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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Esse Pajubá É Odara!

Neca (pênis), ocó (homem), picumã (cabelo), equê (mentira), aqué (dinheiro), aquendar (pegar), por exemplo, são expressões comuns no mundo gay brasileiro e são palavras em iorubá, a língua trazida pelos negros da África Centro-Oriental, mas que hoje habitam, principalmente, a Nigéria, Benin, Togo e Serra Leoa. Hoje, no seu continente de origem, a maior parte da população é católica, mas algumas também são islâmicos, sendo 1/4 de sua população ainda voltada para sua religião primitiva que aqui no Brasil se cristalizou de duas formas: a Umbanda e o Candomblé. 
Reginaldo Prandi, sociólogo paulista, afirma que o culto dos orixás em suas várias formas (Candomblé baiano, Xangô pernambucano, Batuque gaúcho, Tambor-de-Mina maranhense, Jurema potiguar), com exceção da Umbanda, pela dimensão kardecista-católica que impõe seu plano de moralidade, tem sido pelo menos desde os anos 1930 redutos de homossexuais, sobretudo aqueles de classe mais baixa e negros. Apesar disto, a maior parte dos pesquisadores sobre o tema mantiveram em segredo esta participação ou, quando consideravam, diziam que este terreiro estava culturalmente decadente. Contudo, esta é com certeza uma opinião destes sociólogos que deixavam seus preconceitos interferirem em sua relação com os seus objetos. Prandi, no entanto, afirma que nenhuma instituição no Brasil, afora o culto dos orixás jamais aceitou o homossexual como uma categoria que não precisava esconder-se, anulando-o enquanto tal, até meados do século XX, aquando do surgimento das igrejas evangélicas inclusivas. Esta aceitação, nas palavras do sociólogo paulista, demonstra como esta religião vê este mundo, mesmo quando, no extremo, trata do mundo da rua, do cais do porto, dos meretrícios e portas de cadeia, o homossexual como um marginal que era no início do século XX estava integrado a esta comunidade. 
Participar deste grupo voltado ao exercício da fé tinha suas vantagens. Era um ambiente lúdico, reforçador da personalidade, capaz de aproveitar os talentos estéticos e individuais e, também, permitir mobilidade social e acumulação de prestígio, coisas pouco ou nada acessíveis aos homossexuais no início do século ainda mais quando se é pobre, negro ou mestiço, migrante e pouco alfabetizado. Mas, mesmo assim, qualquer adepto gay ou não poderia exercer um cargo sacerdotal, tornar-se mãe ou pai de santo, sem esconder sua inclinação sexual. Ao contrário, ela pode servir para legitimar sua preferência ao cargo, pois homossexuais, segundo o candomblé, são seres que tem seu ori (cabeça, destino) controlado por um orixá de gênero oposto ao dele (isto é, homens controlados por uma orixá feminina, mulheres controladas por um orixá masculino). Além disso, se não fosse pouca coisa, as religiões dos orixás liberam os indivíduos e também libera o mundo. Ele não tem uma mensagem dizendo que as experiências carnais neste mundo são cercadas por pecado, muito menos ela espera que as pessoas sejam salvas de algum inferno pelos seus atos.
São estes homossexuais que frequentadores dos guetos onde os veados (sim, ainda veados, não gays, em um próximo texto eu explico essa diferença) brasileiros viviam até o fim da década de 1980 introduziram a língua de sua religião dentro daquele outro grupo e fundaram uma língua nova, um sub-dialeto pertencente a um sub-grupo cultural. 
É ai que somos apresentados a palavras como edi (cu), odara (bonito), amapô (mulher), cafuçu (homem bruto), ebó (oferenda), alibã (policial), axó (roupa), azuelá (ser ativo), todo o pajubá (língua), que surgiu para que este grupo pudesse se proteger, não ser entendido mesmo, uma língua secreta que os protege, principalmente os travestis. Otí (bebida), xanã (cigarro), pemba (cocaína), erê (criança), uó (ruim), aló (lésbica), ocan (bunda) são símbolos de resistência. Relegados aos guetos, esta linguagem passava a ser um instrumento de unidade entre os falantes que mesmo não participando da mesma concepção de sagrado (nem todo gay ou lésbica é participante de alguma religião de orixás) pertenciam a um mesmo grupo que sofria perseguição. Astor Vieira Junior, linguista bahiano, ainda afirma que homossexuais e negros compartilham o fato de sofrerem com a intolerância. Excluídos socialmente, sobretudo os de menor poder aquisitivo e educacional, a língua iorubá garantiu um espaço existencial protegido para estes viverem suas diferenças.
Penso como Vieira Jr, além de proteger seus usuários, este código é responsável pela transmissão de uma cultura e a produção de uma identidade social de seus falantes. É por isso que afirmo que ser gay é uma identidade cultural, além de fazer sexo com alguém do mesmo sexo, ser um homem gay ou uma mulher lésbica é compartilhar de uma cultura, um conhecimento, uma linguagem que o torna membro do grupo, parte de uma comunidade.




sexta-feira, 4 de julho de 2014

Como Se Nasce Gay: Sexualidade Não É Natural. (Parte II)

, em Natal - RN, Brasil
Nós não nascemos gays! Nem héteros! Nem bissexuais! Sexualidade não é algo com que nascemos, mas é algo que construímos a partir do nascimento. Gênero, no entanto, é algo com que nascemos. Existem pessoas que vem ao mundo meninos ou meninas, mas também meninos no corpo de meninas e meninas no corpo de meninos, também nascemos meninos-meninas (sim, os dois ao mesmo tempo) e também nenhum deles, apesar da presença de uma genitália. O gênero, este sim, tem um componente genético, e é extremamente mais complexo do que a oposição macho e fêmea que os pênis e vaginas dão a entender.
Sexo (homo, hetero, bi, gay, g0y., H.S.H), no entanto, é uma construção identitária, isto é, acontece na mente e não no cérebro. A partir das relações do indivíduo com outras pessoas (família, amigos, vizinhos), com o ambiente que ele vive (escola, igreja, trabalho) e sua cultura, ele começa a projetar uma identidade na qual ele pode lidar com os impulsos sexuais que seu corpo produz. Ele, o indivíduo, que projeta seu desejo para algum objeto graças as respostas que ele tem na sua primeira infância, cria uma identidade para lidar com as respostas que recebe. Trocando em miúdos, um menino que projeta sua necessidade de carinho para um homem e recebe deste um resposta satisfatória sempre tende  a criar dentro de si um padrão procurando aquele mesmo homem nos seus relacionamentos futuros. A psicologia já repetiu incansavelmente que homens heterossexuais procuram suas mães nas parceiras, porque foram elas as primeiras a satisfazer sua pulsão sexual satisfatoriamente (opa, me assustei como soei freudiano agora, culpa do Joseph Campbell que estou lendo). 
A maior prova que a sexualidade é uma construção identitária que varia de acordo com nosso ambiente esta escrita em toda história da Humanidade. Ela está recheada de inúmeros exemplos de identidade sexual distinta do padrão que nós utilizamos hoje em dia, aqui, no Ocidente. E reforço no Ocidente porque mesmo nos dias que vivemos encontramos formas distintas de sexualidade (fora da chave homo-hetero-bi) em tribos indígenas americanas, em aborígenes nas ilhas da Oceania, entre os países islâmicos, na Índia, China e Japão. Sociedades que fogem desta complexa cultura compartilhada que chamamos de Ocidente criam identidades sexuais distintas. É a cultura, e somente ela, que define uma identidade sexual, ela fornece os modelos em que o indivíduo aprende a expressar os impulsos sexuais que vêm descontrolados do seu subconsciente. Inclusive, diz Karl Marx, no prefácio de Uma Contribuição a Crítica da Economia Política, que não é a consciência dos homens que determina a realidade, é a realidade social que determina a consciência dos homens.
Se esta teoria (sim, teoria, não trabalhamos com certezas em ciência) é correta poderíamos evitar o desenvolvimento de homens gays dando-lhes somente experiências com mulheres hiper carinhosas e protetoras? Segundo Nelson Rodrigues não. E eu afirmo que além de impedir o desenvolvimento social do menino (ele não poderia frequentar a escola, por exemplo, nesta experiência) o que prejudicaria seu processo de socialização e desenvolvimento psicossocial (o que somente isso já deveria ser considerado um crime), tolheríamos a liberdade desta criança, obrigando-a a seguir por um caminho que nós consideramos o correto, e não que ele escolheu. A ideia de que conseguiríamos controlar o ambiente em que uma criança vive e as projeções que ela faça do seu subconsciente não é, no mínimo, uma ilusão megalomaníaca de controle?
Por fim, a sexualidade é muito mais complexa do que estes padrões dualistas de hetero e homo nos permitem ver. Ela também não nasce com você, mas é construída por toda sua vida e, dependendo, das experiências que você se permita ter, nunca estará completamente madura. Mas uma coisa é certa, ela começa a esboçar-se sempre na tenra infância, moldada por nossas experiências no seio de nosso primeiro grupo de socialização. Seja ele qual for (família, família estendida, escola, creche, vizinhos, etc). Todas as experiências nesta fase de formação do ego são extremamente marcantes.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Seguro Em Minhas Mãos

, em Natal - RN, Brasil




Esta campanha foi lançada esta semana pela empresa de seguros AllState, por causa do Dia Internacional do Orgulho Gay, próximo dia 28 de Junho, com o título Safe In My Hands (Seguro em minhas mãos) e fala sobre o direito dos homossexuais de demonstrarem afeto em público em segurança. A campanha, contudo, não se volta aos heterossexuais dizendo a eles que os gays tem o direito de não serem importunados, ao contrário, ela instiga os gays e lésbicas a, mesmo havendo preconceito, que eles continuem manifestando afeto em público, porque, afirma a campanha, o que torna a vida dos homossexuais mais perigosa é a invisibilidade. Quanto menos nós aparecemos, na TV, na rua, dentro dos shoppings que pipocam nas cidades brasileiras (apesar deste ser um modelo de negócio falido), mais nos tornamos vulneráveis a ataques homofóbicos. Precisamos sermos vistos em meio ao povo para sermos protegidos exatamente por estes olhares reprovadores. Quando nos escondemos em guetos, becos escuros e bairros marginais, nós damos a possibilidade para que nossos atacantes sintam-se seguros (olha que ironia) para nos atacarem.
A mim, fez muito sentido. Mas as pessoas que expus a ideia. Todas sem exceção não apoiaram. Logo surgiu a frase que me fez me arrepiar dos pés a cabeça: "Ser gay não é uma bandeira que eu devo levantar em todo lugar que eu chegar". Não é? Então é o que? Ser gay não é algo privado, ao contrário do que a militância yuppie da década de 1990 pregou. Gozar é algo privado, porque afinal de contas, você pode gozar inclusive sem a presença de nenhuma outra pessoa, às vezes, somente com sua imaginação (os sonhos eróticos estão ai para provar isso). Ser gay é uma identidade (repito isso), é algo que nós assumimos para os outros, não para nós mesmos! Ser gay é algo que fica do lado de fora do nosso corpo! E, com esta identidade, nós nos colocamos num certo posicionamento político. É como ser de esquerda, é como ser de direita, é como ser anarquista, é como ser comunista, é como ser liberal, ser gay não tem a ver com sua relação sexual, mas com o posicionamento político e cultural que você assume quando sai do armário. Por isso os g.0.y e os H.S.H renegam esta identidade, eles rejeitam o projeto político-cultural que nos envolve. 
Portanto, perceba, você, homem gay, toda vez que você beija um homem, o abraça e, principalmente, toda vez que você começa um namoro com um homem (não falo nada sobre sexo, este pouco me importa!), você assume um projeto político que precisa tornar-se consciente: estamos aqui para mudar o mundo. Ser gay significa que só vamos sair daqui quando formos aceitos. Não que eles nos deem nossos direitos (esse é o projeto yuppie), não que eles nos garantam liberdade para viver nossa sexualidade em paz (este é o projeto g.0.y e de inúmeros outros grupos), nós queremos mudar de verdade a porra desse mundo! Ser gay significa em cada beijo que você der no seu namorado, você estará mostrando as pessoas ao seu redor que a diversidade existe. Que o modelo de família heterossexual não basta, que o modelo de amor entre homem e mulher é ultrapassado, que a existência humana tem muito mais espectros do que a bipolarização homem-mulher consegue absorver. 
Desculpe te informar, mas todo gay e lésbica é um militante. Desculpem-me se vocês têm medo disto ou preguiça. Todo homem gay e mulher lésbica dedica sua vida, consciente ou não disso, de ser um exemplo para os outros que o mundo é muito maior. Ai está a diferença: se somos conscientes deste serviço, nós não agimos para atrasar o processo. Quando nós não nos beijamos na frente de alguém por "respeito", quando não seguramos na mão dos nossos namorados com medo, quando apresentamos nosso marido como amigo. Quando sabemos que nossa tarefa política é mostrar nosso estilo de vida gay é possível para qualquer um que assim o deseje, se esconder se torna uma bobagem. Então, junto com a AllState eu convoco vocês, todos, a andarem de mãos dadas com vossos namorados. Somente este gesto, vocês não sabem o quanto estarão mudando o mundo com este simples gesto.