Noite fria de domingo, primeira noite de inverno, apesar desta noite estar mais agradável que o dia frio que a precedeu. Uma noite de poucas estrelas, mas também poucas nuvens, uma noite escura, podemos dizer assim. Saímos, eu e o Anselmo encontrar o Arcanjo Misterioso e dar-lhe as boas vindas a Belo Horizonte, encontramo-nos no Shopping Cidade e descemos para o Villa Paraty, um charmoso bar de decoração rústica e sempre, mas sempre mesmo, lotado, com um público que gosta de ouvir música ao vivo e de pagar caro para isso. Porém, temos uma grata surpresa quando chegamos, não haverá música ao vivo naquela noite, então o caro couvert é agora convertido em consumação mínima, e eu prefiro consumir do que pagar o salário de um músico no lugar da casa que o contratou.
Entramos por um corredor longo, de chão de pedra, para onde dão as janelas do antigo casarão transformado em bar, as mesas lá dentro estão todas lotadas, pessoas conversam animadas, cigarros deixam o ar turvo, juntamente com a meia-luz propositalmente usada. Saímos então no antigo quintal da casa, ocupado também por mesas em madeira e sentamos numa delas, no que compõe a área externa do bar, cercados por árvores, alguns gatos nos observando dos telhados, uma namoradeira numa janela, eu e o Arcanjo envolvidos na fumaça mentolada de nossos Carlton, mais ao fundo uma imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, o garçom passando com cervejas e pratos de petiscos e nós conversando quando o Anselmo animado por um dj que começou a tocar na parte interna do casarão, convidou-nos a ir para o interior.
Voltamos então, pelo mesmo corredor, e nos deparamos com muitas pessoas dançando ao som de Circus. "There's only two types of people in the world: the ones that entertain, and the ones that observe". Não havia mesas no local para sentar, mas alguns balcões, com bancos, onde podemos ficar apoiados, restos de antigas paredes que dividiam a parte interna da casa. Colocamos nossos copos e a garrafa de cerveja lá, a música terminava, "I'm like a firecracker, I make it hot", para outra começar. É quando observo um menino de corpo escultural dançando logo adiante. Usava uma regata vermelha justa, apesar do frio que fazia, e diante de outro, que parecia seu namorado, sentado, ele erguia mostrando a barriga definida. "You always think the worst, I just wanna flirt", Pussycat Dolls explodiam nas caixas de som, música antiga mas ótima e eu também começo a dançar, e começo a perceber que também estou chamando atenção. O menino de regata vermelha começa a dançar olhando para mim. "This beat is heavy, so heavy, you gonna feel it". O Anselmo então se aproxima e comenta no meu ouvido: "E aí? Vai pegar?", tentando me fazer de desentendido, pergunto de quem ele está falando, e ele rindo, responde: "O de vermelho aí!". Assustado pergunto se está tão óbvio. "'Tá muito óbvio que ele 'tá dando em cima de você, mas você 'tá mantendo a pose". "I just can't take your tears, I hate this part right here". "Vamos só dar corda e ver ele se enforcar?", e rimos juntos.
A música continuava boa. "Are you ready for it?". O Arcanjo dançava, até o Anselmo arriscava umas reboladas, quando precisei ir ao banheiro. Fui tranquilo, quando já lavava as mãos, o menino de vermelho apareceu atrás de mim, no espelho. "Você é muito gostosinho sabia?". Eu sorri e sorrindo ainda respondi: "Seu namorado concorda com você?". Ele riu com um ar de cafajeste e não demorou para responder: "Não é meu namorado, é só um amigo. A gente pode beijar os amigos, não pode?". Eu sorri e lembrei que estamos em Minas, se fosse em Natal ele estaria falando uma verdade, mas não aqui em terras mineiras, todavia eu tinha dito que daria corda para vê-lo se enforcar, então: "É verdade, podemos sim!". Limpei meu rosto com o papel toalha, e ele ficou olhando nos meus olhos pelo espelho, foi quando chegou no meu ouvido e falou: "Vou esperar uma atitude sua". E saiu, me deixando naquele pequeno hall, sozinho.
Resolvi então voltar para a música que dali ouvia baixinho, "If I were a boy, I would turn off my phone, tell everyone it's broken so they'd think that I was sleeping alone", quando o reencontrei no mesmo corredor de pedra, encostado na parede. Sorria maliciosamente, me esperava, e quando tentei passar, sorrindo como um bobo, ele colocou o braço musculoso impedindo minha passagem. "Acho que sou eu que vou ter que tomar uma atitude, não é?", e jogou o corpo dele sobre o meu, prendendo-me contra a parede e me beijando. Puxou-me e acariciava-me as costas. Fraco, deixei-me ficar, e deixei minha mão percorrer aquele corpo rijo e definido, o peitoral forte e sua bunda macia, que ele deixou que eu apertasse a vontade. E foi ele quem parou de me beijar, sorrindo com ar vitorioso, voltando logo após para junto do seu somente amigo.
Voltei também para junto dos meus, e o somente amigo, que não era bobo, juntou dois mais dois, e enquanto eu dançava despreocupado Single Ladies, o menino de vermelho explicava para o seu amigo porque demorara tanto no banheiro. Sentia-me tópico da conversa. Olhares me eram direcionados. Pelos dois, pelos amigos dos dois. Mas eu e o Arcanjo somente dançavamos, e Anselmo ria. E a noite se tornava cada vez mais fria e, diferentemente, divertida. Mais cigarros mentolados, mais cervejas, também ajudavam.
Mais com mais cervejas era certo que momentos depois eu teria que retornar ao banheiro. Quando aconteceu, em questão de segundos, percebi que havia sido seguido, e ele, com um sorriso safado, ajeitando o boné branco Adidas que usava, estava atrás de mim. Pediu meu telefone, num tom calmo, o qual eu dei, e deu-me um beijo rápido, saindo em seguida, quando voltei a pista que percebi o que de fato acontecera. Anselmo contou-me que foi eu me dirigir ao banheiro que ele seguiu-me imediatamente, por isso agora, o somente amigo dele me metralhava pelo olhar. Sorri para ele, como se não soubesse o motivo, ele manteve-se sério. Voltei então a dançar, e pouco tempo depois ouvi ele então chamar o menino de vermelho para ir embora. "Vamos tomar o caminho da roça?".
Dirigiram-se todos aos caixas, não sem antes o menino, a distância, se despedir de mim. Ele somente acenou. Achando que ele já tinha ido, fui novamente ao banheiro, porém o encontrei quase à porta, ele então entrou comigo, e dentro do reservado, me beijava com desejo. "Você é muito gostoso!", dizia. Eu o beijava mais em resposta. "Você apronta, não é rapaz?", disse-lhe em determinada altura. Ele parou e me olhou nos olhos. "Vi você e seu amigo brigando". Ele sorriu novamente. "É que ele queria me levar em casa, e eu não quero ir agora p'ra casa, não trabalho amanhã". Eu fingi que acreditei e o beijei novamente. Ouvimos sua amiga gritar lá de fora: "Ricardo!", ele me beijou mais uma vez e disse que tinha que ir. Voltei então para meus amigos, passando por ele pelo corredor. Eles esperavam ainda alguém pagar algo, parecia. Foi quando ele veio até a porta, eu podia ver seu somente amigo na primeira janela que dava ao corredor, me chamou até ele, e eu apontei para o somente amigo, ele então pediu que me aproximasse e me beijou mais uma vez. "Você é louco!", exclamei, ele sorriu, um novo sorriso de cafajeste, "É você que me enlouquece".