Google+ Estórias Do Mundo: homofobia
Mostrando postagens com marcador homofobia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homofobia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Parada Parada

, em Natal - RN, Brasil
Natal teve neste domingo, 16 de dezembro, a sua XIV Parada do Orgulho LGBT, ela estava programada para sair do bairro de Ponta Negra, que tem o nome da famosa praia potiguar, onde haveria sua concentração e se seguiria-se para a praça da árvore de Natal, em Mirassol, onde um palco traria atrações regionais como cantoras e shows de drag queens, tudo muito simples para um público esperado de não mais do que 100 mil pessoas. Contudo no momento em que os motores dos trios elétricos são ligados, chega a ordem vinda do Corpo de Bombeiros Militares do Rio Grande do Norte, a parada gay não poderia sair.
Os trios elétricos não tiveram permissão do CBM para fazer o pequeno percurso animando o público que já se aglomerava. Eles interditaram os trios elétricos argumentando que eles não ofereciam a segurança necessária; seguiam ordem da Cosern, Companhia de Eletricidade do Rio Grande do Norte, que argumentava que os trios elétricos poderiam cortar os fios de alta tensão ao passar no seu trajeto pela avenida. Os organizadores esbravejaram. Xingava-se a governadora Rosalba Ciarlini, acusava-se de homofobia institucional o Corpo de Bombeiros, o comandante-geral da corporação, cel. Dantas, também não foi perdoado. Foi quando um grito de ordem ecoou pelos altos falantes: "Se eles não permitem que saiamos com os trios, nós ocuparemos a avenida". Os participantes atenderam o apelo e espalharam-se pela avenida Engenheiro Roberto Freire, impedindo o trânsito dos carros e fechando a principal artéria da zona sul da cidade. Perguntava-se se no Carnatal, que havia sido semana passada, os bombeiros também faziam as mesmas exigências de segurança para Cláudia Leite cantar seu Largadinho.
O trânsito constante foi então bloqueado por drag queens em cima de saltos altíssimos e leques imensos. Meninos usando regatas cavadas se espalharam pelo asfalto dançando ao som da musica ensurdecedora que continuava saindo dos trios. Um dos organizadores conclamava: "Lembrem-se em quem vocês vão votar na próxima eleição, meus amigos, nós fomos impedidos de realizar nossa parada porque vivemos num governo homofóbico de uma governadora que usa tailleurs da década de 50 com os brincos mais cafonas que eu já vi na vida". Gargalharam com a comparação que ele fez em seguida entre a governadora e o personagem Valéria, do Zorra Total.
"Who run the world? Girls!" explodindo no outro trio era a trilha sonora de motoristas impacientes  que só podiam olhar enquanto uma drag desfilava sua bunda desnuda na frente do seu para-brisa. Outro organizador grita no microfone: "Fora Rosalba! Somos cidadãos e merecemos respeito!". Outro agradecia, no entanto, o apoio da prefeitura de Natal, que permitira o uso da avenida, na figura da Secretária de Saúde que estava em cima do trio elétrico, também agradecia a Polícia Militar que fazia a segurança e protegiam, agora, os manifestantes dos carros. Por entre os carros então manifestantes resolveram distribuir camisinhas e pediam assinaturas para um projeto de lei que criminalizaria a homofobia. 
Meninas logo colocaram suas garrafas de refrigerante e vodca no chão e faziam círculos onde conversavam animadas e paqueravam outras meninas que passavam por ali. Inúmeros vendedores ambulantes também começaram a tomar o espaço, puxavam seus carrinhos com uma grande caixa de isopor e uma placa imensa dizendo Skol R$ 2,00 e ocuparam a avenida se fixando entre os participantes que dançavam "hey, ey, ey, ey, like a girl gone wild, a good girl gone wild". Uma drag queen convidava as pessoas nos ônibus parados para descer e comemorar o orgulho de ser quem somos. 
A organização do evento tentou uma liminar na justiça autorizando que o evento ocorresse, e conseguiu, porém o comando do Corpo de Bombeiros ignorou completamente a ação. Eles estavam irredutíveis! Então o protesto se manteve. Foram sete horas de trânsito bloqueado. A polícia teve que intervir e criar um desvio após as duas primeiras horas. Mas o congestionamento foi inevitável. As 20:45 da noite, a primeira fala dos bombeiros apareceu. Thaisa Galvão, blogueira natalense de politica, disse que o coronel Dantas afirmava que a questão era exclusivamente a segurança, que os trios elétricos tinham 6 metros e não 5 como fora permitido. "Pode ver que ali na Roberto Freire os fios são baixos e tem até fios de alta tensão". Mas eu lembrei que o trio elétrico do Chiclete com Banana tem 7 metros de altura, e o de Ivete Sangalo 5,40. O tema da parada este ano, "A Homofobia fez isso comigo, e com você?", me pareceu bem apropriado.



terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Que É Homofobia?

, em Natal - RN, Brasil
Eu fiquei chocado demais com o último texto do Para Ladys para ficar em silêncio desta vez. O trecho que me incomodou eu repito abaixo:

Existem várias formas de ser preconceituoso. Outro dia eu admiti que não gosto de gays "afetados", alguns falaram que isso era homofobia, mas não é. Isso por que eu nunca agredi fisicamente ou verbalmente ninguém. Mas existe um tipo de preconceito que é o pior de todos, que são aquelas pessoas que se dizem abertas para a diversidade em seu discurso mas que na prática agem de forma preconceituosa.


Eu sinceramente reli esse excerto umas quinze vezes para ver se eu não estava entendendo errado. Pedi ajuda perguntando a algumas pessoas se eu não tinha lido errado, mas, infelizmente não li. O trecho repete um discurso extremamente comum, inclusive, de que homofobia só existe quando há uma agressão. O bom é a própria resposta ao comentário do Frederico que ele escreve em seguida: o pior tipo de preconceito é o que advém de pessoas que se dizem mente aberta ou que sofrem o preconceito, mas que na prática agem com preconceito. 
Deixem-me então ser mais didático e explicar o que é homofobia. O dicionário Priberam define homofobia como "repulsa ou preconceito contra a homossexualidade ou os homossexuais". É bom lembrar que o dicionário nos dá duas pistas, a primeira é a ideia de repulsa, a segunda de preconceito. Falemos da primeira. Repulsa, segundo o mesmo dicionário, se aproxima dos significados de repelir, rejeitar, recusar, afastar, você repele, rejeita, recusa, afasta de si, coisas que você não gosta, não é? Ou estou enganado? É quando você não gosta de algo que você a distancia de si, não é? Então, quando ele fala que ele "não gosta de gays afetados", ele afirma com todas as letras que repele, rejeita, recusa e afasta de si gays afetados, se ele faz tudo isso, ele tem repulsa a uma das formas em que a homossexualidade se apresenta. 
E que isso fique claro: ser efeminado, afetado, afeminado, é também uma das formas que a homossexualidade, como sexualidade humana, se apresenta. Homens com traços femininos fazem parte da História humana desde a Antiguidade e nunca deixaram de existir entre nós, muitos deles inclusive são heterossexuais, mas vários são homossexuais. Inclusive culturalmente, os japoneses e, aqui no Brasil, os mineiros têm uma expressão de sua masculinidade que para muitas outras regiões do mundo seriam consideradas efeminadas. Então, manifestar repulsa contra essa parcela da população homossexual é sim manifestar homofobia, não contra todos os gays, mas homofobia contra um parcela específica da população homossexual. Tipo este de homofobia extremamente comum entre os próprios gays em relação a grupos com os quais eles não se identificam, vejam os efeminados contra os machos, ou as barbies contra os ursos, ou os travestis contra todos os outros, preconceito comum, e preconceito homofóbico.
É importante lembrar que "não gostar de efeminados" não significa apenas não gostar de um determinado recorte do universo homossexual. É bem mais que isso! É rechaçar uma característica que é entendida historicamente no meio heterossexual como um sinônimo mais direto de homossexualidade. Um homossexual que nega de forma muito veemente características que são culturalmente impostas a condição gay talvez tenha dificuldades para se auto-aceitar e, por meio desta fuga destes elementos, seja ser efeminado, seja gostar de divas pops, seja manter o corpo sarado, tenta intimamente se heterossexualizar.
Voltando ao segundo significado dado pelo dicionário, o que significa preconceito? Preconceito, segundo o Priberam, é uma "ideia ou conceito formado antecipadamente sem fundamento sério ou imparcial", significa que no caso dos efeminados você nem viu o garoto, mas já define que não tem tesão por ele porque você já sabe por antecipação que nenhum homem que possua a característica de ser efeminado pode vir a despertar desejo em você. O segundo significado de preconceito no dicionário fala de manter uma "opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos", cito o texto do Frederico como exemplo (chamava-se Seria Eu Um Homofóbico?): neste ele dizia que homossexuais efeminados eram sempre mais escandalosos e "mal educados", foi a expressão que ele usou, quais dados objetivos ele levantou para afirmar que todos os homens gays efeminados do universo são mal educados?
Por fim, o dicionário dá o último significado para preconceito como um "estado de cegueira moral", e ai eu fico a pensar se não é exatamente esse o problema. Quando não reconhecemos nossa própria homofobia e criamos um blog que fala para um público imenso nossa opinião que está permeada com nosso preconceito, não enxergamos que estamos alimentando também a homofobia que nos atinge. Afinal todo blog tem a capacidade de falar para um público imenso, isso é a internet, e o Google está ai e alguém pode perguntar "Sou homofóbico?", e cair nos nossos blogs e por causa de textos como estes achar que não é. Ou pior, quando alguém afirma claramente que por que ninguém foi agredido fisicamente ou verbalmente o ódio pode existir, porque este pode não ser um significado presente no dicionário, mas quando vivemos numa sociedade em que seres humanos são brutalmente agredidos com lampadas, paus e pedras (um menino de 19 anos morreu a pedradas em Natal por ser gay essa semana) precisamos incluir no significado de homofobia também o ódio a homossexuais de tal maneira que pode mover alguém a acabar com a vida de uma pessoa inocente apenas por causa de sua orientação sexual. 
O ódio por outro ser humano não pode existir de forma alguma. Em nível algum. Sua homofobia não está perdoada se você a mantém apenas dentro de sua mente, se você não tirou sangue de nenhum viado que passou pela sua frente ou porque você não xingou ninguém que passava por você na rua. O respeito, "sentimento que nos impede de fazer ou dizer coisas desagradáveis a alguém", e a aceitação, "estar conforme com, admitir", não podem conviver com o mal, e como dizia Confúcio, o bem não está em não fazer o mal, está antes em não desejar fazê-lo.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Argumentos Contra A Parada Gay

, em Natal - RN, Brasil
Em uma discussão no twitter com o @heterofobia e @rafaourives, levantei os três pontos principais que a comunidade gay fala contra a Parada Gay: primeiro, que é apenas festa; segundo, que denigre a imagem dos homossexuais por mostrar apenas promiscuidade e que ela não é representativa da comunidade gay por reforçar apenas estereótipos. Este assunto ainda está em pauta porque, apesar da parada paulista já ter acontecido, cidades como Belo Horizonte, Salvador e Rio de Janeiro estão preparando as suas ainda, aqui em Natal é apenas em novembro.

A Festa e a Política

O argumento diz que a Parada gay "perdeu" seu aspecto de ativismo e tornou-se apolítica, não passando mais do que uma micareta gay. E eu repito, este argumento é uma falácia. Primeiro, porque a parada gay não perdeu seu aspecto ativista e militante, porque ela é organizada por grupos ativistas e militantes e não por uma promotora de eventos, ela coroa uma semana de discussões que, quem acompanha sabe, acontece durante toda a Semana de Orgulho Gay das cidades que realizam. Se as pessoas não sabem desses outros eventos, aí é questionar porque não interessa aos meios de comunicação de mostrarem algo além da Parada. Outro ponto é que a parada é pensada para ser uma festa e não uma passeata. Ela é a festa que encerra a semana do Orgulho Gay.
Ai vem outro ponto: a parada não é um espaço para se exigir nada porque ela é um espaço de mostrar que os homens gays e as mulheres lésbicas, os\as transexuais e travestis, além dos bissexuais, tem orgulho de ser quem são. É um momento de comemorar o fato destas pessoas terem vencido uma sociedade que sempre te disse que eles deveriam se envergonhar de ser quem são e caminhar sempre nas sombras, ela é o momento de comemorar com alegria e cor e de sair em plena luz do dia mostrando a todos que não existe nada o que esconder. Absolutamente nada!
Critica-se então dizendo que nesta comemoração não existe nada de político. Não se acredita que a festa, per si, também é um ato político. Os romanos com seus circus maximus, os reis medievais com o carnaval, a Igreja Católica com seus dias santos, a República Francesa com seus feriados nacionais, nossos governantes com a Copa, todos eles sabiam e sabem do poder político da festa, que pode não ser ativista como o de um militante ou deputado que consegue a aprovação de uma lei, mas que funciona politicamente, de forma perfeita, no lugar do simbólico. 
É necessário pensar o que significa se fazer uma "micareta gay" em um ambiente homofóbico em que vivemos. É necessário pensar o que significa realizar uma festa gay na rua de qualquer cidade brasileira em segurança e sem ouvir xingamentos de todos os lados. É necessário também lembrar que a possibilidade desta liberdade uma vez por ano abre o precedente para que os gays possam exigir que esta liberdade possa acontecer todos os dias. Se ainda não acham que isso é pouco, a festa é sendo somente uma festa também um ação política em que homossexuais, transexuais e bissexuais tomam conta das principais avenidas de suas cidades e ficam sua bandeira dizendo que circulam também no espaço público, que este precisa abraça-los também, porque são cidadãos da cidade e as políticas públicas precisam contar com eles. A parada gay é sim, somente uma festa! Só que isso, definitivamente, não é um defeito.

A Imagem Que Se Constrói

A Parada começou com o objetivo de promover visibilidade. As paradas brasileiras tinham como objetivo inicial mostrar para a população brasileira que os gays existem, de fato, que estão entre eles, que são seus médicos, professores, artistas e advogados, era um outing coletivo. Que queria provar que existimos e exigir que não fossemos mais empurrados para as sombras dos guetos. Contudo se argumenta que as pessoas que frequentam a parada são promiscuas e que efeminados e travestis (de um lado) ou garotos musculosos descamisados (de outro) não representam em nada a comunidade gay como um todo. Falemos de cada um separadamente. 
A primeira critica é sempre que a imagem que a parada gay cria sobre os homossexuais é uma imagem de promiscuidade, que as pessoas que vão para lá reforçam a imagem (cristã) que os gays são apenas depravados e predadores sexuais. Argumenta-se que os participantes da parada gay são em 90% pessoas que vão lá apenas para fazer pegação e sem a menor consciência política do que significa a parada. Não existe comprovação nenhuma deste argumento, muito menos desta porcentagem (o que seria interessante inclusive perguntar, em uma pesquisa com os frequentadores, se estes conhecem o tema, por exemplo, da parada), mas ela é repetida sempre que o assunto é abordado. 
O pior que o contra-argumento é sempre o mesmo, também. Que se os homossexuais são promíscuos, o que dizer dos heterossexuais em suas festas (micaretas, rodeios, bailes de carnaval)? A resposta, esta sempre dada por homossexuais (que estão repetindo uma crítica heteronormativa ao mundo gay), é que no ambiente gay a promiscuidade é muito maior, mais clara, mais explícita. Mais clara e mais explícita, eu até concordo; porém maior não. Gays e lésbicas ainda são aprisionados nos guetos e pouco frequentam ambientes heterossexuais e, esta é a única explicação que consigo imaginar, não conhecem o que acontece nestes outros ambientes. Um exemplo que me é bem familiar é do Carnatal, carnaval fora de época de Natal, em que pessoas fazem sexo atrás de carros na rua e que a tv exibe beijos triplos (entre duas mulheres e um homem) e pessoas fazem competições de quantas meninas/os beijaram por dia de evento. O carnaval em cidades mineiras ou no Rio de Janeiro também não é muito diferente disso, a contagem de nascimentos de crianças em novembro no país demonstram.
Outro parte deste argumento é que os críticos não se vêem representados pelos gays que participam da parada. Este argumento é tolo, porque a parada não se pretende mais representativa. Não é mais o objetivo da parada gay requerer visibilidade, agora ela tem como tema pleitear direitos (veja: tema, não objetivo) e , por isso, não cabe a ela educar que existem mais tipos de gays que os efeminados e drag queens ou que garotos de corpos talhados pela academia. Até porque a parada em si não tem como controlar exatamente que público a frequentará, não pode proibir que certas pessoas venham e certas não e, sobretudo, se você quer que a parada gay te represente vá lá e mostre seu rosto. Esteja lá, com os frequentadores, sendo a pessoa que você é. 
No entanto, e acho isso mais importante, quem mostra que a parada gay é formada apenas por efeminados, drag queens e go go boys é uma mídia que se interessa apenas em mostrar o que é o diferente. Uma mídia (televisão, jornais e sites) que se interessa pelo extraordinário, pelo inusitado, pelo excêntrico, e se excusa a mostrar dois homens comuns, de mãos dadas, caminhando orgulhosamente sem chamar nenhuma atenção sobre si. A culpa se a parada gay reforça estereótipos não é dos frequentadores da parada é da mídia que se interessa em mostrar somente os estereótipos para que o público que só conhece o próprio estereótipo reconheça a parada como gay. A crítica não deveria ser a parada, mas a uma mídia que não se importa em falar a verdade, mas que se preocupa somente em ser entendida facilmente por uma população que não conhece nada mais do que uma iconografia preconceituosa sobre o mundo gay. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"Orgulho De Ser Homem, Orgulho de Ser Mulher"

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
São Paulo, a cidade da maior parada gay do mundo, também é, agora, também a única cidade a celebrar o dia do heterossexual. Como todos já devem saber, o ilustríssimo vereador Carlos Apolinário (DEM e evangélico, porque hoje ambos definem posições políticas) propôs ainda em 2005 um projeto de lei (PL 294/2005) para garantir, nas palavras dele, a manutenção dos bons costumes na sociedade paulistana, e agora teve o mesmo aprovado. Eu li a justificativa do projeto, com um aperto no peito, tanto pelo medo da homofobia que transbordavam daquelas palavras como pelo português sofrível com quais elas foram escritas, mas achei importante, mesmo assim, divulgar meus pensamentos aqui com vocês. 
Apolinário incia a justificativa do seu projeto afirmando que o ser humano tem como um dos seus direitos fundamentais o livre arbítrio "que abrange: escolha da profissão, lugar do domicílio, o estado civil e até mesmo suas preferências sexuais". Os problemas começam pelo primeiro parágrafo. O senhor vereador realmente acredita que todas as bichas e viados do planeta decidiram, um dia, vou virar gay e vou sofrer preconceito, não tenho nada mais divertido para fazer mesmo, não é? Preconceito este que ele duvida que exista, como ele mesmo diz: "Entretanto os homossexuais se dizendo discriminados ou perseguidos estão tentando aprovar leis que na realidade concedem a eles verdadeiros privilégios". O que na lógica dele faz sentido, ora. Se não existe preconceito nenhum contra os viados, as bicha, as sapatão, todos eles escolheram essa vida de pecado e luxúria apenas ou por serem pervertidos, no sentido freudiano da coisa, bem no sentido de gostar de sexo diferente do normal; ou por causa de uma modinha que uma hora vai passar. Ele arremata seu raciocínio sobre o preconceito com a argumentação para ele tão clara que ele destaca a oração sozinha como parágrafo, diz ele: "Os homossexuais dizem que são discriminados pela sociedade, quando na verdade são eles que discriminam aqueles que não concordam com suas opções sexuais". O problema, de fato, não é a homofobia, mas sim todos os crimes bárbaros que tem sido cometidos por gays, travestis e lésbicas contra heterossexuais.
Ele realmente acredita nisso e, portanto, baseia sua argumentação dali em diante na falácia de que tudo é apenas uma questão de etiqueta, isto é, de saber portar-se nos lugares. "Há pessoas que tem preferências sexuais fora dos padrões normais da sociedade, o que indubitavelmente está assegurado na Constituição Brasileira, mas poderiam manter seus relacionamentos dentro da discrição que norteia o convívio social". Em outras palavras, para Carlos Apolinário o problema não é ser gay, o direito de você gostar de dar a bunda você tem, afinal ele não é contra o que cada um faz na sua cama, como ele diz "porque não sou juiz do comportamento sexual de ninguém", contudo o vereador evangélico não pode concordar com "apologia ao homossexualismo" (a escolha de palavras é extremamente reveladora).
Essa "apologia" para ele é a permissão de, por exemplo, o beijo gay na TV. Diz o vereador: "Pergunto: É normal duas pessoas do mesmo sexo se beijarem em locais público ou na televisão?". Eu respondo: Não, não é! Bem que eu queria que fosse, mas hoje, neste século, não é. "Será que os homossexuais entende como direito à liberdade, (sic) dois bigodudos entrarem em um restaurante e ficarem se beijando sem  respeitar os demais clientes daquele estabelecimento (sic)"?. Sim, entendemos sim, entendemos que a liberdade de manifestações de afeto é imprescindível em uma sociedade livre e que, principalmente, o incômodo de ver "dois bigodudos" (adoro a escolha de palavras para uma justificativa de um projeto de lei) se beijando não é porque o ato é reprovável, é porque a educação dos outros clientes do estabelecimento deixou a desejar no quesito diversidade. Contudo, novamente reconhecendo que sua argumentação é auto-justificável, o vereador da cidade São Paulo diz: "Eles deveriam ter um comportamento adequado a nossa sociedade e deixar os beijos e afetos para os lugares reservados ou suas casas". Ele repete o que disse antes. Ele não tem nenhum problema do fato de que alguém seja gay, como explicou em várias entrevistas dizendo que seu cabeleireiro é gay, o problema, na opinião do ilustríssimo vereador, é que os gays querem frequentar ambientes públicos e sair do gueto a que foram confinados. Ele se pergunta, obviamente, quem lhes deu esse direito. O direito de ver a luz do sol. 
"Acontece que os homossexuais não se satisfazem com o anonimato e para chamarem atenção começam a exigir direitos que se quer (sic) os heteros têm". Como vocês veem, essa frase é definitivamente a mais carregada de significado no justificativa do projeto de lei, agora aprovado. Os homossexuais deviam ser anônimos, como eram até a década de 1980, aonde eles se esgueiravam escondidos pelas sombras da noite, mascarados para não serem reconhecidos a luz do dia, sem orgulho, com vergonha. Hoje o atrevimento homossexual chegou a tal ponto que eles tem a coragem de chamarem atenção sobre si mesmo. Que eles saem a luz do sol, aparecem na TV dizendo que são gays, sem vergonha, com orgulho. E, como sinal dos fins dos tempos, eles chegaram até a se organizar o bastante para exigir direitos. Para o vereador, isso só pode ser obra do anti-Cristo, tenho certeza. Mas eu realmente me pergunto, porque ele não cita nenhum, mas quais são os direitos ilustríssimo senhor Carlos Apolinário que os homossexuais exigem que os héteros "se quer" têm? Cite-me um! É um desafio! Casamento, HT done, proteção contra discriminação, HT done, direito de doar sangue, HT done. Cite-me um único que os héteros não tem?
Caminhando para a conclusão, o vereador escreve: "Quando os homossexuais aprenderem a respeitar a sociedade que é composta pelos seus pais, irmãos, familiares e amigos com certeza a sociedade também irá respeitá-los, pois aqueles que querem respeito devem agir de forma respeitosa". Tem dois problemas aqui. Um óbvio, outro nem tanto. Ele deixa bem claro que o problema das agressões sofridas pelos homossexuais, isto é, a falta de respeito com quais os gays, transexuais, travestis e lésbicas são tratadas em seu dia-a-dia é culpa dos próprios homossexuais. É como argumentar que a mulher que é estuprada é porque saiu usando roupas provocantes. O fato dos gays terem saído da sombra é a culpa dos ataques homofóbicos, não a homofobia. Se todos os gays continuassem escondidos em seus guetos, em suas casas, por trás de suas máscaras, dentro de seus armários, nenhum seria atacado por um grupo intolerante de heterossexuais. A culpa, gays, é de vocês mesmo, afirma Carlos Apolinário. No entanto, ao fim de sua justificativa, sem perceber, ele desmente o que afirmou nos primeiros parágrafos. Antes ele afirma que os homossexuais não são discriminados, eles que discriminam, contudo agora assume que a sociedade não respeita os homossexuais, isso se chama contradição, caro vereador, mas de qualquer forma não tem problema, não é?, afinal de qualquer forma as únicas bichinhas que são atacadas por aí são aquelas que provocam os seus agressores não?
"Propomos assim, o projeto de lei, que, no âmbito do Município de São Paulo, se oficialize esta data", o terceiro domingo de dezembro, que não por coincidência é o fim de semana anterior a data cristã máxima, o Natal, "como símbolo da luta pelo ORGULHO DE SER HOMEM E O ORGULHO DE SER MULHER". Eu gostaria de concluir informando que, primeiro, as letras garrafais são do próprio Carlos Apolinário, e segundo, esta informação vai diretamente para o vereador, gays e lésbicas não são menos homens ou mulheres do que heterossexuais, o que torna alguém homem ou mulher não é quem ela leva para a cama, ser HUMANO significa muito mais não permitir essa apologia ao ódio pelo diferente, o que, sem sombra de dúvidas é apenas o que esta lei municipal pode oferecer. Carlos Apolinário sem sombra de dúvida acredita piamente em suas próprias (e mal traçadas) palavras, no entanto, se ele tivesse aprendido o que é ser homem, duvido que ele teria orgulho de quem é agora. 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

"Orgulho Hétero"

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Neste último dia 22 de junho, entre os tópicos mais comentados no Twitter estava o Orgulho Hétero, tudo por causa da proposta do vereador paulista (e pastor evangélico) Carlos Apolinário (DEM) que pretendia criar o Dia do Orgulho Heterossexual para o terceiro domingo de dezembro. O proposta não passou pelos vereadores da cidade de São Paulo, pois o projeto foi barrado pelo líder do PT, Ítalo Cardoso, ao pedir a suspensão da sessão.  Apesar do bom comportamento petista, a Câmara paulista queria na verdade evitar um mal estar com a aprovação deste projeto exatamente na semana do orgulho gay, que antecede a Parada do Orgulho Gay de São Paulo.
No entanto, no Twitter, a questão continuou. Inicialmente, a maioria dos usuário acreditou que se tratava de uma piada, afinal a parada paulista está para acontecer daqui há alguns dias e estamos no Brasil, onde tudo termina em pizza, impunidade e piada, não é? Contudo, quando eu o vi lá, senti um arrepio mortal perpassando minha alma (o mesmo que sinto agora enquanto escrevo este texto, talvez o mais difícil que eu já escrevi aqui). Meu asco aconteceu por causa da argumentação tortuosa e perigosa que as pessoas expuseram ao se manifestar a favor do projeto de lei do vereador democrata.
Desde as argumentações de fundo religioso: 


Deus criou HOMEM e MULHER. Orgulho Hetero.





Também a argumentação da tal Heterofobia, inventada pelo Deputado Federal Jair Bolsonaro:


 



Contudo, a argumentação mais comum é o fato de não entender porque ter um "Orgulho Hétero" é por si só uma manifestação de homofobia. Porque a simples manifestação desta ideia é tão ofensiva. Eles comentaram sobre isso também.
  




Esta ignorância é pior do que toda a homofobia com a qual terminarei este texto (aguardem!). Porque estas pessoas simplesmente não tem absolutamente nenhum conhecimento sobre história, política ou como funciona a sociedade em que eles vivem. Existe uma palavra para falar isso: alienação! "Orgulho Hétero" é tão homofóbico quanto "White Power" e "Consciência Branca" é racismo! Então, deixa explicar primeiro o que significa o "Dia da Consciência Negra". Este é comemorado no Brasil, desde 1960, no dia 20 de novembro (dia do assassinato de Zumbi, no Quilombo dos Palmares) e ele é dedicado a reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira, isto é, dedicado a tomada de consciência de que os negros fazem parte da sociedade e tem direitos iguais. O Orgulho Gay já foi "projetado" para resgatar a auto-estima de uma parcela da sociedade que é costumeiramente humilhada no dia-a-dia, a parada gay, e repito o que sempre digo aqui, a parada deve ser sim uma festa porque ela é um momento de celebrar, com orgulho (pride), aquele que você é. As paradas de orgulho foram feitas para dizer a sociedade heterossexual que os gays não tem vergonha de ser quem são. 
Por isso, "Orgulho Hétero" não passa de uma falácia discursiva que prega uma igualdade, mas que na verdade apenas reforça uma submissão de um grupo - que agora adotou um discurso de minoria - para poder lutar, não por seus direitos, mas contra a obtenção de direitos pelo grupo oprimido. Sabendo um pouco de história é possível reconhecer que este discurso já foi usado mais de uma vez. Quando o racismo foi combatido nos Estados Unidos e África do Sul, por ex, os brancos utilizaram exatamente os mesmos argumentos de que se os negros tem direito a um Black Power, eles também teriam o mesmo direito; quando recentemente foi aprovada a Lei Maria da Penha, que penaliza mais gravemente os ataques a mulheres além de uma simples agressão física, deputados brasileiros afirmaram que haveria uma ditadura feminina a partir da aprovação da lei, o poder do macho sobre a fêmea, assim como Deus ordenou, estava ameaçado. 
Todavia, se alguém ainda não acredita que se trata de homofobia, veja abaixo:

os gays que são contra nosso movimento é simplesmente por medo \o/ ORGULHO HÉTERO

Orgulho Hétero, o orgulho do Anus intacto o/

Orgulho Hetero \o/ os bons são maioria u.u

 

@ 



E agora eu fico com medo de sair a noite. Muito medo de sair a noite e ser espancado por um idiota qualquer que acha que tem direito em escolher se eu tenho ou não o direito a viver. 

sábado, 28 de maio de 2011

Pelos Meus Alunos: Em Defesa Do Kit Anti-Homofobia

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Muito se falou sobre o Kit Anti-Homofobia esses dias, com seu cancelamento pela presidente Dilma Rousseff, as críticas do deputado Jair Bolsonaro, mas sobretudo da sua troca pelo silêncio da bancada evangélica no escândalo envolvendo o ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci. Contudo, o que não se falou, o que ninguém ouviu, foi a opinião dos mais interessados. E não falo dos ativistas gays, falo dos professores. Professores das escolas públicas (estaduais e municipais). Os únicos afetados realmente com a aprovação ou não do kit. Afetados, porque estes seriam os usuários do kit, caso ele fosse aprovado. Bem, acho que devo esclarecer inicialmente um fato. Primeiro, esta discussão deveria ser técnica. Não cabe aos deputados ou senadores discutirem currículo educacional ou mesmo ferramentas que podem ou não ser utilizadas por um professor dentro da sala de aula. Mesmo o Ministério da Educação não tem poder para tanto. Um professor tem a liberdade de utilizar ou não o kit caso ele fosse aprovado. Dependendo do seu planejamento durante o ano (o que ele pretende ensinar aos alunos) e também dependendo de suas convicções políticas e religiosas, ele poderia usar ou não usar o kit. Ele estaria disponível para o seu uso, mas não seria de uso obrigatório, como os outros inúmeros kits que o MEC (Ministério da Educação e Cultura) distribuem nas escolas. 
Esta discussão técnica não aconteceu. E é ela que eu levanto aqui. É preciso falar que segundo os PCN's (Parâmetros Curriculares Nacionais), programa proposto pelo MEC em 1997, após dois anos de debates, sexualidade é um dos temas transversais, isto é, é um dos temas que devem ser abordados por todas as disciplinas (História, Língua Portuguesa, Matemática, Física, Química) para integrar o currículo. Segundo o documento federal, ao contrário do que afirmou em entrevista a presidente Rousseff, cabe sim a escola, e ao Estado brasileiro, fomentar essa discussão de cunho "privado" entre os estudantes. Cabe ao espaço escolar levantar entre o alunado um espaço seguro para discutir este tipo de assunto. Então, neste caso, a presença do kit na escola permite a um professor acesso a informações que vão dar início as discussões entre os alunos. 
Como esta discussão se dá? Num plano de aula imaginário para Língua Portuguesa, por exemplo, o professor poderia apresentar algum material do kit, um texto (incentivando a leitura) ou um vídeo e depois pedir uma discussão em sala sobre aquilo que foi visto (incentivando a manifestação oral) e por fim pedir um texto sobre as opiniões do estudante, fossem elas a favor ou contra, mas demonstrando os seus argumentos (incentivando a produção escrita). Numa idéia ainda para Ciências ou Biologia, seria possível discutir formas distintas de sexualidade, de sexo, de reprodução, e falar sobre o ato sexual, falando sobre uso de camisinha, por exemplo, também. Para História, poderia-se falar sobre manifestações homoeróticas e heteroeróticas na História e as manifestações atuais, demonstrando como essas manifestações se modificaram e como as relações humanas se modificam com o tempo, explorando a ideia de desnaturalização do comportamento humano e permitindo que crianças e adolescentes desenvolvam a percepção que no mundo que eles vivem existem pessoas distintas delas e que essa diferença precisa ser respeitada para a convivência como cidadãos dentro da sociedade. 
Isso não foi dito de maneira alguma! A discussão caminhou para a ideia de "propaganda de um modo de vida", questionamento esse perigoso porque me lembra a proibição de se falar em comunismo durante a ditadura militar; além de que, ninguém lembrou, que crianças gays e lésbicas - porque quando os gays e lésbicas apesar de ninguém gostar de lembrar disso foram crianças um dia - estão expostas diariamente a uma propaganda do modo de vida heterossexual que é, sim, aprovada pelo Governo Federal ao aprovar e financiar livros didáticos que mostram a família heterossexual como o modelo de família. Isto é devastador para as crianças gays e lésbicas. Devastador! Preocupo-me, como professor, é com essas crianças. 
Na minha experiência em sala de aula, vi muitas vezes crianças inteligentíssimas que eram oprimidas por esse sistema heteronormativo. Fisicamente, pois apanhavam dos pais, ou sofriam bullying na escola; ou que, ao assumir em determinado momento a sua homossexualidade, ou a identidade feminina no caso de travestis, eram obrigados a abandonar a escola, porque ali não era mais o espaço para que aquelas pessoas "diferentes" pudessem frequentar. Essas crianças, por algum motivo específico, não merecem proteção do Estado brasileiro? Se nossa Constituição proíbe a discriminação, se o Estatuto da Criança e do Adolescente exige que todas as crianças tenham acesso a educação e que tenham um ambiente saudável e seguro para viver, se as leis educacionais brasileiras exigem veementemente que crianças sejam educadas num ambiente de pluralidade, excluindo as salas de aula especiais para alunos com necessidades especiais, por exemplo, sobre qual argumento a produção do kit anti-homofobia pode ser considerado pela excelentíssima presidente Dilma Rousseff (em quem votei, mea culpa) algo que o Governo Federal poderia deixar de investir?
Eu não consigo aceitar e nem entender. Não consigo, pelas crianças, pelos meus alunos. Não consigo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Os Cavaleiros de Hela

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
 (foto de minha autoria)

Eles estão vindo. Ele ouve o barulho no escuro. Os passos apressados. As palavras aterradoras. Eles falam contra nós. E estão vindo. Estão vindo. Ouve o barulho de armas e punhos cerrados. Escuta o ódio que vaza aos borbotões. Escuta a morte, Hela, que abençoa seus cavaleiros. Eles estão vindo. Eles desejam o sangue. O sangue de inocentes. Seu ódio, pelo outro, por aquele que não é como eles.  Odeiam quem é diferente. Eles estão vindo. Chegaram. Mas ele não foi rápido o suficiente para escapar ao primeiro soco.
Eles gritam a todo pulmão, sem vergonha. "Monstro", gritam! "Anormal", gritam! "Viadinho", gritam! E puxam. Puxam o seu corpo assustado que cai inerte e chutam. Eles que chegaram, do escuro, chutam o corpo que está no chão e xingam. "Você não é normal", "Você é contra a natureza", "Você não é de Deus"! No chão, ele sangra. A costela se rompe, o pâncreas é perfurado, mas é o bílis do outro que o inunda. Porque eles chegaram.
E ele do chão ergue os olhos em volta, e pede ajuda. Estão ali, ao redor todos como ele, iguais a ele, frágeis como ele. Mas não vêem o sangue que ele cospe, e não ouvem as palavras que eles gritam para ele. Ele ergue seus olhos, que agora têm dificuldade de olhar para o céu e implora ajuda. Mas Ele também não o atende. Eles, lotados de ódio, são os únicos que o vêem. Os iguais não querem vê-lo ali no chão, sangrando, porque sabem que podem se tornar os próximos. Os iguais se escondem, de medo, atrás da cegueira. 
Mas eles terminaram de matar mais um inocente. E saíram, e nenhum dos iguais os viu, porque os diferentes nem notaram. O sangue de mais um está no concreto do calçamento. Mais um corpo jaz inerte agora, e agora ele é igual a todos os outros que jazem inertes. Aos mortos. Os cavaleiros de Hela que perseguem os diferentes agora saem a caça de seu próximo alvo. Um daqueles iguais que se esconderam. Eles estão vindo. Ele ouve o barulho no escuro. Os passos apressados. As palavras aterradoras. Eles falam contra nós. E estão vindo. Estão vindo.


Dia 02 de Abril de 2011, numa calourada de Letras, da Faculdade Federal de Minas Gerais, cinco homossexuais foram agredidos em manifestações de homofobia. Ninguém, afirmam os presentes, gays e heterossexuais, viu os casos acontecendo. A própria universidade se recusa a acreditar que tais casos realmente aconteceram. As pessoas têm medo de ver, acredito, até o dia que eles chegarem até você. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Às Crianças

‎"Toda vez que você disser amém, 
na sua casa ou no seu lugar de oração, 
ao ódio pelas pessoas gays, 
saiba: uma criança estará ouvindo"
(Orações Para Bobby - Mary Griffin)


Todos os dias, os pequenos, ouvem em suas casas, na escola, na Igreja que frequentam, de seus pais, de seus irmãos mais velhos, de seus professores, dos padres e pastores, de todos aqueles que deveriam estar lá para protegê-los que aquilo que eles sentem, que eles vivem, que eles tentam controlar está errado.  Que eles são abominações, pecadores, não-naturais, imorais, pervertidos. Meu irmão disse uma vez, na mesa do jantar, que os gays deveriam ser largados numa ilha e abandonados lá para morrer. Meu pai e minha mãe concordaram. Que eles não merece a vida, a felicidade, o lugar que eles sonham conquistar no mundo. Meu vizinho, um ano mais velho que eu, repetia o que ouvia dentro da sua Igreja (evangélica) que aos gays só restava o inferno. E como criança, eu acreditei, acreditei que iria para o inferno.  Onde estavam aqueles lá que deveriam defender os pequeninos? Quantas outras crianças não passaram por isso? Quantos meninos e meninas por aí, ouvem de seus pais, irmãos, tios, padres, pastores, aqueles que deveriam estar lá para protegê-los, que condenados, a eles só pode estar destinada a morte, o afastamento, a solidão, a desesperança? Meu outro irmão um dia entrou no meu quarto e, com o dedo em riste, disse que se eu virasse gay ele mesmo me mataria. Quantas e quantas mais crianças precisarão passar por isso? Ouvir na escola que são inferiores, que são de segunda classe, de que não merecem nem terminar seus estudos?  Um colega de escola, cansado de ouvir xingamentos em sala de aula, cujos professores não faziam nada para evitar largou os estudos. Quantas crianças ainda precisarão ouvir que não pertencem aquelas famílias, que não são mais filhos de seus pais, que são a grande decepção da vida deles, que merecem a morte? Onde estão aquelas pessoas que deveriam protegê-los? Um aluno meu era espancado pelo pai porque este achava que ele era gay, ele virou-se para mim com os olhos cheios de lágrimas e me contou: "Professor, eu nem sei o que é ser gay". Quantos sonhos, quantos espíritos, serão destruídos por este ódio que comanda a vida de pessoas? Quantas vidas serão arrancadas de corações tão puros pelo simples fato de que eles não puderam escolher ser iguais aos outros? Quantos mais? Quantos serão assassinados pelas ruas, espancados com lâmpadas, xingados através de vidros de carros passantes? Quantos mais precisam ainda acreditar que não tem o mesmo direito a vida que um heterossexual "normal"? Um outro aluno meu, de 15 anos, quando descobriu que as pessoas sabiam que ele era gay enforcou-se no quarto em que dormia com uma corda de sisal. Quando ódio precisa ser ainda despejado sobre as nossas crianças? Por que eles não nos atacam, os adultos, aqueles que podem se defender e deixam as crianças em paz, deixem seus corações inteiros, vivos, alegres. São apenas crianças. Um amigo meu foi expulso de casa aos 17 anos, por ser gay, ele viveu na rua durante meses. Quantos mais ainda vão ser jogados a sua própria sorte porque aqueles que deviam protegê-los não sabem que as crianças são frágeis e aquilo que se faz a elas destrói mais do que seu corpo, destrói seu coração, seu amor-próprio, seu espírito, seu futuro? Quantas crianças mais serão mortas ainda, por dentro, sem sangue, terão seus sonhos, esperanças e espíritos esmigalhados por este ódio desenfreado? Quantas mais? Por favor, eu lhes peço, aprovem as leis contra homofobia, não por mim, mas pelas nossas crianças, nós somos aqueles que deveriam protegê-las.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Quando A Diversidade Toma No Cú

Estava eu zapeando pelos blogs da vida, comentando aqui, lendo acolá, quando entro no blog do Paulo, Enquanto Isso, Num Cantinho Escuro da Minha Mente e vejo um convite para participar de um vídeo brasileiro para a campanha It Gets Better. Este post aqui. Achei a idéia incrivel e aí entro lá, disposto a participar, foda-se se meus pais não sabem de mim! Vou ajudar alguém. Aí começo a ler a proposta da agência Grïngo. E começo a me assustar. Aqui está a proposta no site, mas reproduzo-a abaixo, com toda as referências necessárias.

"Muitos gays crescem imaginando que a vida tem que ser vivida de uma única maneira, formatada pelas concepções sociais. Essas convenções nos fazem sentir diferentes do resto do mundo à nossa volta, e algumas pessoas lidaram com o processo de “sair do armário” de forma mais dura do que outros.
A mensagem que esta campanha americana de “It Gets Better” quer passar é muito relevante, pois existem centenas de adolescentes que se matam todos os anos porque sentem que o que estão passando é além do que eles têm capacidade de resolver sozinhos e acham que nunca existirá uma luz no fim do túnel. E essa luz existe, e a gente sabe que a verdade é que it really gets better, much better!
No Brasil, eu acho que o problema mais abrangente (não o mais importante) é a caricaturização do personagem “gay” para as massas. Então sei que nossos “gays” são visíveis, mas são uma representação muito pouco real do que existe no mundo. Os personagens mais visíveis são os suspeitos de sempre: os ultra-femininos, garotos de programa musculosos, cabelereiros futriqueiros, costureiros divas -- enfim, uma renca estereotipada que passa muito longe de modelos de comportamento para um jovem que está formando seu caráter e tentando desesperadamente participar, pertencer, se identificar com um grupo.
O que queremos fazer é um vídeo apenas com gays brasileiros considerados “normais” -- ou seja, fora do estereótipo televisivo. São vocês estes personagens: artistas, biólogos, arquitetos, dentistas, desempregados. Queremos lógicamente também contar com os cabelereiros, go-go boys e costureiros da vida, que se comportam de maneira normal. Vale a pena objetivar a palavra “normal”.
Normal” é ser você mesmo, ter idéias, saber onde você se encontra na sua vida, ter consciência do que passou e ter uma relação com a vida que é otimista, entusiasmada, feliz ou triste, mas real."

 Agora, os meus comentários.
1) Sim, muitos gays crescem imaginando que a vida só pode ser de uma maneira. A maneira hétero.  Se homem, que você tem que sair com meninas, gostar de meninas, viver com meninas, se apaixonar por meninas, transar com meninas, ter filhos e família com meninas. Se mulher, tudo isso só que com homens. Além disso, homens tem que se comportar de forma másculo, corajosa, viril, sem sentimentos, racional. Já somente mulheres podem se femininas, medrosas, delicadas, sentimentais, emocionais. Essas são as concepções sociais a que nós estamos expostos, mas acho que a agência Grïngos não entende disso, chama, em palavras de especialistas, Sexismo.

2) É o mesmo Sexismo que caracteriza o personagem gay como sempre aquele próximo as mulheres, é este mesmo sexismo que constrói o estereótipo do efeminado. Contudo, para combater o estereótipo do efeminado, nós não mostramos que os gays não são efeminados, nós deveríamos é mostrar que o efeminado continua sendo homem. Ser gay pode ser ser efeminado sim, isso, ao contrário do que o texto da agência diz, é sim uma verdade, existem gays efeminados, mas o fato deste homem gay ser efeminado não o descaracteriza como homem, em momento algum, de forma alguma. 

3) Eu quero saber é porque diabos uma pessoa ultra-efeminada, um gogo boy ou garoto de programa, um cabeleireiro ou costureiro não podem ser bons modelos de comportamento para um jovem com o caráter em formação? Nenhuma dessas características citadas acima fazem parte do caráter das pessoas, garotos de programa e costureiros divas podem ser pessoas honestas e verdadeiras, homens ultra-efeminados e cabelereireiros podem ser pessoas pacíficas e que ajudam o próximo. Para mim, esses são conceitos de caráter que podem servir de exemplo para os jovens, não o seu emprego, não sua característica física. Porque ser efeminado, para mim, não é mais do que uma característica física.

4) O que é normal? Quem definiu e institucionalizou a agência Grïngos para selecionar se seus 20 convidados para o vídeo são ou não normais? Normal é aquele que segue a norma hétero? Quer dizer então que os gays só tem o direito de esperar que o futuro seja melhor se eles, todos, seguirem a mesma norma hétero? Se todos comportarem-se iguais, do mesmo modo, exatamente? Que espécie de mundo mais preto e branco é esse que a agência Grïngos quer? Eu voto contra e clamo a todos que critiquem o projeto da agência como eu mesmo fiz. Clamo todos para que lembrem que a bandeira gay tem várias cores, e eu só quero viver em um mundo se ele for diverso e colorido.

domingo, 24 de outubro de 2010

Get Better

Quando adolescente, eu tinha medo de sair de casa. Tinha medo de ouvir aonde eu passava: "viadinho", "bichinha". Eu já ouvia isso na escola, ouvia entre meus vizinhos, ouvia em casa dos meus pais e irmãos, então eu preferia ficar em frente a tv. A tv não me dizia que eu estava errado, que eu era alguém que ia queimar no inferno, que eu era criminoso. Na verdade ela dizia, mas não dizia para mim, era para qualquer outro personagem efeminado que aparecia na tela, um costureiro, um cabeleireiro, alguém num programa de humor, eram eles e eu podia fingir que nada daquilo era comigo. Eu podia.
Mas um dia eu cresci, e eu vi que eu não podia mais me esconder atrás da tela daquele aparelho e evitar viver a minha vida. Eu não podia simplesmente ignorar que aquele mal estava sendo feito, a mim, a outros, fiz faculdade, cresci, beijei vários e muitos e fiz sexo com outro tanto, e vivi plena e feliz a sexualidade que os outros acham que é errada. Mas não é! É a minha e nada que eu faça em minha vida é errado porque é minha vida, meus caminhos e minhas escolhas, e cada caminho que eu tome será sempre o correto porque eu aprendei com ele, pelos erros e pelos acertos. Não cabe a ninguém, absolutamente ninguém, nem meu pai ou minha mãe, nem o padre ou a Bíblia, nem o próprio Deus dizer como eu devo viver a minha vida. 
Crescido, me tornei professor, e sim eu vi acontecer de novo e de novo tudo aquilo que eu vi acontecer comigo. Mas não, não fiquei parado, não fiquei quieto, nem fiquei em silêncio. Defendi alunas minhas que foram vistas aos beijos no banheiro da escola, denunciei um pai que espancava o filho dizendo q ele era "viadinho", falei em alto e bom som que condenar um menino que havia se suicidado ao descobrir que era soro positivo aos quinze anos era, para dizer o mínimo, antiético da parte de profissionais que deveriam estar lá para ensinar. Também ajudei meninos que estavam em momentos de transformação, assumindo sua identidade sexual, deixando de ser meninos para se tornarem meninas. Às vezes o que eles precisam é apenas de um bom modelo a seguir. Também xinguei a Globo Minas em alto e bom som (via e-mail) quando eles criticaram crianças dizendo que meninos brincam com brincadeiras de meninos, e continuo repetindo aqui: cadê a porra de sua responsabilidade social, Rede Globo?, hoje, estou terminando e me formando no curso que a Universidade Federal de Minas Gerais oferece de Educação Sem Homofobia. Aqui o site.
Mas porque disso tudo? Porque todos os meninos têm o direito de sonhar que um dia serão felizes, amados, que poderão amar e ser amados em retorno. Todos os meninos têm esse direito. Têm o direito de sonhar. E principalmente porque ser gay não é só se interessar por homens, é ter atitude política, atitude de protesto e de descontrução de todas essas formas heteronormativas que balizam nossa sociedade. Bichas, uni-vos! E sim, isso vai melhorar, tudo vai melhorar, se cada um fizer a sua parte.


sábado, 8 de maio de 2010

PRESENTE: Homofobia(s) II

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Prólogo

Belo Horizonte é uma cidade extremamente tranquila. Uma metrópole pacata onde ainda se vê um ritmo de interior. A lei municipal 8.176/2001 também ajuda nisto. A capital mineira foi a segunda cidade do Estado a contar com uma lei que coíbe a discriminação por orientação sexual, a primeira foi Juiz de Fora (lei 9791/2000), ao sudeste do Estado. A época, nove anos atrás, em todo o país, 72 municípios também já possuíam leis semelhantes que garantinham proteção aos homossexuais através de dispositivos legais, tais como: Fortaleza, lei 8211/1989; Olinda, em sua lei orgânica; Salvador, lei 5275/1997; Natal, lei 152/1997; Maceió, lei 4667/1997; Campinas, lei 9809/1998 e Alfenas lei 3277/2001, além de três Estados: Rio de Janeiro, com a lei 3406/2000 e São Paulo, com a lei estadual 10.948/2001 e Alagoas, lei 23/2001; e o Distrito Federal com a lei 2615/2000. Veja os outros aqui.
Hoje o quadro muda para não muito diferente. Somente Recife, entre as capitais, teve uma lei semelhante aprovada (16780/2002), mas cidades como Londrina (lei 8812/2002), Novo Hamburgo (lei 1549/2007), Colatina (ES) (lei 5304/2007), Blumenau (lei 7153/2007) e São João Del Rey (MG) (lei 4172/2007) também aprovaram leis que protegem seus cidadãos homossexuais. E por serem cidades "de interior" merecem duplo aplauso. Entre os Estados, Rio Grande do Sul (lei estadual 11872/2002) e
Minas Gerais (lei 14170/2002) seguem logo o exemplo, logo em seguida a Paraíba (lei 7309/2003) e Santa Catarina (lei 12574/2003), também o Pará (com a renovação de sua constituição) e o Piauí (lei 5431/2004), e os últimos o Mato Grosso do Sul (3157/2005) e o Maranhão (8444/2006).
Isto é para lembrar que existem sim leis que nos protegem, mas precisamos conhecê-las para reivindicá-las. E, principalmente, que devemos saber os momentos de utilizá-las ao nosso favor. Agressão, física ou verbal, não deve passar impune, caso qualquer um de nós passe por estes problemas devemos sempre nos dirigirmos as autoridades competentes e registrar um boletim de ocorrência, tal como eu não fiz. Deixe que eu conte a vocês três momentos, muito raros em Belo Horizonte, repito, mas que aconteceram e eu não fiz nada...



Pampulha
As tardes costumo correr na lagoa, quando a preguiça não me segura em casa, ou um projeto, um trabalho, um livro, ou a chuva, não me impedem de sair de casa. Sempre a tarde. Prefiro o fim do dia. O pôr-do-sol sobre o espelho d'água da lagoa e as curvas das construções de Niemeyer. Tudo fruto da mente insana de um prefeito que virou presidente da república, JK, insana.
Eu já voltava do meu trajeto de 17km, quando cruzo com três garotos, nenhum devia ter mais que 17 anos, nenhum devia ter já chegado ao Ensino Médio. Negros. Usavam permudas e chinelos de dedos, um ostentava um abadá de alguma micareta perdida por aí. Observei-os de longe e percebi logo o que preparava-se para acontecer. Você está acostumado já. Já sabe como eles se preparam para o primeiro golpe, e já trava o abdômen para recebê-lo. O primeiro soco é sempre doce e meloso.
Em tom de deboche, um deles me cantou. "Gostosinha, a menininha né?". Eu não sorri, mas olhei diretamente nos olhos dele. Outro me cerca. "Por essa eu me apaixonava". E ri, gostosamente, como quem descobre uma bela piada. O terceiro não fica de fora: "Ah, me dá um beijo, vai? Só umzinho!". E eu tento continuar o passo, mas eles tentam me deter. Nada que eu não pudesse escapar, nada que eu ainda não pudesse sair dali. Afasto-me alguns passos dele e outro continua a falar: "Ah, beija ele mesmo! Vai!!". Eles riem entre si, satisfeitos em humilhar outra pessoa que não poderia se defender, é quando então eu paro, olho para trás, e sibilo: "Desculpa, mas você é realmente muito feio p'ra eu te beijar, sabe?". E saí, continuando pela orla da lagoa, já indo de volta pra casa. E agora os outros dois riam do que em silêncio ficou, mas não de mim.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

EXTRA, EXTRA, EXTRA: Exército e Homossexualismo

Existem sempre áreas mais resistentes às mudanças quando pensamos na sociedade ocidental neste último século. Alguns chamam estas áreas de tradicionais, outras as chamam de direita, mas elas existem e estão lá. E, como nossa sociedade sempre caminha para frente, nem sempre melhorando, mas sempre um passo diante do outro, algumas regiões se mantém, como podemos observar desde o início do século XX, se mantendo reticentes enquanto as mudanças se aprofundam na sociedade, e um dos setores da sociedade ocidental que mais se mostram reticentes a mudanças são os militares.
Lembremos que a aceitação de negros em meio aos exércitos não exisitia de fato até a Segunda Guerra Mundial, apesar deles lutarem desde o século XVIII e XIX em meio as fileiras. Eles participaram das guerras americanas de Secessão e da guerra do Brasil e Paraguai como escravos, muitas vezes visando uma liberdade raramente conseguida ao fim da batalha. Na Segunda Guerra Mundial, que se encerrou em 1945, faziam serviços menores e de patente baixa, inclusive, no fronte os negros e brancos lutavam separadamente, sendo o exército brasileiro o primeiro a lutar, nos campos da Itália, com uma única tropa, racialmente integrada. Entre todos os outros exércitos, brancos e negros, ou membros de outra "raças" como descendentes de orientais, índios, etc, jamais lutavam juntos. Porém, os cargos de oficial eram preenchidos sempre com brancos. A própria FEB, no entanto, também tinha ordens de se excluírem soldados que não fossem brancos dos defiles ou, se caso fosse impossível, coloca-los no interior das fileiras. Os negros, no Brasil também, não deviam participar da formação de guardas de honra, em particular se estas se destinassem a autoridades estrangeiras.
Após a aceitação dos negros, graças mesmo a esta Grande Guerra, as mulheres passaram a ganhar destaque na sociedade ocidental e o movimento feminista ganhou força. A participação feminina anteriormente era unicamente como enfermeiras ou como secretárias, se mantendo longe do campo de batalha. Podemos pensar que isso mudou, mas estamos errados, o Colégio Militar de Salvador só teve sua primeira turma feminina para oficiais a partir de 1992, e mesmo assim os cursos oferecidos para mulheres - engenharia, área médica e os serviços técnicos (como administradoras, professoras, advogadas, etc) - excluem qualquer possibilidade de combate.
Pensando assim, não se torna surpreendente ouvir o general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, durante a audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado para a eleição do Supremo Tribunal Militar, ao ser arguido pelos senadores Demóstenes Torres (DEM-GO) e Eduardo Suplicy (PT-SP) sobre o que estes pensavam sobre a presença de homossexuais nas fileiras militares. As palavras de Demóstenes Torres foram:

“Vossas excelências são favoráveis ao ingresso de homossexuais em qualquer das forças e acham que essa polêmica tem razão de ser?”

O general Cerqueira Filho respondeu, "de uma forma sincera", disse ele:

“Não é que eu seja contra o homossexual, cada um tem que viver sua vida. Entretanto, a vida militar se reveste de determinadas características que, em meu entender, tipos de atividades que, inclusive em combate, pode não se ajustar ao comportamento desse tipo de indivíduo”.

Pois é, e sempre foi política das Forças Armadas, definir qual é a capacidade de um indivíduo. Afinal negros não chegavam a postos altos porque não tinha a capacidade intelectual, as mulheres não podem lutar porque não tem a capacidade física, e como gal. Cerqueira Filho nos explica, os homossexuais também não tem a habilidade necessária para estar dentro das Forças Armadas. Pois, como ele nos permite entender:

“O exército americano está discutindo ainda, mas os casos que ocorreram mesmo no exército americano foram praticamente rechaçados. Não é que o indivíduo seja criminoso, mas é o tipo de atividade. Se ele é assim, talvez tenha outro ramo de atividade que ele possa desempenhar”

É uma incapacidade inata que está nos genes de um homossexual que o torna inapto a esta atividade. Não chega nem a ser preconceito contra gays do general, é uma certeza, afinal mulheres também são inaptas a mesma atividade militar. Ele explica melhor aonde está esta incapacidade:

"Tem sido provado mais de uma vez, o indivíduo não consegue comandar. O comando, principalmente em combate, tem uma série de atributos, e um deles é esse aí. O soldado, a tropa, fatalmente não vai obedecer. Está sendo provado, na Guerra do Vietnã, tem vários casos exemplificados, que a tropa não obedece normalmente indivíduos desse tipo".

O homossexual é tão intrissicamente um amoral que em momento algum é capaz de liderar e ser respeitado por um grupo, sobretudo se estes são heterossexuais. Por isso nenhum chefe em empresa alguma é homossexual, por isso que um professor homossexual não controla sua turma de alunos, por isso que não existem advogados homossexuais defendendo nenhum cliente diante de um juri. Talvez os homossexuais possam ser médicos, talvez eles sejam superiores, pelo menos, a vírus, micróbios e bactérias, possam combatê-las, será que gays são superiores pelo menos a seres unicelulares? E, o pior é que, sinceramente, não acredito que o general Cerqueira Filho seja realmente homofóbico, talvez um pouco machista, ou só um militar, ele definitivamente não teve a intenção de ofender ninguém.



A resposta do almirante Luiz Pinto ficar para o próximo texto.