A prostituição sagrada era comum em quase todo o mundo antigo, com raras exceções, mas é importante lembrar que esta é um tipo de sacerdócio, ou um tipo de rito durante o sacerdócio, e não necessariamente um elemento econômico, voltado ao sustento do templo ou do/a prostituto/a. O sacerdote, homem ou mulher, também neste caso, vive dentro do templo, os lugares consagrados a um deus ou uma deusa, onde realizam o rito. Nos templos de Ishtar, por exemplo, deusa lunar da vida e do amor mesopotâmica, chamada na Bíblia de "grande prostituta da Babilônia", pois era na grande cidade de Babel em que os templos de Ishtar estavam colocados, a prostituição sagrada era um rito que permitia a ligação direta dos homens com a deusa, os prostitutos e prostitutas eram "os veículos de sua vida criativa em sua união sexual com os homens que vieram lá para realizar um ritual sagrado", nas palavras de A. T. Mann e Jane Lyle.
As prostitutas sagradas de Ishtar pertenciam a uma hierarquia organizada, meticulosamente gravados pelos babilônios em suas tábuas de argila. Seu alto escalão sacerdotisas eram chamadas de entu, e usavam roupas especiais para distingui-las dos demais. Seus chapéus, jóias e servos eram os mesmas que as do governante, e seu status iguais aos de qualquer outro sacerdote do templo. As naditu, eram as próximas no ranking de importância. Saíam das maiores famílias (isto é, daquelas que possuíam mais terra) e dedicavam suas vidas à deusa, devendo permanecer solteiras e sem filhos. No entanto, as naditu alegremente ignoravam este limite, e levavam uma vida plena e ativa. Elas foram brilhantes e sagaz, com visão de negócios considerável: "Elas compravam, vendiam e alugavam; emprestavam dinheiro e trigo; investiam, importavam, exportavam, tratavam com escravos, conseguiam terras e do povo, seus claustros eram uma parte essencial na economia do país". Abaixo à elas, estavam as qadishtu e os qadesh (expressão idêntica usada na Bíblia significando "separado", "consagrado"). Estes últimos eram os homens que se prostituíam em homenagem a deusa. Além destes haviam os ishtaritu, homens e mulheres que eram especializados nas artes da dança, música e canto. Uma curiosidade é que a partir de fragmentos de informações na literatura clássica, e certos artefatos, é possível supor que estas dançarinas que teriam criado uma versão da dança do ventre, ondulante, como a que ainda é extremamente popular em todo o Oriente Médio.
Os dois grupos finais (qadishtu-qadesh e ishtaritu), normalmente, eram formados por escravos e, não obstante a renda obtida com seus serviços servir para manter financeiramente o templo, seja por causa da prostituição, seja alugando os serviços artísticos, seu trabalho ainda era basicamente ritual. Os dois primeiros grupos (entu e naditu) eram mais voltadas para os casamentos cerimoniais entre o rei e a deusa que garantiam a fertilidade dos campos, a riqueza do país, entre outras. Os qadishtu e qadesh já se voltavam para os ritos pessoais, e fazer sexo com o sacerdote ou sacerdotisa significava uma ligação direta com a própria deusa e, portanto, garantia que esta atendesse qualquer que fosse o pedido que o fiel fazia ali. Em termos cristãos, é o pagamento antecipado de uma promessa.





