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domingo, 16 de novembro de 2014

Creta: Entre Patos e Flores

, em Natal - RN, Brasil


Para pensar o mundo micênico é importante lembrar de uma informação importantíssima: estamos numa sociedade matriarcal. O poder ele não passa de rei para filho, ele passa de rainha para filha, é casando-se com a princesa que um homem se torna rei. Bettany Huges, em seu Helen of Troy, e Judith Starkson lembram que são as mulheres nas epopeias homéricas que são cobiçadas porque é através delas que o poder pode ser conseguido. Helena de Esparta, Cassandra de Tróia, Clitemnestra de Micenas, Penélope de Ítaca são cortejadas porque é ganhando esta esposa que se ganha o trono das cidades de onde elas são rainhas ou princesas. Explica-se que mesmo que um filho da rainha assuma o trono, ela continua sendo rainha até a sua morte, porque somente sua filha poderia substituí-la de fato. Pensando assim não é surpreendente uma guerra imensa entre Esparta e Tróia pela posse de Helena (o tema da Ilíada), esta guerra é uma guerra sobre a posse do direito de reinar na Lacedemônia e toda a região do Peloponeso controlada pelos espartanos. 
E elas também não tem um papel meramente ritual, como algumas pessoas poderiam afirmar. Como a Odisseia deixa claro, na ausência de Odisseu (Ulisses) em Ítaca, por causa da guerra, Penélope gerencia o oikos (ao pé da letra, casa, mas também podemos traduzir como a economia) do reino. Clitemnestra, explicam sobretudo as peças clássicas, também conduz Micenas com o afastamento de Agamêmnom por causa da guerra. Mas, também é verdade, que com o início da Idade do Ferro (por volta de 800 a.C.) o poder que estava nas mãos das mulheres migra para mãos masculinas, mas existe m duas remanescências desta época longínqua: Hera e Leto/Ártemis. 
Zeus casa-se com sua irmã, Hera, porque somente assim ele pode herdar o trono. O epiteto frequente da rainha dos deuses, "olhos bovinos", sugerem que a deusa está relacionada com a terra em que Zeus nasceu, Creta cultuava os touros e vacas, porém em Olímpia o templo de Hera, Heraion, é mais antigo que qualquer templo dedicado a um deus masculino. Afirma Mary Lefkowitz que é somente após a decadência da civilização creto-micênica que Zeus torna-se um deus mais importante que Hera. É tendo este contexto em mente que podemos falar das relações homoeróticas que as mulheres creto-micênicas possuíam.
A primeira questão é que, explica Paul Rebak, nenhum vestígio arqueológico desta civilização já encontrado (seja cerâmica, escultura, textos, etc) descrevem/mostram cenas sexuais, ao contrário do que se vê no Egito, Mesopotâmia ou mesmo a Grécia séculos depois. Entre os cretenses, micênicos e egeus existe um código moral que não permite que o sexo seja tratado de forma tão aberta, nem se tratando de homens, nem de mulheres, Por isso ao pensarmos um afresco pintado entre 1700 e 1400 a.C., precisamos abrir nossa mente para procurar pistas sobre a sexualidade feminina, nada será explícito! O prédio em que se encontra o afresco Xeste 3 foi preservado por uma erupção vulcânica em 1625 a.C., sendo um dos raros exemplares de pintura cretense já que a maioria que chegou até nós não passam de pequenos pedaços. O tempo não foi generoso. Obviamente, quando o prédio foi encontrado, as discussões dos historiadores e arqueólogos não cogitaram nenhum teor sexual nas figuras primeiro por causa dos preconceitos dos mesmos, mas também por causa de uma inabilidade dos historiadores até a década de 1960 de lidarem com o imaginário em representações pictográficas, pelo menos até Rebak escrever seu ensaio dentro do Among Women: From de Homosocial to the homoerotic in the Ancient World.

Esquema dos afrescos de Xeste 3

Como os egípcios, a pintura cretense estabeleceu um padrão para pintar homens e mulheres, homens eram vermelhos; mulheres, um pálido amarelo. Uma estilização pictórica. As pinturas são ricas em estilos de penteados, vestidos, joias, diferenciação de idades, inclusive o tema do afresco é a passagem do tempo e a vida de uma mulher, desde seu nascimento até sua morte, mostrando cada fase da sua vida, sua primeira menstruação, seu trabalho, sua adoração aos deuses (no caso é Ártemis), etc. Por causa destes inúmeros temas, este afresco foi estudado por vários pesquisadores preocupados desde questões como moda, direitos políticos das mulheres, ou crises alimentares com baixo consumo de vitamina A, mas todos fechavam os olhos para as possibilidades de estudar-se sexualidades homoeróticas.  
Historiadores, no entanto, concordam que os ritos de passagem femininos estão descritos ali, cinco estágios para ser mais exato: a infância, marcada pelo cabelo raspado ao fim; a adolescência dedicada a serviço da deusa; depois o rosto coberto por um véu (neste caso para as mulheres que desejam se tornar sacerdotisas); a mudança de roupa já como uma mulher adulta e, por fim, o casamento e sentar-se junto ao marido na hydria. Contudo, nada realmente sexual aparece nestas cenas, afinal como dissemos antes não é de costume cretense mostrar neste assunto, é portanto necessário entender os símbolos que aparecem na pintura. Paul Rebak comenta dois: os patos e paisagens floridas.
William Percy, em Pederasty and Pedagogy in Archaic Greece, afirma que a arte micênica dominava os símbolos sexuais. Cobras, touros, vespas são símbolos do sexo masculino/entre homens; já Rebak explica em seu Imag(in)ing a Women's World in Bronze Age Greece que os patos são associados a sexualidade feminina, eles aparecem decorando o pescoço de Ártemis, e também em revoada quando temos uma cena em que doze garotas aparecem juntas dançando para a deusa; o mesmo acontece com paisagens cobertas de prados floridos, esta situação edílica só aparece quando mulheres estão sozinhas na imagem. Sem nenhum homem. 


domingo, 2 de novembro de 2014

Creta: A Taça dos Dois Amantes

, em Natal - RN, República Federativa do Brasil





É bem comum encontrar entre os vestígios arqueológicos cretenses alguns que fazem referência aos seus rituais homoeróticos. Por exemplo, em um rústico campo dedicado a Hermes e Afrodite, aproximadamente 60 quilômetros a leste de Hagia Triada, no Monte Dikte, aonde ficariam as cavernas nos quais Zeus havia sido criado, há 1200 m acima do nível do mar, escavações lideradas por Angeliki Lembessi descobriu inúmeros objetos de bronze oferecidos as deidades, junto a restos de sacrifícios animais, sobretudo touros.
Entre estes objetos de bronze encontra-se uma taça onde estão representados dois homens que data do período minoico (antes de 1100 a.C.), hoje, guardada no Louvre, através da datação do carbono, chegou-se a uma data aproximada dos séculos VIII ou VII a.C. Ela consiste de um casal masculino sendo que um deles é barbado e o outro não, o imberbe possui um longo e flutuante cabelo cheio de cachos em sua fronte. Bruce L. Gerig afirma que várias interpretações foram oferecidas para este par, por exemplo, que representam um deus e um sacerdote, um rei e um comandante, ou crianças representando dignitários, isto é, que durante muito tempo os arqueólogos e historiadores fugiram de enxergar as relações homoeróticas que encontravam em seu caminho por causa do próprio preconceito, mas os outros inúmeros achados começaram a deixá-los sem saída.
Como esta outra peça encontrada: o mais velho traz consigo um arco de chifre, e agarra o mais jovem pelo braço e chama-o para perto. O mais jovem carrega uma cabra morta sobre os seus ombros, provavelmente um animal sacrificial. Eles estão olhando fixamente um para o outro, com as pernas e os pés se tocando, e os órgãos genitais do mais jovem estão expostos. Outra peça de bronze, datada de 750 a.C., e hoje sob a guarda do Museu Heraklion, mostra dois jovens de capacete, nus, um mais velho que o outro. Ambos exibindo seus pênis eretos ficam um do lado do outro de mãos dadas. No entanto, outro peça de bronze datada do século VII a.C. mostra um rapaz, nu, exceto por uma capa decorativa longa e sandálias, segurando um arco e aljava. Esses objetos parecem pertencer à mesma tradição refletida na Taça Chieftain, encontrado em 1903, no clube de jantar masculino do palácio de Hagia Triada, e datado do Primeiro Período Minóico (1.650 a.C. - 1500 a.C.). Ela é esculpido em serpentinito e retrata dois jovens imberbes, um mais velho que o outro (perceptível pela diferença de altura e no penteado), vestidos com saiotes e botas de cano alto e uso de jóias. O mais velho apresenta-se com uma espada e o mais novo com uma lança, enquanto no verso das copo outros jovens (amigos do amante, provavelmente) trazendo três pedaços de couros de boi, provavelmente para fazer um escudo. Na taça, o  mais velho ainda dá ao mais novo uma espada e um javali.
Gerig nos lembra do rito iniciático que os garotos cretenses passavam para prepará-los para a vida adulta (relatado por Ephoris, historiador do século IV a.C., e preservada por Estrabão, século I a.C.). Eles eram separados em agelae (rebanhos) nos quais eram treinados para se tornarem soldados. No entanto quando um rapaz mais velho, chamado philetor (amante), apaixonava-se por um jovem mais novo por causa de sua beleza, coragem e boas maneiras, ele capturava seu escolhido, chamado parasthatheis (aquele que fica ao lado, parceiro), com o consentimento dos pais e ajuda dos amigos. Este então era levado para o andreion local (clube onde homens comiam juntos), do qual ele se tornava membro por toda sua vida, o pretendente dava-lhe presentes e, depois de dois meses que passavam o tempo caçando e em festas, levava-o de volta para a casa dos pais (acompanhado por alguns amigos do rapaz). Diante dos pais, o amado afirmaria se estava ou não feliz com a forma que seu amante o havia tratado, e se estava, apresentava-se diante dos jovens com os trajes militares que o philetor havia lhe dado, um boi e uma taça, além dos outros presentes caros que havia recebido. Depois disso o jovem passava-se a se chamar kleinos (famoso), passava a usar as roupas de adulto, davam-lhe assento especial nos bailes e corridas e outras honrarias. Todos os jovens kleinos casavam-se na mesma cerimônia com as esposas que seus pais haviam conseguido para eles. 
Gerig afirma que esta tradição apresenta todos os elementos comuns a um rito de passagem: iniciação para um grupo seleto, reclusão durante um tempo, um membro mais velho da comunidade ensina jovens certas habilidades especiais, retorno para a sociedade aonde o iniciado recebe um novo status. As peças documentam que esta tradição de Creta continuou ao longo de muitos séculos, e que as ofertas posteriores deixadas por pares de amantes neste santuário tornaram-se mais elaborados e eroticamente explícitos. Contudo, existe um problema: elas são ex-votos, isto é, peças que eram oferecidas ao santuário do deus em agradecimento a algo que se havia conseguido, no caso, o amante. Os mais velhos deveriam agradecer aos deuses por terem conseguido o amor daqueles por quem haviam se apaixonado através destes presentes sob risco de atraírem para si o ódio da deusa, inicialmente Leto, depois Afrodite, que fatalmente levaria seu amado para longe dos seus braços. Estas peças provam que não era somente um ritual em que os membros participavam somente por obrigação social, estas eram relações apaixonadas entre homens, dentre os quais alguns que temiam perder seus jovens amantes por causa de caprichos divinos. 



domingo, 19 de outubro de 2014

Creta: O Ombro de Marfim

, em Natal - RN, Brasil



Zeus e Apolo não são os únicos deuses creto-micênicos que tem relacionamentos homoeróticos. Possêidon era um deus cretense, como atesta seu papel no mito do Minotauro, era deus dos mares, dos cavalos, dos terremotos, mas em Creta também era deus das tempestades e dos raios, atributo que mais tarde foram dados a Zeus quando a religião se expandiu por toda a Hélade. Na Ilíada, de Homero, ele é o grande deus dos mares já, mas ele também controla as tempestades marinhas e provoca desmoronamentos com seu tridente construído pelos Ciclopes. Os navegantes oravam a ele por ventos favoráveis e viagens seguras, sacrificavam a ele cavalos, mas seu humor imprevisível tornava a água e os terremotos suas armas para expor sua irritação com os humanos, mas também apoiou os gregos grandemente durante o poema sobre a Guerra de Tróia, porém sua vingança contra Odisseu, porque este não prestou-lhe os devidos agradecimentos ao fim dos anos de batalha, levou o rei de Ítaca a ficar perdido no mar por vinte anos, tema da Odisseia. 
Segundo seu mito, ele é filho de Cronos, o tempo, e Reia, a vida. E como seus irmãos, fora engolido pelo pai ao nascer, até que Zeus que por causa de um subterfúgio da própria mãe, pode fazê-lo vomitar as crianças. Segundo Pseudo-Apolodoro, a ordem dos filhos é Héstia, o fogo; Deméter, a terra cultivada; Hera, as mulheres e o casamento; Hades, o senhor dos mortos; e, por último, o rei dos mares. Após seu pai tê-lo vomitado e ser deposto pelo irmão mais novo, Possêidon foi criado entre os Telquines, demônios marinhos, com rostos de cachorro, pele negra e nadadeiras nos pés e sua primeira esposa foi uma deles, Hália. Com esta esposa, ele teve inúmeros filhos de temperamento violento e explosivo, de tal forma que teve que enterra-los para proteger o mundo, foi assim que as ilhas gregas nasceram, cada uma delas é um filho do deus do mar que está aprisionado, mas também teve com ela a linda Rodes, que casa-se com o sol, Hélios. Teve também outros filhos monstruosos, o ciclope Polifemo com Teosa que tentou devorar Odisseu; o gigante Crisaor, que é derrotado por Herácles, com a Medusa; os gigantes Oto e Efialtes nascem de seu caso com Ifimedia.
Uma história interessante sobre Possêidon é que ele seduziu a própria irmã, Deméter, quando esta procurava desesperada a filha, Perséfone, que havia sido sequestrada por Hades. A deusa concedeu seus favores ao irmão em nome de informações sobre o paradeiro da filha, porém, após terem tido sexo, o deus marinho não tinha nada para contar-lhe. Fruto desta união, Deméter teve filhos gêmeos, Despina e Árion, que abandonou logo ao nascer porque não estava interessada em crianças pois ainda vasculhava o mundo buscando sua filha querida. Despina cresceu revoltada com o abandono, tanto da mãe como do pai. E adulta, deusa do frio e do inverno, congela as terras que a mãe cultiva e o mar que o pai ama. 
Casou-se, por fim, com Anfitrite, nereida, filha do Oceano e Tétis, com quem teve um filho, Tritão, o deus dos abismos oceânicos e o grande pastor dos animais marinhos. Mas não sem antes conhecer o amor de um homem. Quem nos conta é uma ode de Píndaro, do século V a.C.:

 Ode Olimpíca, 1 40 ff 
"Ele [Poseidon] apoderou-se-lhe [Pelops], o seu coração louco de desejo, e vos trouxe montado em sua gloriosa carruagem ao alto salão de Zeus quem todos os homens honra, onde mais tarde veio Ganimedes, também, por um amor como, para Zeus."

Pélops era filho do rei da Lídia, na Ásia, Tântalo e Dione. O rei, para testar a onisciência dos deuses, das quais ele zombava, ele matou o próprio filho e cortou-lhe em pedaços e ofereceu-os aos olímpicos como um ensopado. Ele queria com isso provar que eles não eram capazes de saber tudo. No entanto, nenhum deus serviu-se do ensopado, somente Deméter, que estava deprimida por causa da rapto da sua filha, que comeu um pedaço do ombro do jovem, mas ao reconhecer o gosto a deusa, irritada, lançou Tântalo ao Tártaro, condenando-o a viver eternamente em um belo jardim no qual toda vez que ele tentasse aplacar sua sede a água fugiria dele, e quando ele tentasse aplacar sua fome, os ramos das árvores fugiriam ao seu alcance. Os deuses então reviveram o príncipe e recolocaram no pedaço mordido por Deméter, um pedaço de marfim. Belíssimo como ele era, Pelops atraiu o amor de Posseidon que o levou para viver consigo, em seu palácio embaixo do mar.
O mito de Pelops, como o de Ganimedes, evocam a mesma tradição creto-micênica: o rapto dos jovens por seus amantes mais velhos. Contudo o mito de Pelops avisa que ele retorna a vida entre os homens e se enamora de Hipodâmia, filha do rei de Olímpia, Enomau, que tinha matado todos os pretendentes anteriores da filha porque um oráculo havia predito que ele seria morto pelo genro. Enomau fazia todos os pretendentes disputarem com ele uma corrida de biga, cujo perdedor era sempre executado. Sabendo que os cavalos de Enomau famosos por sua velocidade, foi ao deus dos cavalos, seu antigo amante, que o príncipe pediu ajuda. O mito diz que em memória dos regalos de Afrodite que vivera com o rapaz, Possêidon concedeu-lhe cavalos alados que permitiram que ele derrotasse o sogro. Casado com Hipodâmia, Pélops tem dois filhos, Atreu e Crisipo, cujos quais participam da fundação das duas principais histórias gregas que nos chegaram hoje: Atreu é pai de Agamêmnom e Menelau, os grandes reis da Ilíada; e Crisipo é sequestrado por Laio, dando início ao ciclo de Édipo.
O interessante deste mito é perceber que os dons concedidos pelo amante divino tornam Pelops mais indicado para tornar-se um marido aceitável para Hipodâmia, cujo nome significa a senhora dos cavalos. Esta era uma regra comum no mundo cretense, as armaduras, armas, cavalos, galos, taças etc, que eram dados aos jovens por seus amantes, tais presentes (que eram obrigatórios) eram responsabilidade daqueles mais velhos e importantes na vida adulta que os jovens teriam após retornarem a casa de sua família. O sentido iniciático da relação homoerótica ainda se torna mais poderosa quando é somente após deitar-se com um homem mais velho que o jovem se torna adulto de fato e pode então contrair núpcias sendo agora, autorizado, a ter relações também com jovens assumindo as mesmas responsabilidades que seu anterior amante teve com ele.







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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Creta: A Masculinidade da Amendoeira

Agdístis é um deus antigo, de origem anatólia, da Frígia para ser mais exato, que foi introduzido cedo na Grécia. Ele era hermafrodita, o que comprova sua origem oriental, pois a existência de deuses com dois sexos não é comum dentro do pensamento religioso nem creto-micênico nem grego. No entanto, seu mito, aquele que chegou a nós, é uma versão tardia. É Pausânias, do século I d.C.; e Ésiquios de Alexandria, do século V d.C., que nos permitiram ter acesso ao conto que fala sobre o amor do deus hermafrodita pelo jovem e belo pastor Atis, inclusive competindo com a grande deusa Cibele.
Conta Pausânias em seu Descrição da Grécia (VII, 17, § 5):

Mas a visão atual sobre Átis é diferente, a lenda local sobre ele ser eunuco. Zeus, diz-se, deixou cair em seu sono  sua semente sobre a terra, (Ésíquios de Alexandria conta outra versão que Zeus teria se apaixonado por Gaia, a terra, e apesar dela não ceder aos seus avanços, ele masturbou-se e lançou sua semente ao chão, engravidando a deusa) que no decorrer do tempo transformou-se em um demônio, (daimon, espírito divino) com dois órgãos sexuais, masculino e feminino. Eles chamam o daimon Agdistis. Mas os deuses, temendo Agdistis, cortaram-lhe o órgão masculino. Do seu órgrão cresceu uma árvore de amêndoa com sua fruta madura, a filha do rio Sangarius, dizem eles, tomou do fruto e o deitou no seu seio, que ao mesmo tempo desapareceu, e ela estava com a criança . Um menino nasceu, e exposto, mas foi cuidado por um bode. Como ele cresceu sua beleza era mais do que humano, e Agdistis se apaixonou por ele. Quando ele cresceu, Átis foi enviado por seus parentes para Pessinos, para que pudesse casar com a filha do rei. Quando o hino a Himeneu era cantado, Agdistis apareceu, e Átis enlouqueceu e cortou os próprios órgãos genitais, assim como ele também quem estava dando a ele sua filha em casamento. Mas Agdistis se arrependeu do que havia feito a Átis, e convenceu Zeus a conceder que o corpo de Átis não deveriam apodrecer e nem desaparecer. Estas são as formas mais populares da lenda de Átis. "

Strabo acrescenta, no entanto, em seu Geografia (3.12-13) que em alguns lugares da Frígia, Agdístis era considerado uma deusa, idêntica a Reia e a Cibele e não um homem que havia sido emasculado. Vejam abaixo:

12 Mas quanto aos Berecintos / uma tribo de Frígios e os Frígios em geral, e os dos Troianos que vivem em torno do Ida, eles também mantêm honras à Reia e adoram-na com orgias, chamando-a de mãe dos deuses e Agdistis, a grande deusa frígia, e também, a partir da lugares onde ela é adorada, Idaea e Dindymene e Sipylene e Pessinuntis e Cybele e Cybebe. 2 Os gregos usam o mesmo nome "Curetes" para os ministros da deusa, não tomando o nome, no entanto, a partir da mesma mítica história, mas considerá-los como um conjunto diferente os "Curetes," ajudantes por assim dizer, análoga à sátiros; e mesmo eles também chamam Coribantes. 
13 Os poetas são testemunhas como eu tenho sugerido. Por exemplo, quando Píndaro, no ditirambo que começa com estas palavras: "Em mais cedo vezes lá marcharam", menciona os hinos cantados em honra de Dionísio, ambos os antigos e os mais recentes, e em seguida, passando a partir destes, diz: "Para executar o prelúdio em honra de Reia, grande mãe, o giro".

A mesma informação é dada em outro trecho (12.5.3) do mesmo livro: 

3. Pessinus é o maior dos empórios naquela parte do mundo, contendo um templo da Mãe dos deuses, que é um objeto de grande veneração. Chamam-lhe Agdistis. Os sacerdotes estavam em tempos antigos com grande poder ali, e colhiam os frutos de um grande sacerdócio, mas atualmente, suas prerrogativas foram muito reduzido, embora o empório ainda perdure na cidade. O recinto sagrado foi construído pelo rei Attalic de uma maneira digna de um lugar sagrado, com um santuário e também com pórticos de branco mármore. Os romanos fizeram o famoso templo quando, de acordo com os oráculos da Sibila, que enviado para a estátua da deusa lá, da mesma forma que fez no caso do de Asclépio em Epidauro, Existe também uma montanha situado acima da cidade, Dindymum, depois que o país foi Dindymene nomeado, assim como Cybele foi nomeado após Cybela. 

Os Curetes ou Coribantes, os sacerdotes tanto de Cibele quanto de Agdístis eram eunucos e o mito de Atis explica isto. Quando Pausânias narra que na presença do deus os homens foram tomados pela loucura e se castraram (Átis e seu sogro), demonstra os ritos em que homens dedicavam sua masculinidade as deusas Cibele, Reia e também ao deus-deusa Agdístis. Ritos comuns na Ásia Menor, mas também Fenícia e Mesopotâmia. Os ritos dos Curetes e Coribantes envolviam música, aos sons de címbalos castanholas e flautas e tambores, eles se apresentavam sempre completamente armados então a dança envolvia lanças que se entrechocavam com escudos de bronze, dançavam em círculos até entrarem em transe, era neste momento que os que iam se iniciar para a deusa ou o deus-deusa castravam-se sentados em uma cadeira no centro do círculo.  Adivinhos, a dança destes sacerdotes (e Zeus é cognominado o "maior dos Curetes") é um rito de fertilidade bem atestado por inúmeros autores antigos, acreditava-se que o sangue que escorre dos homens emasculados, que era recolhido embaixo da cadeira, era capaz de fazer com que terras inférteis possam voltar a produzir. Era também parte dos ritos de Agdístis os rituais orgiásticos em que os fieis faziam sexo com os sacerdotes e sacerdotisas do deus para que através desta hierogamia (casamento com o sagrado) os desejos pudessem ser realizados. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Creta: Os Amores Perdidos

, em Natal - RN, Brasil
Um dos poemas mais importantes dedicados a Apolo é o Hino Homérico. Os hinos constituem de uma coletânea reunida durante a época helenística de 33 poemas, escritos em hexâmetros e dirigidos a um deus. Segundo Luiz Cabral, a maioria é proveniente do século VII a.C., mas alguns são mais recentes. Seu autores denominavam-se aedos, cantores, que dedicavam-se a atividade nômade de cantar os poemas pelas diversas cidades gregas, participando de competições musicais no contexto das festas religiosas. Como funcionava entre os aedos, havia um modelo de hino que compreendia uma fórmula inicial (a invocação ao deus e a declaração de quem é o poeta), seguido por um mito curto ou extenso e uma fórmula final (com a despedida e o kairé, adeus, ao deus). É importante também saber, e os estudiosos sobre os Hinos Homéricos demoraram para entender isto: estes poemas foram escritos para serem cantados; são canções que eram apresentados ao vivo para uma plateia formada por nobres guerreiros e suas famílias. Isto é de extrema importância para entendê-los.
Na primeira parte do Hino, o aedo descreve o nascimento de Apolo em Delos até sua apoteose em Delfos. Começa com o deus já adulto, entrando no Olimpo, como arqueiro sublime, que inspira temor a todos. Leto, sua mãe, é quem o recebe e o conduz para seu lugar entre os imortais, enquanto é recepcionado pelo rei dos deuses, Zeus. Depois o cantor descreve suas circunstâncias do nascimento divino, conta que Leto, filha do titã Ceos, foi amada por Zeus e grávida foi perseguida pela rainha dos deuses, Hera. Conta da peregrinação da deusa para parir as crianças gêmeas, Apolo e Ártemis, do abrigo na ilha Ortígia, do juramento em nome do Rio Estige de consagrar a ilha em nome de sua filha, e depois em Delos em que a deusa promete consagrar a ilha ao deus. Conta do parto de nove dias e nove noites para o nascimento de Apolo, da assistência das deusas Dione, Reia, Icneia, Têmis e Anfitrite e também da jovem Ártemis, até a chegada da deusa dos partos, Ilítia, que Hera havia proibido de sair do Olimpo para acudi-la. O poeta também canta que ele fora então banhado pelas deusas, envolto em faixas e ornado com uma coroa de ouro, e antes de mamar, tomou o néctar e comeu a ambrosia das mãos de Têmis, ganhando assim sua imortalidade. Conta o hino que ele imediatamente tornou-se adulto, libertou-se de suas faixas, e bradou reivindicando o seu arco, e declarou-se porta-voz da vontade de Zeus, refulgindo sua luz.
A segunda parte do hino, ou Sequência Pítica, Apolo está no Olimpo, tocando sua lira e presidindo o coro das Musas. Canta-se também como ele percorre a Terra, fundando seu culto, tentando estabelecer um oráculo em Telfusa, outro nas encostas do monte Parnaso, na cidade de Delfos, também a morte do monstro Tífon e da serpente Píton. Em seguida, começa a procurar seus primeiros sacerdotes, disfarçado de delfim, capturou um navio vindo de Cnossos, em Creta, e levou-os para seu templo em Delfos, onde impôs-lhes obediência, prescrevendo os rituais que deveriam ser realizados e ensinando-lhes seus oráculos. Profetizando: "Outros homens, depois desses, como líderes tereis./ E com a força deles, obedientes heis de ser" (v. 542-543). Por ter se revelado a eles como delfim, era invocado aqui sob o epiteto de Apolo Delfínio. Explica Luiz Cabral que esta referência é o testemunho de uma conquista insular da Grécia, da invasão dos cretenses no continente.
O Hino ao deus que representa o modelo do ideal grego é de uma imensa complexidade, afirma Luiz Cabral que inúmeros detalhes são enigmáticos e a data e o objetivo da composição ainda são motivos de controvérsia. O poema afirma-se como obra do homem cego de Quios, isto é, Homero ("Moças, qual é para vós o mais doce dos aedos/ que sói aqui vos visitar, e qual mais vos delicia?/ Vós todas, unânimes, respondei com distinção:/ 'É o homem cego, que habita a pétrea Quios;/ pois são seus cantos sempre os mais exímios'.",  verso 169-173), o que o historiógrafo grego Tucídides e o poeta Aristófanes confirmam, mas acredita-se que sua fixação definitiva de obra do rapsodo Cinetos de Quios, escrito entre 504-501 a.C., publicando-a em Siracusa como se o texto fosse de sua própria autoria. A canção apolínea é a mais antiga da coletânea, e sua primeira parte, chamada de Hino Délio, costuma ser considerada a primeira a ter sido composta, ainda no século VIII a.C..   
Neste poema, o poeta não se esquiva de relatar os amores que o deus pítio teve com homens que Luiz Cabral, o maior especialista brasileiro no tema, chama de "identificação com os jovens". Ele canta: 


"Entre elas, Ares e o vigilante Argifonte
dançam, enquanto o Puro Apolo a lira pulsa,
com passadas altas, gráceis, se movendo; à sua volta,
flâmeo fulgor: fulgem-lhe os pés e a túnica impecável.
Leto de tranças áureas e Zeus sagaz
alegram o nobre coração ao contemplarem
o caro filho a dançar entre os deuses imortais.
Como hei de celebrar-te, a ti, que louvam tantos hinos?
Devo cantar-te em tuas conquistas, em teus amores,
como vieste a cortejar a Azântida donzela:
junto com Ísquis, filho do teossímil Elato, hábil equite?
ou junto com Forbas, da tribo de Tríops, ou com Erecteu?
ou com Leucipo, ou com a esposa de Leucipo...
(...)"
v. 200-214.

Infelizmente falta uma parte do poema, que complementa esta lista. É possível que o texto tenha sido censurada por algum leitor cristão séculos depois, chocado com o que ele poderia entender como licenciosidade. Não sabemos, mas é comum em textos antigos encontrarmos ele cheio de lacunas, não seria também impossível que o papiro somente tenha estragado exatamente nesta parte, afinal não sobram muitas cópias para que possamos compará-las. Existem inúmeros poemas gregos que nos restam apenas duas ou três linhas por causa disso. Salvaram-se então três amantes do deus no Hino: Forbas, Erecteu e Leucipo.
Mas é necessário explicar os nomes que aparecem nesta lista: "como vieste a cortejar a Azântida donzela:/ junto com Ísquis, filho do teossímil Elato, hábil equite?", fala sobre a história de Corônis, em que ela, temerosa que o deus a abandonasse quando ele começasse a envelhecer, casou-se com Ísquis causando o ciúme mortal do deus; "ou junto com Forbas, da tribo de Tríops," fala sobre o mito do filho de Triopas e Hiscila, herói da ilha de Rodes: quando o povo da ilha de Rodes foi vitima de uma praga de serpentes (em algumas versões, de dragões), um oráculo avisou que eles procurassem a ajuda de um homem chamado Forbas; este, amado por Apolo, havia recebido o dom de combater as serpentes e limpou toda a cidade, recebendo veneração da ilha pelos ródios como herói. Após sua morte, o deus para render-lhe homenagem elevou-o aos céus na forma da constelação de Serpentário ou Ophiuchus, tornando-o imortal. 
As duas últimas citações comportam-se de forma distinta porque não chegaram a nós os mitos aos quais elas fazem referências. Este é um problema comum a história, nem tudo do passado chega até nós. Vejam: sobre "ou com Erecteu?", fala sobre um dos primeiros reis de Atenas, filho de Pandion e Zeuxipe, neto de Erictônio, o filho de Hefestos e Gaia, a própria terra. Apesar desta citação, não chegou a nós também nenhuma referência sobre algum caso amoroso entre o príncipe ateniense e o deus, existe uma relação entre Creúsa, filha de Erecteu, que é possuída por Apolo e tem um filho, Íon, porém a expressão "he ama" que aparece tanto para a donzela cortejada como com Forbas, repete que a relação deveria ser com o próprio rei ateniense não com a filha deste. Em "ou com Leucipo, ou com a esposa de Leucipo...", a expressão se repete, apesar de haverem cinco heróis com este nome, não nos restou nenhum mito que conta sobre uma relação entre Apolo, um herói e sua esposa. Infelizmente, estas duas belas histórias foram perdidas.



    sexta-feira, 5 de setembro de 2014

    Creta: O Antigo Amante

    , em Natal - RN, República Federativa do Brasil


    Dentro do ciclo apolíneo, após cometer o assassinato da Píton, em uma versão, e dos Ciclopes, durante a guerra entre os deuses e os Titãs, em outra, o deus da luz e das artes se isolou na corte do rei Admeto para purificar-se do pecado contra a vida que havia cometido por nove anos. Admeto era filho de Feres, rei da cidade que levava seu nome, e Periclímene. Participou na juventude da caçada ao javali de Cálidon e da expedição dos Argonautas em busca do velocino de ouro, dois importantes ciclos entre os heróis gregos. Ao retornar a sua cidade natal, jovem ainda, tornou-se rei porque o pai abdicou do trono em sua honra e, nos primeiros anos do seu reinado, o deus Febo Apolo pediu exílio em sua casa, tornando-se pastor do seu gado e, conta-se também, que eles teriam se apaixonado. 
    O Hino a Apolo escrito por Calímaco foi um dos poucos textos que nos sobraram que descrevem o relacionamento entre o rei e o deus. É no parágrafo 47, traduzido abaixo que encontramos a referência:

    [47] Febo e Nômio podemos chamá-lo, desde que, quando por Amfrísios, ele cuidava de éguas domesticadas, atingido pelo amor do jovem Admeto, cuidava do seu rebanho de gado, de abelhas, nem faltava às cabras do rebanho, sobre o qual como eles se alimentam, Apolo lançava seu olho; nem sem leite que as ovelhas, que também não eram estéril, mas todas teriam cordeiros em pé; e ela que nua em breve seria mãe de gêmeos.

    Apesar de Junito Brandão propor que foi a extrema deferência com a qual foi tratado pelo rei que o fez o deus manter sua gratidão, algumas referências falam que é paixão de Apolo por Admeto o faz ajudá-lo nas mais incríveis tarefas, mesmo depois que o exílio termina. Por exemplo, quando o rei decide se casar com Alceste, a filha de Pélias, rei de Iolco, foi o deus quem ajudou-o na tarefa imposta pelo rei para dar a mão da princesa em casamento. Pélias exigiu que o noivo se apresentasse em um carro puxado por uma parelha antagônica: um leão, símbolo da valentia e da força; e um javali, tradução de poder espiritual. O deus de Delfos concedeu-lhe um carro puxado pelos animais (o que, com certeza, representa uma iniciação dentro dos mistério dentro da religião apolínea) e com isso o rei de Feres recebeu em felizes núpcias a bela Alceste. 
    Febo também salvou Admeto de uma morte prematura quando as Queres sorteiam seu nome para a morte. Apolo embriagou as senhoras do Destino e as fez prometer que se alguém tomasse o lugar do jovem rei, sua vida não precisava ser extinguida. Em sua glória, o deus apareceu a seu antigo amante e contou o que havia conseguido para ele. No entanto, infelizmente nem seus idosos pais, nem seus amigos ou irmãos quiseram fazer este sacrifício, somente Alceste, sua amada esposa, prontificou-se quando o deus contou a forma como poderia salvar sua vida. Na tragédia Alceste, de Eurípedes, é Herácles, que era amigo de Admeto desde a expedição dos Argonautas quem salva a bela rainha da garras de Tânatos, a morte, já diante do túmulo. Porém as versões mais antigas afirmam que foi a rainha dos mortos, Perséfone, que admirada com tamanho amor que Alceste demonstrou pelo marido a enviou de volta a vida para que o amado do deus não sofresse. 
    É interessante notar que o relacionamento entre Apolo e Admeto não inviabiliza de maneira alguma o casamento e o verdadeiro amor que este último vem nutrir depois pela princesa de Iolco. O amor entre o antigo amante divino e de Alceste é real e reconhecido pelas divindades também (Herácles e Perséfone) demonstrando o quanto a sexualidade aqui não estava dividida entre distantes polos rotulados como homossexual e heterossexual cuja experiência em um lado impossibilitaria a vivência de qualquer coisa na sua contraparte, isto é, na sociedade creto-micênica as experiências homoeróticas e heteroeróticas podem ser vividas pelo mesmo indivíduo sem nenhum problema, na verdade, elas só demonstram fases distintas da vida de um mesmo homem, sendo as relações homoeróticas voltadas normalmente à juventude enquanto é reservado à maturidade (sobretudo pensando na geração de descendentes) os relacionamentos com o gênero oposto. 

    sexta-feira, 22 de agosto de 2014

    Creta: O Dom do Belo Deus

    , em Natal - RN, Brasil


    Os centros de culto de Apolo na Grécia eram Delfos e Delos e datam de VIII antes de Cristo. O santuário de Delos foi dedicado também à sua irmã-gêmea, Ártemis. Em Delfos, no entanto, o deus era venerado como o grande matador da serpente Python e como profeta. É, sem sombra de dúvida, nesta função que adquire desde a Grécia arcaica, que Febo Apolo se tornou mais importante para todas as cidades-estado da Hélade. De sua origem oriental, Apolo trouxe a arte de inspiração (semeía kai térata), isto é, o sacerdote ou sacerdotisa era possuído pelo deus e neste estado de transe falava sobre o passado e o futuro daqueles que consultavam o oráculo; o deus da luz também ensinava a seus sacerdotes à observação dos presságios dos dias, das estrelas e do movimento dos planetas para prever o futuro. O trabalho oracular introduzido a partir de Anatólia era bastante popular, fazendo do deus um dos poucos personagens pan-helênicos, isto é, cultuado em todas as cidades gregas sem exceção, inclusive nas colônias gregas na Ásia, África e Itália. Mesmo o deus também estando conectado com rituais de cura (através do Paean, o médico dos deuses), e inspirava magia através de uma canção (hino, paián) que deixava o fiel e o sacerdote (iatrománteis) em êxtase permitindo a cura; mesmo ele mantendo uma popular figura de deus que evita o mal (Apollon Alexikakós), nos tempos clássicos, era como profeta que Apolo era mais importante.
    E é também como parte do ritual de iniciação do sacerdote para tornar-se apto a falar pelo deus que os mitos que falam de relações homoeróticas envolvendo Apolo se encaixam. Diz Filóstrato, o Jovem, em Imagens, no III século d.C, ao descrever uma pintura sobre cujo tema é o amor de Apolo e Jacinto:

    "O filho de Leto para o amor dos jovens promete dar-lhe tudo o que ele possui em troca de permissão para associar-se com ele, pois o deus vai ensinar-lhe o uso do arco e música, e entender a arte da profecia, e não para ser inábil com a atração, e presidir o concurso da palestra, e ele vai conceder a ele que, andando no carro puxado por cisnes, ele deve visitar todas as terras caras à Apolo" (24) .

    Febo Apolo promete dar aquele que o ama tudo o que ele possui. E um dos talentos que o deus da luz possui é esta semeía kai térata, trazida do Oriente, que permite que o seu iniciado possa comunicar-se diretamente com ele e, portanto, também saber do futuro. A técnica, portanto, somente é ensinada àqueles que o deus amaA expressão "amado de Apolo" é bastante comum entre os profetas tanto homens como mulheres. Marpessa, Cassandra, foram mulheres que ao ganharem o amor do deus ganharam o dom da profecia (mantía). Alguns homens também ganham o mesmo dom ao receberem o beijo do filho de Zeus e Leto. Temos uma lista de amantes que também eram sacerdotes e/ou profetas: Apolônio de Rodes, no Argonautica (II. 178), e o Pseudo-Apolodoro, no Bibliotheca (III, 1, §2), falam de Atimnio, filho de Fêniz e Cassiopeia, ou de Zeus e Cassiopeia, era um belíssimo jovem, que também fora amante de Sarpédon, mas amado pelo deus, chegou a ser cultuado em Creta. 
    Diz Pseudo-Apolodoro:

    [3.1.2] Agora Astério, príncipe dos cretenses, casado com Europa e trouxe suas crianças 
    9, mas quando eles estavam crescidos, eles brigavam entre si; porque amaram um menino chamado Mileto, filho de Apolo por Aria, filha de Cleochus.
    10 Como o menino era mais amigável para Sarpedon, Minos foi para a guerra e teve o melhor dele, e os outros fugiram. Mileto desembarcou em Caria e ali fundou uma cidade que chamou de Mileto depois de si mesmo; e Sarpedon aliou com Cilix, que estava em guerra com os Lycians, e tendo estipulado para uma parte do país, tornou-se rei de Lycia.
    11 E Zeus concedeu-lhe a viver há três gerações. Mas alguns dizem que eles amavam Atimnio, filho de Zeus e Cassiopeia, e que era sobre ele que eles brigaram. Radamante legislou para os ilhotes
    12 mas depois ele fugiu para a Beócia e casou Alcmena
    13; e desde sua saída do mundo, ele atua como juiz em Hades, juntamente com Minos. Minos, residente em Creta, aprovaram leis, e se casou com Pasífae, filha de Hélios
    14 e Perseis; Asclepíades mas diz que sua esposa era Creta, filha de Astério. Ele gerou filhos, a saber, Catreus, 
    15 de Deucalião, Glauco, e Androgeus: e filhas, a saber, Acalle, Xenodice, Ariadne, Fedra; e por uma ninfa Paria tinha Eurymedon, nephalion, Crises e Philolaus; e por Dexithea tinha Euxanthius.

    Plínio, no História Natural e As Cartas de Filostrato, conta sobre Branco, que seria ou filho de Apolo ou filho de Smicrus e amante do deus, sua mãe era uma mulher de Mileto, que, enquanto estava grávida, teve uma visão de que seu ventre estava sendo perfurado com um raio de luz. Branco recebeu então habilidades proféticas de Apolo e introduziu a adoração do deus em Didyma e Mileto. Seus descendentes, o Branchides, eram um clã influente dos profetas (Reunindo-se em conselho, os Címios deliberaram consultar o oráculo dos Branquides sobre o partido a tomar [Heródoto, História, 1, CLVII]). Luciano  também o cita em seu Diálogo dos Deuses (6.2), entre Zeus e Eros.

    EROS: Você pode me deixar fora, Zeus! Acho que eu você está sendo mal comigo! Eu sou apenas uma criança; uma criança rebelde.
    ZEUS: Uma criança, mas nascido antes de Japeto não é? Você é um velho ruim! Só porque você não tem barba, e nem cabelos brancos, acha que pode passar por uma criança?
    EROS: Bem, e o que tais danos, ó poderoso, tem este velho já feito a você para que você fale em acorrentar-me deste jeito?
    ZEUS: Pergunte ao seu próprio sentimento de culpa, ó mal. As brincadeiras que você me jogou! Sátiro, touro, cisne, águia, chuva de ouro, eu fui tudo no meu tempo; e eu tenho que lhe agradecer por isso? Você nunca por acaso fez as mulheres apaixonarem-se por mim; ninguém é ferido com meus encantos, que eu tenha notado. Não, deve haver magia nele sempre; e devem ser mantidos bem longe da vista. Eles gostam do touro ou o cisne bem o suficiente, mas uma vez que eles puseram os olhos em mim, e eles estão com medo por suas vidas.
    EROS: Bem, é claro. Eles são apenas mortais; a visão de Zeus é demais para eles.
    ZEUS: Então, por que Branco e Jacinto gostam tanto de Apolo?
    EROS: Dafne fugiu dele, de qualquer maneira; apesar de seu cabelo bonito e seu queixo suave. Agora, vou dizer-lhe o caminho para conquistar os corações. Mantenha essa égide de vocês tranquilos, e deixe seu raio em casa; torne-se tão inteligente como você pode; enrolar o cabelo e amarrá-lo com um pouco de fita, obter um manto de púrpura, e os sapatos enfeitados com ouro, e marchar adiante para a música de flauta e tambor; e veja se você não pode conseguir um mais fino com Dionísio, para todos os seus Ménades.
    ZEUS: Oh! Eu não vou ganhar nenhum corações em tais termos.
    EROS: Oh, nesse caso, então não se apaixone. Nada poderia ser mais simples.
    ZEUS: Atrevo-me a dizer; mas eu gosto de estar apaixonado, só que eu não gosto de todo esse alarde. Agora mente; se eu deixá-lo fora, é sobre esse entendimento.

    Píndaro em Píticas (v.106) e as Narrações de Conon citam Carneus que era um vidente da Acârnia, filho de Zeus e Europa, que havia sido criado pela mãe do deus, Leto. Criado junto com o deus, seu companheiro de infância, também fora amante de Apolo. Conta Pausânias que Carneus acompanhou os Heraclidas em sua invasão a Grécia, mas foi morto por Hipotes por que suas profecias eram obscuras. Apolo no entanto vingou o amante, atingindo os dórios com a peste, que só foi afastada quando os Heraclidas expulsaram Hipotes do seu acampamento e instituíram o culto a Carneus, para felicitar o deus.
    Pausânias, em vários trechos de Descrição da Grécia (3.24.5, 4.31.1, 4.33.5), mas, principalmente, quando ele se dedica a Esparta, o historiógrafo conta o mito, diferenciando o profeta do culto específico a Apolo que acontecia na maior cidade-estado da Lacedemônia:


    [3.13.3] Carneus, a quem eles davam o nome "da Casa", teve honras de Esparta, mesmo antes do retorno dos Heraclídes, o seu lugar está na casa de um vidente, Crius (RAM), o filho de Theocles. A filha deste Crius foi vista quando ela estava enchendo o seu cântaro por espiões dos dórios, que entraram em conversa com ela, e visitaram Crius e aprenderam com ele como tomar Esparta.

    [3.13.4] O culto de Apolo Carneus foi estabelecida entre todos os dórios desde então.  Carneus, um acarnaniano por nascimento, que era um profeta de Apolo. Quando ele foi morto por Hipotes, filho de Filas, a ira de Apolo caiu sobre o acampamento dos dórios que entraram em exílio por causa da culpa de sangue, e a partir deste momento o costume foi estabelecido entre os dórios de propiciar o vidente acarneu. Mas esse não é o Carneus lacedemônio, que era adorado na casa de Crius o vidente enquanto os aqueus ainda estavam na posse de Esparta.

    [3.13.5] A poetisa Praxilla representa Carneus como o filho de Europa, Apolo e Leto sendo seus enfermeiros. Há também uma outra conta do nome; em Tróia, às árvores que foram cortadas pelos gregos para fazerem o grande cavalo que venceu a guerra vieram de um bosque que era consagrado a Apolo. Ao saber que o deus se indignou com eles, para evitar a ira do Deus, os gregos propiciaram-lhe sacrifícios e nomeado Apollo Carneus da árvore carneia que derrubaram para o cavalo, um costume prevalecente desde velhos tempos.


    sexta-feira, 8 de agosto de 2014

    Creta: O Mais Belo dos Deuses

    , em Natal - RN, Brasil



    Apolo é um deus com uma origem tripla, Walter Burkert definiu três componentes no culto apolíneo, o que ele chamou de um componente dório, um componente cretense-minóico e um componente de sírio-hitita, adotado pelos gregos e, Febo Apolo se tornou o pastor do povo, o guia dos gregos, protetor contra o mal, deus das artes, da medicina e protetor contra as doenças, deus da magia, da profecia. Sua origem dória pode ser rastreada pelo seu nome aproximado do macedônio pella (pedra). Ele é o deus da pedra sagrada (omphalos) de Delfos. O culto de Apolo em Delfos também tem um elemento minóico que pode ser reconhecida por que seus sacerdotes eram chamados de Labryaden, os homens do duplo machado. O labrys era o simbolo de Creta. Seu hino homérico narra, inclusive, que transformado em golfinho (delfim), o deus levou cada um dos seus sacerdotes de Creta para Delfos, onde instalaram as suas práticas religiosas. Em Creta, Apolo é o acompanhante masculino da Senhora dos Animais, Britomartis, que mais tarde foi transformada em Ártemis, ele era aquele que carregava o arco. Contudo, também é um deus oriental, como dissemos. E é no seu mito que reconhecemos a ligação com o Oriente, mas também no seu culto oracular apolínio também é uma tradição da Anatólia, onde existiam os mais antigos santuários em que sacerdotisas possuídas pela divindade profetizavam o futuro, referências hititas e assírio-babilônicas já dão conta desta prática. Apolo, inclusive, não aparece entre os deuses que protegem os gregos na Ilíada, ele é retratado no poema como um terrível deus que defende as portas de Tróia (na cidade, inclusive, ele chamava-se Appaliunas).
    Conta o mito de Apolo que ele é filho de Zeus e Leto, esta era uma deusa da Ásia Menor, pela etmologia da palavra, Junito Brandão afirma que ela seria uma deusa lícia que foi integrada ao panteão grego tornando-se filha dos Titãs Ceos e Febe, sendo uma deusa das estrelas como as irmãs Astéria e Ortígia. Ao estar próxima ao parto, Leto, transformada em loba, procurou no mundo inteiro um lugar para que pudesse dar a luz aos gêmeos que carregava, Apolo e Ártemis. Hera, todavia, esposa de Zeus, ordenou que nenhum lugar no planeta desse-lhe abrigo. Ortígia, irmã da deusa, no entanto, que anos antes havia se transformado em ilha flutuante para fugir das insistentes avanços do rei dos deuses (exatamente prevendo perseguições da rainha do Olimpo), por não estar fixada em lugar nenhum e, por isso, não pertencer a nenhum lugar no planeta, abrigou a irmã, no mar dos Hiperbóreos, ao norte da Hélade, onde a neve nunca deixa de cair. Foi lá que nasceram os deuses luminosos, Febo Apolo e Ártemis, após um sofrimento de nove dias porque Hera, ainda mordida de ciúmes, detivera no Olimpo Ilítia, a deusa dos partos, impedindo que os bebês nascessem. Todas as deusas apiedaram-se do sofrimento de Leto e enviaram à sua rainha um presente, um colar de ouro e âmbar, para que ela permitisse que Ilítia descruzasse as pernas da pobre amante de Zeus. De joelhos, junto a uma palmeira, Leto deu a luz primeiro a Ártemis e depois a Apolo. Os deuses da luz teriam nascido entre março e abril, no início da primavera.  
    Apesar de permitir o parto, Hera não havia perdoado nem as crianças, nem a mãe, e enviou-lhes a serpente Píton para devorar os recém-nascidos. Leto fugindo, retornou a Lícia, sua casa, montada em cisnes brancos. A fuga da deusa e os jovens filhos da serpente continuou por anos até o jovem Apolo ter idade suficiente para, com seu arco, matá-la. O deus fez isso quando estava na cidade de Delfos. Febo varou-a com seu arco e depois arrancou a pele da serpente com a qual cobriu a trípode na qual sentaria, a partir dalí, sua sacerdotisa, a pitia ou pitonisa, que presidiria o oráculo que ele instituiu na cidade, substituindo o antigo oráculo pertencente a Têmis ou a Géia. É instaurando o oráculo em Delfos que Apolo se transforma no grande deus nacional da Grécia, na Ilíada, firma Junito Brandão, ele ainda é o deus oriental protetor dos lícios e troianos, é com Delfos que ele se torna protetor dos gregos também.
    Deus do sol, das artes, da luz, da adivinhação, da beleza, da cura, da vingança, protetor dos pastores, dos músicos, da família, dos lares, dos marinheiros, são mais de duzentos epitetos, tantos atributos fundidos em somente um deus demonstra que Apolo é um amálgama de várias divindades sintetizadas em um só deus. Ele substitui divindades pré-helênicas como Hélios, o sol; Ptós e, em Tebas, Ismênio, os quais transformaram-se em filhos do deus; e em Delfos, o próprio Píton e Têmis. O novo deus-sol, todavia, iluminado pelo espírito grego clássico, harmonizou tantas polaridades e tornou-se um ideal de cultura e sabedoria, realizador de equilíbrio e da harmonia de desejos, não visava suprimir pulsões humanas, mas orientá-las numa tentativa de espiritualização progressiva, como explica Brandão. 
    Alto, bonito e majestoso, Apolo fazia-se notar por suas mechas negras, com reflexos azulados, os filósofos descreviam como pétalas do pensamento. Amou inúmeras ninfas e mulheres mortais, mas também alguns homens, porém todos os amores pelo qual o deus passou podem ser considerados trágicos, nunca tendo ele paz ao lado de alguém. Jacinto Brandão, em Dicionário Mítico-Etimológico, faz uma ressalva, contudo sobre suas relações homoeróticas. Diz o autor que as relações com homens do deus não devem ser interpretadas como episódios de "homossexualismo", mas antes como a substituição de antigas divindades agrárias pré-helênicas pelo deus solar. Acreditamos que a teoria sobre substituição de divindades, sabendo que Apolo de fato substituiu inúmeros outros deuses que foram integrados ao seus ciclo, faz de fato sentido, mas isto não impede em nada que os gregos tenham sim imaginado o deus participando de relacionamentos homoeróticos como era comum em sua sociedade. É o caso de, por exemplo, o mito de Jacinto.



    Jacinto, cujo nome refere-se a primavera, umidade e fertilidade, era um antigo deus ctônico dos povos que habitavam a Hélade antes da chegada dos dórios, principalmente a península do Peloponeso. Filho de Amiclas e Ébalo, e numa variante isolada de Píero e a musa Clio, era de rara beleza, despertando o amor do cantor trácio Tâmiris, que criou-lhe inúmeras canções; e do deus Zéfiro, o vento-sul, (em outra versão Bóreas, o vento-norte) que passara a visitar o jovem sempre que ele pastoreava os carneiros do pai. Contudo, ouvindo as canções de Tâmiris, Apolo ficou curioso sobre o jovem de tanta beleza e dirigiu-se ao Peloponeso para conhecê-lo, o deus ao vê-lo foi tomado de profundo encantamento e apaixonou-se de imediato, e apresentou-se ao jovem que não resistiu a beleza do deus e abandonou seu antigo amante, Tâmiris em algumas versões (nesta versão, Zéfiro não é senão um que tenta fazer a corte ao belo Jacinto mas este não lhe dá atenção), ou o vento em outra, para amar o deus das artes. Numa tarde, no entanto, a sina amorosa de Apolo manifestou-se e enquanto eles jogavam disco, Zéfiro, cego de ciúmes, desviou o que arremessara e a arma decepou a cabeça do jovem príncipe. Tomado de profunda dor, Apolo transformou o corpo do amante numa flor, o jacinto, cujas pétalas trazem uma marca que lembra o grito de dor divino (AI) e a inicial do jovem (Y, em grego).
    A nós este mito chegou em fragmentos gregos (existe uma versão latina, de Ovídio que é mais completa), como trechos de Hesíodo, no Catálogo de Mulheres do século VIII (fragmento 102, Oxyrhynchus Papiro 1359, fr 3): "e ela deu Jacinto, a um inocente e forte .. [falta texto] quem, em um tempo Febo se matou sem querer, com um disco de implacável"; de Pseudo-Apolodoro, no Bibliotheca (3.116): "Amiclas e a filha de Diomedes, Lapites, tiveram Cinortes e Jacinto. Eles contam como este Jacinto foi amado por Apolo, que, acidentalmente, matou-o enquanto lançando um disco" ou de Pausânias, na Descrição da Grécia (3, 193-4): "Nicias, filho de Nicomedes, apareceu como Jacinto, mesmo no auge da beleza juvenil, insinuando o amor de Apolo por Jacinto de que a lenda diz ... Quanto a Zéfiro, como Apolo acidentalmente matou Jacinto , e a história da flor, devemos nos contentar com as lendas, embora talvez eles não são verdadeira história". Bion, poeta do século II a.C., em Poemas (11): "Quando ele viu o teu [Jacinto] em agonia Febo era mudo Ele procurou todos os remédios, ele recorreu à astúcia artes, ungiu toda a ferida, ungido-o com ambrosia e com o néctar. Mas todos os remédios são impotentes para curar as feridas da Destino", em Luciano, poeta sátiro do século II d.C., temos vários trechos, no Diálogo dos Deuses, por exemplo:

    "Hermes: Por que tão triste, Apolo?
    Apolo: Ai de mim, Hermes, - meu amor!
    Hermes: Oh; isso é ruim. O que, você ainda está remoendo esse caso de Daphne?
    Apolo: Não. Eu luto pelo meu amado; o lacedemônio, filho de Oibalos.
    Hermes: Jacinto? Ele não está morto, está?
    Apolo: Morto.
    Hermes: Quem o matou? Quem poderia ter o coração? Aquele menino lindo!
    Apolo: Foi o trabalho de minha própria mão.
    Hermes: Você deve estar louco!
    Apolo: Não, louco, foi um acidente.
    Hermes: Ah? e como é que isso aconteceu?
    Apolo: Ele estava aprendendo a jogar a malha, e eu estava jogando com ele. Eu tinha acabado de enviar meu disco para o ar como de costume, quando por ciúmes, Zéfiro (maldito seja ele acima de todos os ventos que tinha sido por muito tempo no amor com Jacinto, embora meu amado não teria nada a dizer a ele!) - Zéfiro veio tempestuoso para baixo de Taygetos, e empurrou o disco sobre a cabeça da criança; sangue escorria do ferimento em riachos, e em um momento em que tudo estava acabado. Meu primeiro pensamento foi de vingança; eu lancei uma flecha no vento-sul, e perseguir seu vôo para a montanha. Quanto à criança, eu o enterrei em Amiclas, no local fatal; e de seu sangue que eu fiz uma flor brotar, mais doce, mais bela das flores, inscrito com letras de aflição -. é a minha dor irracional?
    Hermes: É, Apolo. Você sabia que você tinha definido o seu coração em cima de um mortal: não lamentar depois de sua mortalidade.
    Apolo: Bem, meus amores nunca prosperará; Daphne e Jacinto foram minhas grandes paixões, ela então me detestava preferindo ser transformada em uma árvore do que estar comigo, e ele eu mesmo matei com um disco. Nada me resta deles, somente uma coroa com suas folhas e flores." (16-17)



    Outro triste amor de Apolo é Ciparisso. Não é comum, na literatura e nos comentadores sobretudo da Idade Moderna e Contemporânea, confundir-se Jacinto e Ciparisso em um único personagem, talvez na intenção de concentrar em Apolo apenas um único caso amoroso com homens. Contudo, eles não são o mesmo personagem como podemos ver. Ciparisso era filho de Teléfo, era amado do deus pela sua beleza e habilidade com a cítara. Tinha como companheiro um veado domesticado que amava profundamente, um dia o jovem matou o animal acidentalmente e foi tomado por uma intensa tristeza. Louco de dor, pediu a Apolo um favor que o deus prometeu realizar imediatamente. O jovem pediu ao deus que suas lágrimas corressem eternamente. O deus tentou demove-lhe do pedido. Implorou para que ele voltasse atrás, mas Ciparisso foi contundente. Apolo não teve outra opção a não ser atende-lhe o pedido e, pungido de dor, transformou o seu belo favorito na árvore do cipreste, a árvore da tristeza. Somente em Ovídio, que é romano,  sobreviveu alguma referência a esta história como conta em Metamorfoses (10, 106):

    "Entre a multidão [de árvores] o cipreste em forma de cone de pé, uma árvore agora, mas em tempos passados ​​um menino, amado pelo deus que amarra tanto lira e arco. Uma vez, sagrada para as ninfas que habitam entre campos de Carthaea [na ilha de Keos], houve um veado gigante, cuja propagação chifres lançava uma tela de sombra sobre a sua cabeça. Esses chifres brilhavam de ouro e de seu pescoço sedoso um colar pendurado sobre os ombros, com pedras preciosas. Em cima de sua testa, protegido por cordas finas, uma medalha de prata balançava, dado no seu nascimento, e redondo têmporas ocos, brilhando brilhante, a partir de qualquer um dos ouvidos um pingente de pérola pendurada. bastante destemido, toda a sua timidez natural, perdido, muitas vezes ele visitou as casas dos homens, e ele deixou até mesmo estranhos tempos pescoço. Mas de todos eles, ele era o favorito de Ciparisso, mais belo jovem do Cea. Ele era quem costumava levar o veado para o pasto e as águas da primavera. Flores de muitas cores que iria tecer em torno de seus chifres ou, montado em suas costas, um cavaleiro feliz, andar para cima e para baixo, guiando sua boca concurso com rédeas carmesim.
    Era meio-dia em cima de um dia de verão; brilhantes raios do sol estavam queimando como o Caranguejo, que ama a linha de costa, abriu as garras curvas. O veado deitou-se sobre a grama para descansar e respirava o frescor da sombra do pinheiro. Sem saber, com a sua afiada lança jovem Ciparisso perfurou o coração. E que o viu morrer da ferida, de modo cruel. Que palavras de conforto Febo tentou dar! Que advertências para não ceder à tristeza tão dolorida, tão mal proporcionada! Ainda assim, ele gemeu e pediu uma última benção dos deuses, para que pudesse chorar para sempre. E agora, com soluços sem fim, com sangue drenado, seus membros começaram a tomar um tom esverdeado; seu cabelo enrolado que para baixo da testa subiu em uma crista, a crista de cerdas, e como a rigidez espalhou uma torre graciosa olhando para o céu estrelado. Apolo gemeu e disse com tristeza "Vou chorar por você, por outros que você lamentarão; você [a árvore de cipreste] deverá comparecer quando homens com dor são rasgados ".



    E por fim, Himeneu. Segundo algumas versões, o deus do casamento seria filho de Apolo e Afrodite, ou Dionísio e Afrodite, o que o faz parte do cortejo alegre que cercava toda a festa, em todos os casos um deus de origem estrangeira como os seus pais podem atestar. Seria andrógino, parte homem e parte mulher (mais outra característica de deuses estrangeiros), e de uma beleza insuperável. Ele era evocado em todos os casamentos (gritava-se seu nome) porque um casamento em que não tivesse a presença do deus não poderia ser feliz. Um conto tardio diz que teria nascido um ateniense pobre que se apaixonara por uma bela jovem rica, e que sequestrado por piratas junto com várias mulheres, confundido com uma delas, teria matado os piratas e trazido as jovens de volta à suas famílias e como prêmio pode desposar a mulher que amava, e depois de tornar-se deus, por causa de sua origem divina, passou a abençoar todas as celebrações em nome do amor. 
    Contudo, no Megalai Ehoiai, no entre os séculos VIII a VII a.C., a versão mais antiga, atribuído a Hesíodo, faz dele filho de Magnes e da musa Calíope, de incrível beleza, pelo qual Apolo se apaixona e, com isso, não deixou a casa do rei por tanto tempo que Hermes roubou-lhe o seu gado.  Ele já aparece à época de Hesíodo como deus do casamento, em Homero e também em Safo, ambos antes da história que o faz filho de Apolo/Dionísio e Afrodite, o que nos faz acreditar que esta é uma explicação posterior do mito do deus, seu mito, na verdade se perdeu, mas talvez as palavras de Hesíodo no seu poema deem-nos uma pista do verdadeiro mito que relaciona Himeneu, Apolo e o casamento. Diz o poeta:

    "Magnes ... morava na região de Tessália, na terra que os homens chamados depois dele Magnésia. Ele tinha um filho de beleza notável, Himeneu. Apolo quando viu o menino, foi apreendido com amor por ele, e não saía de casa de Magnes. Então Hermes fez projetos em rebanho de gado que estavam pastando no mesmo lugar que o gado de Admetos [que Apolo pastoreava](fragmento 16, v. 256).

    Será que estes versos indicam que finalmente a sina de amores destruídos de Apolo se encerraram nos felizes braços de Himeneu? A nós não chegaram nada mais do que estes três versos, não podemos afirmar nada com certeza. Mas talvez possamos imaginar que Himeneu represente o casamento feliz, o sucesso da vitória do amor, porque finalmente o deus Apolo pode viver com ele em paz, feliz, sem nenhuma preocupação. Porém isto é apenas uma suposição.





    sexta-feira, 25 de julho de 2014

    Creta: Os Companheiros de Troia



    Existem dois Sarpédon. O primeiro é um herói cretense, um dos três filhos de Zeus e Europa, irmão de Minos e Radamanto. Ele entrou em litígio pelo trono da ilha com o seu irmão Minos e pelo amor do jovem Mileto pelo qual ambos estavam apaixonados. Mileto, no entanto, escolheu o irmão, ele magoado deixou a ilha e emigrou para a Ásia Menor, onde fundou a cidade de Mileto em homenagem ao homem que estava apaixonado. Em outra versão, Mileto havia escolhido o príncipe cretense e teria fugido com ele da ira do irmão e, juntos, haviam fundado a nova colônia grega na Ásia.
    Diz Pseudo-Apolodoro em seu Bibliotheca (III, 1, §2):

    "Agora Astério, príncipe dos cretenses, casado Europa trouxe suas crianças. Mas quando eles estavam crescidos, eles brigavam entre si; porque amaram um menino chamado Mileto, filho de Apolo e Ária, filha de Cleochus. Como o menino era mais amigável para Sarpédon, Minos foi para a guerra e venceu o irmão, e os outros fugiram. Mileto desembarcou em Caria e ali fundou uma cidade que chamou de Mileto depois de si mesmo; e Sarpedon aliou-se com Cilix, que estava em guerra com os Lídios, e tendo estipulado para uma parte do país, tornou-se rei de Lícia. E Zeus concedeu-lhe a viver três gerações. Mas alguns dizem que eles amavam Atymnius, filho de Zeus e Cassiopeia, e que era sobre ele que eles brigaram".

    O segundo Sarpédon aparece na Ilíada de Homero. Também filho de Zeus e Laodamia. Segundo Diodoro Sículo, todavia, este seria neto do primeiro, filho de Evandro e Laodamia. As versões dos mitos são comuns porque o mundo grego era fragmentado nas pequenas cidades-estado chamadas polis que tinha, em cada uma, uma versão para os mitos. Este desempenha um papel importante na guerra de Tróia, particularmente no ataque troianos aos acampamentos aqueus junto aos navios. Ele morre quando Pátroclo, primo/amante de Aquiles, ataca os troianos vestindo a armadura do seu amado, embora a contragosto de Zeus que devotava especial admiração pelo filho e ameaçou até subtraí-lo dos desígnios das Moiras, isto é, interferir em seu destino. O mito de Sarpédon conta sobre a impossibilidade de mesmo os deuses interferirem no que o destino havia designado para os homens, mesmo este sendo um dos seus amados filhos.
    É durante a morte do herói que seu relacionamento com Glauco aparece. Glauco é primo de Sarpédon também. Filho de Hipóloco, o qual é irmão da mãe de Sarpédon, Laodamia. Participou da guerra de Tróia ao lado do primo comandando os Lícios e, como o trecho abaixo faz ver, eram também amantes. Canta Homero:

    "Como um leão que acomete a manada e que mata
    um touro fulvo e forte em meio a bois tardonhos,
    e o touro muge e morre entre as presas da fera,
    assim o capitão dos Lícios porta-escudos
    estertora, abatido por Pátroclo, e grita
    pelo companheiro (phílon d'onomnen hetaíron): 'Ó forte entre os fortes, Glauco,
    demonstra como és bom de lança e um leão na guerra;
    se és mesmo valoroso, a guerra atroz te apraz!
    Aos hegêmones Lícios, por toda a parte, insta
    que circunlutem por Sarpédon e com bronze
    vem também defender-me. (...)´
    Enquanto fala, chega o fim: a morte eclipsa
    seus olhos e narinas. Pátroclo, pé sobre
    o peito morto, arranca a lança e o pericárdio;
    a um só tempo a psiquê e o acúmen lhe desprende.
    Os Mirmidões refreiam os corcéis resfolgantes,
    que intentam fugir, vendo as bigas sem seus reis.
    Se apoderou de Glauco a agrura da agonia,
    ouvindo a voz do amigo (hetároisin): dói-lhe o coração
    não poder protegê-lo; a mão premia-lhe o braço,
    ferido pela flecha de Teucro (...)"
    (Ilíada, Canto XVI, v. 487-511)

    O elemento mais interessante da relação entre Sarpédon e Glauco, e sim o juramento que o príncipe lício cobra do seu primo quando este cai vítima da lâmina de Pátroclo. Homens gregos que tinham seus amantes junto a si no campo-de-batalha faziam o voto de protegê-lo sob qualquer circunstância. Toda coragem de um guerreiro podia ser medida quando este precisava defender o seu amante/hetároisin. Glauco não pode proteger Sarpédon, porque ele também está ferido, ele então evoca o deus Apolo para que este insufle o coração dos Lícios com coragem para que estes se aproximem e protejam o seu príncipe, mas a dor de não poder proteger o seu companheiro dói-lhe mais do que a flecha que atravessa-lhe o braço. Segundo diz-nos Homero, o corpo do herói é protegido, não antes de sua armadura ser roubada, o que causa uma profunda tristeza a Zeus, que lança sobre os gregos uma imensa tempestade que os afasta da batalha, permitindo Glauco se aproximar e chorar a morte do amigo. Zeus então envia os irmãos gêmeos, Tânatos, a morte, e Hipnos, o sono, para resgatar o corpo do seu amado filho.

    sexta-feira, 11 de julho de 2014

    Creta: O Mais Forte dos Aqueus

    , em Natal - RN, Brasil



    A Guerra de Tróia é para Micenas, a segunda capital do império minóico, depois da queda de Cnossos, em Creta, e a transferência do núcleo de poder das ilhas para o continente, o seu grande mito fundador. Tróia, a cidade do oriente, é a grande opositora sob o qual se funda toda a identidade dos homens micênicos como um grupo étnico. É por isso que a Ilíada, grande poema que canta o último ano da guerra que durou dez anos, atribuída a Homero, o bardo cego, mas que provavelmente fora composta por um número incalculável de poetas anônimos que se aglomeraram sobre a figura de um único poeta, começa enumerando todos os povos micênicos no canto II com o chamado Catálogo das Naus. Neste conto são listados os povos que compartilhavam a história lutando ao lado de Micenas, e com isso, ajudando a formar o mundo grego.
    Um dos personagens da guerra, Aquiles, rei dos Mirmidões, um dos seus grandes heróis tem duas histórias interessantes para contarmos. A primeira refere-se ao seu sobrinho ou primo, Pátroclo.
    Pátroclo, o célebre por seus ancestrais, filho de Menécio e Estênele, numa versão que o faria primo do pai de Aquiles, Peleu, ou em outra versão filho de Menécio e Polimela, irmã de Aquiles, o que o faria sobrinho do herói. Exilado, ainda na infância na corte do rei dos Mirmidões, por, num acesso de fúria, ter assassinado um companheiro de brincadeiras durante o chamado jogo dos ossinhos, ligou-se por forte e intensa amizade ao seu primo (ou tio) que tinham a mesma idade. São muitas as gestas do herói tanto na Ilíada, quanto nos inúmeros poemas cíclicos (as epopeias escritas após a Ilíada que complementa a história desta), contudo a mais importante é narrada por Homero que é batalha com Heitor que sela o destino da guerra. Tudo começa no canto XVI: Patrocleia.

     "Assim, em torno à nau, belos-bancos, lutavam. 
    Pátroclo, pais-gloriosos, se aproxima, em prantos, 
    de Aquiles, o pastor-de-povos, parecendo 
    fonte escura a verter da escapa uma água fosca. 
    Ao vê-lo, comoveu-se Aquiles, pés-velozes. 
    E principiou por dizer-lhe estas palavras-asas: 
    'Por que as lágrimas, Pátroclo? (...) 
    Acaso trazes alguma novas aos Mirmidões, a mim? 
    Tens notícias da Ftia? Novas que eu  desconheça? (...) 
    Ou choras pelos Dânaos que sucumbem 
    em torno às curvas naus, gente sobrearrogante? (...)' 
    Sofrimento na voz, tu lhe respondes, Pátroclo, 
    cavaleiro: 'Ó Peleide Aquiles, o mais forte 
    dos Aqueus. Não te irrites. Grande angústia oprime 
    os Dânaos. Os melhores de antes, todos eles, 
    aos navios se acolheram, flechados, lanceados. (...) 
    Se temes o presságio divino, que tua deusa mãe, 
    augusta, por aviso de Zeus te soprou, 
    pelo menos permite-me que eu vá e que sigam 
    comigo os Mirmidões, levando luz aos Dânaos. 
    Dá-me que eu encourace os ombros com tuas armas. 
    Tomando-me por ti, os Tróicos fugiriam, 
    dando respiro aos Gregos." 
    (XVI, 1-43).

    Aquiles que sentia-se ofendido porque Agamêmnom, rei de Micenas, capitão dos gregos, havia privado-lhe de uma escrava, e por isso abandonado a guerra, era interpelado por seu primo que queria salvar os gregos antes que fosse tarde demais. Ele permite que ele vá, disfarçado com sua armadura e armas, apenas eleva a seguinte oração, quando o primo deixa a tenda vestido.

    "Zeus Dodôneo, Pelásgico, que habitas plagas 
    remotas, rei da fria Donona; teus profestas, 
    os Selos, te circundam, de pés-revéis-à-água, 
    gente-que-dorme-sobre-o-chão-de-terra. Outrora 
    ouviste minha prece, e me honraste, afligindo 
    os Aqueus; uma vez mais, atende o meu rogo: 
    no círculo das naus, eu permaneço e mando 
    à guerra - guia dos Mirmidões - meu companheiro (hetáron). 
    Concede-lhe a vitória, Zeus pai, altitroante. 
    No coração encorajando-o, deixa que Heitor 
    julgue se meu irmão-de-armas (polemixein) pode, sozinho, 
    bater-se, ou se, somente quando combatemos
     juntos, suas mãos se encolerizam, imbatíveis. 
    Mas logo que repila dos navios a guerra 
    e os gritos, dá que volte para as naus, incólume, 
    trazendo as armas todas e o esquadrão de infantes.
    (Ilíada, Canto XVI, v. 233-248).

    Pátroclo morre em confronto com Heitor. Causando tal dor em Aquiles que ele supera seu orgulho ferido pelo rei micênico e retorna a guerra. Ele chora aos pés da mãe a perda do companheiro:

    "'Por que choras? Que te dói 
    no coração? Não cales, filho. (...)'. 
    O pés-rápidos 
    Aquiles replicou-lhe (e sofria): 'Mãe, o Olímpico, 
    de fato, perfez tudo isso. Porém que júbilo 
    trouxe-me, se perdi o melhor dos meus parceiros (epei philos oleth hetaíros), 
    Pátroclo, meu igual (hetaíron), cabeça a par da minha? (...) 
    Tomara que eu já estivesse morto, pois não pude valer, 
    à hora da morte, ao companheiro-de-armas (hetairói), 
    tombou longe da pátria; da violência de Ares 
    não o protegi, quando preciso'"
    ( Ilíada, Canto XVIII, v. 73-101).

    A palavra que Aquiles mais utiliza para referir-se ao primo é hetairon, hetairói, hetaíros, hetáron e outras palavras da mesma família que tem sido traduzidas como companheiro, amigo, aliado, mas também amante. A multiplicidade de sentidos tem a ver com a ideia grega sobre a amizade. Entre homens, na Grécia antiga, e aqui, pela Ilíada, podemos ver que na Micenas pré-grega também, a ideia de amizade está carregada de um sentido sexual que a palavra perdeu nos dias de hoje. O uso da tradução por "companheiro" feita por Haroldo de Campos na edição da epopeia que citamos inclusive se torna mais apropriada porque hoje em dia a mesma dubiedade pode ser conseguida pelo o uso da expressão por casais gays para definir seus namorados e maridos, dado a falta de legislação sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, outra palavra que serve para descrever o primo é philos. E esta palavra é a melhor tradução para o nosso sentido de amor produzido no mundo helênico. Esta era utilizada para falar sobre o amor entre os membros da família, entre amigos, entre uma pessoa e uma atividade e, principalmente, entre amantes masculinos, sendo muito raramente utilizada para descrever uma relação entre um homem e uma mulher. Na Ilíada ela aparece para descrever os outros aliados, amigos, aqueles que nasceram na mesma terra. Como no trecho:

    "Heitor, agora esqueces teus aliados, eles,
    que expiram por tua causa, longe dos amigos (phílon),
    da pátria, sem que tu os socorras? Sarpédon,
    soberano dos Lícios porta-escudos, jaz
    por terra, o protetor justo e forte da Lícia.
    O brônzeo Ares domou-o sob a lança de Pátroclo.
    Avante, amigos (phíloi), raiva-no-coração, contra
    os Mirmidões, que intentam despojar o morto
    das armas e ultrajá-lo, ardendo por vingar
    os Dânaos que abatemos junto às naus velozes
    com nossas lanças (...)"
    (Ilíada, Canto XVI, v. 538-548)

    Homero não considerava necessário, na verdade, afirmar que a relação entre Aquiles e Pátroclo era também sexual não porque estava envergonhado dela, mas porque esta situação era tão óbvia que não precisava ser dita em momento algum. Para qualquer pessoa educada dentro do mundo grego, o relacionamento entre os primos era de puro amor homoerótico. O uso destas palavras da mesma raiz que hetaírosin, em específico , para tratar das relações homoeróticas do poema (elas aparecem nos outros exemplos que citaremos adiante), demonstra que os gregos reconheciam-na como uma espécie de relação distinta das relações comuns de amizade representadas por palavras ligados ao radical de philia. 






    sexta-feira, 27 de junho de 2014

    Creta: O Rapto de Ganimedes

    , em Natal - RN, Brasil
    Estreamos aqui a nova temporada do HomoHistória. Contaremos a partir de hoje a história das relações homoeróticos na civilização creto-micênica, em Creta; em seguida trataremos do legado da Grécia Antiga; para depois lidarmos com Roma e, por fim, o princípio do mundo europeu-cristão. Espero que vocês gostem tanto de ler quanto eu de escrever sobre este assunto. 






    Ganimedes é um príncipe troiano. Filho de Trós, o primeiro rei da cidade, e Calírroé. Era um jovem de extraordinária beleza, que um dia, enquanto pastoreava o rebanho paterno pelas montanhas, despertou uma paixão arrebatadora no rei dos deuses, Zeus. Algumas versões deste mito, contam que Zeus transformou a si mesmo em uma águia que raptou o jovem príncipe troiano no monte Ida, ou em outras versões, que o deus havia enviado uma águia, seu animal preferido, para raptar o belo pastor. Para empreender o rapto, no entanto, antes, o deus enviou ao rei Trós, em uma versão o seu sacerdote Tântalo, em outras o próprio deus do amor, Eros, para oferecer cavalos divinos, filhos do vento sul, Zéfiro, e uma harpia. Somente com o rapto acordado com a família do rapaz, que o deus pode buscá-lo em sua forma de águia.
    Ao chegar ao Olimpo, Zeus ofertou a Ganimedes dois presentes: um aro, símbolo da completude, e um galo, protetor contra as trevas, monstros noturnos e aqueles que odeiam o amor, estes símbolos representam o verdadeiro amor para os gregos. Ele também ofertou-lhe o néctar e ambrosia, fazendo-lhe que ele se tornasse eternamente jovem e imortal. Também deu-lhe asas. Alado e imortal, agora ele passaria a desempenhar o papel que antes pertencia a deusa Hebe, deusa da juventude, de servir os deuses à mesa, trazendo-lhes o néctar e ambrosia, mas também dividira o leito do rei dos deuses pela eternidade. Ele também passou a figurar no céu como a constelação de Aquário, carregando o jarro de néctar e observado pela Águia.
    O mito de Ganimedes, oriundo de Creta, é citado por vários autores gregos. Na Ilíada:

    "(...) Erictônio gerou Trós,
    rei dos Tróicos, que teve três filhos imáculos,
    Ilo, Assáraco e - par-dos-deuses - Ganimedes,
    que foi, entre os mortais, o mais belo: os Celestes
    o raptaram, a fim de que, por sua beleza,
    servisse o vinho a Zeus, restando entre os eternos". 
    (XX, 230-235)

     "e não te esqueças dos corcéis de Enéias: 
    apresa-os dos Troianos, tange-os para os Gregos, 
    pois pertencem à raça dos que Zeus altíssono 
    deu a Tróis, em resgate, pai de Ganimedes, 
    por serem dos melhores sob o sol e a aurora
    (V.263-267)

    No Hino Homérico 5 a Afrodite, escrita por volta do século VII a.C:

    "Em verdade, o sábio Zeus levou Ganimedes de cabelos dourados 
    por causa de sua beleza, para ficar entre os Imortais 
    para servir bebida aos deuses na casa de Zeus - uma maravilha de se ver -, 
    honrado por todos os imortais como ele chama 
    a néctar vermelho da taça de ouro ... 
    imortal e para sempre jovem, assim como os deuses"
    (203 ff)

    Téognis, do século VI a.C., em seu fragmento 11345 diz:

    "Há algum prazer em amar a juventude, uma vez que uma vez que, de fato, até mesmo [Zeus] o filho de Cronos, rei dos imortais, se apaixonou por Ganimedes, agarrou-o, levou-o ao Olimpo, e fê-lo divino, mantendo o linda flor da juventude";

    Eurípides em Ifigência em Aulis (v. 1051), no século V a.C.:

    "E Dardanos criança [que é descendente], Ganimedes, príncipe da Frígia, o querido deleite de Zeus à cama, mergulhado profundamente a taça de ouro [no casamento de Peleu e Tétis atendidos pelos deuses], enchendo os copos para vinho"

    e Píndaro, em sua Ode Olímpica, do século V a.C.:

    "Adorável graça de seu corpo, que hora primavera-maré da beleza, que há muito tempo libertou Ganimedes - assim o quis a Citera [Afrodite] - do poder implacável da morte" (10, 102).

    Contudo o mito cretense transportado para Tróia, lugar mítico além do mundo conhecido pelos gregos, fala sobre o ritual minóico, que existia por volta de 1650 a.C., de iniciação adolescente em que um jovem (kleinos, o belo, o glorioso) era sequestrado por um homem adulto (philetor, o amante). Este pagava um tributo a família do jovem adolescente, e ao adolescente dava uma armadura e armas (espada e lança) e este passava a frequentar o círculo de amigos do philetor por pelo menos dois meses. Se ao fim do período com o amante, o jovem estivesse satisfeito, ele mudaria seu título para parastates (companheiro) e, somente a partir daí, eles dividiriam a mesma cama.
    Strabo, um historiografo que viveu por volta de 64 a.C., dá a seguinte descrição de todo o processo:

    "(Os cretenses) têm um costume peculiar em relação a casos de amor, para eles ganharem os objetos com seu amor, não usam a persuasão, mas por sequestro, a amante diz aos amigos do menino, três ou quatro dias antes que ele vai fazer o rapto, não para os amigos esconderem o menino, mas não deixá-lo sair do caminho indicado. Se o menino não aparece é de fato uma coisa mais vergonhosa, uma confissão, por assim dizer, que o menino não é digno de obter tal amante, e quando se encontram, se o sequestrador é de igual ou superior na hierarquia ou outros aspectos ao menino, os amigos o perseguem e tentam prendê-lo, mas apenas de uma forma muito suave, satisfazendo assim o costume, e depois que eles alegremente viram-se e o deixam ser levado para longe, se, no entanto, o sequestrador é indigno, eles levam o menino para longe dele.
    É uma vergonha para aqueles que são bonitos na aparência ou descendentes de ancestrais ilustres e falham em obter os amantes, presume-se que se caráter (masculinidade) é responsável por tal destino. Mas os parastathentes (aqueles que ficam por seu amante em batalha ) recebem honras, pois em ambos os bailes e as corridas os que tiveram amantes têm os cargos de maior honra, e têm permissão para se vestir com roupas melhores do que o resto, isto é, o hábito dado a eles por seus amantes, e não só então, mas mesmo depois de terem crescido para a idade adulta, eles usam um vestido distintivo, que se destina a dar a conhecer o fato de que cada um se tornou kleinos, pois eles chamam a pessoa amada kleinos (distinto) e o philetor amante. 
    Os jovens mais desejáveis​​, de acordo com as convenções de Creta, não são os excepcionalmente bonitos, mas sim aqueles que se distinguem pela coragem viril e comportamento ordeiro."

    Aristóteles, no seu Política, elogia o método cretense porque controlava a população da ilha, evitando que mulheres ficassem grávidas (II, 10). Já Platão, em Leis, diz "E nós somos unânimes em acusar os cretenses de fabricar a história de Ganimedes: porque acreditavam que suas leis tinham vindo de Zeus, eles também têm ligado esta história ao deus, pensando que eles poderiam colher o fruto desse prazer e dizer que eles estavam seguindo o exemplo divino. Mas isso é o reino do mito" (636B-D). Não importa a opinião, a arqueologia continua encontrando inúmeros ex-votos, imagens dedicadas aos deuses, em agradecimento a estas uniões ou pedindo proteção para os parastates e philetor, mas não vamos falar tudo de uma vez não é? Porém podemos dizer que os dórios, a tribo que formara o império micênico, levaram esta instituição cretense e a disseminaram por toda Grécia, sendo bem comum encontrarmos variações dentro deste padrão em todas as futuras cidades-Estado que vão florescer por toda a Hélade.