Nós não nascemos gays! Nem héteros! Nem bissexuais! Sexualidade não é algo com que nascemos, mas é algo que construímos a partir do nascimento. Gênero, no entanto, é algo com que nascemos. Existem pessoas que vem ao mundo meninos ou meninas, mas também meninos no corpo de meninas e meninas no corpo de meninos, também nascemos meninos-meninas (sim, os dois ao mesmo tempo) e também nenhum deles, apesar da presença de uma genitália. O gênero, este sim, tem um componente genético, e é extremamente mais complexo do que a oposição macho e fêmea que os pênis e vaginas dão a entender.
Sexo (homo, hetero, bi, gay, g0y., H.S.H), no entanto, é uma construção identitária, isto é, acontece na mente e não no cérebro. A partir das relações do indivíduo com outras pessoas (família, amigos, vizinhos), com o ambiente que ele vive (escola, igreja, trabalho) e sua cultura, ele começa a projetar uma identidade na qual ele pode lidar com os impulsos sexuais que seu corpo produz. Ele, o indivíduo, que projeta seu desejo para algum objeto graças as respostas que ele tem na sua primeira infância, cria uma identidade para lidar com as respostas que recebe. Trocando em miúdos, um menino que projeta sua necessidade de carinho para um homem e recebe deste um resposta satisfatória sempre tende a criar dentro de si um padrão procurando aquele mesmo homem nos seus relacionamentos futuros. A psicologia já repetiu incansavelmente que homens heterossexuais procuram suas mães nas parceiras, porque foram elas as primeiras a satisfazer sua pulsão sexual satisfatoriamente (opa, me assustei como soei freudiano agora, culpa do Joseph Campbell que estou lendo).
A maior prova que a sexualidade é uma construção identitária que varia de acordo com nosso ambiente esta escrita em toda história da Humanidade. Ela está recheada de inúmeros exemplos de identidade sexual distinta do padrão que nós utilizamos hoje em dia, aqui, no Ocidente. E reforço no Ocidente porque mesmo nos dias que vivemos encontramos formas distintas de sexualidade (fora da chave homo-hetero-bi) em tribos indígenas americanas, em aborígenes nas ilhas da Oceania, entre os países islâmicos, na Índia, China e Japão. Sociedades que fogem desta complexa cultura compartilhada que chamamos de Ocidente criam identidades sexuais distintas. É a cultura, e somente ela, que define uma identidade sexual, ela fornece os modelos em que o indivíduo aprende a expressar os impulsos sexuais que vêm descontrolados do seu subconsciente. Inclusive, diz Karl Marx, no prefácio de Uma Contribuição a Crítica da Economia Política, que não é a consciência dos homens que determina a realidade, é a realidade social que determina a consciência dos homens.
Se esta teoria (sim, teoria, não trabalhamos com certezas em ciência) é correta poderíamos evitar o desenvolvimento de homens gays dando-lhes somente experiências com mulheres hiper carinhosas e protetoras? Segundo Nelson Rodrigues não. E eu afirmo que além de impedir o desenvolvimento social do menino (ele não poderia frequentar a escola, por exemplo, nesta experiência) o que prejudicaria seu processo de socialização e desenvolvimento psicossocial (o que somente isso já deveria ser considerado um crime), tolheríamos a liberdade desta criança, obrigando-a a seguir por um caminho que nós consideramos o correto, e não que ele escolheu. A ideia de que conseguiríamos controlar o ambiente em que uma criança vive e as projeções que ela faça do seu subconsciente não é, no mínimo, uma ilusão megalomaníaca de controle?
Por fim, a sexualidade é muito mais complexa do que estes padrões dualistas de hetero e homo nos permitem ver. Ela também não nasce com você, mas é construída por toda sua vida e, dependendo, das experiências que você se permita ter, nunca estará completamente madura. Mas uma coisa é certa, ela começa a esboçar-se sempre na tenra infância, moldada por nossas experiências no seio de nosso primeiro grupo de socialização. Seja ele qual for (família, família estendida, escola, creche, vizinhos, etc). Todas as experiências nesta fase de formação do ego são extremamente marcantes.
