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domingo, 1 de março de 2015

Meu Problema

, em Natal - RN, Brasil
Era uma tarde de quinta-feira, o carnaval acabara de passar, primeiro dia da Quaresma católica, e eu o esperava para almoçar na praça de alimentação de um shopping. Eu não ia trabalhar naquele dia, e aquele menino me convidara para um cinema, eu aceitei. Sempre faço isso, encontro desconhecidos que me convidam para sair. Eu cheguei antes e ele se atrasou, mas eu não vi problema nisso (e talvez aí esteja todo o meu problema, me acompanhem...). Ele chegou pela minha direita e eu o reconheci de imediato. Ele usava um cabelo mal cortado que fazia parecer que ele era careca, mas não era; óculos grandes demais para seu rosto com lentes que escurecem quando expostas a luz, também vestia-se estranho, uma camiseta azul marinho, uma calça social marrom clara e um tênis de corrida. Ele vestia-se mal e apresentava-se de forma, no mínimo, desleixada. Novamente, apesar de notar um problema (de fato eu notei), eu falei para mim mesmo que devia ignorar e ir em frente. (eu sempre penso: eu devo tratá-lo como gostaria de ser tratado, não é? Então não posso julgar alguém por sua aparência). Eu almocei um Subway, eu estava desejando, ele pegou um quase nada de comida em um restaurante à peso, arroz-de-leite, salmão e uma batata, deixou metade do peixe no prato e boa parte da batata, aquela comida ia para o lixo (eu me senti profundamente incomodado, mas achei melhor não dizer nada, achei que devia dar a ele uma chance, como gostaria que ele desse uma a mim, e sim, eu julgo pessoas porque jogam comida fora em um mundo em que tanta gente passa fome). Subimos para o cinema, "Temos que ir para não atrasar", ele falou.
Compramos ingressos para O Jogo da Imitação, sobre a vida do matemático e inventor dos computadores, Alan Turing. Ótimo filme por sinal. Sentamos, obviamente, lado a lado e ele pegou na minha mão e puxou-me para um beijo. As luzes nem haviam apagado ainda, os poucos espectadores entravam na sala, e nós eramos dois adolescentes se beijando na sala (sim, me incomodou bastante, mas, apesar de tudo, eu pensei, porquê não?). Foi um beijo cheio de dentes. Ele abria a boca demais, quase engolindo a minha, seus dentes chegavam a raspar na minha barba, acho que ele quase cortou minha bochecha. Eu sussurrei-lhe: "Calma!", ele riu, mas não mudou em nada seu comportamento. Parece que aumentou o fogo, na verdade.
Ele quis pegar em lugares demais ali no cinema quando as luzes apagaram. Eu tirei sua mão. Repeti com paciência: "Calma!". Ele voltou com o beijo afobado que demonstrava toda sua inexperiência (era sem sombra de dúvida um beijo de alguém que não costumava beijar outros homens, mas ele tinha 23 anos, o que eu achei estranho). Tentou novamente tocar-me em lugares bem ao sul. As pessoas ao nosso redor, não eram muitas na sala devido ao horário, mas bastante perto de nós, não o intimidavam em nada, mas eu não sou mais um adolescente que tem que aproveitar estas oportunidades na vida. Eu não queria aquela exibição em uma sala de cinema. Se ele quisesse vir a minha casa, tudo bem, mas não ali. Pedi-lhe novamente: "Calma!". Ele desistiu.
E acho que ali ele viu um problema. Senti-lhe ofendido. Eu não estava no mesmo clima dele, óbvio, de beijos destreinados e tesão adolescente, queria ver o filme do lado de alguém legal apenas, e ele era bem legal. Inteligente, com um sorriso lindo e um corpo gostosinho por debaixo daquela roupa brega (Deus me perdoe, mas era sim!). Mas ao contrário de mim que estava aberto a passar por cima de todos os problemas que eu encontrasse na minha frente (e foram muitos), o primeiro que eu impus a ele, ele desistiu. A prova foi que ele não respondeu nenhuma das mensagens que eu enviei para ele nos dias após o cinema. Mas ele está certo. Quem cometeu um erro fui eu, quem é o problema sou eu. E meu problema é passar por cima do que me incomoda nas pessoas que eu conheço na esperança de, com o tempo, encontrar nelas as qualidades que eu sei que elas possuem, infelizmente nenhuma pessoa está disposta a fazer o mesmo por mim.