugar e, simplesmente, não tinham lembrado de me convidar. Demorou para que eu voltasse a figurar na lista de convidados. Sem lembrar que como eles estão todos namorando, e eu sou o único solteiro, os programas em que eu sozinho podia participar eram menores, o que fez com que a situação demorasse ainda mais. 
No entanto, o vínculo nunca se perdera. O carinho deles por mim não deixara de existir. Ainda sou o futuro padrinho de casamento do Andarilho e do namorado, ainda figuro na lista de melhores amigos do Peter e do Miguel.
A ausência de amor, então, nunca fora um problema externo. Eu estava cercado de amor o tempo todo, mas a dor no meu coração era tão grande, tão imensa, tão sufocante, que ela não deixava passar as delicadas demonstrações de amor que eu recebia todos os dias. Era uma barreira interna. Tudo culpa da solidão. Não, minto, tudo culpa do meu medo da solidão. De fato, o fracasso definitivo da minha vida amorosa na capital mineira me deixou exposto ao meu verdadeiro medo de ficar para sempre sozinho e não poder ter uma família (já que nunca a tive quando criança/adolescente), este pavor me fez construir um mundo para mim no qual eu já estava sozinho para que quando eu me sentisse realmente sozinho não sofresse tanto. Por isso eu repetia obsessivamente que ninguém é capaz de me amar, para me convencer e com isso me preparar melhor para o futuro negro que eu vislumbrava e temia. Eu me dei doses homeopáticas de solidão, no entanto, convenhamos, o quão isto é idiota?
Eu não preciso temer nunca ser amado por aquilo que eu sou. Tudo bem, ninguém quer me namorar, isso é um fato que não podemos mudar, ninguém entre todas as pessoas que eu conheço e conheci foram capazes de se interessar por mim para algo além do que uma noite de sexo, mas eu digo para mim mesmo: Get over it! Supere, Foxx! Isso não quer dizer que não posso ser amado. Eu tenho uma família que me ama do jeito torto deles, mas me ama. Meus amigos distantes só estão distantes porque moram longe de mim, mas me amam do mesmo jeito. Meus amigos próximos estavam distantes porque eu morei longe por tempo demais, com esforço, graças ao amor que ainda existe, eu pude recuperá-los. Agora meu trabalho, meu desafio, é curar meu coração para que ele seja capaz de sentir o amor deles e, com isso, afastar o fantasma da solidão que me persegue porque como todo fantasma ele ganha força por causa da minha crença nele.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Especial BH: Mal Entendido

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Existe um problema recorrente em todos os meus relacionamentos virtuais (pelo blog, Twitter, MSN, Facebook), e também com algumas pessoas que me conhecem fora do ambiente virtual, nos quais todos fazem uma pequena confusão com o que quero dizer e, tudo, sempre termina com uma acusação de baixa ou total ausência de autoestima ou, simplesmente, pessimismo. Como a palavra impossível sempre faz parte nos meus argumentos de análises futurológicas do que vai me acontecer. Ela é costumeiramente usada muitas vezes. Muitas pessoas entendem que eu não me julgo capaz de conseguir as coisas que desejo (autoestima) ou que simplesmente reúno energias negativas e pensamentos derrotistas que me impedem de tentar realizar o que quero (pessimismo). Ambas as opções estão extremamente enganadas. 
Eu me acusaria de racionalista. Não que isso também não seja um defeito. Eu só enxergo o mundo de forma extremamente racional, onde não cabem acaso, sorte ou fé. Deixem-me exemplificar: o caso clássico da frase "Ninguém se interessa por mim". Essa frase sempre que é dita causa a mesma reação nas pessoas. Elas me elogiam. Dizem minhas qualidades, que sou bonito, inteligente e interessante, como seu eu não soubesse, como se eu não estivesse ciente delas. Eu estou! Nenhum dos meus interlocutores virtuais é capaz de imaginar, no entanto, que o problema não está em mim. Não sou eu que nem chego a me envolver com as pessoas porque me sinto um lixo e não demonstro interesse porque não serei correspondido. Isso nunca me aconteceu! Esta assertiva que utilizo, "Ninguém se interessa por mim", tem sua orgiem na minha experiência amorosa na qual envolve, por volta de 700 homens com os quais me envolvi, destes homens 10 eu tive mais de dois encontros e com apenas 1 eu tive um namoro a distância. Esse é o processo de racionalização de que falo:  do universo de homens que me envolvi, apenas 1,42% se interessou em me encontrar por uma segunda vez, destes eu namorei 0,14% deles. Estes 0,14% são a prova que os homens não se interessam por mim e isso não tem nada a ver com o fato de eu me considerar capaz ou não de conquistar alguém, os fatos demonstram que não importa o meu esforço (e foi bastante, convenhamos, 700 pessoas não batem a sua porta simplesmente) somente 1 delas correspondeu. Isso prova que na grande maioria dos casos os homens não se interessam por mim.
Outro exemplo é relacionado ao trabalho. Aqui me chamam de pessimista porque considero muito difícil melhorar minhas condições financeiras (em pouco tempo). Considero-me hoje um fracassado e que é bem é quase impossível me recuperar agora. E o por quê disso? Porque me formei em História e, ao me formar, passei em décimo lugar em um concurso que pagava de salário R$ 1005,00 quando pedi demissão para poder fazer o doutorado (eles não me liberaram para o doutoramento) que somando com outras escolas que eu ensinava dava um salário líquido de R$ 1605,00. Voltei do doutorado, no entanto, e consegui um emprego com mídias sociais, porque nenhuma escola se interessou pelo meu currículo, que paga (líquido) R$ 750,00 e vale transporte. Esta situação representa uma redução na minha renda de cerca de 53,27% e alguém ainda diz que eu não tenho motivos para reclamar? Que eu deveria enxergar o meu copo meio cheio? Daqui de onde vejo esse emprego é, no máximo, 1/4 do copo cheio.
Também tem aqueles que dizem que sou inteligente e posso tentar um concurso. Posso, de fato! Mas primeiro tem que haver uma vaga, uma vaga em um concurso que a minha formação sirva de alguma coisa. Fazer um concurso para um cargo administrativo agora é o mesmo que jogar fora tudo o que eu estudei até hoje no meu mestrado e doutorado. Ainda não estou preparado para simplesmente rasgar meus diplomas, porque eu não os conquistei para uma simples satisfação pessoal. O título de doutor, por exemplo, não me faz sentir mais inteligente. Eu fiz o curso para ter retorno financeiro. E, de fato, como mostrei anteriormente, eu só tive prejuízos deste investimento e o prognóstico continua nada bom.
E isso não é pessimismo! É fato! Vivemos em um país que não valoriza a educação e, por causa disso, sabemos de antemão que concursos para professor serão raros. Desde que pedi demissão da Prefeitura do Natal, eu tentei cinco concursos, porque em quatro anos somente abriram cinco concursos que eu estava apto a tentar. Estar apto significa que são na área que tenho experiência porque não basta você passar nas provas neste tipo de concurso, seu currículo e sua experiência na área também valem muito. Eu me inscrevi nestes cinco, mas obviamente não passei, e me inscreverei nos próximos até um dia conseguir passar, porém as oportunidades serão raras por causa desta conjuntura que vos apresento.
A avaliação que faço da minha vida não é um eterno rosário de reclamações infundadas como faz parecer quando alguém usa os argumentos de baixa autoestima e pessimismo. São problemas reais avaliados racionalmente, se eu deveria acrescentar um pouco de acaso e fé nessa avaliação?, com certeza deveria. Se eu acreditasse, por exemplo, que o acaso pode romper o padrão de homens que conheço e me apresentar pessoas capazes de se interessar por mim, eu talvez sentisse mais paz. Se eu tivesse fé que o governo brasileiro vai resolver cuidar seriamente da educação e abrir concursos regulares, eu ficaria tranquilo, pois seria apenas uma questão de tempo. Mas o cérebro não deixa, me sinto um tolo ingênuo se repito qualquer uma dessas hipóteses (eu ia escrever fantasias para vocês verem como é grave a situação). É como se todos me dissessem que a + b é igual a c, e eu somo aqui e o resultado sempre sai x


PS: Sim, estou em Belo Horizonte. Vim para a minha defesa da tese do doutorado. Desejem-me sorte.

sábado, 15 de setembro de 2012

Texto Que Me Envergonha

, em Natal - RN, Brasil
Não me sinto bem escrevendo sobre isto aqui. Porque prevejo as reações que virão por causa dele. Posso ver as pessoas que vão dizer que eu estou enganado, posso ver as pessoas dizendo que eu não tenho motivos para dizer o que digo. Vão inclusive apontar minhas últimas postagens dizendo que as coisas estão melhorando. Sei que alguém vai comentar que eu não consigo ver o que realmente acontece ao meu redor e tem também aquele que vai dizer que tudo vai melhorar, que eu só preciso dar tempo ao tempo. Sinto-me mal porque sei que boa parte dessas pessoas estão corretas (menos aqueles que dizem que tudo um dia vai melhorar) e que eu não devia mais estar sentindo o que sinto. Afinal, se eu tenho tanta certeza que minha vida não vai ficar melhor do que já está, com um emprego que me permite ter o mínimo que preciso, sendo parcialmente dependente dos meus pais, com poucos amigos que se mantém sempre fisicamente distantes (a situação é: eu tenho amigos, mas nunca tenho a oportunidade de estar com eles), sem considerar que é impossível alguém gostar de mim, ou melhor, minimamente se interessar por algo que não seja somente sexo, se eu tenho essa certeza porque sofrer, não é? Basta aceitar tudo exatamente do jeito que é. 
A Segunda Nobre Verdade do Budismo conta que o sofrimento é o que acontece quando lutamos contra aquilo que a vida nos oferece, em fez de aceitarmos as nossas experiências e de nos abrirmos a elas, com sabedoria e compaixão. Siddharta Gautama, o Buda, dizia que os desejos sempre levam ao desapontamento e este sentir-se desapontado, como estou agora, é a causa de todo sofrimento humano. Buda pregava que se um ser humano fosse capaz de matar o desejo, ele estaria livre da influência do bem e do mal, e com isso ele seria feliz. E alcançaria o Nirvana, uma doce aniquilação de todos os seus sonhos. Trocando em miúdos, o que eu deveria repetir o tempo todo é: "Bem, isso não é o que eu quero, mas é o que eu tenho; então, tudo bem!", me envergonha, no entanto, ter esta consciência e, mesmo assim, deitar a cabeça no travesseiro e fazer sempre a mesma oração: "Senhor, tem misericórdia de mim e, por favor, encerra minha vida, esta minha merda de vida, esta noite. Permite, te peço, por compaixão, que eu não acorde quando o sol novamente nascer". 
Eu não devia agir assim. Eu devia agradecer por simplesmente ter os bons amigos que tenho, mesmo eles morando longe ou pouco fazendo questão da minha presença; eu devia agradecer por ter este emprego, que não paga o suficiente para que eu possa sair da casa dos meus pais e nem a altura do quanto eu estudei em minha vida; eu devia aceitar o sexo sem sentimento com pessoas que não desejam nem saber o meu nome. Devia aceitar tudo isso porque a única coisa que tenho e que posso ter, mas não consigo e esta é a causa de todo o meu vergonhoso sofrimento.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Positivo

, em Natal - RN, Brasil




Não acredito em pensamento positivo. Acho tudo uma bobagem criada para vender livros de auto-ajuda e convencer a Xuxa. Até porque acreditar em qualquer coisa que a Xuxa também acredite é sempre perigoso.  Mas de qualquer forma eu explico sim porque eu não acredito. Em resumo, eu não acredito que seus pensamentos influenciem a sua vida de forma alguma. Imaginem que se eu acreditasse, por exemplo, que vou ficar milionário e manter minha bunda sentada no sofá da sala, nada vai me acontecer para me tornar milionário (apesar que eu poderia receber uma herança, mas quais são as possibilidades disto acontecer? mínimas, não é?), agora eu acredito nas ações das pessoas. Acredito que se uma pessoa quer namorar, outro exemplo, e se dedica a conhecer pessoas, sair com elas, a pessoa pode pensar o quanto quiser que não vai dar certo que, um dia, é possível que dê certo, fruto da insistência e do trabalho (no meu caso, especificamente, isso não funciona porque eu não quero mais me dar ao trabalho, cansei de tentar! Eu, sinceramente, não movo mais uma palha seca que seja para conhecer um outro cara). Mas, repito, tudo o que acontece é fruto de nossas ações. Ações em direção a algo são os tijolos que controem as vitórias de cada um de nós.
Dane-se se você não tem fé, continue seu trabalho mesmo assim que algum resultado vai sair disso. Ou desista. Mas ao desistir é necessário saber lidar com o sentimento de derrota. Desistir causa um processo de luto extremamente análogo ao da morte de uma pessoa. Afinal, algo morreu, uma parte de você morreu. Vejamos meu caso, novamente. Vocês conseguem imaginar a quantidade de energia que eu depositei neste sonho de namorar um dia? Quanto eu planejei uma vida que incluía um namorado? E meu investimento afetivo? Quando eu voltei para Natal, eu finalmente desisti deste sonho e eu passei por todas as fases do luto. Fases dolorosas. Inicialmente eu neguei com veemência que isso era impossível, então eu saia com pessoas e tentava namora-las; depois me isolei, que foi o período em que eu criei o personagem do Heitor; o terceiro estágio foi o da raiva, em que eu ataquei todos, inclusive os amigos; depois veio a fase da barganha, que me fez procurar um psicologo e sentar com ele para descobrir como lidar com essa dor, tentando lidar com ela de alguma forma; por fim o momento de depressão que, não por acaso, coincidiu com a minha chegada a Natal, e agora, vejo, começo a entrar na fase final da aceitação, porque começo a me sentir bem. Eu começo a fazer um distanciamento: aquela é minha vida, sim, ela é uma merda; este sou eu, vivendo esta vida de merda, mas me sentindo bem apesar de tudo isso.
Acho que estou em um começo, ou melhor, um recomeço. Uma fase nova que vem a envolver sobretudo a percepção que é possível que eu namorasse, apesar de todas as experiências negativas que eu tenho por aqui, porém como eu estou em Natal isto se torna impossível porque este meio ambiente não é favorável. Também envolve a percepção que, não obstante, eu ter mudado consideravelmente desde que juntei minhas coisas em duas malas e embarquei em um ônibus rumo a capital mineira, eu voltei para o exato mesmo ponto que eu estava quando tinha 27 anos, recebendo seiscentos reais de salário mensalmente e vivendo sob a tutela dos meus pais, sem amigos e sem namorado; eu mudei, de fato, porque agora sou capaz de aceitar o mundo que eu me julgava deslocado, hoje eu percebo que ele é o único em que eu posso viver.
Aviso que ainda dói,  mas apenas porque eu ainda estou muito machucado de todas as tentativas anteriores. Agora é só lamber as feridas e banha-las com unguentos já que não preciso mais caminhar. Finalmente algo de positivo.