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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Realidades Paralelas


Como eu queria que fosse:

- Oi, Foxx. Bom dia!
- Bom dia, meu lindo, dormiu bem?
- Muito bem. Adorei te ver ontem...
- Eu também.
- Espero poder te ver mais vezes.
- Com todo o prazer.
- Então, próximo sábado você está livre?



Como poderia ser:

- Oi, Foxx, desculpa, prometa que não vai me odiar, mas eu não tive saída. Tive que encontrá-los.
- Tudo bem, lindo, sem problemas! Dormiu bem?
- Dormi sim. Mas, voltando ao assunto, deixe-me compensar você, vamos jantar hoje?
- Claro, com todo o prazer!



Como foi:

- Oi, Foxx, desculpa, prometa que não vai me odiar, mas eu não tive saída. Tive que encontrá-los.
- Tudo bem, mas o senhor fica me devendo hein? Dormiu bem?
- Honestamente, estou bem cansado, vou dormir o resto do domingo todo.
- Ok. Bom descanso então.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Júpiter Em Leão

, em Natal - RN, Brazil
Por algum motivo, Júpiter em Leão provavelmente, não é raro algum homem me adicionar no Facebook. Adicionam cheios de segundas intenções obviamente. Bonitos homens que chegam com conversas mansas, perguntando sobre minha vida, minhas preferências e minhas ideias. Por acaso, são realmente homens interessantes. Não todos, mas a maioria. Em um mês, por exemplo, teve um de nome francês, corpo de jogador de capoeira, cabelos com dreads e que havia viajado boa parte do mundo e me contava estórias da Nova Zelândia, Bélgica e Filipinas; teve um bancário, de roupa alinhada, sorriso perfeito e barba por fazer, amigo de um amigo, que perguntou tudo sobre mim ao nosso conhecido em comum e o fez ficar torcendo para que eu finalmente desencalhasse; teve um estagiário de direito, magrinho e com um sorriso lindo, imberbe, cujas roupas sociais ficavam grandes demais para ele, menos na mala; e o modelo, lindo!, de cabelo perfeito, sorriso perfeito, rosto perfeito, corpo perfeito, e que ao me encontrar me perguntou: "você me achou mais feio pessoalmente não foi?", e eu fui obrigado a dizer-lhe que, pelo contrário, ele era extremamente mais bonito pessoalmente que nas fotos que eu havia visto.
Sim, eu encontrei com todos eles. Sempre em uma quarta-feira. Meu único dia livre a noite. O primeiro me levou a um bar. Disse que achava que ele ia beber cerveja sozinho, mas que eu estava bebendo e ele já estava ficando tontinho. Conversamos sobre biologia, evolucionismo e criacionismo, sobre tipos de vozes masculinas. E eu sabia que ele não estava interessado por mim no instante que a conversa chegou a este determinado ponto:
- Os fonoaudiólogos dizem que se você não está satisfeito com sua tessitura vocal, (eu dizia) isto é, se você acha a sua voz fina ou grossa demais, é possível mudar. A minha já foi muito mais aguda do que agora, por exemplo.
- E você acha que a sua já está bom? Perguntou o garoto de nome francês.
E eu respondi: - Não, é aguda demais, eu sei, mas não me interessa mudar. Eu aprendi que eu tenho um dom, que nem todo homem pode alcançar as notas que eu consigo, comprometer esta habilidade porque eu não encaixo no fetiche dos viados desta cidade não está nos meus planos.
Ele mudou o assunto para a Dilma e o Aécio, e eu soube ali que não haveria um segundo encontro, apesar de bêbado ele ter mencionado que seria legal me ver cantar.
O bancário, numa outra quarta-feira, me convidou para tomar um açaí. Ele era lindo, não tão lindo quanto o francês, mas eu o encontrei numa lanchonete e comemos falando sobre o mundo gay natalense, sobre meus grupos de corais, sobre os amigos dele e nosso amigo em comum, ele pagou a conta no final com uma cara de culpado. Eu li nos olhos dele o seguinte quando ele pagou a conta: "Eu fiz ele vir até o outro lado da cidade para nada porque nem beijá-lo eu vou, vou pelo menos pagar a conta". E, o que eu achei bem honrado, ele mal esperou nos separarmos para mandar uma mensagem, via Whatsapp, dizendo: "Olha, eu nem sei bem como te dizer isso, mas você é um cara legal e não quero te dar falsas expectativas, mas não rolou química". Eu respondi com um tumbs up e um "de boa". E toquei minha vida.
Com o estagiário eu comi, também numa quarta, um sanduíche em uma lanchonete de rua.  Detesto praças de alimentação de shoppings, só vale a pena se o calor estiver infernal. Conversamos sobre o trabalho dele, ele perguntou sobre o que eu havia estudado, seus olhos brilharam quando eu falei que era doutor, ele perguntou sobre minha dissertação, minha tese e da experiência em Belo Horizonte (eu menti dizendo que tinha adorado tudo e que tinha sido um grande sucesso, para quê falar sobre meus fracassos, não é?). Ao sairmos para ir embora, ele parecia excitado sob a calça, o que confirmou depois pelo Whatsapp, vindo até minha casa dias depois para nos conhecermos ainda melhor, if you know what I mean. Chegou meio bêbado porque havia saído de uma festa com amigos e estava animado. Seu corpo branco e apertado era quente e macio. Mas, apesar de eu ter mantido contato, algumas semanas depois, quando eu enviei uma mensagem novamente o convidando para ele voltar aqui, ele respondeu: "Podemos ver isto sim, algum dia". Ok, né? Nunca mais voltou.
O modelo chegou atrasado quase uma hora quando marcamos. Ele mora longe, é verdade, e pediu mil desculpas dizendo que houve um acidente, implorou para que eu o desculpasse, e porque não né?, era quarta-feira e eu estava em casa sem fazer nada mesmo. Ele veio até perto da minha casa, na verdade, caminhamos juntos e ele falou sobre estudos, sobre planos para o futuro, fez perguntas indiscretas sobre minha situação financeira e quis conhecer minha casa. Eu não resisti. E ele explodiu sobre meu peito duas vezes sem se tocar. Foi lindo de ver. Ele era lindo de ver. Voltou outra vez, não ficou 1 hora comigo, e eu percebi que apesar de toda aquela beleza, ele, estranhamente, tinha muita vergonha do seu corpo, sempre pedindo que eu desligasse as luzes quando ele pretendia se despir. 



domingo, 14 de dezembro de 2014

"Que delicinha!"

, em Natal - RN, Brasil

Venho caminhando a noite. Voltando de um jantar de trabalho regado a muito vinho do Porto, em que eu não comi nada, mas foram muitas taças de vinho. É uma quarta-feira e observo dois garotos caminhando de encontro a mim. Eu estou pensando que preciso de uma casa maior e mais confortável quando observo os dois por um segundo paralisado no tempo, eu estava em uma esquina, prestes a virar a direita, eles estavam do outro lado da rua, para atravessar para o lugar que eu estava. Não deviam ter mais de 20 anos, usavam camisetas polo e bermudas jeans, calçavam chinelos, pareciam irmãos ou primos, havia uma semelhança. Eram brancos, bonitos, inclusive, cabelos cortados baixinhos, o mesmo e exato corte, um deles falava ao telefone. Mas os vi e simplesmente retornei as minhas preocupações mundanas, e fiz a conversão a direita. Foi quando ouvi:
- Que delicinha!
E virei para trás, o que falava ao telefone não estava mais lá, vi apenas um deles, já saindo do meu campo de visão, escondidos por trás da parede, com um sorriso no rosto. E eu lembrei de Marina Abramovic. A dançarina fez uma performance que dizia para os visitantes que não se moveria por seis horas, não importa o que fizessem com ela. Ao mesmo tempo colocou a disposição, em uma mesa ao seu lado, 72 objetos que poderiam ser usados em seu corpo. Eram flores, poás, facas e até uma arma carregada, entre outras coisas. Os visitantes poderiam usar os objetos como desejassem, não havia limites. Inicialmente os visitantes eram pacíficos e tímidos, mas ao perceberem que ela realmente não reagiria, a agressão surgiu. Suas roupas foram rasgadas, ela foi cortada, enfiaram os espinhos das rosas pelo seu corpo, até a arma foi apontada para sua cabeça (sim, ela estava carregada). Ao fim da performance, Abramovic levantou-se e aí aconteceu o que eu considero mais importante e mais chocante nesta experiência artística (que se chama Rhythm 0): as pessoas que a feriram fugiram dela.
Sempre que se analisa a história do Rhythm 0, se observa a desumanização que a dançarina sofre quando se coloca a mercê dos visitantes, como rapidamente as pessoas se tornam sádicas infligindo-lhe dor, eu nunca observei por este ângulo. Eu noto é como as pessoas são covardes porque só demonstram seu sadismo quando o outro não pode defender-se. No instante que Abramovic levanta-se, aqueles que decidiram expressar-se, através do corpo dela, com violência fogem apavorados, pois temem serem responsabilizados por seus atos. É, pelo menos aqui em Natal, como estes garotinhos agem. Estas piadinhas são comuns e elas só acontecem nestas situações de que o autor se vê protegido de qualquer tipo de enfrentamento comigo e, por causa dessa impossibilidade de enfrentamento, eu muitas vezes fico em dúvida: eles são homofóbicos ou é uma cantada? Analisemos. 
Alguém pode parar agora e dizer: "Mas eles não foram homofóbicos, eles fizeram um elogio!". Será? Um elogio é feito diante de alguém, para que alguém escute, aquela foi uma cantadinha machista, como quando gritam gostosa na rua para uma mulher. O objetivo de gritar "gostosa" para uma mulher não é elogiá-la, mas reforçar o papel de homem-pegador e de mulher-objeto-do-desejo dentro das relações sociais. Quando o homem grita, sempre ao lado de seus confrades, ele reforça seu papel de macho-alfa no meio do seu bando, garantindo assim privilégios diante dos amigos, e também reforça entre os membros femininos do grupo que seu lugar é o de objeto a ser admirado por aqueles que detém o poder. Admirado e devorado (não é a toa que a expressão é "gostosa" e não "linda"). O mesmo acontece aí. Eles gritam para mim "delicinha", que não é diferente de "gostosa", e ainda ocorre na feliz coincidência que o gênero da palavra não deixa de me colocar no papel de mulher-objeto e deles como homens-dominantes. Disfarçado de elogio, a dominação ocorre.
Mas e se foi um elogio mesmo? Por que, diabos!, alguém faz um elogio a outro e não fica para receber os louros? Que espécie de fetiche é esse em que a pessoa sai pelas ruas a noite chamando as outras pessoas que encontra na rua de deliciosas e se esconde depois? Qual a utilidade de uma cantada que termina sem, no mínimo, o telefone do seu objeto de desejo? Qual o objetivo, pergunto curioso? Até porque eu não sei como reagir. Meu impulso foi responder:
- Vocês dois também são deliciosos!
Eu bem que achei naquele segundo que os observei. Mas minha prudência me fez calar. Porque se eles estão sendo homofóbicos, responder com o mesmo elogio seria colocá-los na posição de mulher-objeto no qual eles haviam me posto antes. Esta é a maior dificuldade que os homens héteros tem ao se verem assediados por um homem gay, eles de repente se vêem no lugar de objeto em que colocam as mulheres, no lugar de coisa, de criatura sem autonomia, de ser inferior. E aí eles poderiam se irritar e eu apanhar ali... quer dizer... eles dois apanharem muito de mim porque, gato, eu não apanho de homem nenhum nessa vida. #ProntoFalei. Não quero ter sangue de menininhos héteros na minha mão não. Ou eu devia mesmo ter respondido? 






sexta-feira, 18 de julho de 2014

Cenário De Quinta

A noite pode começar com uma visita à galeria do IFRN, ainda às 18h, o prédio de 1913, que antes pertencia à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sede do primeiro liceu técnico do Estado e mais tarde da televisão universitária. Em 2000, época do centenário do Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia do Rio Grande do Norte, o prédio foi integrado ao instituto e agora abriga seus cursos de arte e produção cultural, duas galerias (com quatro salas de exposição ao todo) e o Museu do Brinquedo. Instalado na Cidade Alta, um dos primeiros bairros da cidade, o qual junto com a Ribeira e Rocas formam o núcleo arquitetônico colonial da capital, o prédio pode ser considerado neoclássico, registro da Belle Époque, anterior a Primeira Guerra, com suas linhas delicadas, arcos leves e janelas simétricas. Os pisos de madeira e o ladrilho hidráulico, o forro trançado e as luminárias de vidro imitando gotas de cristal são detalhes a mais para se observar no lindo prédio. Nas galerias, as exposições variam de temas e técnicas. Desenho, fotografia, escultura, pintura, tecelagem ocupam suas paredes pelo menos a cada mês. 
Virando a esquina, na rua que a prefeitura fechou transformando num espaço cultural. Em que as paredes estão ocupadas por desenhos coloridos por tintas em spray e mesas de plástico estão espalhadas sobre tendas que protegem, de dia, do sol, e a noite, da chuva. As mesas amarelas pertencem ao Zé Reeira. O bar é adorado pelos seus frequentadores que são expulsados a vassouradas quando o dono encerra as atividades pontualmente às 21h. Ele afirma que nos fins de semana fica até o último cliente sair, mas durante a semana ele também tem seus direitos. Eles reúnem uma boêmia idosa, mas que, apesar da idade, não perde o pique para o samba ou a bossa que ocupam o tablado que serve de palco naquela rua, onde garotos adolescentes sentam a tarde para conversar e comer salgados, e mal-vestidos atores e artistas plásticos que montam seus ateliês e oficinas nas salas dos prédios antigos da Ribeira, este que margeia o porto de Natal. O Zé Reeira é um boteco na verdade. Serve uma cerveja gelada e barata e uma comida cara e sem graça. Não serve petisco, acha-se restaurante, mas engradados de cerveja ocupam todos os espaços no interior do prédio, só há um corredor para chegar a geladeira e outro que vai até os banheiros. É tudo muito colorido e bagunçado. E o garçom tenta enganar o dono para que você fique mais tempo, mesmo quando ele manda fechar.
Caminhando pela Cidade, alguns quarteirões distante do Zé, na Rua Coronel Cascudo, o som do samba ocupa ruas apertadas que durante o dia ficam atoladas de vendedores ambulantes, mas nas noites de quinta são ocupadas por jovens universitários e publicitários bebendo cachaça com mel de abelha, o coquetel é chamado de Meladinho e vendido por um boteco em copos descartáveis, e cervejas. Enquanto meninas criadas pela fina sociedade natalense no internato da Escola Doméstica torcem o nariz, professores de arte, atores e artistas admiram as paredes pichadas com frases de efeito, na apertada rua que dá de lado com o Palácio da Cultura, a pinacoteca do Estado, e os fundos do Museu Café Filho, antigo sobrado do ex-presidente, que vive fechado porque é a exposição mais tediosa do planeta sobre o presidente mais sem graça que já tivemos. O samba é alto demais para aquelas ruas estreitas, mas o barulho das conversas acaba por superar a música, mais alto só a fumaça dos cigarros mentolados.  O bar responsável nem nome tem, funciona no andar térreo do primeiro supermercado que a cidade já teve, da época em que Natal pertencia aos Estados Unidos, e às vezes organiza noites de jazz ou de bossa nova.
Mas do outro lado do prédio da pinacoteca, na praça André de Albuquerque, era o pagode que reinava. No falso marco zero da cidade, porque o real fica lá na praia, aos pés do Forte dos Reis Magos, onde a verdadeira cidade floresceu, aqui eram os grandes palácios construídos pelas grandes famílias de sobrenome composto, habitados semanalmente quando se vinha, ao domingo, assistir a missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Apresentação de suas casas nos engenhos distantes ou nas fazendas de carne-de-sol exportada para abastecer Pernambuco. A praça fica lotada, mas não de morenas rebolativas, elas estão lá sim, quase sempre acompanhadas de um homem mais velho ou gringo ou os dois, naquele pagode encontramos muito mais homens musculosos vestindo regatas apertadas em todos os espectros de cores. Todos muito bonitos para ser sincero com vocês. Também, ali, havia muito mais estrangeiros, não era difícil distinguir no ar um português com sotaque entre as palavras bêbadas que driblavam a cantoria de um imenso negro de cabeça raspada e camisa excessivamente justa. Ele tocava um cavaquinho junto do microfone e cantava canções da Marrom. O público era notadamente diferente dos ambientes anteriores. Saltos altos, chapinhas e jeans Videbula substituíam as camisetas indianas com calças de algodão cru. Barbas desgrenhadas e corpos ágeis fruto de alongamentos eram opostos aos cabelos bem cortados, barbas aparadas à maquina e o corpo rijo que foram esculpidos em academias. Pessoas completamente diferentes.
Qual o caminho escolher?