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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mesopotâmia: Os Servos de Ishtar

, em Belo Horizonte - MG, Brasil



A prostituição sagrada era comum em quase todo o mundo antigo, com raras exceções, mas é importante lembrar que esta é um tipo de sacerdócio, ou um tipo de rito durante o sacerdócio, e não necessariamente um elemento econômico, voltado ao sustento do templo ou do/a prostituto/a. O sacerdote, homem ou mulher, também neste caso, vive dentro do templo, os lugares consagrados a um deus ou uma deusa, onde realizam o rito. Nos templos de Ishtar, por exemplo, deusa lunar da vida e do amor mesopotâmica, chamada na Bíblia de "grande prostituta da Babilônia", pois era na grande cidade de Babel em que os templos de Ishtar estavam colocados, a prostituição sagrada era um rito que permitia a ligação direta dos homens com a deusa, os prostitutos e prostitutas eram "os veículos de sua vida criativa em sua união sexual com os homens que vieram lá para realizar um ritual sagrado", nas palavras de A. T. Mann e Jane Lyle.
As prostitutas sagradas de Ishtar pertenciam a uma hierarquia organizada, meticulosamente gravados pelos babilônios em suas tábuas de argila. Seu alto escalão sacerdotisas eram chamadas de entu, e usavam roupas especiais para distingui-las dos demais. Seus chapéus, jóias e servos eram os mesmas que as do governante, e seu status iguais aos de qualquer outro sacerdote do templo. As naditu, eram as próximas no ranking de importância. Saíam das maiores famílias (isto é, daquelas que possuíam mais terra) e dedicavam suas vidas à deusa, devendo permanecer solteiras e sem filhos. No entanto, as naditu alegremente ignoravam este limite, e levavam uma vida plena e ativa. Elas foram brilhantes e sagaz, com visão de negócios considerável: "Elas compravam, vendiam e alugavam; emprestavam dinheiro e trigo; investiam, importavam, exportavam, tratavam com escravos, conseguiam terras e do povo, seus claustros eram uma parte essencial na economia do país". Abaixo à elas, estavam as qadishtu e os qadesh (expressão idêntica usada na Bíblia significando "separado", "consagrado"). Estes últimos eram os homens que se prostituíam em homenagem a deusa. Além destes haviam os ishtaritu, homens e mulheres que eram especializados nas artes da dança, música e canto. Uma curiosidade é que a partir de fragmentos de informações na literatura clássica, e certos artefatos, é possível supor que estas dançarinas que teriam criado uma versão da dança do ventre, ondulante, como a que ainda é extremamente popular em todo o Oriente Médio. 
Os dois grupos finais (qadishtu-qadesh e ishtaritu), normalmente, eram formados por escravos e, não obstante a renda obtida com seus serviços servir para manter financeiramente o templo, seja por causa da prostituição, seja alugando os serviços artísticos, seu trabalho ainda era basicamente ritual. Os dois primeiros grupos (entu e naditu) eram mais voltadas para os casamentos cerimoniais entre o rei e a deusa que garantiam a fertilidade dos campos, a riqueza do país, entre outras. Os qadishtu e qadesh já se voltavam para os ritos pessoais, e fazer sexo com o sacerdote ou sacerdotisa significava uma ligação direta com a própria deusa e, portanto, garantia que esta atendesse qualquer que fosse o pedido que o fiel fazia ali. Em termos cristãos, é o pagamento antecipado de uma promessa.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mesopotâmia: Os Abençoados de Inanna

, em Belo Horizonte - MG, Brasil




Uma lenda explica o motivo porque existiam homens efeminados no planeta, inclusive registrando como estes eram tratados tanto desde o seio da família, como pela sociedade mesopotâmica, não obstante serem considerados na cultura mesopotâmica como seres sagrados. Diz a lenda:

Asushunamir, o primeiro homem-mulher, ur-sal, foi criado/a por Enki para resgatar Inanna da Terra sem Retorno, Kur-Nu-Gia, o inferno. Inanna, rainha do céu, havia dado a Enki, o sábio, grandes presentes como a sabedoria, a justiça, o amor, as mulheres sagradas e os frutos da vinha. E para salva-la da morte, em retribuição, Enki consturiu com suas próprias mãos um/a belo/a homem/mulher chamado/a Asushunamir; ele/a que tem uma face radiante, e uma beleza estupenda, ele/a que se veste com estrelas, macho e fêmea, companheiro/a de Inanna, Asushunamir. 
O feitiço de Ereshkigal, a rainha da morte, não podia possuir alguém vestido/a de luz. Alguém que não era nem homem, nem mulher. Ereshikigal então ficou encantada pela beleza de Asushunamir, inclinada a ouvir sua voz, seduzida por sua dança. Ereshkigal então organizou um grande festim em sua honra, o melhor vinho, as melhores carnes, as mais suntuosas frutas. Ela sonhava em levar aquela beleza para sua própria cama, e mantê-la junto de si para sempre na Terra dos Mortos. 
Mas Asushunamir foi cuidadoso/a e não tocou no vinho e nem na comida feita pelos servos de Ereshkigal. Quando a rainha dos mortos perguntou porque ele/a não tocava no vinho, Asushunamir perguntou se ele/a poderia provar a água da vida, que era guardada numa jarra. Esta era a água que Enki havia avisado a Asushunamir que quando voltasse para o mundo dos vivos, deveria banhar-se nela, antes de atravessar os Sete Portões de Irkalla. Ereshkigal então ordenou: "Namtar, traga a jarra que contem a água da vida. Eu realizarei o desejo desta charmosa criatura".
Depois, quando Ereshkigal caiu no sono, Asushunamir encontrou Inanna, dormindo, na sua cela de cativa. Ele/a molhou a deusa com um pouco da água da vida, e levou-a em seus braços ainda adormecida e respirando como um bebê.
Ao Inanna atravessar os Sete Portões de Irkalla, acendendo a terra, a beleza brotou novamente no mundo, flores desabrocharam e a terra se cobriu de verde. As pessoas voltaram a cuidar dos campos, fazer vinho e fazer amor, dando banquetes, tudo em honra de Inanna. 
Asushunamir, no entanto, não teve tanta sorte. Ereshkigal acordou e o/a encontrou antes de atravessar o Sétimo Portão. E aí, nem sua beleza, charme, dança ou canções puderam evitar que a paixão da deusa da morte se tornasse ódio.
"Tua comida será servida num estábulo, mil vezes", amaldiçoou Ereshkigal, "A água do esgoto será sua bebida. Nas sombras você habitará, desprezado/a e odiado/a pelo seu próprio povo". E pronunciada a maldição, Ereshkigal o/a baniu. 
Quando Inanna descobriu sobre a maldição colocada em Asushunamir, ela falou-lhe palavras doces no ouvido: "O poder de Ereskigal é grande. Ninguém ousa desafia-la. Mas eu tenho meios de suavizar sua maldição, como a primavera chega para banir o inverno. Aqueles que são como você, meus Assinnu e Kalum e Kugarru e Kalaturru, amantes dos homens, parentes de minhas mulheres sagradas, serão desconhecido em seus própria casa. Suas famílias mantê-los-ão nas sombras e não lhes deixarão nada. O bêbedo os imitara, e o poderoso encarcerar-los-á. Mas se você se recorda, como você era nascido da luz das estrelas para me conservar, e através de mim a terra, da escuridão e da morte, a seguir eu abrigarei e a todos do seu tipo. Você será minhas crianças favorecidas, e eu far-lhe-ei meus sacerdotes. Eu conceder-lhe-ei o presente da profecia, a sabedoria da terra e a lua e todos que governa, e você afastará a doença de minhas crianças, exatamente como você me salvou das embreagens de Ereshkigal. E você se vestirá com meus vestidos, e dançará em seus pés e cantará com sua garganta. Nenhum homem será capaz de resistir aos seus encantos. Quando os jarros de barro forem trazidos de Irkalla, os leões pularão nos desertos, e você será livrado da maldição de Ereshkigal, a rainha da morte. Você será chamado uma vez mais, Asushunamir, ser vestido na luz. Seu tipo será chamado aqueles cujas as caras são brilhantes, aqueles que vieram renovar a luz, abençoado de Inanna.

No culto, Asushunamir era sempre representado por uma espécie de ator chamado assinnu. Ann Kessler descreve estes atores como personagens que aparecem em uma variedade de fontes da Mesopotâmia, pertencente ao culto de Innana e que distinguiam-se pelo vestido, penteado e apetrechos femininos. Diversamente travesti, um hermafrodita ou eunuco, o assinnu é uma figura ambígua de transgressivo ou, talvez, até mesmo de gênero mutável e sexualidade evidente. A palavra assinnu tem a mesma origem que o nome do deus e esta ligada a ideia de ur-sal, homem-mulher, de pessoa que pode se deslocar entre os dois gêneros.  

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mespotâmia: O Manual de Summa Alu

, em Belo Horizonte - MG, Brasil






Summa Alu, um manual acádio (região central da Mesopotâmia) usado para prever o futuro, são um conjunto de 126 tábuas de argila encontrado por volta da década de 1930, mas que faz referência a metade do segundo milênio antes de Cristo, por volta de 2500 a.C.. Eles são um conjunto de presságios baseados no comportamento animal, nas características físicas das pessoas e aspectos da casa, e, também no comportamento humano, inclusive, no comportamento sexual. Destes, relacionados ao comportamento sexual, cinco presságios são relacionados com comportamento homoeróticos. Podemos citar, a partir da tradução de Bruce L. Gerig:

"Se um homem copula com um igual por trás, ele se torna o líder entre seus pares e irmãos".

"Se um homem anseia por expressar sua masculinidade quando está na prisão, e se utiliza de um assinnu (prostituto sagrado), o amor pelos homens tornar-se-á seu desejo, e ele vai experimentar o mal".

"Se um homem copula com um assinnu (um prostituto sagrado), todos os problemas vão deixá-lo".

"Se um homem copula com um gerseqqu (um cortesão masculino ou servo real), a preocupação vai consumi-lo por um ano, e então deixá-lo".

"Se um homem copula com um escravo nascido em sua casa, um destino duro cairá sobre ele".

Segundo o texto do manual, então, o comportamento homoerótico em Akkad não era considerado, em si, negativo; todavia ele acontecia dentro de certos limites, isto é, havia algumas regras para este comportamento acontecer, afinal entre o segundo e o terceiro presságio, por exemplo, o uso da prostituição sagrada de homens (falaremos sobre esta instituição num próximo texto) é idêntica, mas o resultado muda radicalmente dependendo da situação do usuário (no caso, livre ou prisioneiro). Havia certas situações em que era permitido os relacionamentos homoeróticos, e em outras que era proibido. 
Outro exemplo, é a relação sexual com um escravo nascido dentro de sua própria casa.  As relações de escravidão evocam, sem sombra de dúvida, uma relação parental, isto é, o senhor de escravos tem um poder patriarcal dentro de sua casa e com os seus escravos, portanto, nesta relação, com um escravo nascido dentro de sua própria casa o que está sendo criticado é uma relação incestuosa (entre pai e filho, no caso do dono do escravo com o escravo; e entre irmãos, no caso do filho do dono do escravo com o escravo).
Contudo, já o quarto presságio, que se refere ao gerseqqu é o mais nebuloso de todos. Levando em consideração que a palavra "homem" nesta tradução deve ser entendida como cidadão, já que um escravo não seria incluído nesta acepção de "homem", a situação entre o cidadão e este gerseqqu é um tanto problemática.
No entanto, como explica Martti Nissinen, o sexo com outro homem sempre representa a dominação e a obtenção de poder. O que importa aqui é o espaço social masculino, o corpo social masculino. Além disso, é também importante lembrar que, neste caso, o comportamento sexual que é socialmente aceito é o comportamento ativo, aquele que penetra, e não o passivo. 

terça-feira, 12 de julho de 2011

Mesopotâmia: As Leis Assírias

, em Belo Horizonte - MG, Brasil

Como vimos no texto anterior, o sul mespotâmico, a Suméria, cujas cidades principais são Uruk, Ur e Eridu, não via problemas com os relacionamentos homoeróticos, tanto que a única estória que se conservou sobre um dos seus reis mais importantes, da qual outras dinastias faziam questão de descender, é exatamente o de seu romance homoerótico. Contudo, ao norte, na região chamada Assíria, cuja principal cidade chamnava-se Assur, terra de pastores e guerreiros, montanhosa e árida, uma lei demonstra uma posição, talvez, contrária. É interessante perceber que entre todos os códices de leis encontrados na região da Crescente Fértil (região do mapa acima) - incluindo Urukagina (2375 a.C.), Ur-Nammu (2100 a.C.), Eshunna (1750 a.C.) e Hammurabi (1726 a.C.) - em nenhum deles existe registro de leis que regulem as relações homoeróticas, contudo em tabuletas de argila que datam dos séculos entre 1450 e 1250 a.C., de origem assíria, mantém dois parágrafos (19 e 20). O primeiro prevê penalidades para aquele que acusa falsamente alguém de ter praticado atos homoeróticos, sobretudo, sendo passivo no ato sexual. A lei exige testemunhas e na inexistência, o acusador seria marcado com um símbolo de vergonha. Já o parágrafo 20 diz: "Se um homem deitar-se com um amigo seu, e o penetrar, e isto for provado, a mesma coisa será feita com ele e ele se tornará um eunuco". As leis mesopotâmicas são as famosas leis de Talião, olho por olho, dente por dente, então não é de surpreender o primeiro trecho desta lei que exige reparação idêntica ao ato. Contudo, os historiadores questionam-se é sobre a parte final da lei: "e ele se tornará um eunuco". A castração parece um tanto de exagero para um crime citado apenas duas vezes no códice todo. Contudo, o contexto em que esta lei aparece, entre outros crimes sexuais como estupro e defloramento de virgens propõe uma outra dimensão para a sua interpretação. 
Propõem alguns historiadores que esta segunda lei puna na verdade o estupro masculino, isto é, o ato sexual não consensual entre dois homens, o argumento aqui é que como apenas aquele que penetrou o outro é castigado, isto quer dizer que o ato sexual em si não é o problema, mas a sua falta de consensualidade. Os assiriologistas acreditam que a melhor tradução para o texto é inclusive "Se um homem cometer violência com um amigo seu". Podemos concluir, então, que na Assíria também não haveria proibição as relações homoeróticas. Elas não seria condenadas como licenciosidade ou imoralidade, ou que transgredisse qualquer lei humana ou divina, podendo qualquer um, inclusive visitar um prostituto, mas isso fica para o próximo texto.

PS: O Junnior, do Identidade G, me chamou atenção para o uso da palavra "amigo". Vejam nos comentários a observação dele por completo, mas em resumo, ele diz que se o legislador usa amigo é porque seria consensual, este é um problema de tradução, novamente, amigo aqui quer dizer aqueles que são do mesmo nível, concidadãos, seria a melhor tradução. O crime só existe se for entre dois cidadãos, se o mesmo ato acontecesse com um escravo, por exemplo, não seria crime.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Mesopotâmia: O Amor de Gilgamesh

, em Belo Horizonte - MG, Brasil

Começar pela Mesopotâmia faz um certo sentido. Pelo menos para mim. É no vale dos rios Tigre e Eufrates, acreditam os historiadores, que o homem abandonou as suas migrações constantes e se fixou, finalmente, para formar aquilo que chamamos de cidade hoje. Todavia não estamos com isso afirmando que as relações homoeróticas não existiam antes da invenção da cidade, contudo, infelizmente não existem registros históricos que nos permitam localiza-los e reconhece-los. É exatamente a invenção mesopotâmica da escrita, fruto de uma necessidade da própria cidade, que permite que encontremos registros históricos de relações homoeróticas. Podemos inclusive mencionar o poema épico, a Epopeia de Gilgamesh
A Epopeia de Gilgamesh é um poema sumério, para ser mais preciso. Um dos grupos étnicos que habitavam a  Mesopotâmia, sobretudo no sul da região, a Suméria. A atual forma do poema é oriunda de uma copilação de poemas em torno do rei-herói Gilgamesh reunidas pelo rei Assurbanipal, entre os séculos VIII e VII a.C. As narrativas contidas na epopeia deviam ser muito populares, sendo que as primeiras versões datam ainda do Período Babilônico Antigo (2000-1600 a.C). E giram em torno da relação entre Gilgamesh (um rei lendário, o quinto rei de Uruk, da primeira dinastia após o Dilúvio, e teria vivido entre 2750 e 2600 a.C.) e Enkidu, um homem criado pelos deuses como um equivalente ao rei-herói, para distraí-lo e evitar que o herói oprimisse os moradores da cidade, que estavam descontentes com a arrogância e a luxúria do rei. O amor, então, entre o herói e o homem é a matéria do livro mais antigo da literatura mundial.
Enkidu é então criado pela deusa Aruru do barro e feito a imagem e semelhança de Anu, o grande deus sumério. Ele é criado inocente, vivendo nu, entre os animais, longe da malícia da civilização. Ao saber da existência de tal homem, o rei incubiu uma das prostitutas sagradas do templo de Ishtar, a deusa do amor, a seduzir Enkidu e trazê-lo para a cidade. Seduzido, o inocente Enkidu tornou-se conhecedor da malícia do ser humano e "perdera sua força pois agora tinha o conhecimento dentro de si, e os pensamentos do homem ocupavam o seu coração".
O livro começa com o clamor do povo de Uruk no qual se conta que a luxúria de Gilgamesh não poupa uma só virgem, nem a filha do guerreiro, nem a esposa do nobre, para evitar então isso que Enkidu é criado, e ao sonhar com ele, é assim que o rei-herói toma consciência da existência de Enkidu, o rei diz que este exercia sobre ele uma atração semelhante ao que exerce o amor de uma mulher. No capítulo I, fala a mãe de Gilgamesh, a deusa Aruru, decifrando-lhe o sonho: "Esta estrela do céu que caiu como um meteoro (...); eu a criei para ti, para estimular-te como um aguilhão e te sentiste atraído como que por uma mulher. Ele é um forte companheiro, alguém que ajuda o amigo nas horas de necessidade (...). Ficarás feliz em encontrá-lo; vais ama-lo como uma mulher e ele jamais te abandonará".
Após o encontro e a imediata paixão que ambos sentem, Gilgamesh e Enkidu vivem uma série de aventuras que passam a desagradar os deuses, e como castigo a vida dada a Enkidu é retirada. O lamento deste é comovente no capítulo III: "Enkidu jazia estendido diante do amante. Suas lágrimas vertiam copiosamente e ele disse a Gilgamesh: Oh, meu amado, és tão querido por mim e eles no entanto vão tirar-me de ti. Ele tornou a falar: Devo sentar-me a entrada da casa dos mortos e jamais tornar a ver com meus olhos meu querido irmão". Com a morte, momento decisivo na epopeia, após uma canção (que deveria ser repetida por poetas em todas as cidades sumérias) em que o rei lamenta a morte do amado nas seguintes palavras:  "ouvi-me homens ilustres de Uruk, choro por Enkidu, meu amado, com lágrimas pungentes de mulher aflita, choro por meu irmão, Enkidu, meu companheiro (...)", sai Gilgamesh em busca da imortalidade, isto é, o rei busca tornar-se um deus, procurando a ajuda de Utnapishtim, o único homem a sobreviver ao dilúvio graças a intervenção do deus Ea, que ordenou-lhe que construísse um barco onde ele deveria salvar os seres viventes.
É, definitivamente após a morte de Enkidu, que as demonstrações do afeto de Gilgamesh por ele aumentam. No capítulo III ainda, temos a seguinte narração: "Gilgamesh tocou o coração de Enkidu, mas ele já não batia, seus olhos também não tornaram a abrir. Gilgamesh então cobriu o corpo do amigo com um véu, como o noivo cobre a noiva. E pôs-se a urrar, a desabar sua fúria como um leão, como uma leoa cujos filhotes foram roubados. Vagueou em torno da cama, arrancou seus cabelos e os espalhou por toda parte. Arrancou os magníficos mantos e atirou ao chão como se fossem abominações". No capítulo 4, o rei-herói diz: "Chorei por ele dia e noite e me recusava a entregar seu corpo ao funeral. Pensei que meu pranto fosse trazê-lo de volta. Desde sua partida minha vida deixou de ter sentido".
É o amor do rei sumério pelo seu companheiro, amor este forte o bastante para fazê-lo desafiar os deuses, a matéria do primeiro livro já escrito, contudo, não podemos considerar que em toda Mesopotâmia os relacionamentos homoeróticos tivessem o mesmo valor que a capital cosmopolita suméria. Mas isso fica para o próximo texto.