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terça-feira, 4 de setembro de 2007

Estórias de Uma Vida Não Vivida 2

Para avisar a todos: isso aqui é ficção, viu?



De Profundis


Que dia! Que dia!
Eu estava no computador, fazendo Deus sabe o quê, quando o interfone tocou. Era Bruno pedindo pra subir, nem perguntei o que era, ele logo subiu. Abri a porta olhando no rosto de Bruno tentando adivinhar o que ele queria me dizer. Ele estava sério e tenso. Eu sorri para relaxá-lo, mas ele continuou na mesma.
Pedi que ele sentasse e ele sentou no sofá, e continuou em silêncio. Perguntei o que tinha acontecido, e ele após uma pausa excessivamente dramática disse que era um assunto muito sério... e ele tava tomando coragem. Eu sorri e levantei, rindo e dizendo que quando ele tomasse coragem eu estaria na “biblioteca”.
Fui preocupado. Bruno estava preocupado mesmo com algo. E algo que me envolvia para ele ter que escolher tanto as palavras. Sentei no computador, vasculhei a net um pouquinho, mas nada me fez esquecer Bruno lá na sala ensaiando o que ia falar pra mim.
E algum tempo depois ele chegou. Ele começou cheio de dedos, me perguntando sobre o Douglas. Como era nosso relacionamento, se eu estava realmente gostando dele, me perguntou como nos conhecemos. Tudo coisas que ele já sabia. Eu imaginei que ele sabia de algo e queria me contar. E ele só começou o assunto quando eu fiz essa pergunta: “O que você quer me falar, Bruno?”
Doeu ouvir aquilo de Bruno. Subiu uma angústia a cada palavra que saia da boca dele. Ele começou dizendo que sempre que saíamos era sempre eu que pagava as coisas pro Douglas. Que conversando com a Camilla ele tinha descoberto que ele tinha comprado roupas no meu cartão e não pagou. Que, nas palavras de Bruno, “trocando em miúdos, eu estava sustentando àquele michê”. Como doeu ouvir isso.
E o pior é que eu neguei de forma tão veemente que qualquer um teria acredito em mim. Menos o Bruno. É terrível quando alguém conhece tua alma tão profundamente não? Mas eu só dizia não, não, não. Como foi difícil ouvir essa verdade, como eu me forcei para não vê-la. E por que tinha que ser justo Bruno que tinha que vir falar comigo?!
Mas eu continuei negando. E cada não meu irritava ainda mais o Bruno. Ele ficou possesso. E eu sentado no computador, olhando pra ele, e ele de costas pra estante de livros. Só sei que o final foi digno de uma novela. Inacreditável!
Eu continuava negando. Bruno, puto. Virou-se para a estante de livros e ficou olhando os livros. Dali a pouco, após um não, ele retirou um livro da estante e jogou em mim. Bateu no meu peito. Não doeu. E o susto não foi maior do quê a dor que eu senti na alma quando vi que livro era. “De Profundis”, Oscar Wilde. Quando levantei a cabeça, Bruno não estava mais lá. Quando apanhei o livro do chão, li a dedicatória. “Com todo meu ‘afeto’, Bruno”. E ouvi a porta bater.
Como chorei com aquele livro em minhas mãos. Eu chorava descontroladamente. Mas aos poucos me recuperei, e após enxugar as lágrimas vim extirpar minha dor, dividindo-a aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A Carta

É, começando uma nova sessão de ficção aqui no blog. São exercícios de criatividade. Chamem de pequenos contos. Tudo irreal, repito! Espero que gostem.



Lembra-te como nos conhecemos? Eu não. Não tenho idéia, porque, impressio-namente, nunca pensei que poderíamos nos tornar o que somos hoje. É estranho isso não?
Em compensação, eu lembro em detalhes do dia que descobri que seríamos tudo o que somos hoje: lembro da festa na piscina na casa do Rodrigo, em detalhes, como o dia amanheceu meio nublado, o Rodrigo me ligou preocupado: “Será que vai chover?”, ele me perguntou. Respondi rindo, que bobagem se preocupar. Mas fez sol.
Lembro quando você chegou, o sorriso habitual, o sorriso que tinha me feito tornar-me seu amigo. Nos cumprimentamos de longe, afinal, nem tão próximos éramos, você tinha mais intimidade com a Dri, não era? Não! Era com a Alice. Alice, cadê ela hein?
O destino é mesmo estranho. A festa rolou, tinha tanta gente, mas em um instante virou só eu e você, e depois virou tudo uma música de Cássia Eller (que estou ouvindo agora para me inspirar). Eu te vi se apoiando na borda da piscina, e a porta do nosso amor estava se abrindo. Como isso aconteceu? Foi tão rápido. Quando me vi, na minha boca só morava teu nome, e você era a vista que eu queria ver.
E não sei como ninguém percebeu, temos amigos muito burros não? Passei a festa te olhando, percebendo o que nunca tinha visto. O jeito de arrumar o cabelo ao sair da água, a forma de andar, o jeito correto de comer, de olhar para aquele com quem está conversando (parece que todo mundo é importante). Nunca tinha reparado, outros sim, sua educação já fora comentada lá em casa, meus pais te elogiavam e me diziam: “Você nunca é assim”. Eu te detestava!
Mas ali tudo ficou tão bonito, que peça se encaixou em mim? Como dizem suas poesias, acho que foi ali que fui flechado. É, o Cupido deve existir, alguém deve decidir por quem vamos nos apaixonar. E este Cupido é louco, muito.
Mas é agora que sei que tinha me apaixonado ali. É claro que eu não percebi, eu só comecei a reparar tanto em você, mas ninguém percebeu. Quer dizer, a Alice percebeu não foi? Também, sua melhor amiga, claro que era a quem eu ia perguntar algo sobre você, e naquele instante, apesar de seu amigo, eu nem sabia se você estava namorando (e, graças a Deus não estava).
Meu súbito interesse, dizia ela. Ela nunca comentou nada com você? Provavelmente. Mas eu não estava preparado pra falar com você. Pela primeira vez, fiquei encabulado pra me aproximar de alguém. Isso me irritava, nunca fui tímido, mas você me causava isso. Foi aí que percebi, agora eu estava apaixonado! O caso inédito!
Sempre foram as meninas que se interessavam, ou se apaixonavam, por mim. Eu ficava ora, por motivos óbvios, não que eu nunca tivesse amado alguém, mas nunca fora “o primeiro”. Mas agora era, e você?! E, pior, você parecia nem me enxergar. Não como homem, apenas como amigo. E como você mesmo diz: “Amigo não tem sexo.”
Foi difícil deixar de ser só seu amigo não? E até ficamos antes disso, mas você ainda me enxergava como seu amigo. O que pra mim, definitivamente, não era o bastante. Lembro que foi quando fomos para a casa de praia dos meus pais que finalmente fui falar com você: como arquitetei uma estratégia para falar com você, e na hora tudo fugiu. Sentados na praia, eu e você sozinhos. Você com seus fones de ouvido, eu de cabeça baixa juntando coragem...
Tenho esta cena gravada na minha cabeça: Lua cheia, você ao luar, eu disse teu nome, você se virou, e respirei fundo e falei: “Quer namorar comigo?” Você riu, e eu me senti ridículo. Você se virou para mim e disse: “Piada né?”. Eu respirei fundo aí, eu tinha duas opções: “Sim” ou “Não”. Uma me livrava daquela cena humilhante, e a outra me expunha a você. Mas após umas horas olhando para a areia (pelo menos foi o tempo que senti) eu disse “Não, eu gosto de você de verdade.”
Lembro de sua surpresa. Lembro que não entendi sua surpresa. Lembro de ter tido raiva de sua surpresa. Eu pensei “Eu te amo, caralho, entende?”. Pensei que você deveria dizer: “Eu também te amo, mas a timidez sabe? Por isso nunca disse nada.” (eu já havia notado sua timidez mesmo antes da festa na casa do Rodrigo). Mas não... você continuou em silêncio. Olhava para o mar, e eu olhava para você, tentava descobrir o que você pensava. E assim você permaneceu, em silêncio.
Eu levantei puto. Nem olhei para trás. Fui para a casa, peguei a primeira rede que vi e me enterrei nela, todos perceberam que eu estava estranho. A Dri até tentou descobrir o que era, mas eu não disse. Logo adormeci, não vi você voltar.
Só nos vimos no outro dia não foi? E não lembro se nesse dia era eu que te evitava ou você que fazia isto. E aí o mundo (leia-se nossos amigos) percebeu. O que lembro desse dia é quando o sol se pôs, você estava na varando observando o espetáculo, quando cheguei, e por acaso você estava na minha rede.
Quando nos vimos, você logo me pediu desculpas, lembra? Disse que havia silenciado porque não sabia o que dizer simplesmente, pois não acreditava no que acontecera. Eu perguntei se era impossível por acaso que eu me apaixonasse por você. E você do alto de sua baixa auto-estima disse que era impossível qualquer um se apaixonar por você.
Ri com a bobagem que você disse, e acabamos rindo juntos. E foi assim, rindo que começamos a namorar. Não foi a partir de um beijo, e muito menos a partir de sexo. Foi, sim, a partir de uma boa gargalhada – daquelas que só entre amigos conseguimos dar.
Não me arrependo de nada desde então… só porque agora estamos juntos.
Domingo, 19 de outubro de 2003.
00h44min


domingo, 29 de abril de 2007

PRESENTE: Humores

Começou a chover. Eu sabia porque antes da chuva cair no chão, ela atinge o telhado de zinco que cobre a área de serviço lá no fundo do quintal. O metal retumba antes dos trovões chegarem. O vento também empurrava o telhado. Parecia que seria muita chuva. Definitivamente não esperava tanta chuva. Era noite e agora pareceria que seria uma noite fria. Perfeito! Os deuses estão do meu lado.
Eu estava parado na porta que dava para o quintal. Na lateral da pia. Faca. Tábua de carne. Tomates secos. Cebolas. Dentes de alho. As mãos molhadas para não ficar com nenhum cheiro. Eu pico os igredientes. O tomate apenas na metade. Quero pedaços no molho. Cebolas deixo os aneis, finos, mas perceptiveis no prato. O alho, pouco e em pequenas lascas. A água para o macarrão começa a borbulhar lentamente. O vento frio entrava e acariciava minha pele e meu cabelo. Azeite na panela, um pouco de sal, despejo o macarrão. Suficiente para duas pessoas. Uma bela pasta. Tudo ferve. Tudo se aquece.
Em outra panela, caldo de carne preparado por minha mãe no dia anterior. Pedi para ela reservar um pouco para esta noite. Tudo estava combinado já. Sabia que ela viajaria ontem, hoje eu teria a casa toda para mim. Cuidei de tudo. Tudo estava arrumado. Almofadas no chão da sala. Na mesa de centro duas taças de vinho tinto. Copos para água. Pratos. A louça especial da minha mãe. Queria tudo especial. Queria tudo perfeito. Velas! As velas! Acesas. Aromáticas. A vendedora dizia que elas eram afrodisíacas. A casa estava perfumada.
O macarrão fervia. Cabelo de anjo porque gosto da textura que fica no prato. Os tomates junto do caldo de carne ganhavam consistência. O molho pedia urucum, pimenta e quase nada de sal. Corro no quintal e pego, na chuva, protegido por um guarda-chuva, folhas de hortelã, cebolinha e salsinha, não tem pimentão verde ou amarelo. Droga! Vai faltar um outro tom no molho. Ele vai ficar muito vermelho. Na panela ele já estava cada vez mais vermelho sangue. Mas eu sabia que no fim ele terminaria bordô. Estava na hora de acrescentar duas taças de vinho tinto no molho. Parei de picar as verduras que peguei no quintal e peguei o vinho. Havia pouco, mas ele traria um. Eu pedi. Ele perguntou se deveria trazer algo. E eu avisei: um vinho tinto. Apesar que eu não precisava dizer isso. Despejei o vinho.
A cozinha cheirava bem. O vinho fez com que o cheiro alcançasse as gotas de chuva lá fora. Preocupei-me se o cheiro naum ia brigar com as velas na sala e liguei o purificador. O barulho do purificador não deixava mais com que eu escutasse a música que saia das caixas de som do meu computador no meu quarto. Elis. Ó Elis. Neste instante, com a chuva forte, a campainha toca. Corro. Ele esta lá na porta. Todo molhado. Sorrindo um sorriso luminoso. Segura uma garrafa de vinho, nevada, gelada. Eu corro e abro o portão. Ele entra, passa a mão no cabelo molhado e sorri. Não há ninguem na rua. Casas fechadas por causa da chuva grossa. Eu o beijo ali. Ele me aperta e me molha. Eu não me importo, teremos a noite toda.


Agora a cena real: Eu fiz o mesmo prato que descrevi ai. Macarrão com tomates secos. Delícia. Para duas pessoas, eu e meu irmão que comeu assistindo Homem Aranha 2 na sala. Enquanto eu comia diante do computador matando de inveja o Segredo e o Imperfeito. A chuva caía, mas não havia ninguém com sorriso luminoso me esperando sob a chuva. Maldade isso? Humor negro, podemos dizer.