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domingo, 9 de novembro de 2014

"Covardes, Estupradores e Ladrões"

, em Natal - RN, Brasil
Estava lendo Masculinidades, o livro organizado por Mônica Schpun, e um dos textos escritos pela antropóloga paulista, professora da UnB, Lia Machado, Masculinidades e violências: gênero e mal-estar na sociedade contemporânea, me fez pensar. O texto fala sobre estupros e violência doméstica através de entrevistas com os próprios estupradores e os agressores, eles explicam porque cometeram tais atos e ela explica o raciocínio machista que faz com que estes homens pensem que não cometeram crime nenhum pois, segundo eles, toda mulher estuprada queria fazer sexo e toda mulher agredida precisava aprender uma lição. Lia, se ela me permite a intimidade de chamá-la pelo primeiro nome, é adepta (como eu) da corrente histórico-sociológica que admite que o gênero são construções simbólicas que podem ser datadas no tempo, no espaço e, sobretudo, nas culturas. Ela chama isto de "construtivismo de gênero", e para citá-la (que faz bem): "os gêneros são construídos cultural e historicamente, podendo, assim, variar em número, em identidades e diferenças, ou até mesmo desaparecerem". Como eu já repeti aqui várias vezes. Homens e mulheres, masculino e feminino não são categorias naturais, elas são construções históricas que advém da revolução burguesa do século XIX e início do XX, isto é, esta coisa que nós consideramos natural foi inventada há mais ou menos 150 anos, seu vaso sanitário, aquele que você usa no banheiro, é mais natural já que foi inventado há pelo menos 3 mil anos atrás. 
Falando com os estupradores, a lógica de raciocínio destes homens me fez lembrar daquela que coloca os gays ativos numa posição superior aos gays passivos (inclusive de agora em diante eu irei me referir a este tipo de preconceito como "a lógica do estuprador", vocês também estão livres para usarem minha nova expressão). No imaginário do erotismo ocidental, como sabemos, o lugar do masculino na relação é pensando como aquele que se apodera quando penetra, este é o sujeito da relação sexual e, portanto, ATIVO; enquanto aquele ou aquela que é penetrado/a é identificado como um objeto do prazer do primeiro, um PASSIVO. É importante perceber que o sujeito ativo da relação sexual é o único que cabe ter prazer, mulheres e homens que se colocam numa relação passivamente não podem sentir prazer porque objetos não sentem prazer. Quando, e vemos isto sobremaneira com relação a mulheres, este objeto sexual exige seu próprio prazer, ele é combatido porque não cabe ao feminino gozar. 
É sintomático as palavras que nós escolhemos para separar nossas preferências sexuais. Em inglês são usados com frequência os termos top (de cima) e bottom (de baixo), com uma clara referência as posições na cama, o mesmo se dá em finlandês (päällä e alla), mas os termos pitcher (pegador) e catcher (pegado) também existem; como em português, no francês, alemão, turco, italiano, servo-croata, polônes e russo, os ativos e passivos reinam; também matendo o mesmo sentido de aquele que penetra sendo o que tem o controle da ação: em grego, energeticos (o que age) e patheticos (o que recebe a ação) e em chinês, gong (o que ataca) e shou (o que se submete). Como exceções, porque toda regra tem a sua, o japonês faz metáforas, tachi (longa espada) e  neko (carrinho de mão); o árabe compara a correntes elétricas, mojib (positivo) e salib (negativo), e que fique claro que isto não é um julgamento moral, são as mesmas palavras usadas para distinguir os polos de uma pilha, por exemplo, e o espanhol que apesar de também conhecer o activo e pasivo, usa com bastante frequência soplanuca (sopra nuca) e muerdealmohadas (morde fronha/almofada).  
Não é interessante de como estamos inundados por este machismo e nem nos damos conta dele? Nós mesmos que somos gays escolhemos as palavras para nos definir e caímos no esquema que divide nossa sociedade a partir da dicotomia masculino e feminino. Nós criamos um homem, o ativo, e uma mulher, o passivo, e esperamos de cada um deles comportamentos masculinos e femininos. Quer exemplos? Todos se surpreendem ao encontrar uma drag queen ativa, todos acreditam que porque tal menino é mais delicado e efeminado ele necessariamente é passivo, todos aguardam que porque aquele cara não tem trejeitos ele vai ser o ativaço na cama. Nós que poderíamos romper com tudo isso, que foi nos dado por Deus o dom de superar todas estas questões machistas na sociedade e viver relacionamentos realmente livres de padrões impostos socialmente, acabamos por reproduzir o sistema heterossexual no seio de nossas relações.
Lia Machado conclui sua fala com os estupradores assim: "O ato do estupro parece sintetizar a confusão entre a ideia de masculino como parecendo advir do único corpo sexuado que se apodera do corpo do outro, parecendo ter o falo, isto é, a potência e a força, e a ideia de masculino como parecendo ser a lei, já que neste ato sexual suprime-se a mulher três vezes: enquanto corpo sexuado que pode se apoderar de outro corpo, enquanto sujeito desejante e enquanto sujeito social que participa da confecção da lei". Extrapolo facilmente isto para o mundo gay. Considerar que o ATIVO tem alguma situação social superior a sua contraparte, considerar que a este cabe potência e força, repetir para ele e exigir dele os modelos de conduta do homem heterossexual é considerar que o homem gay PASSIVO: 1) não tem o poder de dominar um outro homem, e o que quero dizer com isso é que ele não tem um namorado, o marido não é dele, ele não tem nada, ele pertence a outra pessoa, vive para a outra pessoa, depende do outro para ter sua própria existência; 2) não é um ser sexuado, isto é, ele não tem desejo, nem prazer sexual, ele apenas serve ao seu homem como objeto para dar-lhe prazer, um problema grande também sobre isso é a fantasia sobre o pênis e o orgasmo masculino, a questão de acreditar-se que o único tipo de prazer sexual que você pode ter é se houver ejaculação, isto é, repetir o ultrapassado modelo heteronormativo (a Sandy já disse, é possível ter prazer no sexo anal); e, 3) por fim, o gay passivo não é um sujeito social, estes sujeitos não têm o direito de existir, ele deve ser apagado da nossa sociedade o máximo possível inclusive naquilo que nós julgamos como denunciador de passividade, no caso, ser efeminado, em outras palavras, tudo bem você ser gay, tudo bem você adorar dar o cu, mas ninguém precisa saber. 
Os homens gays repetem lógicas doentias quando, como eu disse, Deus nos deu a chance de vivermos livres delas e de mostrarmos ao mundo o quanto podemos ser felizes se nos libertarmos das imposições que a sociedade criou séculos atrás e disfarçou de natureza para nos ludibriar. Este é nosso papel na sociedade, afinal de contas: quebrar paradigmas! A família não é somente homem e mulher, um relacionamento não é um homem controlando e uma mulher obedecendo, um filho não é somente uma criatura com seus próprios genes e, às vezes, nem da própria espécie, roupa masculina não é só bermuda cargo, camiseta e tênis esportivo, existimos desde sempre mostrando que o mundo está repleto de possibilidades e, no último século, que mudar não faz mal, por isso não podemos reproduzir os erros deles. Nós somos melhores, não somos?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Preconceito Bipolar

, em Natal - RN, Brasil
Tem coisas neste nosso mundo gay que eu não entendo como ainda acontecem. A gente está ai, quase na segunda década do século XXI, e eu ainda tenho que escrever texto sobre o preconceito que homens gays tem dos bissexuais. Sabe?, para mim, é simplesmente absurdo, tanto quanto a homofobia internalizada e o preconceito contra efeminados, os motivos são tão óbvios que devíamos estar focando em combater o porque disto existir e não gastar tanta energia repetindo discursos comprados. Último dia 23 foi o Dia da Visibilidade Bissexual, o dia foi criado em 1999, por três ativistas dos direitos bissexuais nos Estados Unidos, eles alertavam que depois de Stonewall, a comunidade gay e lésbica havia crescido em força e visibilidade política, enquanto o mesmo não havia acontecido, na mesma proporção, com a comunidade bissexual. Em muitos modos eles ainda continuavam invisíveis sobretudo porque quando vê-se um casal andando de mãos dadas tacha-se logo que os membros são ou héteros ou gays, dependendo do gênero que percebe-se das pessoas, nunca imagina-se que algumas daquelas pessoas possa ser bissexual. O evento foi concebido como uma resposta ao preconceito e a marginalização que pessoas bissexuais sofrem tanto das comunidades hetero como gay.
Repete-se, sobretudo no mundo gay, que os bissexuais são pessoas indecisas. Que não decidiram e que precisam fazer isto. A origem deste preconceito é bem clara, na verdade. Muitos meninos gays adentram na vida homossexual assumindo uma imagem bissexual porque acreditam que assim, entrando aos poucos, digamos, eles são menos gays. Acreditam eles que por mais que se envolvam com homens, na verdade eles gostam mesmo é de mulher, e conseguem, nesta fase de transição, aceitar o rótulo de bissexuais, afinal estes são ainda homens de verdade porque esta terrível categoria (e isso é deliciosamente irônico) é sempre aquela definida por causa das mulheres que existem em sua vida. O preconceito gay se baseia neste personagem: o homem gay cheio de preconceito contra si mesmo que assume o rótulo de bissexual para ser menos gay. Este problema existe, é real!, e precisamos lidar com ele ao discutir o preconceito homossexual com este grupo com o qual dividimos nossa sigla política. Para boa parte da população gay, todo homem bissexual é na verdade um homossexual que está enganando sobretudo a si mesmo. 
Mas a realidade é muito mais complexa. Não existem somente estes dois blocos antagônicos de sexualidade, a heterossexualidade e a homossexualidade. Citando a escala Kinsey, entre os dois estava exatamente a bissexualidade. Existem pessoas sim que se interessam por ambos os gêneros e que não estão mentindo para si. Existem homens e mulheres que se sentem atraídos tanto pelo seu mesmo gênero quanto ao seu oposto. Eles existem e cabe a nós aceitá-los, mas também cabe a nós criar um ambiente livre de homofobia que não faça com que um homem gay se sinta mais confortável definindo-se como bissexual do que como gay, que ele se sinta mais seguro mantendo uma relação com mulheres somente para não sentir-se um não-homem. É necessário para combater o preconceito contra bissexuais combater a definição de homem, raiz da homofobia, que define este ente como aquele que tem relações sexuais com mulheres. Quanto mais distanciarmos a definição masculina desta relação sexual com o gênero oposto (o que também causaria uma bem-vinda redefinição do que é ser gay para além do ato sexual)  e também afastarmos a imagem negativa dos gays e lésbicas, os jovens não precisarão utilizar o rótulo bissexual para suportar a sua transição de saída do armário. 
Toda a questão se resume, principalmente quando pensamos na invisibilidade bissexual (questão que eu não imaginava que existia, mas faz muito sentido), a uma definição que é absolutamente necessária para que abracemos a diversidade sexual humana com toda a sua gama de possibilidades. Desde já temos que ter a consciência que o fato de um homem fazer sexo com outro homem, namorá-lo ou mesmo amá-lo não o faz necessariamente gay, como o fato de um homem fazer sexo com uma mulher, namorá-la ou amá-la não a faz heterossexual, porque ser gay, ser hetero ou ser bissexual precisam ser definidos para além da relação que a pessoa tem com outras pessoas, isto é, para além de um rótulo externo, para serem definidos, em contrapartida, para as identidades que construímos interiormente. Somos gays, heteros ou bissexuais porque nos identificamos assim, esta identidade sexual, como a identidade de gênero, não podem ser construídas através de símbolos externos. Tendo esta consciência é preciso adotar o exercício de somente definir pessoas depois de conhecê-las realmente, o problema do preconceito é que ele sempre pressupõe coisas antes de realmente perguntar e isto sempre causará problemas. Precisamos de parar de ter preguiça para conhecer as pessoas no lugar de jogá-las dentro de nossas gavetinhas de gays, heteros ou bissexuais, somos mais do que isso, felizmente!